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sexta-feira, 18 de setembro de 2026

CAMPANHA “PEQUENOS MECENATOS”

"Farei Doação desta maior coleção brasileira de vazinhos de parede, "violeteras" a um museu garantido, que tenha estrutura para montar uma maravilhosa exposição inédita no Brasil." Luiz Mott

O hábito de colecionar talvez tenha começado ainda nas cavernas com presas de mamutes ou pedras de formas estranhas portadoras de poder mágico. Imperadores e marajás colecionaram palácios e joias. Médicos e escritores compraram impressionistas.

Alguns colecionadores institucionalizaram esta paixão criando museus. O Louvre, criado por Francisco I, data do século XVI. Como espaço aberto ao público, foi inaugurado em 10 de agosto de 1793.

Alguns colecionadores são mecenas por vocação social. Outros por necessidade de afirmação. Tive, no ano passado a oportunidade de conhecer o Soumaya do mexicano Carlos Slim. Como a Quinta da Bacalhoa em Portugal do Joe Berardo, ambos têm a mesma caraterística, a mesma fraqueza da ostentação.

Mas vamos tratar dos que, na Bahia, são movidos pela paixão de possuir obras de artes visuais, moedas, velhos rádios e postes de televisão, oratórios, fotografias antigas, documentos, livros raros, arte barroca... a lista é longa. Alguns acervos irão para herdeiros sensíveis ou não, outros terminarão em leilões, brechós ou se acabando em algum depósito. Raros colecionadores contatam a prefeitura para obter um difícil apoio para criação de museu.

Tenho encontrado ultimamente três colecionadores profundamente decepcionados com a pouca receptividade e até desconfiança dos prefeitos solicitados. Evitemos citar nomes ou cidades. 

Uma soteropolitana procurou sua terra natal no extremo sul para doar um conjunto de mais de 300 obras da escola baiana do século XX. Floriano Teixeira, Mário Cravo, Carybé, Carlos Bastos, Eckenberger, Lênio Braga, João Alvez, Calazans Neto. O prefeito prometeu ir até Salvador para conhecer tão significativo conjunto. Dois anos passaram. Nunca apareceu. Um rico comerciante, numismata respeitado e colecionador de arte e móveis antigos, cuidadosamente guardados em galpão especial, não obteve melhor recepção após encontro com o prefeito, apesar de toda a devida consideração. O terceiro colecionador encontrou porta fechada ao solicitar à prefeita um espaço para doar sua coleção de mais de 500 obras, também de arte baiana.

Cada prefeitura tem, salvo erro, um secretário(a) de cultura ou diretor da casa de cultura municipal. Qual é o envolvimento real do escolhido com a dinâmica cultural do município? Simples cabide de emprego para um correligionário ou parente que pouco ou nada entende do assunto e até pouco aparece para trabalhar, mas ganha um polpudo salário pago pelos contribuintes da cidade.

Você, leitor, já imaginou quantos tesouros artísticos estão se perdendo pela falta de apoio das autoridades? Toda cidade dointerior deveria ter seu museu, seu memorial.

Vamos fazer um movimento a favor dos pequenos mecenatos?

Dimitri Ganzelevitch

A Tarde, Sábado 19 de setembro 2026


quinta-feira, 17 de setembro de 2026

DE BARRO E BRONZE

 Bustos de barro e bronze que viram memórias

Paulo Ormindo de Azevedo



A Bahia teve excelentes escultores no período colonial, todos ligados à arte religiosa, trabalhando a pedra, como Gabriel Ribeiro suposto autor da fachada da Ordem 3ª de São Francisco; a madeira, como Francisco Manoel das Chagas, o Cabra, autor do Cristo Morto e o Cristo na Coluna da Igreja de Francisco e o barro, como Frei Agostinho da Piedade, suposto autor de São Pedro Arrependido, guardado na capela de Monte Serrat. 

A escultura civil foi introduzida na Bahia no início do século XX pelo italiano Pasquale De Chirico (1873-1943), que realizou grandes e numerosos monumentos cívicos em Salvador, seguido, numa escala muito menor, por Ismael de Barros (1898- 1993) que trabalhou até 1975 retratando personalidades públicas. Um busto é plasmado em barro - de que fomos feitos - moldado em areia e argila e depois fundido em bronze. Na mesma linha trabalhou Jair de Figueiredo Brandão que substituiu Ismael como escultor oficial da Bahia. 
Uma revolução na escultura baiana foi deflagrada pelo modernista Mario Cravo Jr., a partir de 1949, seguido por Carybé, Juarez Paraiso e Tati Moreno. Legado que é hoje continuado pela escultora Márcia Magno, ex-diretora da Escola de Belas Artes da UFBA. 

Jair Brandão foi um dos escolhidos por Godofredo Filho, primeiro diretor do IPHAN na Bahia, para integrar sua equipe. Ele entrou no IPHAN em 1945 e em 1954 fez livre-docência na Escola de Belas Artes para a cadeira de Modelagem com a tese Notas sobre a escultura religiosa baiana passando a ser professor catedrático da escola. 

Uma de suas primeiras atividades no IPHAN foi fazer moldagens de obras de arte para um Museu da Escultura que Rodrigo Melo Franco de Andrade pretendia criar em São Paulo, mas não conseguiu. Dentre as moldagens realizadas estavam a monumental portada do Solar do Saldanha. Com autorização do IPHAN ele moldou imagens em cerâmica como as de Santa Mônica e São Pedro Arrependido atribuídas a Frei Agostinho da Piedade. Reproduções que se encontram no Museu de Arte Sacra da Bahia. Moldou também o arranque da escada da igreja de Santo Domingo .
No IPHAN ele organizou seus arquivos históricos e fotográficos e passou a ser a segunda pessoa depois de Godofredo, o substituindo em suas viagens. Em 1974, quando Godofredo Filho se aposentou, ele ocupou interinamente a direção do órgão até a posse de Fernando da Rocha Peres. Jair Brandão não foi só um escultor, foi um pesquisador e historiador da arte baiana, esquecido como muitos outros, mas que sobrevive nos seus bustos de bronzes que não foram roubados ou derretidos.

SSA: A Tarde, 13/09/2026

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

11 DE SETEMBRO

 

11 SETEMBRO: A GLOBALIZAÇÃO E A ASCENSÃO DA EXTREMA DIREITA – ARMANDO AVENA

Redação - 11/09/2026

As manhãs de  Washington  no outono são límpidas e claras e fui correr às margens do Potomac para ver os prédios monumentais ao longo do rio. Passei pelo Lincoln Memorial, pelo monumento a Thomas Jefferson e vi de longe o obelisco dedicado a George Washington. Tive certeza, então, de que  Washington nunca seria a capital do mundo.  É apenas uma cidade americana arrogante, conservadora e preconceituosa, bem diferente de Nova York que, cosmopolita, se abre para o mundo e é a Roma dos tempos modernos.

Na noite anterior,  passeando em Georgetown, tudo parecia calmo, e no cais do Washington Harbour, nos restaurantes e nas  jam sessions  do Blue Alley Jazz era possível sentir nos americanos a característica que melhor os distingue: a egoísta ilusão, ou o desejo subconsciente, de estarem sós no planeta, e de serem os donos dele.

Às quinze para as nove, eu já estava no prédio do Banco Mundial. Foi quando soube que um Boeing  havia atingido uma das torres gêmeas em Manhattan e, já em frente à televisão, vi outro Boeing abrir um enorme buraco na Torre Sul. O Banco Mundial foi evacuado e já na Av. Pensilvânia pude ver, na margem sul do Potomac, em Arlington, a fumaça saindo de um edifício de cinco faces: o verdadeiro  símbolo do poder americano fora atingido por um Boeing  757.

Foi quando um dos ângulos do Pentágono ardia em fogo que eu percebi que  estava presenciando a História. Passei sete dias sem poder sair de Washington, já  ciente de que o 11 de setembro era fruto da globalização e que os terroristas se valeram da infraestrutura criada por ela para atacá-la. O terror matou milhares de pessoas e atingiu no coração um projeto de organização do mundo, baseado na integração econômica, na redução das fronteiras e na promessa de um futuro cosmopolita.  Após o 11 de setembro, a circulação internacional, sinônimo de  oportunidade, tornou-se um risco. E o estrangeiro, antes associado ao turismo, ao trabalho e à integração, passou a ser uma ameaça.

O atentado alterou, sobretudo no Ocidente, a percepção sobre a imigração e o fim das fronteiras travestiu-se de invasão, fortalecendo a extrema direita que pregava contra a globalização e a imigração.

E a crise financeira de 2008, a desindustrialização, a crise migratória europeia de 2015, o Brexit, a pandemia e a eleição de Donald Trump pavimentaram a ascensão da extrema direita no mundo.

Hoje, 25 anos depois, a globalização, um ideal de liberdade econômica, de livre circulação e de comércio entre nações está sob intenso ataque. E as grandes potências mundiais, EUA, China, Rússia, parecem desinteressadas desse modelo de integração e mais preocupadas em preservar o núcleo duro de suas nações e tomar, por todos os meios, os recursos de outros países e, quando necessário, os próprios países. A utopia de um mundo democrático integrado está cedendo lugar à ditadura política, ao nacionalismo econômico e à lógica das esferas de influência.

A semente que cresceu no solo dizimado das Torres Gêmeas foi a do poder ditatorial das grandes potências que, assenhoradas pela  extrema direita, estão destruindo  a ordem democrática e a ideia de um capitalismo fundado na liberdade, na cooperação e no comércio entre nações.

Texto do escritor e economista Armando Avena – Publicado no jornal A Tarde em 11 de setembro de 2026

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

O ABANDONO DO PATRIMÔNIO

Este casarão, provavelmente do princípio do século XVIII, em pleno centro do Pelourinho, nunca foi restaurado, nem na gestão ACM. Foto D. Ganzelevitch

Quando você aterrissa no aeroporto de Paris, quais são as primeiras imagens que lhe dão as boas-vindas ao longo dos corredores e escaladas rolantes? Museus, catedrais, palácios e castelos medievais. Imagens que são a identidade específica da terra que você irá descobrir. Idem em Lisboa ou em Bogotá.  

Em Salvador será recebido por fotos de praias. Com muita sorte, terá direito a um pedacinho do elevador Lacerda ou do farol da Barra. Do Solar do Unhão, de uma roda de samba, do Museu Costa Pinto ou da casa de Jorge Amado, nem sombra.

Não é mera coincidência. Toda nossa política é orientada para o turismo de massa. Cerveja e fio dental. Desembarca aos milhares, por poucas horas, gastando o mínimo, aquele mesmo turismo que motiva manifestações de repúdio em Barcelona e Veneza porque acaba com a identidade, a cultura, o poder aquisitivo e até a culinária dos habitantes. Que se amontoa nos Air Bnb, que engorda os blocos de carnaval, compra a canga made in Taiwan com a bandeira nacional para posar sua bunda na areia de Itacaré. Que levanta a mãozinha com o celular ligado no show do Bell ou da Vevete, mas que nunca jamais entrará na galeria Pierre Verger, não assistirá a uma peça de teatro e muito menos comprará uma obra de arte ou sequer um livro.


O turismo cultural é desprezado, embora seja o que mais gasta e menos depreda. Casal, família ou pequenos grupos. Fica mais tempo para descobrir segredos. Irá até Itaparica, Boipeba, Cachoeira e Chapada Diamantina. Deixará a Bahia decepcionado com o abandono do patrimônio e a bagunça dos museus. Com toda razão. Depois da maquiagem do Santo Antônio pela Conder – anos 2020/2022 – nem manutenção se fez. A fachada da Igreja do Boqueirão restaurada em 2010 pela bagatela de 3 mi, nunca teve a mínima manutenção. Hoje, parcialmente interditada, a fachada caindo aos pedaços ameaça os transeuntes.  No sábado 22 de agosto organizei um protesto pela escada dessa mesma igreja, que a dupla Conder/Iphan vandalizou em 2022 e nunca consertou. Hoje temos doze (12!) igrejas interditadas pela Codesal por perigo de desabamento. Entre elas, as da Boa Viagem, do Carmo e a “Golden Church” São Francisco, que até matou uma turista.

Desde a intervenção da terceirizada Pejota – cujos donos pai e filhos estão presos por corrupção - no bairro de Santo Antônio em 2022 que empregava qualquer técnico desde que fosse novato e barato, nunca se mexeu nem uma pedra do calçamento. Ninguém fiscaliza os absurdos que descaracterizam as fachadas. Das promessas do Rui Costa em restaurar o Cine-Teatro Jandaia, o vento levou.

Agora, a cereja do bolo. A prefeitura tem a ideia genial de pedir aos proprietários para restaurar as fachadas da baixa dos Sapateiros. Promete pagar 50% dos gastos. Piada...

Dimitri  Ganzelevitch

A Tarde, 5 de agosto 2026

terça-feira, 1 de setembro de 2026

MAIS UM ATENTADO À SÉ PRIMACIAL

 


Paulo Ormindo de Azevedo


Em 1933 a primeira catedral do Brasil, conhecida como Igreja da Sé, iniciada em 1551 e nunca terminada, foi comprada e demolida pela Cia. Linha Circular da Bahia num escândalo que envolveu também o Arcebispado da Bahia e a Prefeitura Municipal de Salvador.

Esse episódio motivou Fernado da Rocha Peres a escrever o livro Memória da Sé que já está na 3ª edição. A Cia. Linha Circular de Carris, filial da General Eletric, comprou ainda três quarteirões para criar um terminal de bondes que funcionou por apenas 27 anos. Com o dinheiro da venda, D. Augusto Álvaro da Silva, pernambucano, comprou uma casa no Campo Grande para sua residência e uma gleba de cerca de 10.000 m² na Federação para instalação do Seminário da Arquidiocese, depois convertido em um dos campi da Universidade Católica de Salvador.

A documentação da Cúria Metropolitana de São Salvador foi transferida para o Paço Arquiepiscopal de Salvador, vizinho da Igreja da Sé. Como o prédio vinha se arruinando com problemas no telhado, Consuelo Pondé de Sena e a ABI lideraram uma campanha, em 2014, pela sua restauração. A obra custou R$29.000.000,00 ao BNDES e foi reinaugurada em 2019. Ali foi instalado o Centro de Referência da Igreja Católica no Brasil, com 16.000 manuscritos e documentos, organizado pelo Pe. Abel Pinheiro. Finalmente os arquivos da Sé Primacial estavam preservados.

Ledo engano, o prédio acaba de ser transformado na nova Sede da Prefeitura de Salvador, e seu rico e frágil acervo acomodado num subsolo, o ossário da Catedral Basílica, sem nenhuma condição de conservação. O Cine Excelsior, pertencente a Congregação Mariana, está sendo vendido para se transformar na Câmara de Vereadores e a Praça Municipal deve ser convertida em estacionamento privativo do Hotel Allard/Rio Branco.

 A casa de D. Augusto já havia sido vendida a Odebrecht e transformado na luxuosa Mansão dos Cardeais inaugurada em 2004. Destino menos nobre deverá ter o antigo Seminário Arquidiocesano, atual Campus Federação da UCSAL, que acaba de ser vendido à construtora pernambucana Moura Dubeux que comprou também os hotéis Pestana Rio Vermelho e Salvador Praia Pituba para demolir e o Othon para converter em apartamentos. É Pernambuco recolonizando a Bahia. A empresa pretende construir na Av. Cardeal da Silva quatro torres de quarto-e-salas pelo programa Minha Casa Minha Vida, numa via que já não dá conta do trafego atual.   

O desmonte desse arquivo é um segundo atentado à Memória da Sé, equivalente ao de 1933, envolvendo igualmente a Igreja Católica, a Prefeitura, e ao invés da Cia. Linha Circular, a especulação imobiliária. A Igreja Católica Baiana tem que encontrar outras formas de financiar seus projetos sociais fortalecendo seus colégios e a UCSAL, não dilapidando o seu patrimônio e a Prefeitura deve tomar mais juízo. Triste Bahia!

SSA: A Tarde, 30/08/2026   

           

COMENTÁRIO DO BLOGUEIRO.- Se posso me permitir uma pequena observação...A obra do Paço Arquiepiscopal custou R$29 milhões pagos pelo BNDS, mas este dinheiro foi, na verdade, arrancado dos bolsos do contribuinte que terá que também pagar as novas mudanças.

Dinheiro barato!...

sábado, 22 de agosto de 2026

UM POUCO DE UCRONIA



Se Lilibeth Monteiro de Carvalho não tivesse se divorciado do Fernando Collor, talvez influenciasse o caçador de marajás para uma política econômica mais razoável e a Zélia Cardoso de Mello não teria inventado o famigerado Plano Collor. Quantas pessoas não se teriam suicidado após perder décadas de economia para comprar sua casinha! E, quem sabe, o Walter Salles não teria filmado o excelente Terra Estrangeira.

Em tempo de vacas magras, magérrimas, a consulesa da Áustria Eva Adler não me teria sugerido organizar as tables d´hôtes, quando a cada quinta-feira durante três anos me transformei em chef – muita cara de pau - recebendo na casa do Santo Antônio até mais de vinte pessoas para saborear um menu a preço fixo, bebidas incluídas.

Não teria recebido o Tout-Salvador e adjacências, empresários, secretários de estado e estrelas globais que, sem esta curiosa proposta, nunca teriam se lembrado de que existia na Primeira Capital do Brasil um lindo bairro adormecido, a mil léguas de qualquer badalação ou coluna social. Uma jornalista da Gazeta Mercantil, após satisfatória janta, não me teria pedido para preencher uma longa coluna – uns 5 mil toques, espaços incluídos - a cada semana no então muito prestigiado jornal econômico. Nessa eventualidade, eu não teria falado mal do decadente Chez Bernard e do pretencioso Trapiche e louvado o então desconhecido Paraíso Tropical.

O Caetano Veloso não reservaria mesa com vista para a baía e luz de velas para Gilberto Gil e Regina Casé. Esta não se teria encantado com a casa, a vista e os ladrilhos hidráulicos. Não teria voltado várias vezes, com diferentes amigos, para mostrar minha residência e por consequente não compraria duas casas no Largo do Carmo a poucos metros do Solar Santo Antônio.

Podemos supor que até hoje, meu bairro não seria o objeto de todos os holofotes da fama. Restaurantes “metidos” com vista para o porto nunca teriam sido abertos. Continuaria uma ilha provinciana onde o casario dificilmente muda de habitantes, todos se conhecem e as fofocas correm soltas.

Se a Gazeta Mercantil não tivesse falido em 2004 com a poderosa concorrência do Valor Econômico, não teria sido convidado pelo Ranulfo Bocayuva para preencher este espaço aqui e agora, sábado sim, sábado não. Já lá vão uns bons quinze anos.  

Costuma se dizer que em matéria de História o “Se” não existe. Mas nada custa a gente sonhar em refazer a dita. Imaginem que Napoleão não tivesse invadido Portugal. Teria havido um Imperador do Brasil? Se o Hitler tivesse escolhido continuar pintor de aquarelas medíocres, o nazismo teria existido? Sem a Segunda Guerra Mundial, o Sionismo seria só uma opção política e Gaza continuaria um belo jardim à beira-mar plantado...

Dimitri Ganzelevitch

A Tarde, sábado 25 de agosto 2026

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

UM, NENHUM E CEM MIL

 

ARMANDO AVENA


Quando Vitangelo Moscarda descobriu que seu nariz pendia para a esquerda, sua vida mudou. Foi sua esposa a primeira a alertá-lo, com certa satisfação, diga-se de passagem, e o espelho, o maldito espelho, mostrou a ele, após esse aviso fatal, a deformidade em toda a sua inteireza.

Deu-se conta, assim, de que ele não era para os outros aquilo que, até então, pensava ser. Ele, que pensava ser um, era visto de forma diferenciada pelos outros, que o enxergavam com aquele nariz pendente. O pior é que ele não podia se ver como os outros o viam, não podia colocar-se à parte para se ver vivendo. E concluiu, decepcionado, que ele não era um, como pensava, nem dois, assumindo que havia apenas um Moscarda com aquele nariz caído que ele não via, mas muitos, pois cada pessoa o via não como ele era e, sim, como parecia ser.

Vitangelo Moscarda sentiu-se sequestrado de si mesmo no momento em que descobriu que, para os outros, ele não era ele, mas sim o que as pessoas achavam que ele era. Teve certeza, então, de que, independentemente de para que lado pendia seu nariz, alguém o achava pedante, outro, inteligente, aquele o considerava antipático, aquele outro, de uma simpatia a toda prova. E, assim, o pobre Moscarda descobriu que podia ser um, nenhum e cem mil.

O que ocorreu com Vitangelo Moscarda, personagem do romance Um, nenhum e cem mil, de Luigi Pirandello, acontece, e sempre aconteceu, desde que o homem passou a viver em sociedade.

Cada pessoa não vê você como você é, mas como pensa que você é. E a dúvida é mortal: somos o que somos ou aquilo que os outros pensam que somos?

“O inferno são os outros.” A célebre frase de Jean-Paul Sartre dá a medida certa do que representa viver sob o olhar do outro. O inferno nasce do olhar alheio, do outro que nos vê, nos julga e nos atribui uma identidade.

No século XXI, porém, o inferno sartriano ganhou uma dimensão extraordinária com o advento das redes sociais. Com elas, criamos uma espécie de mercado da aprovação, em que cada like, cada compartilhamento, cada comentário funciona como uma pequena confirmação de que existimos e somos interessantes, bonitos, inteligentes ou relevantes. Mas esse é também um mercado de desaprovação e, de repente, um desconhecido qualquer pode dizer que seu nariz pende para a esquerda e, assim, acabar com sua autoestima e aporrinhar seu dia.

A opinião dos outros, o número de seguidores, curtidas e compartilhamentos tornam-se o inferno contemporâneo, e foi você mesmo quem abriu a porta. “Lasciate ogne speranza, voi ch’intrate!”

“Nem esperança, nem socorro, nem remédio”, diria Shakespeare. Talvez, mas a Meta, dona das redes sociais, enfrenta os tribunais, e vinte e nove estados americanos propõem suprimir o feed infinito, os likes e a prisão algorítmica. Assim, quiçá seja possível evitar que a humanidade se transforme em uma multidão de Moscardas.

 

Publicado no jornal A Tarde em 21/08/2026

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

OS NOMES DE NOSSAS RUAS

 O que dizem os nomes de nossas ruas

Paulo Ormindo de Azevedo 


Os nomes das ruas de Salvador descrevem muitas coisas. Para o escritor Luiz Eduardo Dorea elas contam a história da cidade. Para outros, os costumes sociais e para os poetas, como Bandeira, suas lembranças de infância. Salvador tem nomes lindos de ruas, que seus pré-feitos não conseguiram trocá-los para Dr. Fulano de Tal.

Nomes de estados da alma, como Aflitos, Preguiça, Paciência, Soledade, Piedade, Perdões e Misericórdia. Quando cresci descobri que estes nomes amargos eram de conventos que vendiam sequilhos e pastéis doces e licores. Outros logradouros evocam locais de preces, como a Rua da Oração, Cruzeiro de São Francisco, Cruz do Pascoal, Canto da Cruz, Cruz da Redenção, Quinta das Beatas, hoje Cosme de Farias, Rosário e Largo dos 15 Mistérios, um nome poético. Também ligados às igrejas há praças mais alegres, como Boa Viagem, Graça, Saúde, Vitória, e até Paraíso.    

Também tivemos aqui os reflexos da Inquisição, com um Aljube para punir padres liberados e um gueto, a Mouraria, onde se segregava juntos mouros e judeus, como nas pequenas vilas portuguesas, embora Cid Teixeira afirma, sem provas, que o bairro era um acampamento de ciganos. E temos o Desterro, onde não por acaso viviam os judeus. A presença dos islâmicos foi muito forte em Salvador com os escravos Malês, que lideraram uma revolta libertária em 1835. Conservamos ainda nomes como as Mesquitas dos Barris e do Tororó e Rua dos Algibebes, no Comércio, de alforriados que negociavam brechós e quinquilharias baratas.

Muitos logradouros e bairros de Salvador têm nome de acidentes naturais, como Alagados, Alto do Cabrito, em Plataforma, Barroquinha, Lapa, Conceição da Praia, rua da Vala, Dique do Tororó e seu Sangradouro, Ribeira, Rio Vermelho, Ponta do Padrão, Porto da Barra e nomes de plantas, como Rua das Flores, Gravatá, Pitangueiras, Tamarindeiros, Jenipapeiro, Mangueira, Cajazeiras e Dendezeiros.  

Nomes pitorescos dos logradouros estavam ligados à sua função como, Baixa dos Sapateiros; Becos dos Calafates, no Comércio, e do Mingau, no Sodré; bairro dos Barris, ligado à fonte do Tororó; Caminho de Areia; Campo da Bola, em Cosme de Farias, Cova da Onça; ladeiras da Montanha, das Hortas, em São Bento, do Quebra Bunda, em Nazaré, da Lenha, no Bonfim, e do Molambo, em Brotas; largos dos  Dois Leões, da Quitandinha do Capim, em S. Antônio de Além do Carmo, Sete Portas; rua do Carro em Nazaré e, no Centro Histórico, as ruas do Açouguinho, do Mocambinho, do Tijolo, das Vassouras e do Tira Chapéu. 

O velho Juventino Silva e seu cunhado, Manoel Dias da Silva, compraram, no início do século passado, a Fazenda Pituba com a intenção de lotear e esboçaram o Plano Cidade-Luz. Para o seu desenvolvimento contrataram o Eng. Teodoro Sampaio que levantou a área e desenhou suas ruas em 1919 e as aprovou em 1932. Às transversais da Avenida Manoel Dias da Silva, espinha dorsal do bairro, foram dados nomes dos estados. De quem foi a ideia? É um dos 15 mistérios.

SSA: A Tarde, 19/07/2026


A ERA DO FAKE

 ... E DO CULTO AO EGO


Décio Torres Cruz*

 


É impressionante observar a transformação da ficção e das teorias acadêmicas em formas concretas que passam a afetar a realidade cotidiana. George Orwell, Aldous Huxley, Ray Bradbury, Philip K. Dick, Jean Baudrillard, Guy Debord e outros escritores descreveram, em suas obras do século passado, nossos atuais dias “pós-modernos”, nos quais a realidade se torna ficção, a história é reescrita e a ciência é transformada em narrativa.

Dados cientificamente comprovados e antes universalmente aceitos, como o formato geoide da Terra, passaram a ser questionados e difundidos por pessoas sem o mínimo conhecimento científico. Convencionou-se que mentira e verdade são apenas faces de uma mesma moeda, prevalecendo a versão de quem conta a melhor história e tem mais adeptos nas redes sociais.

Gourmertizando o vazio

Antes do atual milênio, para se ter uma profissão, eram necessários muitos anos de estudo e prática, seja com quem já era profissional na área, seja frequentando aulas em escolas, cursos e universidades. Para se exercer uma profissão (fora da área política e familiar, onde prevalecem indicações), era necessário conhecimento prévio e/ou um diploma. Hoje, qualquer um inventa uma profissão e se autointitula especialista naquilo que nunca estudou ou aprendeu na vida.

E como não se pode ser pós-moderno sem ser internacional, brasileiros com mentes colonizadas adotam palavras em inglês para esconder a real intenção do vazio de algumas profissões recém-inventadas, como os tais influencers e coaches (treinadores de esportes, palavra usada agora para designar um profissional que ajuda as pessoas a atingir um objetivo profissional ou pessoal com orientação, conselhos e treinamento).

Com o atual declínio da aura em torno da educação como fator transformador e com o surgimento de celebridades que não precisaram estudar muito para atingir a fama e a riqueza, muitas pessoas acham que podem se tornar tudo o que quiserem sem nunca ter frequentado um curso ou universidade. Acreditam que não necessitam de uma profissão ou formação, bastando apenas possuir um imenso número de seguidores fiéis e engajados nas redes sociais para virar influencer ou creator (criador) — um profissional que produz conteúdo na internet e que é capaz de influenciar seus seguidores a partir do seu comportamento (no dia a dia, nos produtos que consome, na forma de ver o mundo, nos eventos que possam gerar popularidade ou publicidade, na formação profissional etc.) e ganhar muito dinheiro com o marketing de empresas que contratam seus serviços. Os influenciadores funcionam como uma espécie de vitrine dos produtos e marcas que promovem, buscando criar o desejo por aquilo que oferecem a seus seguidores.

 

Mercado de diplomas

Embora parte da população simule um desprezo por formações acadêmicas, muitos querem obter um diploma a qualquer custo para não parecerem idiotas perante seus seguidores. Além dessas novas profissões da era digital, o número de compras de diplomas falsos parece ter aumentado. Há diversas empresas fabricando e vendendo títulos de doutor honoris causa, inventando faculdades que nunca existiram. Nesta lista de compras, encontram-se as ditas “pessoas de bem”, diversos profissionais (juízes, advogados, professores e escritores) comprando esses diplomas e recebendo-os em solenidades em câmaras de vereadores e até em algumas academias de Letras do interior.

Muita gente ostenta esses diplomas mesmo sabendo que são falsos. Coloque nessa lista os títulos de melhor prefeito, melhor comerciante, melhor empresário ou empreendedor e até de melhor escritor. Tudo está à venda para satisfazer o ego de pessoas medíocres que sempre desprezaram os estudos acadêmicos e nunca conseguiram se sobressair em nada. Agora, elas possuem a possibilidade não só de ser o que não são, mas também de ser as melhores em habilidades que nunca tiveram ou em profissões para as quais nunca foram habilitadas. Tivemos exemplos de ministro da Educação e até mesmo de membro da mais alta corte que procuraram turbinar currículos com cursos ou estágio pós-doutoral que nunca fizeram.

Escrita sem leitura e livros artificiais

A proliferação de profissões inexistentes abunda na mesma quantidade em que surgem diversas editoras que cobram para publicar qualquer coisa, não importa a qualidade. A rede está cheia de gente que nunca teve o hábito da leitura e da escrita e escreve muito mal, cometendo erros de toda espécie; pessoas que deveriam voltar aos estudos de gramática e redação antes de pensar em escrever. De repente, esses indivíduos se autointitulam escritores e se transformam em tais da noite para o dia, pagando para ter livros publicados até mesmo em outros países. Outros, que nunca escreveram ou publicaram um livro sequer, oferecem cursos, ensinando incautos a como se tornar um escritor.

E pior: tem muita gente usando Inteligência Artificial e publicando livros sem ter escrito uma única palavra; e alguns ganham prêmios literários, outros usam falsamente nomes de escritores reais, como o da escritora Jane Friedman, ex-presidente e diretora-executiva da famosa editora Harper Collins, cujo nome foi usado sem seu conhecimento por terceiros que ganham dinheiro com livros escritos por IA, vendidos na Amazon como se fossem dela.

A epidemia de desinformação nas bolhas ideológicas

Durante a pandemia, houve muitos casos de médicos ideologicamente fanáticos que prescreveram remédios e tratamentos contra a Covid-19 que eles sabiam (ou preferiam não saber) que eram totalmente ineficazes. Várias pessoas que nunca adentraram uma sala de aula de cursos de jornalismo ou comunicação, nem trabalharam em redações de jornais, revistas e televisão, subitamente se alçaram ao nível de jornalistas e blogueiros para disseminar informações falsas como se fossem dados reais.

Veículos sérios de comunicação passaram a ser evitados ao apresentarem a realidade dos fatos, sendo perseguidos por uma determinada camada da população que preferia acreditar nas versões mentirosas inventadas por um grupo político que pagava alguns veículos para disseminar suas mentiras como verdade. Criaram uma bolha, tornando seus seguidores completamente alienados do estado real dos acontecimentos. Alguns deles, quando confrontados com a realidade factual, ainda hoje se recusam a aceitá-la ou entram em devaneios.

Esse grupo fabricador e disseminador de mentiras aproveitou-se do desconhecimento escolar da população e criou um imenso séquito de seguidores desinformados, que acompanhavam falsos historiadores e filósofos terraplanistas que nunca estudaram história ou filosofia, mas escreveram livros e comentários com visões dos fatos totalmente deturpadas e erradas, distorcendo a verdade histórica de forma escabrosa, criando e espalhando mentiras funestas. Isso provocou uma perseguição a professores de história e geografia. Alguns foram ameaçados por alunos e seus pais, perdendo seus empregos por ensinarem a história do que realmente aconteceu no tempo da ditadura militar.

Intimidade exposta

O desenvolvimento da eletrônica, da tecnologia computacional e das redes sociais facilitou a expansão do fake e da idolatria ao ego. Todas as redes propiciam uma necessidade ilimitada de publicações, forçando as pessoas a fazerem propaganda de si mesmas. E, quando elas não têm o que falar de si, inventam, inclusive profissões que nunca exerceram, com o intuito de atrair a atenção de amigos e seguidores. Os apps de melhoramento de imagem ou de montagem de imagens fake estão disponíveis em todas as câmeras de celular.

As redes sociais incentivam esse culto exagerado do ego, quase forçando as pessoas a postarem o tempo todo sobre tudo o que estão fazendo, não importando o conteúdo ou o ridículo da ação. Tem gente que chega ao ponto de postar fotos de eventos privados que antes se limitavam ao meio familiar, desrespeitando a intimidade de pessoas doentes em hospitais ou de pessoas mortas em cerimônias fúnebres. Há, até mesmo, fotos de pessoas que, sem se preocuparem com reflexos da imagem no espelho, fotografam-se durante a realização de necessidades físicas nos banheiros e só se dão conta depois que as imagens viralizam.

Parece que a nossa contemporaneidade inaugurou uma nova espécie de ética aética, onde prevalece o vale-tudo para que as pessoas aumentem sua autoestima com o clique de likes e coraçõezinhos a cada nova postagem, sem qualquer compromisso com a ética, a empatia, ou com a veracidade do conteúdo exposto,. As redes criam a falsa ilusão de que não estamos sós por estarmos rodeados de “amigos” virtuais, como se cada curtida satisfizesse o ego e preenchesse o vazio da solidão nossa de cada dia.

E, quando as curtidas não vêm espontaneamente, alguns, que possuem condições para tal, compram seguidores para falsificar sua imagem perante os seguidores reais. Quando as curtidas não acontecem de modo algum, as pessoas inventam mentiras para se sentirem menos infelizes.

O preço da validação

Isso tem causado muitas doenças entre a população jovem. De acordo com a Agência Câmara de Notícias e o Panorama da Saúde Mental, estudos sobre a saúde mental de jovens demonstram o desenvolvimento de transtornos físicos e mentais em usuários de plataformas digitais, causados pelo abuso de compartilhamento de fotografias manipuladas de rosto e corpo, visando o estabelecimento de padrões estéticos inatingíveis. Hoje, é possível fabricar quase tudo digitalmente, seja falso ou verdadeiro. Fotografias de adolescentes e pessoas famosas estão sendo manipuladas para criar nudes falsos ou filmes pornôs expostos nas redes.

Os profissionais de saúde mental vêm emitindo alertas sobre a exposição dos jovens às redes sociais. Muitos adolescentes que não conseguem alcançar um determinado número de curtidas ou que são expostos indevidamente de forma comprometedora adquirem transtornos mentais devido à preocupação extrema com sua aparência e com a exposição de sua imagem, sendo acometidos de anorexia, ansiedade, autoflagelação, bulimia e depressão — doenças que podem levar ao suicídio.

Já passou da hora de a sociedade global debater a fundo os perigos que criamos para nós mesmos e estudar os meios de amenizar os danos causados pelo uso indiscriminado de tecnologias. Não podemos desprezar sua interferência e suas consequências nas relações humanas. O que antes parecia ser um sonho de ficção científica, que gerava o medo de máquinas controlarem os seres humanos, já se tornou realidade com o surgimento da IA.

Algoritmos moldam nossos desejos e nossas escolhas, selecionando os produtos, sonhos e a felicidade que devemos comprar, os espetáculos e filmes que devemos ver, além de sugerirem o que devemos fazer e de quem gostar ou odiar. Robôs (bots) transformam notícias falsas em verdadeiras e modificam o resultado de eleições em várias partes do mundo. Quando as fronteiras que separam a realidade da ficção e o falso do real se dissolvem, chega a hora de reavaliarmos onde fracassamos como espécie humana, analisarmos o que ainda nos reserva e nos resta no futuro e repensarmos se tudo isso vale a pena.

 



* Escritor, membro da Academia de Letras da Bahia e da Academia Contemporânea de Letras de São Paulo. Autor de Histórias roubadas, Viagens & travessias e A poesia da matemática, dentre outros.

sábado, 8 de agosto de 2026

ALGUMAS NOTAS SOBRE O ALENTEJO

         foto: D.Ganzelevitch

21 de maio. Primavera no Alentejo. É de manhã. Um céu perfeitamente limpo, cujo azul intenso ira clareando ao longo do dia. Gerânios em três tons de vermelho. À minha esquerda, seis ciprestes e um mandacaru. “Achei no lixo em Lisboa. Como se pode jogar uma planta no lixo? ” perguntou minha anfitriã. Plantas também são seres vivos. Mal escondidas por mais uma árvore, as duas camisas que acabo de lavar e minha toalha de banho balançam no varal.

O terreno desliza em leve declínio até um riacho escondido por oleandros, limoeiros e laranjeiras para subir novamente até uma linha irregular formada por oliveiras prateadas de tronco torturado. Com uma vasta piscina-tanque lá no fundo, no meio do capim florido, a casa é simples, caiada de branco. Dentro, poltronas confortáveis, tapetes persas, livros e retratos seiscentistas de antepassados de expressão solene que precisariam de um bom restauro.

Meu celular anuncia 32°, mas debaixo do telhado da varanda, estou numa bolha temperada e ventilada. Iremos até a vizinha Evoramonte. Ao pé do castelo do século XII trabalha Inocência Lopes uma das mais conceituadas fazedoras de Bonecos de Estremoz, arte considerada patrimônio mundial pela Unesco. Seria uma equivalência ao nosso Mestre Vitalino. Sua obra de excepcional qualidade me deixou impressionado.

Casais de borboletas, uns brancos, outros amarelos, voam como inebriados. Afirmar que só existem momentos de felicidade virou chavão. Este, hoje, aqui, é o caso. Uma pura e perfeita ilha no agito secular.

Sempre amei esta terra de paisagem ondulada, feminina, fecunda, salpicada de sobreiros e oliveiras. Território macho também, de granito e mármore, com seus povoados fortificados vigiados por severos castelos romanos, mouriscos ou manuelinos, como másculo e profundo é o cante alentejano, também patrimônio da Unesco, que remonta ao pré-cristianismo. Muitas igrejas têm ares de bastião por fora, temperadas por dentro pela sensualidade escancarada dos altares barrocos e dos antigos azulejos. Uma delas, dedicada a São Bartolomeu, lhe dará vontade de morar em Borba, naquela rua direita onde competem em elegância os aristocráticos solares e onde antiquários vos falam de esplendores passados.

O ápice desta curta estadia será sem dúvida a visita ao Palácio Real de Vila Viçosa. Elegante fachada inteiramente revestida de mármore vagamente azulado. Salas e mais salas de rico mobiliário, coleção de tapeçaria excepcional e forros magnificamente pintados, infelizmente sem iluminação. Destaquemos o motivo inventado pela guia: “Não tem eletricidade no palácio”. Acredite se quiser. Então não tem alarme contra roubo e incêndio? Por favor!...

Se, como os gatos, tivesse sete vidas, uma delas viveria no Alentejo.

Dimitri Ganzelevitch
A Tarde, 8 de agosto 2026

sábado, 25 de julho de 2026

O GRITO DE OSLO

                        foto: d. ganzelevitch


Sou rato de templos, mesquitas, catedrais e museus. Qual o queijo me convenceria a enfrentar a primavera gelada e ensolarada da Noruega senão a curiosidade de conhecer melhor a obra do Edvald Munch? Para ele “A arte era considerada como uma arma destinada a lutar contra a sociedade’’ Google dixit. A doença e a morte, a fragilidade e a transitoriedade da vida marcam sua trajetória.

Claro que você sabe quem é, o Grito sendo para os países nórdicos o que a Monalisa é para os latinos. Ao sorriso calmo de uma jovem oponha-se a solidão angustiada de um ser - homem ou mulher, a ambiguidade contribui – perdido no crepúsculo de uma ponte que não o levará a parte nenhuma. Outro mistério, eu vi, é explicar isso como tentava fazer uma professora a um rebanho de criancinhas de sete a dez anos sentadas no chão da sala escura reservada a dita obra.

Quando entrei, ás onze horas da manhã em ponto, assim exigia minha reserva, fui recebido no primeiro andar do recém-inaugurado museu por uma retrospectiva da portuguesa Paula Rego. Sorte minha já que na antevéspera tinha perdido a Casa das Histórias em Cascais. No templo de meus ídolos, colocá-la-ia no mesmo altar que Lucian Freud e que o anfitrião do momento. Contraponto a tantas cansativas instalações que só servem para masturbar o ego do autor e do curador e que o vento do esquecimento levará sem remorso. Nem todo mundo é Marcel Duchamp, mas muitos se acham. Você sabia que tem crítico que só admite analisar uma obra se tiver texto explicativo acoplado? Não se questiona a contemporaneidade de uma Paula Rego como é indubitável que sua obra atravessará gerações sem o mínimo questionamento quanto a sua importância na contribuição para a história da arte.

Não foi difícil sair do universo perturbador da portuguesa para mergulhar na angústia vanguardista do norueguês. Entre tantas obras impactantes, talvez quatro retratos – uma mulher, três homens – foram as que mais me surpreenderam pela acuidade em evidenciar o caráter de cada um. Na minha opinião, subjetiva como toda opinião, talvez somente um Goya tenha chegado a tamanho leitura da alma de um retratado.

Cultura cansa e dá fome. Hesitando entre dois andares de exposições, resolvi dar um tempo e subi até o último piso para almoçar e curtir a vista panorâmica sobre a pequena capital (menos de setecentos mil habitantes). Pelo menos os arquitetos espanhóis Herreros e Richter não caíram no erro dos colegas do novo museu arqueológico do Cairo que colocaram o restaurante no térreo em vez de aproveitar a fabulosa vista sobre as pirâmides. Desfrutando de meu salmão, pude também usufruir do panorama de terras delicadamente recortadas pelas águas que muito contribui ao encanto verde e azul de Oslo. 

Dimitri Ganzelevitch

A Tarde, sábao 25 julho 2026

sábado, 11 de julho de 2026

UM CONVITE MUITO ESPECIAL

PARA A QUINTA-FEIRA 16 DE JULHO



Nesta data querida (sic) completarei noventa anos.

Não, por favor, não me venham com chavões. Velho é o tempo, velho por fora, jovem por dentro e outras baboseiras de mesmo teor. Já tem tempo que entrei para o time dos idosos, diria até que para a quarta idade. A única vantagem é não pagar o transporte público que nem uso mais.

Você não está me lendo para aguentar uma lista de queixas sobre minha digestão, as dores no joelho ou as manchas violetas resultado de leves pancadinhas nas pelancas. Foram nove décimos de século muito bem vividos garimpando costumes, paisagens, cheiros e sabores. Andei de trem, de barco, de jipe, de helicóptero e de monomotor. Você conheceu o tempo dos aviões de hélice?  Claro que não.  Pois eu, sim. Tinha quinze anos e foi entre Tanger e Casablanca. Mas o mesmo trajeto de trem é muito mais gostoso e nem gastará muito mais tempo. Onde queria chegar, mesmo? Ah! Sim... Hoje, esta crônica é um deslavado intervalo comercial. Plim! Plim!

Convido-lhe para, na próxima quinta-feira 16, comemorar meu níver na Aliança Francesa, onde estarei expondo duas dúzias ou três de fotos sobre o povo da Bahia – aquele que nunca será colunável -  documentando pelo menos os últimos vinte anos de minha vivência nesta estranha terra de santos, orixás, demônios e anjinhos.

Ao mesmo tempo apresentarei meu livro sobre uma das inúmeras manifestações de cultura popular baiana, cultura pungente e única, nesta colcha de retalhos que é este país de dimensões continentais, cultura que o Estado teima burramente em ignorar. O Carnaval de Maragogipe, que andei fotografando durante seis anos, é uma das últimas expressões autênticas de uma manifestação que de resto foi abocanhada pelo rolo compressor das indústrias multinacionais e a cobiça de um punhado de políticos gangrenados.

Pois é... mesmo a caminho do século, continuo com a mente decapante - e para muitos chatérrima - de quem apoia Greenpeace, a Palestina e Flávio Dino. Já falei em outras páginas que espero viver o suficiente para ver o Netanyahu e corja apodrecendo enjaulados pelo mal que fizeram a humanidade do século XXI.

Mas na próxima quinta-feira estaremos todos reunidos numa bolha de felicidade paz e amor pois ninguém é de ferro, prestigiando o prazeroso transplante de minhas raízes franco-marroquinas. E para quem nunca esteve no belíssimo edifício de estilo neoclássico do século XIX da Aliança Francesa, finalmente bem administrada pela cineasta Sandrine, será a melhor oportunidade.

Pode chegar sem receio. O governador e o prefeito não virão, nem qualquer secretário de estado ou municipal, nem bolsominion nem sionista pois a festa é só para gente de cultura e sensibilidade, para quem respeita o ser humano. Qualquer que seja ele.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

QUE REI SOU EU?



Após duas semanas em terra de faraó – eu falei faraó, ó,ó,ó – nunca mais serei o mesmo. Não por causa de Akhaenaton, nem de Tutankamon, mas pela minha surpreendente relação com o último rei do Egito. Eu falei King Farouk. Cadê Fuad? O Fuad não conta: era um neném, reinou um ano e partiu para a Suíça. Você não sabia com quem estava falando.

Começou no Cosmopolitan Hotel - Bin Taalab Street, 1, perto da Praça Tahrir –  estilo luxuoso kitsch, quando, com extrema amabilidade, o recepcionista me deu a chave do quarto, primeiro andar. Na porta, uma placa dourada: ”King Farouk”. Não sei se algum rei, exilado ou reinante, alguma noite aqui dormiu. Antessala, salinha com sofá, poltrona e televisão e o dormitório com cama de serralho e mais uma televisão. Mesmo assim, continuei com a mesma simplicidade.

No quinto dia, voamos para Luxor. Do avião direto para o barco Sudan que inspirou Agatha Christie. Na porta de minha cabine, a placa dourada “King Farouk” confirmou minha significância. Será mesmo que o Faruque Amade Fuade Ismail Ibraim Maomé Ali Ibne Aga roncou e fez xixi em tão diminuto espaço? Será? Longo passeio pelo bíblico Nilo. Nada mudou desde os amores de Cleópatra e Júlio Cesar. Ao voltar a Luxor, a recepção do Winter Palace tinha mais uma gentileza para mim. A placa dourada da porta informava que o quarto estava inteiramente decorado com a mobília do King Farouk. Mega dossel e fotografia oficial de Sua Majestade incluídos. Desta vez, pela beleza da vista sobre os jardins do hotel posso acreditar que aqui o rei poderia muito bem ter dormido. Mesmo assim, verifiquei que os lençóis tinham sido trocados.

Após quatro noites na vizinhança de templos e túmulos faraónicos – Ei, Karnak! Ei, Apchetsut! Tu-Tank-Amon! – um trem nos levou, entre paisagens desérticas à esquerda e verdejantes à direita, até Assuam onde nos esperava o Old Cataract, delírio sultanesco com colunatas, fontes, arcadas, lustres e espelhos mil. Corredor de vinte mil léguas. Esperava que tivesse a costumeira placa King Farouk em metal dourado. Mas tive que engolir a deprimente realidade. Nada. Placa nenhuma. A suíte tinha living com sofá, duas poltronas, televisão e sacada, e quarto com cama orgíaca, janela e sacada. E mais uma televisão.  Mas de placa King Farouk, nada. Tinha-me acostumado a ser saudado obsequiosamente, não por causa das gorjetas, mas pelo evidente parentesco com Sua Majestade Farouk I, Rei do Egito e do Sudão, soberano da Núbia, do Cordofão e de Darfur.

Fazer o quê? Protestar. Mas a quem, a Osíris? Melhor fingir que não é nada, não ligo para estas bobagens. Afinal viajo incógnito, sou igual a qualquer um. Agora, que a letra da música do Olodum é para lá de ruim, disso não resta a menor dúvida.

Dimitri Ganzelevitch

A Tarde, sábado 27 de junho 2026

domingo, 21 de junho de 2026

DO SOFT POWER AO PORRETE


Paulo Ormindo de Azevedo



Os ianques sempre tentaram colonizar a América do Sul. Durante a II Guerra com a Política de Boa Vizinhança, por exibir Carmem Miranda na Broadway, nos surrupiaram muita areia monazítica, mica e cristais de rocha. O Programa Corpos da Paz (Peace Corps), de 1961, serviu para infiltrar agentes no Cone Sul e preparar os golpes militares do Chile, Brasil, Uruguai e Argentina, quando 34.000 pessoas foram mortas ou desaparecidas nos quatro países e milhares foram torturadas sob orientação da Operação Condor. A isto eles chamavam de Soft Power, ou Força Amaciada, de dominação colonial sem entrar numa guerra.
Eles nunca pararam o Soft Power na região em cooperação com instituições e políticos locais. Em 1972, Henry Kissinger alertou Nixon de que a Igreja Católica com a Teologia da Libertação ameaçava os interesses americanos na América Latina. A partir daí, os EUA começaram a minar o catolicismo na região e impor o protestantismo americano. Segundo alguns demógrafos, até 2050 os pentecostais se igualarão aos católicos no país. Os evangélicos já são uma das maiores forças políticas no Congresso.
A partir de 1964, a Globo se agigantou quando se associou ao grupo Time/Life e passou a ser a porta-voz do regime militar. Ainda hoje sua programação de TV é um espelho da americana com programas como: The Big Bros, The Voice, The Masked Singer. Por esse trabalho subliminar de aculturação a Globo é a campeã na América Latina de prêmios da americana Emmy Internacional ganhando, pasmem, 20 estatuetas Golden Globe Awards, o Oscar da TV. Sua última campanha é substituir a rica cultura sertaneja pela country. No programa Circuito Sertanejo e na novela Coração Acelerado, cantores e atores se vestem como cowboys com chapéu country.
Trump abandonou o Soft Power e adotou a política do Big Stick, ou Porrete (1901-1909), disfarçado de pacifista. Bombardeou sem motivo o Irã, expandindo a guerra no Oriente Médio e criando uma crise mundial que favoreceu a Rússia na guerra contra a Ucrânia, que ele dizia acabar em um dia. Sem saber como sair da enrascada em que se meteu, capitula às exigências do Irã e promete pagar USD$300 bilhões de indenização num acordo de paz que não dura uma semana.
Enfrentando inflação e vaias ele tenta cantar de galo no seu quintal desmilitarizado, se apropriando do petróleo venezuelano, bombardeando barcos não comprovados de drogas, garroteando Cuba e tentando intervir nas eleições do país líder da região, o Brasil, com um tarifaço e classificando o PCC e o CV como forças terroristas para intervir no sistema financeiro do país e criminalizar o Pix. Naturalmente mancomunado com uma família quinta-coluna ligada aos EUA e que desfila na Avenida Paulista com a sua bandeira. Em 1945, para comemorar a queda de outro falso king, Francisco Alves cantava:
Eu assisti de camarote o teu fracasso/ Palhaço, palhaço...
SSA: A Tarde, 21/06/2026