quinta-feira, 23 de julho de 2026
BANANADA NO BUZU
"O que mudou minha vida foi vender bananada dentro do ônibus, os imóveis foram consequência”, diz fundador de imobiliária que hoje movimenta R$ 400 mi
A Okre Imóveis alcançou R$ 400 milhões em Valor Geral de Vendas (VGV) em 2025 e projeta crescer cerca de 60% neste ano
4 mai 2026
Por: João Pedro Bitencourt
O empresário Paulo Dornelle, fundador da Okre Imóveis Foto: Divulgação
De vendedor de bananada em ônibus no Rio de Janeiro a dono de imobiliária com atuação em três Estados, o empresário Paulo Dornelle, fundador da Okre Imóveis, transformou uma trajetória marcada por dificuldades financeiras em um negócio que hoje movimenta centenas de milhões de reais no mercado imobiliário.
Criada há pouco mais de três anos, a empresa atua principalmente na Zona Sul do Rio de Janeiro e também já expandiu operações para São Paulo e João Pessoa, na Paraíba. Segundo o empresário, a imobiliária alcançou R$ 400 milhões em Valor Geral de Vendas (VGV) em 2025 e projeta crescer cerca de 60% neste ano.
Nascido e criado na Vila Kennedy, em Bangu, Zona Oeste do Rio, Paulo começou a trabalhar ainda na adolescência. Aos 13 anos, passou a vender doces em ônibus na Zona Sul da capital fluminense para ajudar em casa.
Segundo ele, a experiência nos ônibus foi decisiva para desenvolver habilidades que mais tarde utilizaria no mercado imobiliário. “O ônibus te ensina muito. Você aprende a lidar com rejeição, a falar com as pessoas e a criar oportunidades. Isso mudou minha vida. Não foram os imóveis. Os imóveis foram consequência. O que mudou minha vida foi aprender a vender dentro do ônibus”, afirmou.
A entrada no setor imobiliário aconteceu de forma inesperada. Enquanto fazia um bico como auxiliar de pedreiro em uma imobiliária, Paulo chamou a atenção de uma corretora ao ajudar em uma visita a um apartamento. Curioso sobre a profissão, perguntou o que precisava para se tornar corretor. A resposta foi simples: ter concluído o ensino médio. Após insistir durante meses por uma oportunidade, conseguiu entrar na empresa onde iniciaria a carreira.
Sem experiência formal, passou a estudar contratos, documentação e processos imobiliários. “Eu me oferecia para fazer tudo. Virava corretor, office-boy, ajudava gerente. Queria aprender”, contou. Para ele, conquistar a confiança dos gestores da imobiliária foi fundamental para crescer na empresa. O desempenho rápido levou Paulo a cargos de liderança. Aos 24 anos, já ocupava uma diretoria comercial.
A primeira experiência como sócio de um negócio durou até 2022, quando, segundo ele, problemas societários o fizeram recomeçar praticamente do zero. Paulo descreve o período como importante para entender os desafios de uma sociedade empresarial. “Sociedade é como um casamento. Você convive diariamente tentando fazer aquilo funcionar, mas existem princípios que, para mim, não podem ser quebrados. Quando esses princípios se rompem, muitas vezes o relacionamento também acaba”, disse.
Segundo o empresário, a ruptura ocorreu após um período de forte crescimento da empresa. “Foi uma experiência muito difícil para mim. Prefiro não entrar em detalhes, mas foi um momento em que precisei praticamente recomeçar”, afirmou.
Foi nesse contexto que nasceu a Okre Imóveis. A empresa começou pequena, mas apostando fortemente em redes sociais e conexão com clientes. “O mercado mudou muito depois da pandemia. Não basta vender imóvel, você precisa gerar conexão”, afirmou.
Segundo Paulo, a estratégia da empresa foi investir na construção de marca pessoal dos corretores e em conteúdos voltados ao cotidiano do mercado imobiliário, principalmente no Instagram. Ele também acredita em fortalecer a conexão com os funcionários e promove eventos em datas comemorativas.
“Dia das mães é um dia especial, dia das mulheres é um dia especial, dia dos pais é um dia especial. Eu não acredito numa conexão lá fora se ela não existe aqui dentro”, afirmou.
Apesar da expansão, Paulo afirma que o foco atual é consolidar a estrutura da empresa e fortalecer a operação nos mercados onde já atua. “Eu não acredito que uma empresa se consolide em menos de cinco anos. Costumo dizer para o meu pessoal que o primeiro ano é de sobrevivência. O segundo é de afirmação, quando você começa a perceber que o negócio realmente pode dar certo. Já o terceiro, na minha visão, é o período de consolidação”, disse.
Por isso, segundo ele, foi importante começar de forma nichada no Leblon antes de expandir para outros bairros. Hoje, a empresa atua também em Ipanema, Copacabana, Botafogo e Flamengo. Além do Rio, abriu operações em São Paulo e João Pessoa. A capital paraibana, segundo o empresário, tornou-se um dos principais polos de expansão imobiliária do País.
“Hoje, o que estamos fazendo é organizar e fortalecer toda a nossa base e estrutura. Isso passa pela contabilidade, pelo jurídico, pelo pós-venda, pela diretoria e também pelas equipes de apoio, como as profissionais da limpeza, que são muito importantes para o funcionamento da empresa”, afirmou.
O empresário também estuda novas expansões. Entre os mercados analisados estão Vitória, no Espírito Santo, e cidades do Nordeste. No Rio de Janeiro, avalia o Jardim Oceânico, na Barra da Tijuca.
REGRAS PARA IR A PRAIA
Verão europeu tem novas regras para quem visita praias do continente
É BOM SABER
PARA NÃO APANHAR!
https://brasilturis.com.br/2026/07/17/regras-praias-europa-verao-turistas/
PREFEITURA PREDADORA
SALVADOR PERDE 21 MIL M² DE MATA ATLÂNTICA COM DESMATAMENTO EM PATAMARES
João - 04/12/2023 12:59
O parque ecológico Vale Encantado em Patamares sofreu mais um desmatamento ilegal em seu entorno. A empresa Patrimonial Vista Mar derrubou em apenas uma semana 21,2 mil m² de Mata Atlântica. Depois de consumado o crime ambiental, entre 2 e 9 de outubro passado, a empresa vem respondendo a inquérito movido pelo Ministério Público da Bahia e autos de infração da prefeitura e Governo do Estado.
A Prefeitura de Salvador publicou no Diário Oficial de 27 de outubro dois autos de infração. Em um deles, a Secretaria de Desenvolvimento Urbano (SEDUR) afirma que a empresa apresentou Autorização de Supressão da Vegetação “com informações parcialmente falsas, aumentando a poligonal da área de supressão e na quantidade dos lotes”. O outro registra a infração da lei que proíbe derrubar Mata Atlântica em estágio médio de regeneração, o que ocorreu numa área de 3.977m² , segundo a SEDUR.
O Governo do Estado agiu através do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos(INEMA), com apoio da Polícia Ambiental (COPPA). Dois dias após o início do desmate, em 4 de outubro, o INEMA embargou a obra – com multa de R$ 20 mil – pela não realização do devido manejo de fauna, que inclui o resgate e afugentamento de animais silvestres. Ainda assim, policiais da COPPA relataram duas escavadeiras de esteira a trabalhar até o dia 9 e caminhões retirando material lenhoso até 24 de outubro. Pelo descumprimento do embargo, o INEMA aplicou nova multa, desta vez de R$100 mil.
O Coletivo SOS Vale Encantado e as ongs Imaterra e Gambá, que reúnem moradores de Patamares e ativistas, denunciam ainda outros crimes: desmate em encosta de alto declive, corte de mata ciliar de uma das lagoas do parque e destruição de local habitado por animal ameaçado de extinção, no caso o ouriço-cacheiro-preto.
Uma das representantes do Coletivo, Sandra Jovita, alertou para a recorrência dessas práticas no Vale Encantado e outras áreas de Mata Atlântica de Salvador. “Chegam com máquinas pesadas, sem identificação da empresa responsável e derrubam a floresta rapidamente, sem dar a mínima para notificações, multas, embargos, publicização à sociedade e mudanças climáticas. Mesmo assim, nem Governo nem Prefeitura agem para impedir a derrubada e evitar o dano irreparável”.
O ex-síndico da Colina E de Patamares, Carlos Azevedo, disse que a Patrimonial Vista Mar apresentou, somente a ele e no mesmo dia do desmate, uma autorização com emissão atribuída à Prefeitura para suprimir 18,06 mil m² da floresta vizinha à sua casa. “Não deram possibilidade de amplo e antecedente conhecimento aos moradores, como é nosso direito”. Ele contou que uma das moradoras, Carla Veloso, chegou a colocar-se à frente da escavadeira na tentativa, em vão, de impedir a derrubada das árvores.
Depois da emissão dos embargos ao desmatamento, bombeiros foram chamados para apagar um incêndio, que aconteceu por volta das 13 horas do dia 5 de outubro na vegetação que ainda não havia sido derrubada. Um segundo incêndio foi debelado pelos bombeiros na noite de 13 novembro, na mesma área de mata ciliar. Moradores e ativistas cobram que as Polícias Civil e Técnica investiguem a origem das chamas e se foram acidentais ou criminosas.
segunda-feira, 20 de julho de 2026
UMA ALDEIA NA ÍNDIA
Korlai: a aldeia da Índia onde ainda se fala crioulo português
Em Korlai, na Índia, cerca de mil pessoas ainda falam o No Ling, um crioulo com base no português do século XVI. A fortaleza local resistiu a holandeses e maratas até ao século XVIII.
No estado de Maharashtra, na Índia, a aldeia de Korlai tem cerca de mil habitantes que ainda falam o No Ling — um crioulo com base no português, eco distante do século XVI, quando os portugueses ergueram uma cidade fortaleza em Chaul, mesmo em frente a Korlai.
O sotaque e o vocabulário são muito diferentes do português europeu atual, mas a língua representa uma herança linguística singular, mantida viva pela comunidade cristã local há mais de quatro séculos.
De Chaul ao isolamento de Korlai
Chaul foi fundada para reforçar a presença portuguesa no Oriente, tornando-se uma cidade fortificada de relevância militar e económica considerável. No século XVIII, os Maratas destruíram a cidade, encerrando grande parte da influência portuguesa nesta zona da costa indiana.
Ainda assim, um grupo de famílias descendentes de soldados e colonos portugueses — alguns casados com mulheres locais, outros vindos de Goa — permaneceu na zona de Korlai.
Preservaram a fé cristã e os apelidos herdados dos antepassados portugueses, mantendo uma identidade distinta da maioria hindu e muçulmana de língua marata em redor.
Como o isolamento criou uma língua própria
O relativo isolamento desta comunidade em relação aos vizinhos de língua marata permitiu que o No Ling desenvolvesse características próprias, afastando-se progressivamente do português original e incorporando elementos das línguas locais.
Na gramática, há a simplicidade morfológica típica de muitos crioulos; no léxico, uma mistura de palavras portuguesas, indianas, e em menor medida termos ingleses ou adaptados do marata.
É um processo linguístico que se repete em vários crioulos de base portuguesa espalhados pelo antigo império — mas que em Korlai sobreviveu com uma persistência pouco comum.
A fortaleza que resistiu a holandeses e maratas
Construída no século XVI para complementar a defesa de Chaul, a fortaleza de Korlai protegia a embocadura do rio Kundalika e assegurava o controlo das atividades comerciais da região.
Resistiu durante décadas a cercos de potências rivais — holandeses e maratas — antes de ser finalmente abandonada pelos portugueses em meados do século XVIII.
As muralhas remanescentes e a paisagem vista do alto continuam a testemunhar a importância estratégica que este local teve séculos atrás.
A vida religiosa e a ponte de 1986
O quotidiano em Korlai mantém tradições profundamente cristãs — festividades religiosas, veneração de santos, ritos transmitidos ao longo de gerações. O Natal e a Páscoa misturam elementos portugueses e indianos, com cânticos que combinam No Ling e marata numa mesma celebração.
A ponte construída em 1986 sobre o rio Kundalika aproximou a aldeia do mundo exterior, facilitando interação com outras comunidades e trazendo novas oportunidades económicas — mas também expondo a comunidade a pressões de assimilação que antes o isolamento mantinha afastadas.
Uma língua sem ortografia oficial
O No Ling enfrenta dificuldades reais de sobrevivência: não existe ortografia oficial, há poucos registos escritos, e o ensino formal da língua é praticamente inexistente.
Por outro lado, investigações académicas — como o trabalho de J. Clancy Clements sobre a gramática e história desta variante — têm documentado e dado visibilidade ao valor linguístico do No Ling, despertando interesse entre investigadores dedicados à preservação de línguas minoritárias.
O que sobrevive na gastronomia e nos apelidos
Para além da língua e da religião, os costumes herdados dos antepassados portugueses notam-se na gastronomia e em certas expressões artísticas locais.
As famílias mantêm alcunhas lusitanas e transmitem aos mais novos fragmentos de uma história que atravessa dois mundos geograficamente distantes mas culturalmente entrelaçados.
Korlai é um capítulo pouco conhecido da expansão portuguesa — uma fortaleza em ruínas que recorda a antiga presença militar lusa, e uma língua viva que prova que essa presença deixou marcas mais duradouras do que comércio ou batalhas.
Entre a paisagem costeira e as tradições religiosas, Korlai é uma ponte concreta entre o passado e o presente de duas culturas que continuam, ainda hoje, a coexistir na mesma comunidade.

