Foto: Dimitri Ganzelevitch
Ainda no
século XX, passei cinco dias subindo e descendo os barrancos pedregosos salpicados
de milenares túmulos nabateus em Petra. Por três vezes, me senti uma formiga
perdida nas colunatas do templo de Karnak. Me emocionei com os jardins de Monserrat
em Sintra e os nevoeiros de Machu-Pichu.
Então, como
não me deslumbrar com a obra de um homem só, que, a duas horas infernais de estrada
de Belo Horizonte (duas horas para 60 km), criou uma reserva de Mata Atlântica
que nem o Burle Marx teria sonhado, um jardim anglo-tropical, um Kew Garden tamanho
GGG, habitado por um New Tate com forte sotaque brasileiro?
Durante três
dias, ou melhor dito três diárias no espetacular Clara resort, usei e abusei
dos carrinhos do hotel para ir e vir dos bangalôs. Paguei sem remorso uma nota
absurda para usufruir de um transporte privado que me permitiria estabelecer meus
próprios roteiros. A idade tem direito a certos privilégios.
Desprezando
a tirania dolorosa de pernas rabugentas, me encantei a vinte aproximados minutos
em cada templo, rezando a fé de um só artista. E quem são estes artistas? Simplesmente
alguns dos melhores do mundo e da atualidade.
Você poderá
se comover ou não com a expressão de nomes famosos nas bienais ou kasseis da
vida. As piscinas e as redes na escuridão de Oiticica não me tocaram. Em
contrapartida do mesmo autor dos parangolés, as paredes coloridas da “Invenção
da Cor, Penetrável Magic Square” me inundaram de uma serena felicidade. Roubei
sim, confesso, um seixo que já mandei colocar numa caixa especial com as cores
da obra. Ao entrar no severo cubo de Adriana Varejão me senti absurdamente
desarmado tal a força e a coerência das obras. Não sei se preferi as vísceras
da parede destruída, o rigor geométrico do interior azulejado ou o gigantismo
dos azulejos barrocos. De Yayoi Kusama, mais famosa japonesa deste terceiro
milênio, esperava submergir numa avalanche de bolas. Penetrei em dois ambientes
hermeticamente obscuros. No primeiro, infinitas luzinhas recriavam algo como
uma via láctea. No segundo, encontrei uma sala de estar classe média onde
dançavam pastilhas luminosas. Magia, poesia, leveza, humor.
Inhotim é
uma das mais belas iniciativas culturais das quais tive a sorte de participar
em quase um século. Ao deixar o instituto, com bizarra impressão de ter
saboreado algum cogumelo proibido, me lembrei de minha chegada ao Brasil, em
1975, quando descobri a pungência de artistas então desconhecidos pelo mercado
e que hoje triunfam nos espaços mais exigentes do mundo, como a parisiense Fondation
Cartier que, a dois passos do Louvre, apresenta pelo menos sete excelentes
brasileiros. Solange Pessoa, Adriana Varejão, Veio, Aurelino, Ehuana Yaira, Claudia Andujar e Luiz Zerbini.
Dimitri Ganzelevitch
A Tarde, sábado

