Era um álbum
por mim comprado na Valentim de Carvalho em Lisboa no final dos anos 50. Salvo
erro da Deutsche Grammophon que na época produzia o melhor das gravações de
música clássica. Acústica perfeita, os regentes mais famosos, os melhores
solistas, os coros mais afinados. Acompanhou-me durante uns sessenta anos até
desaparecer misteriosamente. Quem, em Salvador, se lembraria de surrupiar tão
antiga gravação? Ou será que oferecera a amigo esquecido que teria declarado amar
esta interpretação?
De qualquer
forma, nestes tempos modernos, a não ser que você seja sortudo e possua um toca-discos
daqueles que tanto podem tocar 45 e 33 rotações como os de 78 de baquelita, de
fragilidade deprimente, são discos impossíveis de se ouvir. Dos 78 ainda tenho
interpretações quase centenárias de Edith Piaf, Caymmi, Carmen Miranda, Caruso,
Amália...
Quantas
vezes terei ouvido o barroco e suntuoso oratório do Haendel.... Ao lado dos
seis Concertos Brandeburgueses de Bach era minha obra musical preferida. Estudante
em Londres, assisti pelo menos umas três vezes no Royal Festival Hall. Desde
Collingham Gardens onde morava até a ribeira sul (Southbank) ia a pé. Uma boa
meia hora. Entrada baratinha, excelente acústica, assentos confortáveis, mesmo
lá em cima, no fundo. Na hora do “Aleluia”, a sala inteira se levanta,
lembrando a emocionada reação do rei George II ao ouvir tão sublime obra em
1742. Em Salvador, assisti pelo menos duas vezes, na catedral do Terreiro de
Jesus e no salão nobre da Ufba. Minha amiga a soprano Eneida Lima, ainda bem
jovem, no coro.
Se não
desafinasse de forma tão constrangedora, acho que poderia cantá-lo por inteiro,
durante as mais de duas horas, recitativos incluídos.
Mas a última
audição, em outubro de 2024, aconteceu num lugar para lá de especial: na sala
superior da Scuola di San Rocco, joia maneirista da Renascença italiana, popularmente
considerada a Capela Sistina de Veneza. Imagine estar sentado num vasto espaço
decorado, nas paredes como no teto, com sessenta obras de Tintoretto encaixadas
em ricas molduras douradas, sem contar, espalhadas pelo edifício, obras de
Tiepolo e Veronese. Sala lotada por moradores locais e turistas avisados.
Temo que
meus companheiros não tenham apreciado com o mesmo entusiasmo – vez ou outra,
olhavam para o relógio - a oportunidade de participar da simultânea imersão na
obra de dois gênios. Um do século XVII, conservado em perfeitas condições apesar
da umidade de Veneza (seria bom nosso Iphan imitar) e outro, excepcional
compositor do século XVIII cuja herança se mantém viva até hoje graças a uma longa
série de talentosos intérpretes.
Difícil imaginar
que, em paralelo e com a mesma fé, a Inquisição torturava e queimava quem fosse
diferente.

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