Paulo Ormindo de Azevedo
Em 1933 a primeira catedral do Brasil, conhecida como Igreja da Sé, iniciada em 1551 e nunca terminada, foi comprada e demolida pela Cia. Linha Circular da Bahia num escândalo que envolveu também o Arcebispado da Bahia e a Prefeitura Municipal de Salvador.
Esse episódio motivou Fernado da Rocha Peres a escrever o livro Memória da Sé que já está na 3ª edição. A Cia. Linha Circular de Carris, filial da General Eletric, comprou ainda três quarteirões para criar um terminal de bondes que funcionou por apenas 27 anos. Com o dinheiro da venda, D. Augusto Álvaro da Silva, pernambucano, comprou uma casa no Campo Grande para sua residência e uma gleba de cerca de 10.000 m² na Federação para instalação do Seminário da Arquidiocese, depois convertido em um dos campi da Universidade Católica de Salvador.
A documentação da Cúria Metropolitana de São Salvador foi transferida para o Paço Arquiepiscopal de Salvador, vizinho da Igreja da Sé. Como o prédio vinha se arruinando com problemas no telhado, Consuelo Pondé de Sena e a ABI lideraram uma campanha, em 2014, pela sua restauração. A obra custou R$29.000.000,00 ao BNDES e foi reinaugurada em 2019. Ali foi instalado o Centro de Referência da Igreja Católica no Brasil, com 16.000 manuscritos e documentos, organizado pelo Pe. Abel Pinheiro. Finalmente os arquivos da Sé Primacial estavam preservados.
Ledo engano, o prédio acaba de ser transformado na nova Sede da Prefeitura de Salvador, e seu rico e frágil acervo acomodado num subsolo, o ossário da Catedral Basílica, sem nenhuma condição de conservação. O Cine Excelsior, pertencente a Congregação Mariana, está sendo vendido para se transformar na Câmara de Vereadores e a Praça Municipal deve ser convertida em estacionamento privativo do Hotel Allard/Rio Branco.
A casa de D. Augusto já havia sido vendida a Odebrecht e transformado na luxuosa Mansão dos Cardeais inaugurada em 2004. Destino menos nobre deverá ter o antigo Seminário Arquidiocesano, atual Campus Federação da UCSAL, que acaba de ser vendido à construtora pernambucana Moura Dubeux que comprou também os hotéis Pestana Rio Vermelho e Salvador Praia Pituba para demolir e o Othon para converter em apartamentos. É Pernambuco recolonizando a Bahia. A empresa pretende construir na Av. Cardeal da Silva quatro torres de quarto-e-salas pelo programa Minha Casa Minha Vida, numa via que já não dá conta do trafego atual.
O desmonte desse arquivo é um segundo atentado à Memória da Sé, equivalente ao de 1933, envolvendo igualmente a Igreja Católica, a Prefeitura, e ao invés da Cia. Linha Circular, a especulação imobiliária. A Igreja Católica Baiana tem que encontrar outras formas de financiar seus projetos sociais fortalecendo seus colégios e a UCSAL, não dilapidando o seu patrimônio e a Prefeitura deve tomar mais juízo. Triste Bahia!
SSA: A Tarde, 30/08/2026
COMENTÁRIO DO BLOGUEIRO.- Se posso me permitir uma pequena observação...A obra do Paço Arquiepiscopal custou R$29 milhões pagos pelo BNDS, mas este dinheiro foi, na verdade, arrancado dos bolsos do contribuinte que terá que também pagar as novas mudanças.
Dinheiro barato!...
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