sábado, 28 de janeiro de 2023

MOTORISTA RACISTA

 Motorista por app se recusa a levar candidata a Deusa do Ébano à sede do Ilê Aiyê: “Não levo gente de macumba”

Por Lula Bonfim

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Fato teria ocorrido no Centro Histórico de Salvador | Foto: Divulgação

A estudante de jornalismo Caroline Xavier, de 24 anos de idade, é uma das candidatas a Deusa do Ébano no concurso Noite da Beleza Negra, tradicionalmente realizado pelo Ilê Aiyê desde 1975. Ao pedir um carro pelo aplicativo “99” às 6h58 da manhã desta sexta-feira (27) no Centro Histórico de Salvador, para chegar à sede do bloco afro no bairro da Liberdade, a jovem não imaginava que seria vítima de racismo religioso.

 

De acordo com o relato da própria Caroline para o Bahia Notícias, o motorista – identificado no aplicativo como “Moisés” – a foi buscar no Terreiro de Jesus e, depois de dirigir alguns metros, teria dito que não a levaria ao destino porque não conduzia pessoas do candomblé.

 

“Iniciou a viagem, eu saí do Terreiro de Jesus e, ainda no Pelourinho, ele perguntou para onde eu ia. Eu falei que eu ia para a sede do bloco Ilê Aiyê. Ele falou: ‘ah, meu carro está com problema’. Eu respondi que tudo bem. Ele virou e disse: ‘eu não levo gente de macumba no meu carro, não’. Aí eu peguei e falei: então pronto, você me deixa no lugar onde você me pegou”, relatou Caroline.

 

Ainda segundo a concorrente à Deusa do Ébano, o motorista olhou para o retrovisor logo após ela dizer que iria à Senzala do Barro Preto, sede do Ilê Aiyê. Neste momento, Caroline usava os típicos colares de contas em homenagens aos orixás, divindades do candomblé iorubá.

 

“Ele olhou no retrovisor e disse que o carro dele estava com problema. Depois, disse que não levaria pessoas de macumba no carro dele. Quando me deixou no Terreiro de Jesus, ele foi embora, sendo que antes havia dito que precisava parar em algum lugar, para resolver o problema do carro”, disse a estudante, expondo o que ela viu como uma contradição do motorista.

 

“Eu estava usando guias, dos orixás. Era a única coisa que poderia me identificar com o candomblé”, afirmou Caroline.

 

Depois de se perder por alguns minutos nas ruas do Centro Histórico de Salvador, o motorista retornou ao Terreiro de Jesus, deixou Caroline no mesmo local e foi embora. Com receio, a jovem estudante de 24 anos não quis pedir um outro carro no mesmo aplicativo.

 

“Depois disso, eu pedi para uma outra pessoa pedir um carro. Eu fiquei com medo de pedir novamente no aplicativo, depois do que aconteceu. Eu precisava chegar à Senzala do Barro Preto e fui, mas precisei de outra pessoa para chegar”, contou Caroline.

 

Procurada pelo Bahia Notícias, a 99 afirmou que possui uma política de “tolerância zero” com qualquer tipo de discriminação e anunciou a suspensão do motorista Moisés, acusado de racismo religioso.

 

“A 99 não tolera o ato de preconceito e intolerância com a vítima e estamos profundamente sensibilizados com o ocorrido com a passageira Caroline. Assim que tomamos conhecimento do caso, suspendemos o perfil do motorista e mobilizamos uma equipe para oferecer apoio à vítima com todo cuidado e respeito necessários. A companhia segue em tentativa de contato com a passageira”, afirmou a empresa.

HORSEBUS

Pode ser uma imagem de ao ar livre

 Um dos primeiros modelos de ônibus, criado durante as últimas décadas do século XIX.

Conhecido como “Horsebus”, costumava ser conduzido por dois cavalos e permitia a entrada de passageiros em dois andares.

As mulheres geralmente se acomodavam no interior do veículo, enquanto os homens alcançavam os assentos superiores subindo por uma escada vertical.

Devido à sua lentidão, o uso “Horsebus” só permaneceu em países de língua inglesa, como Inglaterra e Austrália, até os primeiros anos do século XX, quando então foi substituído por modelos motorizados.

Renato Tapioca

O HAMSTER


 

sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

SPOSA SON DISPREZZATA

JOÃO GILBERTO, CAETANO VELOSO E GAL COSTA

Apresentação Histórica na Tv (1971)

Pode ser uma imagem de 3 pessoas, pessoas em pé, pessoas tocando instrumentos musicais e violão
Em 2023 vão fazer 52 anos que aconteceu uma apresentação histórica na TV, reunindo João Gilberto, Caetano Veloso e Gal Costa. Infelizmente o descaso com a memória cultural no Brasil fez com que o tape dessa apresentação não fosse preservado. Provavelmente foram gravados outros programas em cima daquelas imagens. Coisas do Brasil.
Ficaram somente fotos e lembranças de quem assistiu, além de matérias publicadas na imprensa, como a que transcrevo nesse postagem, publicada no jornal Rolling Stone nº 1 (fevereiro de 1972), assinada por Ezequiel Neves, um jornalista mais ligado ao rock, mas que escreveu um bom texto sobre esse programa que foi ao ar em setembro de 71 na TV de São Paulo, e que teve a direção de Fernando Faro.
Na matéria, inclusive, eu fiquei sabendo que além do trio, Lanny Gordin, lendário guitarrista tropicalista também participa, ao violão, de algumas músicas. Abaixo, a resenha que tinha por título "João Gilberto encontra seus amigos":
"Todos que viram dizem que esse foi o encontro do ano. Entretanto, apesar de sua importância para a música popular brasileira, só São Paulo pôde assistir ao programa de João, Caetano e Gal. Por quê?
O programa de João Gilberto, Caetano e Gal, levado ao ar pela TV Tupi de São Paulo na noite de 29 de setembro, foi a melhor coisa acontecida na televisão brasileira em 71.


Foi muito bom, foi sensacional, a gente não se sentir intruso participando de um encontro infantil e cheio de calor, de três pessoas que se ligam pela música, que fazem dela seu alimento, seu sangue, sua própria razão de ser. Foi uma espécie de purificação: os três sentados no chão, se olhando e se amando, a música nascendo simplesmente, três rostos se abrindo e se revelando.
Para quem conhece os discos de João, de Caetano e de Gal, o programa foi uma surpresa. Os três, durante mais de três horas, recrutaram e reinventaram suas músicas e acabaram interpretando-as como nunca. E tudo foi feito com emoção e brilho fora do comum. Caetano esteve iluminado cantando A Tua Presença e Janelas Abertas, e sua interpretação deu maior peso e densidade a essas composições. A marcação de seu violão era feita com acordes econômicos, precisos, um suporte perfeito para sua voz emocionada. Mais tarde, ajudado pelo magnífico contraponto de Lanny ao violão, ele daria nova vida também a Asa Branca. Sua interpretação superou em simplicidade e coloquialismo a que ele gravou em Londres. Sua voz saía com dificuldade, como se tivesse a garganta machucada. Seus olhos estavam com um brilho diferente, quase chorando.
Gal nunca esteve tão linda, tão pacificada, tão madura. Seu encontro com João e Caetano foi a melhor coisa que podia acontecer à sua carreira. É por isso que eu prefiro dizer que uma 'nova' Gal cantou de maneira intimista, mas cheia de explosões criativas, Foi na Lapa, Falsa Baiana (genial"), Saudosismo e Baby. Nesta última seu parceiro ao violão foi também Lanny - que acabou dando um show particular.
Depois de ter cantado músicas maravilhosas, como Desafinado e Chega de Saudade, João Gilberto lembrou dois nomes muito importantes: Chico Buarque e Tom Jobim. Quando começou a cantar Retrato em Branco e Preto, muita gente pensou que se tratasse de uma música nova. Ele mastigava as palavras, sofria cada uma delas, fazendo de cada verso um protesto magoado de quem sofre sem nenhuma culpa. Com seu violão ele não parou de inventar um minuto, seus dedos tiravam sons que não deixavam a gente sequer respirar. João roubou de Chico e Jobim uma música, dando em troca o maior presente que eles devem ter recebido em suas vidas. Um presente que nós também recebemos emocionados e agradecidos. Com um prazer muito grande."

KEHINDE WILEY NO MUSÉE D´ORSAY

Kehinde Wiley
 (Los Angeles, 28 de fevereiro de 1977) é um pintor norte-americano, conhecido pelas pinturas naturalistas de personagens afro-americanos. 

Em 2018, apareceu na lista de 100 pessoas mais influentes do ano pela Time.






Kehinde Wiley expõe a violência contra corpos negros em Veneza

Artista faz relação entre imagens clásicas e cenas contemporâneas de dor, ressaltando a vunerabilidade e resiliência de corpos negros


O que uma pintura clássica pode falar sobre uma cena de violência recorrente na vida contemporanea? Muito, de acordo com o artista californiano Kehinde Wiley. Era 2008 quando ele começcou a série Down inspirado pela pintura O Cristo Morto na Tumba, do mestre renascentista Hans Holbein, e por pinturas e esculturas históricas de guerreiros caídos e figuras em estado de repouso. Com essas imagens em mente, Wiley representou corpos negros interpretando cenas clássicas para criar uma versão contemporânea de retratos que ressoam questões como violência, dor e morte, mas também o êxtase.


Este ano, por ocasião da  59ª Bienal de Veneza, ele retoma a série na mostra Kehinde Wiley: An Archaeology of Silence, na Fondazione Giorgio Cini, na ilha San Giorgio, retratando amigos como heróis, santos e guerreiros. Desta vez, entretanto, ele mistura as referências da  arte clássica com notícias contemporâneas sobre violência da polícia americana contra jovens de cor. Os novos trabalhos retratam jovens negrxs em posições de vulnerabilidade que contam uma história de sobrevivência e resiliência.

A escala é ambiciosa (as pinturas e esculturas de bronze podem ter cerca de 6 metros!) e tem razão de ser: o artista quer ir além do mero corpóreo e entrar, com esses corpos, no reino de ícones espirituais, de mártires e santos.


Segundo o artista, a tecnologia permite que os espectadores testemunhem representações de violência contra o corpo negro que antes eram silenciadas. Daí nasce o título “arqueologia do silêncio”.  Wiley afirma: “Essa é a arqueologia que estou desenterrando: o espectro da violência policial e do controle estatal sobre os corpos de jovens negros e pardos em todo o mundo”.






UM PROJETO DE EXTINÇÃO