domingo, 20 de setembro de 2026

E SE FOSSE LULA?



Pense bem antes de responder.
Flávio Bolsonaro já foi denunciado no caso das rachadinhas por peculato e lavagem; a denúncia acabou rejeitada depois que provas foram anuladas, sem julgamento do mérito das acusações.
Hoje é formalmente investigado no caso Dark Horse. A PF diz que ele era interlocutor direto de Daniel Vorcaro, pediu R$ 131 milhões para o filme e que cerca de R$ 60 milhões foram pagos; o inquérito apura suspeitas de lavagem, evasão de divisas e corrupção.
Durante a campanha, usou em São Paulo apartamento de Willer Tomaz que antes pertencera a Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro. O uso virou questionamento eleitoral.
E há Angra.
Flávio comemorou o aniversário da filha numa mansão de luxo cedida gratuitamente por Tomaz e administrada pela Prime You, empresa da qual Vorcaro fora sócio.
Agora troque um único nome.
E SE FOSSE LULA?
Você pediria investigação? Exigiria explicações? Falaria em corrupção?
Então esse é o teste.
Combater corrupção não é escolher quem merece ser investigado; é conservar a mesma indignação quando muda o sobrenome.
Se a sua régua muda junto com o político, ela nunca foi uma régua; sempre foi uma bandeira.
- Julio Benchimol Pinto

HUMILHOU O GUARDA

 

Justiça manda desembargador 

indenizar guarda humilhado 

na pandemia

A condenação já transitou em julgado e não cabe mais recurso.

Eduardo Siqueira

247 – A Justiça de São Paulo determinou que o desembargador Eduardo Almeida Prado Rocha de Siqueira pague R$ 54 mil por danos morais ao guarda municipal Cícero Hilário Roza Neto, envolvido em uma abordagem que ganhou repercussão nacional durante a pandemia de Covid-19, em 2020. A condenação já transitou em julgado e não cabe mais recurso.

Segundo o colunista Rogério Gentile, do UOL, a ordem de pagamento foi dada pelo juiz Renato Garcez no fim de agosto. O processo foi movido pelo guarda, que afirmou ter sido humilhado por Siqueira durante uma fiscalização realizada em Santos, no litoral paulista.

O episódio ocorreu em julho de 2020, quando o desembargador foi abordado enquanto caminhava em uma praia sem utilizar máscara de proteção, cujo uso havia sido tornado obrigatório por decreto municipal durante a pandemia. Na ocasião, Siqueira chamou o agente de “analfabeto”.

Durante a abordagem, o desembargador também rasgou a multa aplicada pela Guarda Municipal e jogou o documento no chão. Ele ainda telefonou para o então secretário municipal de Segurança Pública em uma tentativa de contestar a autuação. A cena foi registrada em vídeo por outro agente e teve ampla repercussão nas redes sociais.

No processo, Cícero Hilário Roza Neto sustentou que a conduta do magistrado foi ofensiva e que Siqueira teria utilizado a posição profissional para tentar desqualificá-lo durante o exercício de sua função.

“Ele se acha no direito de humilhar, menosprezar, desrespeitar, constranger e ofender as pessoas, simplesmente prevalecendo-se da condição de desembargador”, afirmou o guarda à Justiça.


A defesa de Siqueira, por sua vez, atribuiu o episódio à indignação do desembargador com o decreto municipal que exigia o uso de máscaras nas ruas. No processo, ele argumentou que considerava a norma inconstitucional e que estava com os ânimos exaltados em razão de abordagens anteriores feitas pela Guarda Municipal.

“O desembargador foi vítima de uma armação, de um flagrante preparado pelos guardas”, declarou sua defesa no processo.

O guarda contestou essa versão e afirmou que Siqueira tentava se apresentar como vítima de uma situação provocada por sua própria conduta.

Além da condenação na esfera judicial, o episódio também teve consequências disciplinares. Siqueira foi aposentado compulsoriamente pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), medida que o afastou definitivamente do exercício da magistratura.

Com o encerramento definitivo do processo indenizatório, o desembargador deverá realizar o pagamento de R$ 54 mil ao guarda municipal. A decisão estabelece prazo de 15 dias, contado a partir da intimação, para o cumprimento da obrigação.


 

A defesa de Siqueira, por sua vez, atribuiu o episódio à indignação do desembargador com o decreto municipal que exigia o uso de máscaras nas ruas. No processo, ele argumentou que considerava a norma inconstitucional e que estava com os ânimos exaltados em razão de abordagens anteriores feitas pela Guarda Municipal.

“O desembargador foi vítima de uma armação, de um flagrante preparado pelos guardas”, declarou sua defesa no processo.

O guarda contestou essa versão e afirmou que Siqueira tentava se apresentar como vítima de uma situação provocada por sua própria conduta.

Além da condenação na esfera judicial, o episódio também teve consequências disciplinares. Siqueira foi aposentado compulsoriamente pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), medida que o afastou definitivamente do exercício da magistratura.

Com o encerramento definitivo do processo indenizatório, o desembargador deverá realizar o pagamento de R$ 54 mil ao guarda municipal. A decisão estabelece prazo de 15 dias, contado a partir da intimação, para o cumprimento da obrigação.

O PAPA E O MUNDO ÁRABE

 

Representantes do mundo árabe se encontram com o Papa para testemunhar que a paz não é uma utopia

Na Audiência Geral desta quarta-feira, 9 de setembro, estiveram presentes vários sacerdotes e leigos ucranianos da Igreja greco-católica, que se encontram em Roma para participar de um fórum que se realiza de 8 a 10 de setembro. Também presentes na Praça São Pedro estiveram a "Plataforma Inter-religiosa para o Diálogo e a Cooperação no Mundo Árabe" e membros do Kaiciid.
O Papa com representantes da Plataforma Inter-religiosa para o Diálogo e a Cooperação no Mundo Árabe  (@Vatican Media)

Rosario Capomasi – Vatican News

"Consola-nos o encorajamento do Papa quando diz que Deus nos criou à sua imagem e semelhança e nos deu uma dignidade única e indelével", que deve ser sempre defendida num mundo afligido por guerras e violência de todos os tipos, "como vivemos diariamente no nosso país". Estas são as palavras de alguns sacerdotes e leigos ucranianos da Igreja greco-católica que participaram da Audiência Geral na última quarta-feira (09/09), na Praça São Pedro. Nestes dias eles estão em Roma participando do fórum dos responsáveis pela Pastoral Juvenil que trabalham nas eparquias e nos exarcados europeus. O encontro teve início na última terça-feira, dia 8, e se conclui nesta quinta-feira, 10 de setembro.

Sacerdotes e leigos da Igreja greco-católica ucraniana doam ao Papa um traje tradicional   (@Vatican Media)

A gratidão pela proximidade ao sofrimento do povo ucraniano

Os representans do mundo árabe agradeceram ao Papa Leão XIV pelo que ele destacou esta manhã em sua catequese da Audiência Geral e, mais ainda, pelos seus repetidos apelos pela paz em sua terra, conforme feito no Angelus do último domingo, quando o Pontífice desejou o fim do conflito na Ucrânia e expressou sua proximidade “ao sofrimento da população, que há anos vive na angústia e no medo”. Angústia que, pelo menos no dia do encontro com o Pontífice, pareceu, no entanto, desaparecer no olhar desses jovens, alguns dos quais se refugiaram em outros países. Na Audiência Geral, eles estavam acompanhados pelo bispo redentorista Bryan J. Baida, ordinário dos ucranianos de Toronto, e pelo padre Roman Dermush, vice-diretor da Comissão de Pastoral Juvenil da Igreja greco-católica ucraniana (UGCC). “Nosso desafio — explicou ele — é fortalecer e fazer crescer a fé e a espiritualidade dos jovens ucranianos que fugiram de sua terra, procurando aliviar o seu o seu sofrimento. Nesse sentido, agradecemos ao Pontífice por sua incansável proximidade às aflições de nosso povo, uma proximidade que também nos ajuda a curar as feridas visíveis e invisíveis da pessoa”.


No caminho do diálogo com o mundo árabe e budista

Também este presente na Praça São Pedro, na última quarta-feira, no âmbito da Audiência Geral, a "Plataforma Inter-religiosa para o Diálogo e a Cooperação no Mundo Árabe". O compromisso dessa plataforma "também cresce no caminho da reconciliação". Os membros do organismo encontram-se em Roma, por ocasião de uma reunião com o Centro Internacional Rei Abdullah bin Abdulaziz para o Diálogo Inter-religioso e Intercultural (KAICIID), representado na Praça São Pedro pelo secretário-geral António de Almeida-Ribeiro, que foram recebidos pelo Papa. "Queríamos nos encontrar com Leão XIV durante o nosso encontro em Roma", observou o secretário, "para reafirmar mais uma vez a nossa dedicação absoluta ao diálogo entre as religiões, como um caminho indispensável para alcançar a concórdia não só no Oriente Médio, mas em todos os lugares. Hoje estamos aqui, junto com representantes dos mundos copta, xiita e sunita, para testemunhar que a paz não é uma utopia".

Não muito longe dali, reafirmou essas palavras, o xaveriano Paulin Batairwa Kubuya, subsecretário do Dicastério para o Diálogo Inter-religioso, que acompanhou uma delegação de cerca de vinte monges budistas japoneses. A participação na audiência de quarta-feira, explicou ele, é "uma tradição que se renova desde 1965, quando o Concílio Vaticano II se abriu oficialmente ao budismo graças à declaração Nostra aetate".

O Papa fazendo um giro de papamóvel pela Praça São Pedro para saudar os fiéis   (@VATICAN MEDIA)

MIL ANOS DE UNICIDADE

 

Tapeçaria de Bayeux: por que a obra medieval atrai multidões

Katharina Abel
11 de setembro de 2026

Peça de cerca de 70 metros de comprimento e retratando 58 cenas é exibida no Museu Britânico após grande expectativa. Ela é considerada por muitos como um símbolo da identidade do Reino Unido.

Obra-prima da Alta Idade Média: a Tapeçaria de Bayeux (detalhe)
Obra-prima da Alta Idade Média: a Tapeçaria de Bayeux (detalhe)

Antes de tudo, é preciso esclarecer um ponto: tecnicamente, não se trata de uma tapeçaria. Tapeçarias são tecidas, enquanto esta obra é um bordado feito sobre linho. Apesar disso, ela é tradicionalmente conhecida por esse nome.

Com cerca de 70 metros de comprimento, essa narrativa visual retrata os acontecimentos que cercaram a Conquista Normanda da Inglaterra, em 1066, culminando na Batalha de Hastings e na vitória de Guilherme, o Conquistador, sobre Haroldo 2º.

A Conquista Normanda mudou radicalmente a Inglaterra: política, leis e cultura passaram a ser influenciadas pelo domínio normando. A Tapeçaria de Bayeux testemunha esse acontecimento e, ao mesmo tempo, é um exemplo extraordinário da habilidade artesanal inglesa na Idade Média. Por isso, muitos britânicos a consideram um dos mais importantes símbolos da identidade nacional, ao lado das obras de Shakespeare ou de Stonehenge.

Acredita-se que a tapeçaria tenha sido encomendada pelo bispo de Bayeux, meio-irmão de Guilherme e presente na batalha, a bordadores do sul da Inglaterra, para a inauguração de sua catedral, em 1070. Na época, os bordadores anglo-saxões eram famosos em toda a Europa por sua habilidade. Posteriormente, a obra foi levada para a França, onde permaneceu por quase mil anos, até agora.

Por que a Tapeçaria de Bayeux é tão importante?

A Tapeçaria de Bayeux é considerada um dos mais importantes monumentos pictóricos da Alta Idade Média. Muitos pesquisadores a veem como uma sofisticada peça de propaganda, criada para mostrar e explicar a vitória de Guilherme, o Conquistador, ao público da época. Sua mensagem, ainda alvo de debates acadêmicos, é que Haroldo Godwinson, então conde de Wessex, havia feito um juramento sagrado sobre relíquias, prometendo apoiar a reivindicação de Guilherme ao trono inglês. Ao quebrar esse juramento e coroar-se rei, teria justificado a guerra que se seguiu, retratada como uma punição legítima. O fato de Haroldo provavelmente não ter feito esse juramento por livre vontade é irrelevante para a narrativa apresentada no bordado.

A obra faz parte do Registro Memória do Mundo da Unesco e, devido às suas 58 cenas ilustradas, às vezes é chamada de "a história em quadrinhos mais antiga do mundo".

Acompanhada por inscrições em latim, a narrativa visual mostra os horrores da guerra, incluindo massacres, cabeças rolando e a morte de um rei.

Mas a tapeçaria também é um valioso documento histórico para os pesquisadores. Ela retrata com detalhes surpreendentes a construção naval, o equipamento militar e aspectos do cotidiano medieval. Até mesmo o Cometa Halley aparece na obra. O cometa foi visível nos céus em 1066 e é interpretado na narrativa visual como um mau presságio para os anglo-saxões.

Detalhe da Tapeçaria de Bayeux mostra Haroldo prestando juramento solene
Haroldo prestando juramento soleneFoto: Pascal Deloche/Godong/picture alliance

Por que demorou tanto para a tapeçaria ser emprestada?

A tapeçaria pertence ao Estado francês e estava sob custódia da cidade de Bayeux, onde era exibida no Museu da Tapeçaria de Bayeux.

O Reino Unido já havia tentado obter a obra emprestada para a coroação de Elizabeth 2ª, em 1953, além de outras ocasiões históricas posteriores, mas a França sempre recusou. O artefato era considerado frágil demais, e a viagem, arriscada demais.

Por fim, no ano passado, o presidente francês, Emmanuel Macron, autorizou a exposição no Museu Britânico, contrariando as preocupações manifestadas por especialistas.

Em setembro do ano passado, a tapeçaria foi então retirada de exibição, embalada e colocada em armazenamento em uma operação altamente complexa que durou seis horas.

Em 9 de julho, ela finalmente chegou a Londres em uma operação de transporte mantida em sigilo. A obra foi acondicionada em um contêiner de alta tecnologia capaz de protegê-la de vibrações, além de manter temperatura e umidade constantes.

O governo britânico também contratou um seguro de 800 milhões de libras esterlinas para a obra, o equivalente a cerca de R$ 5 bilhões.

Trabalhadores e voluntários removem cuidadosamente a Tapeçaria de Bayeux, do século 11, de seu local de exibição na França.
Remoção da obra de seu local de exibição na França exigiu um esforço meticulosamente coordenado que durou horasFoto: Lou Benoist/AP Photo/picture alliance

Onde conseguir ingressos?

O Museu Britânico dividiu a venda de ingressos em três fases. A primeira, para visitas entre setembro e dezembro, começou em 1º de julho. Todos os ingressos se esgotaram rapidamente, com relatos de até 80 mil pessoas tentando garantir uma vaga ao mesmo tempo. Muitos enfrentaram esperas de até nove horas.

Para quem perdeu essa oportunidade, haverá novas chances em breve: os ingressos para o período de janeiro a março serão colocados à venda em 21 de outubro, e os ingressos para abril a julho estarão disponíveis em janeiro.

A exposição está sendo promovida como um evento raro, "de uma vez por geração", e um amplo programa educacional pretende envolver escolas de todo o país.

O Museu Britânico acredita que a Tapeçaria de Bayeux poderá ajudá-lo a estabelecer um novo recorde de público. Até hoje, a exposição mais visitada da história da instituição continua sendo "Os Tesouros de Tutancâmon", realizada em 1972, que atraiu quase 1,7 milhão de visitantes.

Ficou sem ingresso? Existe uma alternativa

Se você está animado para ver a tapeçaria, mas não tem certeza de que conseguirá um ingresso, pode visitar a cidade de Reading, cerca de duas horas a oeste de Londres. Lá está exposta uma réplica fiel da obra, que por si só já tem 140 anos.

Mesmo naquela época, havia um forte desejo de ter essa obra na Inglaterra. Em 1885, 35 bordadores iniciaram um trabalho que durou cerca de um ano. Utilizando fotografias colorizadas como referência, reproduziram a tapeçaria em escala real.

No entanto, eles alteraram um detalhe. Algumas figuras presentes na borda do original aparecem nuas e em poses sugestivas. Pelo visto, isso foi considerado escandaloso demais para a moral vitoriana inglesa. Uma das figuras foi retocada na fotografia correspondente, e os bordadores copiaram essa alteração. Como resultado, a personagem passou a aparecer usando roupa íntima.

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ESCRAVIDÃO NA BAHIA

 

Por g1 Feira de Santana e região

Homens são resgatados em situação semelhante à escravidão

Homens são resgatados em situação semelhante à escravidão

Quatro trabalhadores foram resgatados de condições análogas à escravidão em uma comunidade terapêutica, em Feira de Santana, segunda maior cidade da Bahia. Três deles haviam sido acolhidos inicialmente como pacientes, mas passaram a desempenhar de forma habitual atividades essenciais para o funcionamento da instituição.

A situação foi flagrada durante uma fiscalização realizada por auditores-fiscais do trabalho, vinculados à Secretaria de Inspeção do Trabalho (SIT) do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).

A vistoria constatou que nenhum dos trabalhadores tinha registro ou contrato de trabalho formalizado. Eles eram submetidos a condições consideradas degradantes, com problemas relacionados à moradia, remuneração, jornada, descanso, higiene e segurança.

Além dos três trabalhadores que eram pacientes, o quarto resgatado havia sido contratado diretamente pela instituição em agosto de 2025 para cuidar das pessoas acolhidas, administrar medicamentos, preparar alimentos e acompanhá-las em atendimentos de saúde. Mas o trabalhador recebia remuneração inferior ao salário mínimo pela atividade.

Acolhidos eram usados como mão de obra

Trabalhadores resgatados de condições análogas à escravidão — Foto: Auditoria-Fiscal do Trabalho (SIT/MTE)

Trabalhadores resgatados de condições análogas à escravidão — Foto: Auditoria-Fiscal do Trabalho (SIT/MTE)

A Inspeção do Trabalho constatou que a instituição utilizava de forma permanente a mão de obra dos próprios acolhidos. Entre as atividades realizadas estavam limpeza, manutenção, lavagem manual das roupas dos moradores, preparo de alimentos, monitoria e cuidados com outros residentes.

De acordo com a fiscalização, as tarefas eram apresentadas aos acolhidos como parte do processo de recuperação, sob o argumento de que o trabalho contribuiria para o tratamento.

No entanto, não foi identificado um plano terapêutico que justificasse a realização permanente dessas atividades, inclusive aos finais de semana.

A fiscalização também informou que não encontrou no local profissionais com formação na área de saúde ou qualificação específica para acompanhar tecnicamente os acolhidos, apesar de serem realizados cuidados cotidianos e administração de medicamentos.

Um dos trabalhadores estava na instituição havia mais de 15 anos. Segundo os auditores, ele se encontrava em situação de acentuada vulnerabilidade social, com pouco contato com familiares e sem meios próprios de comunicação.

Moradia e jornada

Os quatro trabalhadores moravam e dormiam no mesmo ambiente onde realizavam as atividades de trabalho. Segundo o MTE, não havia separação adequada entre os espaços destinados à moradia e ao trabalho.

A fiscalização também identificou remuneração irregular e inferior ao salário mínimo. Em um dos casos, o trabalhador não recebia qualquer pagamento pelos serviços realizados.

Em outro, o benefício assistencial recebido pelo trabalhador era entregue integralmente ao dirigente da instituição, que devolvia mensalmente uma quantia inferior como pagamento pelas tarefas executadas. Também não havia uma escala regular de trabalho que garantisse períodos definidos de descanso.

Conforme os relatos registrados durante a fiscalização, um dos trabalhadores chegou a trabalhar por aproximadamente 25 dias consecutivos antes de ter uma folga. Outro afirmou que a próxima previsão de descanso seria apenas no fim do ano.

Os auditores apontaram ainda a existência de jornadas contínuas, ausência de descanso semanal remunerado e de intervalos durante e entre as jornadas. Os trabalhadores permaneciam disponíveis para atender às demandas dos acolhidos, inclusive durante a noite.

Também foram constatadas falhas no fornecimento de equipamentos de proteção individual, além da ausência de exames médicos ocupacionais e treinamentos.

Trabalho análogo à escravidão

Segundo a Auditoria-Fiscal do Trabalho, as irregularidades encontradas, analisadas em conjunto, ultrapassavam situações trabalhistas isoladas e caracterizavam submissão a trabalhos forçados, jornada exaustiva e condições degradantes de trabalho.

Essas situações estão previstas no artigo 149 do Código Penal como modalidades de trabalho em condição análoga à de escravo.

A legislação brasileira não exige que a vítima esteja presa ou acorrentada para que a situação seja caracterizada. A condição pode ocorrer, entre outras formas, pela submissão a trabalho forçado, jornada exaustiva, condições degradantes ou restrição da liberdade de locomoção em razão de dívida.

Vínculos foram reconhecidos

A Auditoria-Fiscal do Trabalho reconheceu o vínculo de emprego dos quatro trabalhadores e determinou a interrupção das violações encontradas.

Os vínculos foram formalizados no eSocial desde as respectivas datas de admissão, com os correspondentes recolhimentos do FGTS e das contribuições previdenciárias. Também foram asseguradas as verbas trabalhistas devidas.

Os trabalhadores terão ainda acesso ao seguro-desemprego destinado especificamente a pessoas resgatadas de condições análogas à escravidão, desde que atendam aos requisitos legais.

A fiscalização também adotará medidas administrativas, incluindo a lavratura de autos de infração pelas irregularidades constatadas e de auto específico relacionado à submissão de trabalhadores a condições análogas às de escravo.

A operação foi coordenada pela Auditoria-Fiscal do Trabalho e contou com a participação do Ministério Público do Trabalho (MPT) e da Polícia Federal (PF).

Além do resgate dos trabalhadores, foram articuladas medidas para garantir a proteção das demais pessoas que permaneciam acolhidas na instituição. A preocupação, segundo o MTE, era evitar que a interrupção das condições de exploração provocasse desassistência aos demais residentes.

Para isso, foram mobilizadas a rede local de saúde, assistência social e outros serviços de proteção a pessoas em situação de vulnerabilidade. A operação permanece em andamento.

Como denunciar

Existe um canal específico para denúncias de trabalho análogo à escravidão: é o Sistema Ipê, disponível pela internet. O denunciante não precisa se identificar, basta acessar o sistema e inserir o maior número possível de informações. A ideia é que a fiscalização possa, a partir dessas informações do denunciante, analisar se o caso de fato configura trabalho análogo à escravidão e realizar as verificações no local.