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sábado, 26 de setembro de 2026

A MENINA E O DIAMANTE

 

Menina encontra no início dos anos 1980, no Congo, um diamante bruto de 890 quilates em uma pilha de entulho, pedra que rende 15 gemas, com a maior delas recortada até 303,10 quilates, e o achado vira o maior diamanteinternamente sem falhas já graduado pelo GIA, vendido por US$ 12,4 milhões

Imagem de perfil do autor Alisson Ficher
Escrito por Alisson FicherPublicado em 08/09/2026 
Cristal encontrado entre resíduos de mineração originou 15 diamantes e passou por duas grandes etapas de lapidação; a maior gema perdeu mais de 100 quilates no segundo corte, preservou sua classificação de clareza e chegou ao mercado internacional décadas depois.

O Golden Canary reúne três etapas de uma mesma história gemológica: um cristal bruto de cerca de 890 quilates, a primeira lapidação que produziu 15 diamantes e um novo corte que deixou a maior pedra com 303,10 quilates. Nessa forma, a gema foi reconhecida pelo Gemological Institute of America (GIA) como o maior diamante Internally Flawless já graduado pela instituição.

O achado ocorreu no início dos anos 1980, na atual República Democrática do Congo. Uma menina brincava perto de material descartado da mineração quando encontrou a pedra em uma pilha de entulho que não havia sido considerada prioritária para a procura de diamantes.

O cristal pesava aproximadamente 890 quilates e passou anos sendo estudado antes da lapidação. O objetivo era aproveitar um cristal bruto de dimensões incomuns sem remover mais material do que o necessário, ao mesmo tempo em que se preservavam características de cor, clareza e formato.

Do cristal bruto ao Incomparable

A primeira etapa de corte resultou em 15 diamantes acabados. A maior porção ficou com 407,48 quilates, recebeu lapidação em formato de escudo e tornou-se conhecida como Incomparable Diamond.

O GIA classificou essa gema como Fancy Deep Brownish Yellow, Internally Flawless. A designação reúne a intensidade e a tonalidade da cor amarela com um grau de clareza no qual não são observadas inclusões internas nas condições de avaliação usadas pelo instituto.

A transformação também mostra por que o peso de um diamante bruto não corresponde diretamente ao peso de uma única gema pronta. Parte do material é retirada para definir proporções e acabamento, e o cristal original pode ser dividido quando essa solução permite aproveitar melhor suas características.

O Incomparable ganhou projeção pública depois da lapidação. A pedra foi exibida no National Museum of Natural History, do Smithsonian Institution, nos Estados Unidos, e apareceu posteriormente em outras exposições.

Décadas mais tarde, a maior gema voltou à bancada de lapidação. O Incomparable, ainda com 407,48 quilates, foi recortado para melhorar simetria, brilho, forma e apresentação da cor, o que reduziu seu peso em mais de uma centena de quilates.

Dessa segunda intervenção nasceu o Golden Canary, agora com 303,10 quilates e formato de pera. Mesmo após a retirada de material, o GIA manteve a graduação Fancy Deep Brownish Yellow e Internally Flawless.

A mudança de 407,48 para 303,10 quilates representa uma redução de 104,38 quilates na maior gema. Esse cálculo considera apenas a segunda lapidação, sem incluir o material já separado quando o cristal bruto de cerca de 890 quilates foi transformado nas 15 pedras acabadas.

O nome também acompanhou a mudança de formato. A pedra de 407,48 quilates ficou conhecida internacionalmente como Incomparable, enquanto a versão menor e em pera passou a ser chamada Golden Canary, referência associada à coloração amarela profunda registrada em sua graduação.

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Golden Canary chega ao leilão

Em 2022, o diamante chegou ao mercado de leilões já com a nova forma. A Sotheby’s ofereceu o Golden Canary em sua venda Magnificent Jewels, em Nova York, com estimativa inicial entre US$ 15 milhões e US$ 20 milhões.

A casa de leilões apresentou a pedra como o maior diamante classificado como Flawless ou Internally Flawless já graduado pelo GIA. O resultado final ficou abaixo da faixa estimada: US$ 12,4 milhões.

O valor se referia à gema de 303,10 quilates, não ao cristal bruto encontrado no Congo nem à versão anterior de 407,48 quilates. A distinção é importante porque as três medidas correspondem a momentos diferentes do mesmo material ao longo de décadas de corte e recorte.

Na escala do GIA, a graduação Internally Flawless indica que não são identificadas inclusões internas sob ampliação de dez vezes por um avaliador especializado. Isso não significa, necessariamente, ausência de qualquer característica externa na superfície da pedra.

O Golden Canary preservou essa classificação mesmo depois do segundo corte. Com 303,10 quilates, passou a ocupar o registro do instituto como o maior diamante internamente sem falhas já graduado por ele e permaneceu entre as maiores gemas polidas conhecidas.

A trajetória documentada conecta o achado casual à peça vendida décadas depois: do bruto de cerca de 890 quilates saíram 15 gemas, a maior chegou primeiro a 407,48 quilates e, após nova lapidação, assumiu a forma de pera e o peso com que foi levada a leilão.

O último recorte sacrificou mais de 100 quilates da maior pedra, mas preservou a graduação de cor e clareza registrada pelo GIA. Foi nessa configuração final que o Golden Canary foi negociado por US$ 12,4 milhões e permaneceu associado ao recorde de maior diamante Internally Flawless já graduado pela instituição.

terça-feira, 4 de agosto de 2026

A CADA UM, SUA VIAGEM

 

Por Samuel Pinusa, g1 CE

státua de 11 metros em homenagem ao Diabo é construída no Ceará

A Prefeitura de São Gonçalo do Amarante, no Ceará, afirmou que a obra da estátua do Diabo construída na Taíba é regular e obedeceu à legislação municipal. O monumento possui 11 metros de altura e fica localizado no templo Palácio Estrela Negra da Quimbanda (conheça mais sobre a quimbanda abaixo).

A prefeitura informou que a emissão da Licença Ambiental e do Alvará de Construção pelo Município ocorreu de acordo com a legislação e foi concedida após autorização do Governo do Estado.

Segundo a gestão municipal, como o empreendimento é localizado na Área de Proteção Ambiental (APA) das Dunas do Litoral Oeste foi necessária autorização da Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Mudança do Clima (SEMA).

A inauguração da estátua foi realizada durante uma cerimônia que comemorou os 29 anos da casa religiosa chefiada por Mãe Rainha das Trevas, no último dia 25 de julho. A feiticeira, como ela mesma se denomina, não quis comentar a própria idade. Questionada pelo g1, ela disse que é "mistério".

    “Aqui foi feito tudo dentro da minha propriedade, não é em um local público. Essa propriedade é particular e eu pedi autorização para fazer uma construção dentro da minha propriedade”, disse.

    O monumento fica em uma propriedade privada de posse da feiticeira. Em nota, a Prefeitura de São Gonçalo do Amarante, por meio da Secretaria de Meio Ambiente e Urbanismo (SEMURB), disse que o templo religioso construído no distrito da Taíba cumpriu a legislação ambiental e urbanística e as normas estabelecidas pela legislação vigente.

    “Ressalta-se que o licenciamento ambiental e urbanístico analisa a conformidade do projeto com as normas urbanísticas e ambientais. A Prefeitura de São Gonçalo do Amarante reafirma seu compromisso com a legalidade, a transparência dos atos administrativos e o respeito à liberdade de crença e de culto, direito fundamental assegurado pelo artigo 5º, inciso VI, da Constituição Federal”, complementou o governo municipal.

    “Na parte burocrática, eu mesma fui atrás de toda a liberação da construção e obtive, como qualquer cidadã brasileira pode chegar a qualquer prefeitura de seu município e pedir uma autorização para fazer uma construção em suas terras”, explicou a líder religiosa.

    Estátua custou mais de R$ 100 mil

    Estátua em homenagem ao Diabo, construída na Taíba, região metropolitana de Fortaleza. — Foto: Carlos Marlon/TVM

    Estátua em homenagem ao Diabo, construída na Taíba, região metropolitana de Fortaleza. — Foto: Carlos Marlon/TVM

    A feiticeira disse que gastou mais de R$ 100 mil para idealizar e levantar a estátua. Um engenheiro civil foi responsável pelo projeto. No entanto, ela não quis informar quanto tempo levou para o monumento ficar pronto.

    “A verba foi toda tirada do meu próprio bolso. Eu fiz ela toda com dinheiro próprio, num local próprio, que é meu, porque aqui as terras são minhas, o terreno é meu”, explicou a Mãe Rainha das Trevas.

    Mãe Rainha das Trevas afirmou que a estátua do Diabo é a maior do mundo. No entanto, não existe nenhum registro oficial que confirme essa informação.

    “É a maior estátua do Diabo no mundo. Não existe outra estátua com essa dimensão. Eu procurei me informar”, afirmou a feiticeira.

    Infográfico - Feiticeira ergue estátua em homenagem ao Diabo. — Foto: Arte g1

    Infográfico - Feiticeira ergue estátua em homenagem ao Diabo. — Foto: Arte g1

    Preconceito religioso

    A Mãe Rainha das Trevas tem um perfil no Instagram em que acumula quase 800 mil seguidores e faz várias publicações sobre as práticas de magia que realiza. No perfil, ela mostrou a inauguração da estátua, o que rendeu comentários positivos de outras pessoas com fé parecida, mas também ataques preconceituosos.

    “Eu vivo num país laico, onde eu tenho o direito à liberdade religiosa, de professar aquilo que eu acredito. As pessoas têm que entender que o acreditar diferente do delas não pode ser tão julgado. Porque eu respeito tudo aquilo que é diferente do meu crer. E a única coisa que eu peço às pessoas é que elas respeitem também a minha fé”, comentou a feiticeira.

    ⚖️ A legislação brasileira define que é crime de intolerância religiosa quando envolve discriminação, preconceito, impedimento de direitos ou incitação ao ódio contra uma pessoa ou grupo devido à religião. A Lei nº 7.716/1989 determina punição para crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional.

    “Os comentários preconceituosos, não começaram na construção da maior imagem do Diabo no mundo. Eles começaram lá atrás, quando eu abri a Casa dos Caixões. Imagina uma casa, certo, numa comunidade, toda pintada de preto, com quatro caixões dentro, onde eu reverenciava a minha fé ao Diabo”, lembrou Mãe.

    Antes, ela era líder em um local chamado "Casa dos Caixões", no bairro Montese, em Fortaleza — onde morou por quatro anos. Depois, ela se mudou para a propriedade na Taíba, onde construiu o Palácio Estrela Negra da Quimbanda.

    O palácio é aberto ao público, que pode participar, uma vez por mês, das giras (como são chamadas as sessões e rituais religiosos) e também das festas mensais que ela faz para homenagear alguma das entidades cultuadas. A feiticeira disse que cerca de 200 a 300 pessoas participam desses eventos.

    “A diferença de eu falar dos demônios para algumas pessoas é que elas falam o nome ‘demônio’ em termos pejorativos, e eu falo o nome demônio com muito amor, pois os demônios são bons, os demônios ajudam. Os demônios sempre estão de braços abertos para receber aqueles que precisam da ajuda deles”, disse a bruxa (como ela também se define).

    O monumento foi erguido em uma propriedade privada da feiticeira Mãe Rainha das Trevas. — Foto: Carlos Marlon/TVM

    O monumento foi erguido em uma propriedade privada da feiticeira Mãe Rainha das Trevas. — Foto: Carlos Marlon/TVM

    Apesar dos ataques virtuais, ela disse que não possui receio de ter a estátua vandalizada. “Toda a minha comunidade sabe da minha fé, me respeita. Aqui nós mantemos muito a situação do respeito”, disse.

    Mãe comentou que anualmente faz doações de toneladas de carne (frango, boi e bode) para aproveitar os animais sacrificados nos rituais. Ela falou também que realiza uma festa no Dia das Crianças, em outubro, com doação de centenas de brinquedos.

    ‘Culto marginalizado’

    A quimbanda não é reconhecida como uma religião. A prática é determinada como um culto a entidades como exus e pombagiras. Assim como religiões de matriz africana, os fundamentos do culto são repassados de forma oral, sem um livro específico que rege os preceitos, tal como a Bíblia, o Alcorão e a Torá.

    “É um culto que, para muitos, é chamado de culto marginalizado, porque as pessoas têm uma certa visão da quimbanda, como se fosse um culto do mal”, comentou Barok, que é Tata N'ganga de Quimbanda brasileira.

    💡 Tata N'ganga de Quimbanda é uma espécie de mestre ritualista, sacerdote supremo, na prática da Quimbanda. 'Tata’ significa "pai" ou sacerdote, na linhagem Congo-Angola. ‘N'ganga’ é o curador, feiticeiro, técnico de rituais ou mestre na manipulação de energias e espíritos ancestrais.

    Anteriormente, a quimbanda era vista como o “eixo ruim, do mal” da Umbanda. “E hoje, na verdade, a gente já entende que isso era uma mera história inventada, por pessoas que tinham um certo preconceito. A quimbanda é um culto ancestral no qual a gente busca evolução espiritual”, explicou Barok.

    O sacerdote disse que não existe um consenso sobre quando, onde e como a prática surgiu. “Até o nome dela foi tomado emprestado dos povos bantos, onde existiam os curandeiros das tribos, que se chamavam de ‘kimbanda’ [com a inicial 'k']; eram justamente os curandeiros daquelas aldeias, daquelas tribos, que faziam a arte da magia para curar”, reforçou o sacerdote.

    Um dos principais pilares do culto é a crença na reencarnação. No entanto, na quimbanda, esse processo é encarado como um “castigo espiritual”. “Como se fosse uma maldição, porque é um ciclo em que você morre, desencarna e você ainda volta pra essa terra, para ter que viver todo o mesmo processo de vida, onde você vai sentir dores, vai sentir emoções, vai sentir coisas ruins, vai sentir coisas boas”, detalhou Barok.

    “Nós, na quimbanda, procuramos evoluir nosso espírito dentro da religião para que nós não precisemos ter que voltar a este mundo. O nosso intuito é evoluir espiritualmente para que nós nos tornemos exus e pomba-giras, ou seja, para que a gente venha a ser agraciados no mundo espiritual”, complementou.