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quinta-feira, 10 de setembro de 2026

UM PALESTINO


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Omar M. Yaghi  - nascido em 9 de fevereiro de 1965) - é professor de Química da cadeira James and Neeltje Tretter da Universidade da Califórnia, Berkeley, e membro eleito da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos. 

Ele foi laureado com o Prêmio Nobel de Química de 2025 pelo desenvolvimento de estruturas metalorgânicas.

Infância e educação

Yaghi nasceu em Amã, Jordânia, em 1965, em uma família de refugiados. originalmente da Palestina. Ele cresceu em uma casa com muitos filhos, mas tinha acesso limitado a água potável e eletricidade. 

Aos 15 anos, mudou-se para os Estados Unidos com o incentivo de seu pai. Embora ele soubesse pouco inglês, ele começou a estudar no Hudson Valley Community College e, mais tarde, se transferiu para a University at Albany, SUNY, para terminar seu curso universitário. 

Começou seus estudos de graduação na Universidade de Illinois, Urbana-Champaign e recebeu seu PhD em 1990 sob a orientação de Walter G. Klemperer. 

Ele foi um pós-doutorado da National Science Foundation na Harvard University (1990–1992) com o professor Richard H. Holm.

terça-feira, 25 de agosto de 2026

SOZINHA NO FAROL

 

Mulher se muda sozinha para 

um farol desativado na Noruega

 e passa a monitorar a migração

 de baleias na costa gelada

Mulher se muda sozinha para farol desativado na Noruega e passa os dias monitorando baleias

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Mulher se muda sozinha para um farol desativado na Noruega e passa a monitorar a migração de baleias na costa gelada
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Morar em um farol desativado na Noruega transformou o isolamento de uma mulher em uma rotina dedicada à observação de baleias

Uma mulher que se muda sozinha para um farol desativado na Noruega transforma o isolamento em uma rotina de observação da natureza. Em vez de buscar apenas silêncio em uma construção remota diante do mar frio, ela passa a acompanhar a migração de baleias na costa gelada, registrando avistamentos, mudanças no comportamento dos animais e sinais de um oceano que nunca fica completamente parado.

Por que morar em um farol muda a relação com o mar?

Um farol desativado não é apenas uma casa diferente. Ele fica em um ponto estratégico da paisagem, geralmente exposto ao vento, às marés e ao movimento constante das embarcações e dos animais marinhos.

Para quem vive ali, o mar deixa de ser cenário e vira presença diária. A cada amanhecer, a luz muda, a água muda, os sons mudam e pequenos sinais podem indicar a passagem de aves, cardumes ou baleias próximas à costa.

Como funciona o monitoramento de baleias?

Monitorar baleias exige paciência, atenção e repetição. Nem sempre há grandes cenas visíveis da janela. Muitas vezes, a observação começa com um jato de respiração ao longe, uma sombra escura na superfície ou o movimento de aves seguindo cardumes.

Alguns registros ajudam a acompanhar esses animais:

  • Data e horário de cada avistamento.
  • Local aproximado onde a baleia apareceu.
  • Direção do deslocamento no mar.
  • Número estimado de animais no grupo.
  • Condições do clima, vento e visibilidade.
Mulher se muda sozinha para um farol desativado na Noruega e passa a monitorar a migração de baleias na costa gelada
Morar em um farol desativado na Noruega transformou o isolamento de uma mulher em uma rotina dedicada à observação de baleias

Por que a costa da Noruega atrai baleias?

A costa norueguesa está ligada a rotas de alimentação e deslocamento de diferentes espécies marinhas. Em certas épocas, baleias e orcas acompanham cardumes e aproveitam águas ricas em alimento.

Esse movimento faz do litoral um ponto importante para observação. Fiordes, ilhas e áreas abertas do Atlântico Norte podem oferecer encontros raros, mas também exigem respeito, distância segura e cuidado para não transformar curiosidade em perturbação.

O que a vida isolada revela sobre esse trabalho?

Viver sozinha em um farol exige preparo emocional e prático. Há dias de beleza intensa, mas também há vento forte, frio, silêncio prolongado e sensação de distância do mundo urbano.

Essa rotina pode envolver tarefas simples e constantes:

Rotina de observação e segurança

Cuidados durante a observação

  • 1Manter aquecimento, energia e comunicação funcionando.
  • 2Registrar o clima e as mudanças no mar.
  • 3Observar a costa em diferentes horários do dia.
  • 4Organizar anotações, fotos e vídeos dos animais.
  • 5Respeitar limites de segurança em tempestades e neblina.

Por que observar baleias importa para a conservação?

Observar baleias não serve apenas para admirar animais enormes. Registros frequentes podem ajudar a perceber mudanças nas rotas, na presença de alimento, nos períodos de passagem e na relação entre vida marinha e clima.

Quando uma pessoa acompanha o mesmo trecho do mar por meses ou anos, começa a notar padrões que visitantes ocasionais não percebem. A repetição transforma paisagem em informação.

Qual é a principal lição dessa história?

A principal lição é que isolamento nem sempre significa fuga. Em alguns casos, ele vira uma forma de atenção profunda. Morar em um farol desativado pode parecer uma escolha extrema, mas também cria a possibilidade de observar o mundo natural com uma presença rara.

A mulher que troca a rotina comum por uma costa gelada mostra que a natureza ainda depende de olhares pacientes. Enquanto muitos passam pelo mar apenas como paisagem, ela permanece ali, registrando baleias, vento e silêncio, como se cada avistamento fosse uma prova de que o oceano ainda tem muito a contar.

sexta-feira, 31 de julho de 2026

NAS PROFUNDEZAS DO OCEANO

 

Criatura marinha de 47 metros segue viva nas profundezas desde a época de Napoleão

Uma criatura colossal de 47 metros foi encontrada vagando pela escuridão do oceano, provando que gigantes históricos ainda vivem entre nós. A sifonóforo gigante cresce silenciosamente nas profundezas desde a época de Napoleão, desafiando tudo o que sabemos sobre longevidade no planeta.

Como a sifonóforo gigante consegue atingir esse tamanho?

Diferente de qualquer animal comum, a sifonóforo gigante é um organismo colonial composto por milhares de clones especializados que funcionam como um único corpo. Encontrada por pesquisadores do Schmidt Ocean Institute na costa da Austrália, sua estrutura em espiral captura presas nas profundezas abissais.

Cada parte da criatura tem uma função específica, como reprodução ou alimentação, permitindo crescimento contínuo por séculos. A baixa temperatura e a pressão das profundezas reduzem seu metabolismo, viabilizando uma sobrevivência tão longa e estável.

Criatura marinha de 47 metros segue viva nas profundezas desde a época de Napoleão
Criatura marinha de 47 metros segue viva nas profundezas desde a época de Napoleão

O que o canal CGTN revelou sobre essa descoberta?

O canal CGTN, com 5,21 milhões de inscritos, destacou a descoberta como um dos achados oceanográficos mais impressionantes das últimas décadas. O conteúdo mostrou como a expedição utilizou tecnologia de ponta para registrar a criatura sem causar danos ao seu corpo delicado.

A cobertura reforçou a urgência de proteger os oceanos profundos, ambientes que guardam tesouros biológicos que levaram séculos para se desenvolver. A sifonóforo gigante se tornou símbolo dessa biodiversidade invisível e ameaçada.

Quais são as características biológicas desse ser milenar?

A sifonóforo pertence ao gênero Apolemia e se assemelha a uma corda luminosa e translúcida flutuando nas correntes abissais. Ela não possui cérebro central, operando como uma rede viva altamente eficiente e coordenada.

Veja como sua estrutura colonial funciona na prática:

  1. Milhares de unidades chamadas zooides atuam de forma coordenada para mover o corpo e digerir alimentos.
  2. Células urticantes poderosas são distribuídas ao longo dos 47 metros para paralisar crustáceos e peixes.
  3. Cada zooide é geneticamente idêntico, mas se especializa em uma única função para o benefício do conjunto.

Essa divisão de tarefas torna a sifonóforo um dos exemplos mais extremos de cooperação celular já estudados pela ciência.

Leia também: Um satélite em órbita está testando agora o motor que quebra a Terceira Lei de Newton e os primeiros dados estão deixando cientistas sem resposta

Onde e como a criatura foi descoberta e mapeada?

A expedição explorou os cânions de Ningaloo, uma região de águas profundas e pouco conhecidas, utilizando ROVs para filmar a criatura em alta resolução. O mapeamento revelou que o animal estava posicionado em forma de anel gigante para maximizar sua área de caça.

Confira um comparativo do tamanho da sifonóforo com outras criaturas e estruturas conhecidas:

Criatura marinha de 47 metros segue viva nas profundezas desde a época de Napoleão
Criatura marinha de 47 metros segue viva nas profundezas desde a época de Napoleão

Esses números deixam claro que a sifonóforo gigante é, de longe, o animal mais longo já documentado pela oceanografia moderna.

O que essa descoberta revela sobre os oceanos profundos?

A existência de um organismo tão antigo prova que o fundo do mar é um reservatório de biodiversidade muito mais resiliente do que se imaginava. Ela funciona como um indicador de saúde dos ecossistemas abissais, que permanecem estáveis e produtivos há centenas de anos.

Entender como esses seres sobrevivem por tanto tempo pode oferecer pistas sobre regeneração celular e adaptação a ambientes extremos. Preservar esse gigante é essencial para que futuras gerações estudem os limites da vida biológica em nosso próprio planeta.

quinta-feira, 30 de julho de 2026

A CHUVA QUE VEM DO SAHARA

Poeira do deserto africano semeia nuvens responsáveis por parte a precipitação na Amazônia


Reinaldo José Lopes




Sobre o Atlântico: ventos carregam poeira do Saara para a América do SulEUMETSAT

Num paradoxo intrigante do sistema climático da Terra, uma das regiões mais áridas do planeta parece exercer um papel importante na formação da chuva que rega uma das áreas mais úmidas. Experimentos feitos durante a época mais chuvosa do ano em um trecho de floresta preservada na Amazônia Central, próximo a Manaus, indicam que a poeira do deserto do Saara, transportada por milhares de quilômetros pelos ventos sobre o oceano Atlântico tropical até a América do Sul, ajuda a formar as nuvens responsáveis por 80% da chuva nessa região amazônica. Sobre a floresta, os grãos de poeira do Saara funcionam como núcleos de gelo, plataformas microscópicas em torno das quais a água no estado sólido se agrega e origina as nuvens altas, muito carregadas de chuva.

Os resultados desse trabalho, publicados na edição de maio da revista Nature Geoscience, são surpreendentes e ainda precisam ser aprimorados, ressalta o físico Paulo Artaxo, da Universidade de São Paulo (USP), um dos autores do estudo. “Precisamos descobrir, por exemplo, se essa influência da poeira do Saara ocorre também em outras regiões da Amazônia. Também precisamos de medidas de longo prazo, registradas ao longo de anos, para compreender como esse efeito varia com as estações do ano”, diz o pesquisador. De qualquer maneira, os dados obtidos perto do pico da estação chuvosa na Reserva Biológica do Cuieiras, a 60 quilômetros ao norte de Manaus, sugerem uma contribuição um bocado relevante da poeira do Saara para a concentração de núcleos de gelo na Amazônia Central.

Artaxo e pesquisadores dos Estados Unidos e da Alemanha coletaram amostras de ar nessa região da floresta de 9 de fevereiro a 9 de março de 2008 e encontraram essas partículas de poeira em até 80% dos núcleos de gelo.  A poeira parece alternar sua função de principal semeadora de nuvens de gelo com as chamadas partículas biológicas primárias (bactérias, grãos de pólen, esporos e fragmentos de folhas e de insetos), emitidas pela própria floresta. Ora uma, ora outra era a responsável majoritária pela formação dos núcleos de gelo. Somadas, as duas fontes geraram 99% das sementes de nuvens – nenhuma delas contribuiu com menos de 15% dos núcleos.

A analogia com sementes é útil. Na Amazônia, as nuvens que se formam a grandes altitudes têm entre 15 e 18 quilômetros de espessura e são constituídas por cristais de gelo. São elas que geram as chuvas mais intensas e abundantes, essenciais para o ciclo hidrológico da região. Nuvens mais rasas, com 3 a 5 quilômetros de espessura, surgem mais próximo ao solo a partir de gotas líquidas e contribuem menos para as chuvas da Amazônia.

Nesse estudo, os pesquisadores coletaram as partículas em suspensão – também chamadas de aerossóis – no ar da floresta ao nível do solo e as injetam em uma câmara que permite simular a formação das nuvens profundas convectivas. “Usamos uma câmara que reproduz as condições da atmosfera a até 18 quilômetros acima do solo e até 70 graus Celsius negativos”, diz o físico. É em um ambiente semelhante a esse, com baixa pressão e baixa temperatura, que se formam as nuvens profundas convectivas, justamente as que brotam a partir de núcleos de gelo e respondem pelo grosso da precipitação amazônica. “Estamos planejando experimentos com aviões para o período 2010-2011, para fazer medições em regiões da atmosfera em que as nuvens de gelo se formam. Medir essas partículas em altas altitudes não é trivial”, comenta Artaxo.

A contribuição da poeira do Saara para a chuva amazônica nunca tinha sido flagrada, embora a jornada dos grãos pelo Atlântico fosse relativamente bem conhecida. Dados da agência espacial norte-americana (Nasa) sugerem que 4% da poeira de cada tempestade do deserto atravesse o oceano até as Américas – uma proporção maior, quase 20%, se perde no caminho, depositando partículas de ferro que fertilizam a água do oceano e aumentam a capacidade das algas de absorver carbono da atmosfera. Não são as ventanias no Saara que, isoladamente, trazem o pó até aqui. Parece haver um reservatório constante de partículas flutuando sobre o norte da África, que só é empurrado rumo às Américas quando as condições do vento são apropriadas.

Um grau de mistério significativo ainda envolve os processos físicos da atuação dos aerossóis – sejam os de poeira, sejam os de origem biológica – como núcleos de gelo. “Esses processos ainda não são bem compreendidos”, reconhece Artaxo. A presença de certos metais – ferro no caso da poeira do Saa­ra e zinco no das partículas produzidas pela floresta – parece ser importante para a formação dos núcleos de gelo. Aliás, a presença e a proporção de elementos químicos como alumínio, silício, manganês e ferro permitem confirmar a origem saariana da poeira analisada por Artaxo e colaboradores.

“A proporção desses elementos nas partículas de Manaus é a mesma encontrada na poeira do Saara. E há a correlação entre a presença desses aerossóis e o movimento das massas de ar, o que mostra que não se trata de poeira levantada por um caminhão em uma estrada próxima ao local da coleta, mas de transporte atmosférico de longa distância”, explica Artaxo.

Para o físico, ainda que a contribuição do Saara para a chuva se revele um fenômeno geral para a Amazônia, é difícil dizer o que isso significará num contexto de mudanças climáticas. Num planeta mais quente, chegará mais ou menos poeira até aqui? “Por enquanto precisamos obter mais dados experimentais para tentar responder isso com previsões quantitativas”, afirma.

Em outra publicação recente, desta vez na Science, Artaxo deixou de lado o contexto específico da Amazônia para, com pesquisadores de outros países, se debruçar sobre os efeitos do fogo sobre o clima e a biosfera do planeta ao longo do tempo. Incêndios grandes e pequenos ajudaram, por exemplo, a forjar as várias áreas da savana do mundo ao longo de milhões de anos. E parecem estar se intensificando, diz Artaxo. “É possível ver um aumento da incidência de queimadas no mundo todo nos últimos anos”, afirma.

A equipe calculou que os efeitos dos gases estufa produzidos pelas queimadas correspondem a 19% da contribuição humana para o aquecimento global desde a época pré-industrial. “As queimadas no Brasil geram cerca de 30% dos gases emitidos por queimadas no planeta”, ressalta o físico.

Números à parte, é bem prático: em termos de custo e benefício, reduzir ou eliminar as queimadas é provavelmente um dos melhores investimentos imediatos contra o aquecimento global causado pelo homem, superando planos como a ampliação da rede de usinas nucleares ou a troca da atual frota de automóveis movidos a combustíveis derivados de petróleo por veículos a biocombustíveis ou a hidrogênio. “Com o controle das queimadas, teríamos um retorno rápido em termos de redução de emissões de gases estufa com um investimento muito baixo. Também haveria outros benefícios, como a preservação da biodiversidade amazônica”, ressalta o físico. “A construção acelerada de usinas nucleares ou a renovação global da frota de carros demorariam décadas para reduzir significativamente as emissões de gases estufa.”

Segundo Artaxo, há uma relação indireta entre o crescente descontrole do fogo no planeta e a hipótese da savanização da Amazônia. Essa possibilidade, que aparece com certa frequência em modelos climáticos que tentam prever o futuro da floresta, é consequência da transformação de vastas áreas de mata fechada em formas de vegetação mais abertas e ecologicamente empobrecidas, que lembram superficialmente o Cerrado do Brasil Central. “Com o avanço do desmatamento e a possível redução na taxa de precipitação, talvez surja uma vegetação mais suscetível ao fogo e aumente a incidência de queimadas”, diz Artaxo. “Isso geraria uma realimentação positiva que impulsionaria o processo de savanização da Amazônia.”

O ouro de tolo
Exploração intensa de recursos naturais da Amazônia gera prosperidade passageira  

O modelo de desenvolvimento econômico predominante hoje na Amazônia – que começa com desmatamento e exploração madeireira e culmina com o uso de vastas áreas para pecuária extensiva e agricultura – está mais para um gerador de pobreza do que para um motor de riqueza, ao menos no longo prazo. A conclusão resulta de uma análise conduzida por pesquisadores do Brasil, do Reino Unido, da Nova Zelândia e de Portugal, publicada na edição de 12 de junho da Science. Os municípios amazônicos onde não há desmatamento têm inicialmente um baixo índice de desenvolvimento humano (IDH), indicador que leva em consideração a renda, a escolaridade e a expectativa de vida da população. Com a chegada da fronteira agrícola, esses municípios passam por uma onda de prosperidade e, quando seus recursos naturais se esvaem pela exploração intensa, voltam à situação inicial de IDH baixo.

A análise não avaliou a trajetória dos municípios ao longo dos anos, por não haver uma série temporal disponível, explica a bióloga portuguesa Ana Rodrigues, do Centro de Ecologia Funcional e Evolutiva em Montpellier, França, uma das autoras do estudo do qual participaram os brasileiros Carlos Sousa Júnior e Adalberto Veríssimo, do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon). Ante essa impossibilidade, a equipe comparou locais ainda não engolidos pela fronteira agrícola com outros nos quais a fronteira está muito ativa, além de áreas onde o desmatamento e a ocupação estão quase concluídos. “Nessa classificação, usamos duas variáveis: a porcentagem de área desmatada até 2000, que dá uma ideia da extensão do desflorestamento; e a proporção de floresta derrubada entre 1997 e 2000, que indica se o município estava na fronteira ativa ou não”, diz Ana. O ano 2000 foi usado como referência para coincidir com o do Censo brasileiro, que permitiu calcular o IDH dos municípios.

Os registros mostram que os municípios que desmataram até 60% de sua área – e 0,5% da área total entre 1997 e 2000 – alcançaram um IDH equivalente ao índice médio brasileiro. Já o IDH dos locais em que a proporção de floresta derrubada foi ainda maior e a devastação quase completa foi semelhante ao de regiões da Amazônia em que a floresta está preservada – nessas duas situações, o IDH é inferior ao índice de desenvolvimento humano médio do Brasil. “É provável que haja modelos em que a decadência econômica possa ser evitada apesar do desmatamento, embora eu suspeite de que eles dependeriam de injeções frequentes de investimento vindo de fora da Amazônia”, diz Ana.  O desafio é criar um modelo de desenvolvimento com o mínimo de desmatamento. “Todos ganhariam: seria bom para as pessoas, para os ecossistemas e para reduzir as emissões de carbono responsáveis pela mudança climática global”, comenta. “A situação atual é ruim nessas três frentes.”