segunda-feira, 15 de junho de 2026

O MESSIAS



Era um álbum por mim comprado na Valentim de Carvalho em Lisboa no final dos anos 50. Salvo erro da Deutsche Grammophon que na época produzia o melhor das gravações de música clássica. Acústica perfeita, os regentes mais famosos, os melhores solistas, os coros mais afinados. Acompanhou-me durante uns sessenta anos até desaparecer misteriosamente. Quem, em Salvador, se lembraria de surrupiar tão antiga gravação? Ou será que oferecera a amigo esquecido que teria declarado amar esta interpretação?

De qualquer forma, nestes tempos modernos, a não ser que você seja sortudo e possua um toca-discos daqueles que tanto podem tocar 45 e 33 rotações como os de 78 de baquelita, de fragilidade deprimente, são discos impossíveis de se ouvir. Dos 78 ainda tenho interpretações quase centenárias de Edith Piaf, Caymmi, Carmen Miranda, Caruso, Amália...

Quantas vezes terei ouvido o barroco e suntuoso oratório do Haendel.... Ao lado dos seis Concertos Brandeburgueses de Bach era minha obra musical preferida. Estudante em Londres, assisti pelo menos umas três vezes no Royal Festival Hall. Desde Collingham Gardens onde morava até a ribeira sul (Southbank) ia a pé. Uma boa meia hora. Entrada baratinha, excelente acústica, assentos confortáveis, mesmo lá em cima, no fundo. Na hora do “Aleluia”, a sala inteira se levanta, lembrando a emocionada reação do rei George II ao ouvir tão sublime obra em 1742. Em Salvador, assisti pelo menos duas vezes, na catedral do Terreiro de Jesus e no salão nobre da Ufba. Minha amiga a soprano Eneida Lima, ainda bem jovem, no coro.

Se não desafinasse de forma tão constrangedora, acho que poderia cantá-lo por inteiro, durante as mais de duas horas, recitativos incluídos.

Mas a última audição, em outubro de 2024, aconteceu num lugar para lá de especial: na sala superior da Scuola di San Rocco, joia maneirista da Renascença italiana, popularmente considerada a Capela Sistina de Veneza. Imagine estar sentado num vasto espaço decorado, nas paredes como no teto, com sessenta obras de Tintoretto encaixadas em ricas molduras douradas, sem contar, espalhadas pelo edifício, obras de Tiepolo e Veronese. Sala lotada por moradores locais e turistas avisados.

Temo que meus companheiros não tenham apreciado com o mesmo entusiasmo – vez ou outra, olhavam para o relógio - a oportunidade de participar da simultânea imersão na obra de dois gênios. Um do século XVII, conservado em perfeitas condições apesar da umidade de Veneza (seria bom nosso Iphan imitar) e outro, excepcional compositor do século XVIII cuja herança se mantém viva até hoje graças a uma longa série de talentosos intérpretes.

Difícil imaginar que, em paralelo e com a mesma fé, a Inquisição torturava e queimava quem fosse diferente.

 Dimitri Ganzelevitch

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