terça-feira, 15 de setembro de 2026

FIGARO

 



FLORIPES

(A flor que o preconceito não conseguiu pisar)

Jorge papapá


Entre as décadas de 1960 e 1980, quando Salvador ainda carregava nas pedras do seu Centro Histórico uma vida que parecia existir fora do relógio, uma figura colorida começou a fazer das ruas sua morada, seu palco e sua trincheira.
Era uma Salvador de ladeiras íngremes, sobrados antigos, festas de largo, terreiros, igrejas, bares, becos e personagens que pareciam ter saído de dentro de uma história que a cidade contava para si mesma.
Foi nesse tempo — numa Bahia ainda profundamente conservadora, atravessada pelo preconceito e pelo silêncio em torno das identidades que fugiam às normas sociais — que Floripes apareceu.
Seu nome de batismo era Benedito Matos.
Mas Salvador a conheceu como Floripes.
E algumas pessoas parecem receber da cidade um segundo nascimento.
Floripes nasceu outra vez nas ruas.
Negra, pobre e travesti, atravessava o Pelourinho, a Rua Chile, a Baixa dos Sapateiros e a Ladeira da Montanha com uma liberdade que, para aquele tempo, era quase uma provocação.
Vestia-se de cor, carregava um galho de arruda atrás da orelha e parecia ter feito um pacto secreto com a própria coragem.
Enquanto a sociedade dizia que certos corpos deveriam permanecer escondidos, Floripes fazia justamente o contrário:
colocava seu corpo no mundo.
E Salvador nunca mais seria exatamente a mesma.
A cidade tem uma maneira muito particular de guardar seus personagens.
Alguns ficam nos livros. Outros, nas fotografias, nas placas, nos monumentos. Mas existem aqueles que escapam de qualquer moldura e continuam vivendo na memória das esquinas.
Floripes é uma dessas presenças.
Ela não passou simplesmente por Salvador.
Floripes aconteceu em Salvador.
As ladeiras conheciam seu passo, as pedras reconheciam sua voz, e os becos pareciam se abrir à sua passagem. Havia nela qualquer coisa de teatro, de festa e de encantamento.
Não precisava de carnaval para desfilar.
Não precisava de palco para representar.
A cidade inteira já lhe servia de cenário.
E naquele grande teatro de pedras antigas, sinos, maresia, dendê e pecado, Floripes representava o papel mais difícil de todos:
o de si mesma.
A arruda atrás da orelha era seu pequeno escudo.
Um galho verde contra o mau-olhado, contra a inveja, contra as energias ruins que, naquela Bahia de tantos mistérios, também faziam parte da paisagem.
Mas talvez a arruda fosse mais que proteção.
Talvez fosse uma bandeira.
Uma pequena folha dizendo ao mundo:
“Eu estou aqui.”
E quando vinham as provocações, quando alguma boca atravessava a rua carregando o veneno do preconceito, Floripes não desaparecia.
Parava.
Punha as mãos nas cadeiras.
E devolvia à cidade uma frase que se tornou quase um refrão de sua existência:
“SÓÓÓ NAAA BAAAHIIIAAAAAAA!”
A Bahia ria.
Mas hoje, olhando para trás, é preciso escutar o que havia por trás daquele riso.
Porque Floripes transformava a ofensa em espetáculo, o constrangimento em resposta e o preconceito em uma oportunidade de afirmar a própria existência.
Seu humor não apagava a violência que a cercava.
Ao contrário: fazia da irreverência uma forma de sobreviver.
Há pessoas que enfrentam o mundo com discursos.
Floripes enfrentava com presença.
Seu corpo era sua declaração.
Sua roupa, sua bandeira.
Sua voz, seu manifesto.
Seu jeito de existir, uma espécie de poesia rebelde escrita sobre as pedras de Salvador.
E talvez ninguém tenha percebido, naquele momento, a dimensão histórica daqueles passos.
Porque as grandes transformações nem sempre chegam acompanhadas de trombetas.
Às vezes chegam em silêncio.
Vêm disfarçadas de personagem.
Passam pela esquina.
Entram no bar.
Atravessam a praça.
Sorriem para alguém.
E seguem adiante.
Floripes foi uma dessas revoluções que não derrubaram governos, mas ajudaram a derrubar silêncios.
Ela ocupava espaços onde muitos queriam impor limites.
Estava nas festas de largo, no Bonfim, em Santa Bárbara, nas missas, nos terreiros de candomblé, nos lugares onde Salvador se encontrava com sua fé, sua festa e suas contradições.
Porque essa cidade sempre foi feita de encontros impossíveis.
Aqui o sagrado conversa com o profano.
O sino da igreja encontra o toque do atabaque.
A procissão cruza com a boemia.
O santo divide a paisagem com o malandro.
E o mar, indiferente às diferenças humanas, abraça todos os corpos com a mesma espuma.
Floripes pertencia a essa Salvador.
Uma Salvador que podia acolher e ferir no mesmo abraço.
Uma cidade capaz de rir de alguém e, ao mesmo tempo, transformá-lo em personagem inesquecível.
Talvez por isso sua história não deva ser contada apenas como folclore.
É preciso enxergar a pessoa por trás da personagem.
A mulher por trás da fantasia.
A humanidade por trás do riso.
Porque transformar Floripes apenas numa figura engraçada seria uma maneira silenciosa de diminuir sua importância.
Havia humor, sim.
Havia exagero, cor, irreverência.
Mas havia também uma vida atravessada pelas dificuldades de ser negra, pobre e travesti numa época em que a diferença frequentemente era tratada como pecado, doença, vergonha ou motivo de violência.
E ainda assim ela escolheu aparecer.
Escolheu viver.
Escolheu não pedir desculpas pela própria existência.
Isso também é resistência.
Talvez uma das formas mais profundas de resistência.
Floripes não esperou que o mundo se tornasse generoso para ser livre.
Ela começou pela própria liberdade.
E, sem discursos, abriu pequenas frestas na parede do preconceito.
Cada aparição era uma fresta.
Cada gargalhada, uma rachadura.
Cada passo, uma afirmação.
Cada vez que levantava a cabeça, alguma coisa no velho mundo perdia um pouco de sua autoridade.
Hoje falamos em visibilidade, identidade, respeito, diversidade e direitos.
Palavras necessárias, mas que nem sempre existiram.
Antes delas vieram os corpos.
Vieram as pessoas que desafiaram o silêncio sem ter sequer o vocabulário político para explicar aquilo que estavam fazendo.
Floripes foi uma delas.
Talvez não soubesse que estava escrevendo história.
Talvez só quisesse viver.
E justamente por isso sua história é tão bonita.
Porque algumas pessoas não entram para a história tentando entrar.
Entram porque tiveram a coragem de viver plenamente o próprio tempo.
Floripes viveu.
E deixou marcas.
Não em monumentos.
Não em estátuas.
Mas na memória de Salvador.
Ficou nas ladeiras, nos becos, nas festas, nas histórias contadas por quem a viu passar.
Ficou como ficam certas músicas depois que o rádio silencia.
Como ficam os perfumes depois que alguém vai embora.
Como fica o som de um sino dentro de uma tarde antiga.
E talvez seja por isso que gosto de imaginar que Floripes ainda anda por Salvador.
Não como fantasma.
Como memória viva.
Como certas estrelas que nascem justamente nas noites mais escuras.

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

HAVIA UMA PEDRA

 



UM AUTISTA

 



MORTE E VIDA SEVERINA

Morte e Vida Severina é um livro de poema regionalista e modernista do escritor brasileiro João Cabral de Melo Neto, escrito entre 1954 e 1955 e publicado em 1955.

A obra narra o sofrimento enfrentado por Severino apresentando um poema dramático que relata a dura trajetória de um migrante sertanejo (retirante) em busca de uma vida mais fácil e favorável na capital pernambucana.


Teatro

Adaptada como peça teve sua primeira encenação, autorizada pelo autor, no final da década de 1950, pelo vanguardista grupo Norte Teatro Escola do Pará.[1]

Em 1965, Roberto Freire, diretor do teatro TUCA da PUC de São Paulo, pediu ao então muito jovem Chico Buarque que musicasse a obra, encenada no palco com trinta estudantes e centenas de outros na retaguarda. Desde então sua presença no teatro brasileiro tem sido constante, tendo a referida peça se tornado um sucesso, inclusive recebendo premiação num festival universitário de Nancy, na França (le Quatrième Festival Mondial du Théatre Universitaire), onde foi encenada em 25 de abril de 1966, tendo ali sido bem recebida pela crítica, com destaque em publicações no Le Figaro e no Le Monde.

Em 1966, a peça encenada pelo Teatro da Universidade Católica de São Paulo - TUCA foi lançada em Long Play (LP) pela gravadora PHILIPS, e distribuído pela Companhia Brasileira de Discos.


COMENTÁRIO DO BLOGUEIRO.- Foi em Lisboa que tive a oportunidade de assistir, com profunda emoção, a esta obra-prima. A companhia da PUC voltrava do Festival de Nancy. Salvo erro, só se apresentaram uma noite num teatro da Avenida da Liberdade. Poucas vezes em minha longa vida me emocionei tanto com uma montagem teatral. 

Estava pensando nisso quando assisti ao musical Torto Arrado onde tudo é carregado, exagerado e gritado, com exagero de chavões. Não costumo ser saudoso, achando que antigamente tudo era melhor. Mas neste caso, não há dúvida: perdeu-se a receita.




 

domingo, 13 de setembro de 2026

BICHOS E MÚSICA

 



A CHANEL NEGRA

 Ann Cole Lowe (14 de dezembro de 1898 25 de fevereiro de 1981) foi uma estilista americana. 


Mais conhecida por desenhar o vestido de noiva de tafetá de seda marfim usado por Jacqueline Bouvier quando se casou com John F. Kennedy em 1953, ela foi a primeira afro-americana a se tornar uma estilista de destaque.  

Os designs de Lowe foram populares entre as mulheres da classe alta por cinco décadas, dos anos 1920 aos anos 1960.

Vida pregressa

Lowe nasceu na zona rural de Clayton, Alabama, em 1898  filha de Jane e Jack Lowe.  Ela era bisneta de uma mulher escravizada e de um proprietário de plantação do Alabama.  

Ela tinha uma irmã mais velha, Sallie.  Ann frequentou a escola no Alabama até abandoná-la aos 14 anos.  

O interesse de Lowe por moda, costura e design veio de sua mãe, Janey, e de sua avó, Georgia,  ambas costureiras. Elas administravam um ateliê de costura que era frequentemente frequentado pelas famílias mais importantes de Montgomery e outros membros da alta sociedade.  

A mãe de Lowe morreu quando ela tinha 16 anos. Nessa época, Lowe assumiu os negócios da família.