sábado, 3 de outubro de 2026
MERGULHO
Foto: Dimitri Ganzelevitch
Ainda no
século XX, passei cinco dias subindo e descendo os barrancos pedregosos salpicados
de milenares túmulos nabateus em Petra. Por três vezes, me senti uma formiga
perdida nas colunatas do templo de Karnak. Me emocionei com os jardins de Monserrat
em Sintra e os nevoeiros de Machu-Pichu.
Então, como
não me deslumbrar com a obra de um homem só, que, a duas horas infernais de estrada
de Belo Horizonte (duas horas para 60 km), criou uma reserva de Mata Atlântica
que nem o Burle Marx teria sonhado, um jardim anglo-tropical, um Kew Garden tamanho
GGG, habitado por um New Tate com forte sotaque brasileiro?
Durante três
dias, ou melhor dito três diárias no espetacular Clara resort, usei e abusei
dos carrinhos do hotel para ir e vir dos bangalôs. Paguei sem remorso uma nota
absurda para usufruir de um transporte privado que me permitiria estabelecer meus
próprios roteiros. A idade tem direito a certos privilégios.
Desprezando
a tirania dolorosa de pernas rabugentas, me encantei a vinte aproximados minutos
em cada templo, rezando a fé de um só artista. E quem são estes artistas? Simplesmente
alguns dos melhores do mundo e da atualidade.
Você poderá
se comover ou não com a expressão de nomes famosos nas bienais ou kasseis da
vida. As piscinas e as redes na escuridão de Oiticica não me tocaram. Em
contrapartida do mesmo autor dos parangolés, as paredes coloridas da “Invenção
da Cor, Penetrável Magic Square” me inundaram de uma serena felicidade. Roubei
sim, confesso, um seixo que já mandei colocar numa caixa especial com as cores
da obra. Ao entrar no severo cubo de Adriana Varejão me senti absurdamente
desarmado tal a força e a coerência das obras. Não sei se preferi as vísceras
da parede destruída, o rigor geométrico do interior azulejado ou o gigantismo
dos azulejos barrocos. De Yayoi Kusama, mais famosa japonesa deste terceiro
milênio, esperava submergir numa avalanche de bolas. Penetrei em dois ambientes
hermeticamente obscuros. No primeiro, infinitas luzinhas recriavam algo como
uma via láctea. No segundo, encontrei uma sala de estar classe média onde
dançavam pastilhas luminosas. Magia, poesia, leveza, humor.
Inhotim é
uma das mais belas iniciativas culturais das quais tive a sorte de participar
em quase um século. Ao deixar o instituto, com bizarra impressão de ter
saboreado algum cogumelo proibido, me lembrei de minha chegada ao Brasil, em
1975, quando descobri a pungência de artistas então desconhecidos pelo mercado
e que hoje triunfam nos espaços mais exigentes do mundo, como a parisiense Fondation
Cartier que, a dois passos do Louvre, apresenta pelo menos sete excelentes
brasileiros. Solange Pessoa, Adriana Varejão, Veio, Aurelino, Ehuana Yaira, Claudia Andujar e Luiz Zerbini.
Dimitri Ganzelevitch
A Tarde, sábado
sexta-feira, 2 de outubro de 2026
COMUNICADO DA SANTA LUZIA FILMES
PANDORA E AS ELEIÇÕES
ARMANDO AVENA

O diabo sabe citar as Escrituras quando lhe convém, diz o Evangelho. Por isso, quando se busca a mudança, é preciso ter cuidado para não dar o poder ao diabo travestido de anjo. É verdade que o fascínio pela mudança encanta homens e mulheres, mas vale lembrar: mudar pode ser bom, mas mudar para pior pode ser trágico.
Os gregos, por exemplo, contam a história de Faetonte, filho de Hélio, o deus que conduzia diariamente o Sol pelo céu. Orgulhoso da sua origem divina, Faetonte queria conduzir o carro do Sol, como fez seu pai.
Não é fácil, porém, para alguém inexperiente, que sempre andou por sítios sombrios, controlar os cavalos alados e manter o carro do Sol na trajetória correta. Contra todas as evidências, Faetonte afirma que está preparado e diz que vai conduzi-lo como ninguém jamais o fez.
Quando, todavia, assume o carro, percebe que não tem a mínima condição de controlar os cavalos. O carro solar sai de sua rota e aproxima-se demais da Terra, queimando campos e cidades. Depois sobe excessivamente e deixa regiões inteiras sob um frio terrível. A desordem ameaça o equilíbrio do mundo. Então, Zeus intervém e fulmina Faetonte com um raio, fazendo-o cair do céu.
Aquilo que parecia uma renovação grandiosa transformou-se em catástrofe porque a capacidade de conduzir o poder foi menor do que a ambição de exercê-lo. E o mundo descobriu, tarde demais, que, às vezes, mudar não é necessariamente mudar para melhor. Qualquer semelhança com o processo eleitoral brasileiro não é mera coincidência.
O ser humano tem fascínio pela mudança e é bom que seja assim, mas a mudança por si só não é garantia de avanço, pelo contrário, pode ser o signo do retrocesso.
Aliás, em se tratando de eleições, foi isso que aconteceu no Brasil no governo Bolsonaro, que fez o país retroceder e quase destruiu a Democracia. A mudança não pode ser um salto no escuro: é preciso saber quem a está propondo, qual é sua história, quais títulos acumulou, que experiência possui e o que já fez quando teve responsabilidades semelhantes, se é que as teve. A novidade pode ser sedutora, mas governar exige mais do que discurso de renovação. Antes de trocar o conhecido pelo desconhecido, é prudente examinar o passado de quem pretende conduzir o futuro.
São os gregos que novamente lembram aos que vão votar os perigos de abrir uma caixa sem saber o que existe dentro. Quando Pandora abre a caixa que recebeu de Zeus com a ordem explícita de não a abrir, ela liberta todos os infortúnios que podem afligir um povo. Quando percebeu o que havia feito e tentou fechá-la, os males já estavam soltos no mundo.
Diferente de Pandora, já sabemos o que existe na caixa que a família Bolsonaro nos apresenta. E não devemos abri-la esperando uma mudança que não virá.
O problema da mudança não é saber o que se pode ganhar com ela, mas saber o que se pode perder.
Publicado no jornal A Tarde em 02/10/2026
FARNACE
Cecilia Bartoli (Roma, 4 de junho de 1966) é uma cantora lírica mezzo-soprano italiana e uma popular intérprete de óperas e recitais.
Conhecida por seus papéis em óperas de Mozart e Rossini, Bartoli também é uma aclamada intérprete de cantos barrocos. Diferentemente da maioria de cantores de ópera, Bartoli tornou-se mundialmente célebre muito jovem, ainda com menos de vinte anos de idade.
Entre os seus títulos, contam-se o de Cavalieri de Itália e de Chevalier des Arts et des Lettres, atribuído pelo governo francês. Cecilia Bartoli foi eleita Membro Honorário da Real Academia de Música em Londres e Accademico Effetivo di Santa Cecilia em Roma.
