O centro histórico de México é também seu maior centro
comercial, com agências bancárias, lojas, restaurantes e hotéis, alguns bem
charmosos. Muita agitação, muito trânsito e muito barulho. Mesmo assim você
poderá usar seu celular na rua sem o mínimo receio.
Por trás da catedral se esconde a curta e calma rua República
de Guatemala onde encontrará algumas lojas elegantes e o excelente restaurante
Las Sirenas instalado num bem conservado edifício de século XVI. A poucos
metros, um Museu do Chocolate que, verdade seja dita, de museu não tem nada.
Consiste em duas ou três lojinhas onde um honesto surtido de bons chocolates me
permitiu levar lembranças para alguns amigos. Afinal não é no México que nasceu
este irresistível pecado?
Cavando no mais profundo subsolo de minha memória gustativa,
reencontro outros momentos saborosos. Em Zurique, onde parava entre dois aviões
a caminho de Istambul, corria para entrar numa pequena loja de esquina e mergulhava
de cabeça, corpo e alma, nas tentações da Teuscher. A famosa casa aconselhava
comer as trufas ao creme de leite fresco antes de duas semanas. Sem problema. Comigo
não duravam mais de dois dias.
Em Bruges onde os Memling e Van Eik do Museu Groenlinge comovem
a alma mais impermeável, fazia-se fila para comprar as caixinhas da Lady Godiva.
Não me entusiasmaram. Prefiro os da Neuhaus que a família real saboreia
delicadamente no salão azul do castelo de Laeken.
Até de Damasco tenho uma lembrança gulosa da sofisticadíssima
loja da Ghraoui, cujas ganaches eram as preferidas da rainha Elizabeth II.
Custavam o preço de uma noite no Savoy.
Paris, paraíso de todos os gourmets, gulosos e glutões do
planeta... como não poderia mergulhar nas infinitas e cheirosas nuances do beije
quase branco ao marrom quase preto? A
lista dos templos é longa. La Maison du Chocolat, Pierre Hermé, La Mère de
Famille, Jean-Paul Hévin, Alain Ducasse... e por aí não vou mais: enjoei!
Depois de rodar meio mundo, voltando à minha toca a
beira-baia, como não falar das excelentes placas da paraense Gaudens, com ou
sem cupuaçu, e dos quebra-quebra da Dengo no shopping Salvador? Pena não haver
uma loja mais perto do Santo Antônio. Não sou muito chegado a shoppings. Mas
ainda me resta o recurso de ir até a Marrom Marfim na rua Gregório de Matos
para bater um papo com minha amiga Rita e comprar uma dúzia de trufas
artesanais. Vale a viagem.
Antes de me despedir, uma pergunta. Se a Bahia exportou 46
mil toneladas de derivados de cacau, gerando 434 milhões de dólares em 2025,
por que os prósperos empresários não tiram do bolso uma ínfima quantia para
restaurar o Instituto do Cacau, a poucos passos do porto de onde partem todas
estas toneladas? Esta memória não conta?
Dimitri Ganzelevitch

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