domingo, 14 de junho de 2026

CHOCOLATE



O centro histórico de México é também seu maior centro comercial, com agências bancárias, lojas, restaurantes e hotéis, alguns bem charmosos. Muita agitação, muito trânsito e muito barulho. Mesmo assim você poderá usar seu celular na rua sem o mínimo receio.

Por trás da catedral se esconde a curta e calma rua República de Guatemala onde encontrará algumas lojas elegantes e o excelente restaurante Las Sirenas instalado num bem conservado edifício de século XVI. A poucos metros, um Museu do Chocolate que, verdade seja dita, de museu não tem nada. Consiste em duas ou três lojinhas onde um honesto surtido de bons chocolates me permitiu levar lembranças para alguns amigos. Afinal não é no México que nasceu este irresistível pecado?

Cavando no mais profundo subsolo de minha memória gustativa, reencontro outros momentos saborosos. Em Zurique, onde parava entre dois aviões a caminho de Istambul, corria para entrar numa pequena loja de esquina e mergulhava de cabeça, corpo e alma, nas tentações da Teuscher. A famosa casa aconselhava comer as trufas ao creme de leite fresco antes de duas semanas. Sem problema. Comigo não duravam mais de dois dias.

Em Bruges onde os Memling e Van Eik do Museu Groenlinge comovem a alma mais impermeável, fazia-se fila para comprar as caixinhas da Lady Godiva. Não me entusiasmaram. Prefiro os da Neuhaus que a família real saboreia delicadamente no salão azul do castelo de Laeken.

Até de Damasco tenho uma lembrança gulosa da sofisticadíssima loja da Ghraoui, cujas ganaches eram as preferidas da rainha Elizabeth II. Custavam o preço de uma noite no Savoy.

Paris, paraíso de todos os gourmets, gulosos e glutões do planeta... como não poderia mergulhar nas infinitas e cheirosas nuances do beije quase branco ao marrom quase preto?  A lista dos templos é longa. La Maison du Chocolat, Pierre Hermé, La Mère de Famille, Jean-Paul Hévin, Alain Ducasse... e por aí não vou mais: enjoei!

Depois de rodar meio mundo, voltando à minha toca a beira-baia, como não falar das excelentes placas da paraense Gaudens, com ou sem cupuaçu, e dos quebra-quebra da Dengo no shopping Salvador? Pena não haver uma loja mais perto do Santo Antônio. Não sou muito chegado a shoppings. Mas ainda me resta o recurso de ir até a Marrom Marfim na rua Gregório de Matos para bater um papo com minha amiga Rita e comprar uma dúzia de trufas artesanais. Vale a viagem.

Antes de me despedir, uma pergunta. Se a Bahia exportou 46 mil toneladas de derivados de cacau, gerando 434 milhões de dólares em 2025, por que os prósperos empresários não tiram do bolso uma ínfima quantia para restaurar o Instituto do Cacau, a poucos passos do porto de onde partem todas estas toneladas? Esta memória não conta?

Dimitri Ganzelevitch

 

 

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