sexta-feira, 21 de agosto de 2026

UMA ELEFANTA CHAMADA MUNDI

 

Após viver quase 35 anos sozinha em zoológico de Porto Rico, elefanta Mundi deixou um recinto de cerca de 1.400 metros quadrados, embarcou em um Boeing 747 e foi levada aos 41 anos para um santuário na Geórgia, onde passou a ter espaço para adaptação e convivência com outros elefantes

Imagem de perfil do autor Carla Teles
Escrito por Carla TelesPublicado em 19/08/2026
Após viver quase 35 anos sozinha em zoológico de Porto Rico, elefanta Mundi deixou um recinto de cerca de 1.400 metros quadrados, embarcou em um Boeing 747 e foi levada aos 41 anos para
Após quase 35 anos sozinha, elefanta Mundi deixa zoológico de Porto Rico e chega a santuário na Geórgia. Imagem: Elephant Aid International

Após décadas no zoológico de Mayagüez, a elefanta Mundi foi transferida em 12 de maio de 2023 para o Elephant Refuge North America, na Geórgia, depois de viver sozinha em área de cerca de 15 mil pés quadrados, equivalente a 1.400 m², com abrigo fechado e limitações de espaço físico.

A elefanta Mundi passou quase 35 anos sozinha no antigo zoológico Juan A. Rivero, em Mayagüez, Porto Rico, antes de ser transferida aos 41 anos para o Elephant Refuge North America, na Geórgia. Nascida no Zimbábue e levada ainda jovem aos Estados Unidos, ela atravessou décadas de mudanças de proprietários e instituições até chegar ao refúgio em 12 de maio de 2023.

A cronologia é registrada pela Elephant Aid International (EAI), organização responsável pelo santuário. Segundo a entidade, Mundi nasceu em 12 de maio de 1982 e chegou ao refúgio exatamente em seu 41º aniversário. A instituição informa ainda que ela havia permanecido sozinha desde 1988 em um espaço de aproximadamente 15 mil pés quadrados, cerca de 1.400 m².

Elefanta Mundi nasceu no Zimbábue e chegou aos Estados Unidos ainda jovem

Mundi é uma elefanta-africana-da-savana nascida em ambiente selvagem no Zimbábue. Em 1984, aos dois anos, ela integrou um grupo de 63 jovens elefantes africanos levado aos Estados Unidos depois que operações de abate realizadas no país africano deixaram filhotes órfãos, segundo a Elephant Aid International.

O grupo foi levado para uma propriedade em Ocala, na Flórida. Dois anos depois, entretanto, os animais foram separados e destinados a zoológicos, circos e proprietários particulares. A dispersão daquele grupo marcou o início de uma trajetória que acabaria levando Mundi a Porto Rico.

Ataque deixou Mundi cega de um olho e com presa danificada

Após quase 35 anos sozinha, elefanta Mundi deixa zoológico de Porto Rico e chega a santuário na Geórgia.
Imagem: Elephant Aid International

Antes de chegar ao zoológico de Mayagüez, Mundi sofreu um ataque que provocou danos permanentes. A EAI informa que a elefanta ficou cega do olho direito e com a presa direita lesionada, características físicas que permaneceram ao longo da vida.

Posteriormente, ela foi vendida ao zoológico Juan A. Rivero, em Porto Rico. A partir de 1988, passou a ser mantida na instituição, onde permaneceu por quase 35 anos. Durante esse longo período, Mundi viveu sem outro elefante em seu recinto.

Recinto tinha cerca de 1.400 metros quadrados e abrigo fechado

Após quase 35 anos sozinha, elefanta Mundi deixa zoológico de Porto Rico e chega a santuário na Geórgia.
Imagem: Elephant Aid International

Segundo a organização responsável pelo refúgio, a elefanta Mundi ocupava uma área de aproximadamente 15 mil pés quadrados, equivalente a cerca de 1.400 metros quadrados, com acesso também a um abrigo fechado.

O tamanho do espaço ganha outra dimensão quando colocado ao lado do tempo de permanência. Foram quase três décadas e meia vivendo sozinha naquele ambiente, enquanto a própria situação institucional do zoológico se deteriorava ao longo dos anos.

Fechamento do zoológico abriu uma longa tentativa de transferência

Após quase 35 anos sozinha, elefanta Mundi deixa zoológico de Porto Rico e chega a santuário na Geórgia.
Imagem: Elephant Aid International

Os problemas envolvendo o zoológico já se acumulavam antes da saída definitiva de Mundi. Em 2017, o governo de Porto Rico determinou a transferência da elefanta e de outros animais diante das preocupações com a estrutura da instituição. Naquele mesmo ano, a Elephant Aid International concordou em recebê-la.

A transferência, porém, não ocorreu imediatamente. Depois dos furacões Irma e Maria, o zoológico permaneceu fechado ao público. Em fevereiro de 2018, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos cancelou a licença de expositor da instituição após violações registradas anteriormente. Mesmo com um acordo formal para levar Mundi ao refúgio, mudanças políticas impediram que o plano avançasse naquele momento.

Contrato foi cancelado e Mundi permaneceu em Porto Rico

Assista o vídeo
Vídeo do YouTube

Em maio de 2018, a Elephant Aid International assinou oficialmente um contrato com o governo para receber Mundi. No ano seguinte, porém, uma mudança no governo porto-riquenho levou ao cancelamento dos contratos existentes.

Entre 2020 e 2022, a organização afirma que praticamente não recebeu informações sobre Mundi enquanto os animais continuavam nas instalações fechadas. A transferência que parecia encaminhada acabou sendo adiada por vários anos.

Justiça determinou retirada dos animais em fevereiro de 2023

A situação mudou em fevereiro de 2023. Segundo a EAI, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos determinou a retirada dos animais que ainda permaneciam no antigo zoológico e sua transferência para instituições consideradas adequadas.

Pouco depois, a Elephant Aid International voltou a ser procurada e, em março daquele ano, concordou novamente em receber a elefanta Mundi. Dessa vez, o processo avançou até a retirada definitiva do animal de Porto Rico.

Viagem aérea terminou na Geórgia no aniversário de 41 anos

Mundi chegou ao Elephant Refuge North America em 12 de maio de 2023, exatamente na data em que completou 41 anos. O material apresentado para esta pauta informa que o deslocamento incluiu transporte em um Boeing 747; a página institucional da Elephant Aid International registra a chegada por via aérea, mas não especifica o modelo da aeronave.

A operação encerrou quase 35 anos de permanência da elefanta em Porto Rico. Ao pousar na Geórgia, Mundi tornou-se o terceiro elefante recebido pelo Elephant Refuge North America e o primeiro elefante africano da instituição.

Refúgio abriu uma nova fase de adaptação e convivência

A mudança não significava simplesmente colocar Mundi imediatamente junto aos demais animais. Transferências desse tipo exigem adaptação ao novo ambiente, acompanhamento e introdução progressiva às condições do refúgio.

A própria Elephant Aid International hoje lista outros animais entre as companhias de Mundi. Depois de décadas vivendo sem outro elefante no recinto de Mayagüez, a nova estrutura passou a oferecer a possibilidade de interação e convivência dentro de um ambiente dedicado permanentemente aos animais mantidos no santuário.

História de Mundi percorreu quase quatro décadas entre zoológico e santuário

Da retirada do Zimbábue ainda filhote à chegada à Geórgia aos 41 anos, a trajetória da elefanta Mundi atravessou aproximadamente quatro décadas. Houve separação do grupo original, mudança de proprietários, quase 35 anos em Porto Rico, tentativas frustradas de transferência e, finalmente, a determinação que permitiu sua retirada do zoológico em 2023.

O contraste mais concreto está entre os quase 35 anos passados sozinha em um recinto de cerca de 1.400 m² e a transferência para um refúgio estruturado para receber elefantes permanentemente. O que mais chama sua atenção nessa trajetória: o tempo de isolamento, a complexidade da transferência ou o fato de a mudança só ter acontecido quando Mundi já tinha 41 anos? Deixe sua opinião nos comentários.

MEMÓRIA DE ELEFANTE

 

Os elefantes nunca esquecem mesmo? O que há de verdade no mito

“Memória de elefante” é uma expressão tão repetida que quase deixou de parecer uma afirmação científica testável. Mas será verdade que estes animais realmente nunca esquecem nada?

A resposta curta: não, mas quase

Segundo a Scientific American, elefantes esquecem informação que não é relevante para a sua sobrevivência, tal como qualquer outro cérebro biológico. A expressão popular é, tecnicamente, um exagero.

O que os torna extraordinários não é uma memória perfeita e infalível, mas sim uma capacidade notável de reter, durante décadas, exatamente o tipo de informação que mais importa para a sobrevivência do grupo.

Uma matriarca com um mapa de décadas na cabeça

Um dos exemplos mais estudados é a capacidade das matriarcas de elefante — as fêmeas mais velhas, que lideram os grupos familiares — de recordar a localização de fontes de água durante secas severas, mesmo que essas fontes só tenham sido usadas décadas antes.

Segundo a BBC Science Focus, uma matriarca pode reconhecer mais de 200 indivíduos diferentes ao longo da vida, e reage à chamada de um membro do grupo já falecido mesmo dois anos depois da sua morte.

O cérebro por trás desta capacidade

Os elefantes têm o maior cérebro de todos os mamíferos terrestres, e o hipocampo — a região associada à memória — tem um número particularmente elevado de dobras, o que está associado a uma maior capacidade de processamento e armazenamento de informação relevante para a sobrevivência.

Investigação publicada em 2025 na revista Veterinary Sciences documentou elefantes no Parque Nacional de Etosha, na Namíbia, a fazerem viagens deliberadas a poços de água a até 50 quilómetros de distância — bem além do alcance da visão ou do olfato — enquanto elefantes do deserto do Mali realizam uma migração anual de mais de 600 quilómetros, sempre liderada pelos indivíduos mais velhos do grupo.

Reconhecimento social que dura décadas

Para além da memória espacial, os elefantes conseguem reconhecer outros elefantes com quem viveram — e mesmo humanos específicos — depois de décadas de separação, um comportamento documentado em elefantes tanto em cativeiro como em ambiente selvagem.

Estudos com amostras de urina mostraram que fêmeas conseguem distinguir, através do cheiro, entre membros da própria família e elefantes desconhecidos, reagindo com alarme sempre que a amostra pertence a um indivíduo fora do seu círculo social imediato.

Luto e reconhecimento dos próprios mortos

Os elefantes são também um dos poucos animais conhecidos por reagirem de forma diferenciada perante os restos mortais da sua própria espécie: quando passam junto ao local onde um membro do grupo morreu, fazem frequentemente uma pausa silenciosa, tocando e cheirando os ossos — um comportamento nunca observado perante restos de outras espécies.

Um exagero com uma base científica sólida

A ciência ainda não tem uma resposta completa e definitiva sobre todos os limites da memória de um elefante — investigação recente sublinha, aliás, que há surpreendentemente pouca investigação empírica direta sobre este tema, apesar da fama popular.

Mas aquilo que já se sabe com confiança confirma que, embora “nunca esquecer” seja um exagero literal, a memória do elefante está genuinamente entre as mais impressionantes de todo o reino animal — moldada, ao longo de milhões de anos, para nunca esquecer exatamente aquilo que pode significar a diferença entre sobreviver e não sobreviver.

UM, NENHUM E CEM MIL

 

ARMANDO AVENA


Quando Vitangelo Moscarda descobriu que seu nariz pendia para a esquerda, sua vida mudou. Foi sua esposa a primeira a alertá-lo, com certa satisfação, diga-se de passagem, e o espelho, o maldito espelho, mostrou a ele, após esse aviso fatal, a deformidade em toda a sua inteireza.

Deu-se conta, assim, de que ele não era para os outros aquilo que, até então, pensava ser. Ele, que pensava ser um, era visto de forma diferenciada pelos outros, que o enxergavam com aquele nariz pendente. O pior é que ele não podia se ver como os outros o viam, não podia colocar-se à parte para se ver vivendo. E concluiu, decepcionado, que ele não era um, como pensava, nem dois, assumindo que havia apenas um Moscarda com aquele nariz caído que ele não via, mas muitos, pois cada pessoa o via não como ele era e, sim, como parecia ser.

Vitangelo Moscarda sentiu-se sequestrado de si mesmo no momento em que descobriu que, para os outros, ele não era ele, mas sim o que as pessoas achavam que ele era. Teve certeza, então, de que, independentemente de para que lado pendia seu nariz, alguém o achava pedante, outro, inteligente, aquele o considerava antipático, aquele outro, de uma simpatia a toda prova. E, assim, o pobre Moscarda descobriu que podia ser um, nenhum e cem mil.

O que ocorreu com Vitangelo Moscarda, personagem do romance Um, nenhum e cem mil, de Luigi Pirandello, acontece, e sempre aconteceu, desde que o homem passou a viver em sociedade.

Cada pessoa não vê você como você é, mas como pensa que você é. E a dúvida é mortal: somos o que somos ou aquilo que os outros pensam que somos?

“O inferno são os outros.” A célebre frase de Jean-Paul Sartre dá a medida certa do que representa viver sob o olhar do outro. O inferno nasce do olhar alheio, do outro que nos vê, nos julga e nos atribui uma identidade.

No século XXI, porém, o inferno sartriano ganhou uma dimensão extraordinária com o advento das redes sociais. Com elas, criamos uma espécie de mercado da aprovação, em que cada like, cada compartilhamento, cada comentário funciona como uma pequena confirmação de que existimos e somos interessantes, bonitos, inteligentes ou relevantes. Mas esse é também um mercado de desaprovação e, de repente, um desconhecido qualquer pode dizer que seu nariz pende para a esquerda e, assim, acabar com sua autoestima e aporrinhar seu dia.

A opinião dos outros, o número de seguidores, curtidas e compartilhamentos tornam-se o inferno contemporâneo, e foi você mesmo quem abriu a porta. “Lasciate ogne speranza, voi ch’intrate!”

“Nem esperança, nem socorro, nem remédio”, diria Shakespeare. Talvez, mas a Meta, dona das redes sociais, enfrenta os tribunais, e vinte e nove estados americanos propõem suprimir o feed infinito, os likes e a prisão algorítmica. Assim, quiçá seja possível evitar que a humanidade se transforme em uma multidão de Moscardas.

 

Publicado no jornal A Tarde em 21/08/2026

JEHOVÁ DE CARVALHO


Jorge papapá

Há homens que escolhem uma profissão. Outros parecem escolher um destino. Jehová de Carvalho foi advogado, poeta, cronista e boêmio — mas talvez nenhuma dessas palavras, sozinha, dê conta do homem que ele foi. Porque Jehová parecia ter nascido para conversar com a vida, e a vida, com suas esquinas, seus personagens e suas contradições, era a matéria-prima de sua escrita.
Na Salvador de outros tempos, quando a noite ainda parecia mais comprida e as conversas tinham o vagar das coisas que não precisavam terminar, Jehová transitava entre livros, processos, poemas, mesas de bar e amizades. Tinha o olhar de quem sabia enxergar além da aparência. Onde muitos viam apenas uma rua, ele encontrava uma história. Onde havia uma mesa de bar, descobria uma pequena assembleia de filósofos. Onde existia uma conversa despretensiosa, podia nascer uma crônica.
O advogado conhecia as leis; o poeta, porém, conhecia as entrelinhas da alma. Talvez por isso Jehová nunca tenha deixado que o homem da toga sufocasse o homem da palavra. Entre artigos, pareceres e processos, havia sempre uma janela aberta para a poesia. E entre um poema e outro, a vida real — essa grande e desobediente literatura — entrava sem pedir licença.
Boêmio por vocação e por encantamento, Jehová pertencia àquela espécie de homens que não tinham pressa de chegar em casa porque sabiam que a noite ainda guardava alguma história. Gostava da conversa, da companhia, do riso, da inteligência solta sobre a mesa. A boemia, para ele, não era apenas beber ou atravessar madrugadas: era uma maneira de estar no mundo. Era saber que uma boa conversa podia valer mais que uma noite inteira de sono.
Sua crônica nascia justamente desse território onde a vida e a literatura se encontram. Jehová escrevia com a intimidade de quem conhecia as ruas por dentro, os costumes, as figuras populares, os amigos, os tipos humanos e as pequenas grandezas do cotidiano. Havia em sua escrita uma Bahia que não cabia nos cartões-postais: a Bahia das esquinas, das rodas de conversa, da irreverência, da fé, da malícia, da solidariedade e da memória.
E talvez seja essa a maior qualidade de um cronista: perceber que nada é pequeno quando visto com os olhos certos.
Jehová tinha esses olhos.
Sabia que a vida também se esconde nos detalhes. Num gesto, numa frase, numa lembrança aparentemente sem importância. Sabia que o tempo passa, mas deixa migalhas pelo caminho — e que escrever é, muitas vezes, recolher essas migalhas antes que o vento as leve.
Por isso sua poesia não estava apenas nos versos. Estava também na maneira de viver. Estava na amizade, na boemia, na conversa comprida, no riso compartilhado, na capacidade de transformar uma noite qualquer em memória.
Há pessoas que passam pela cidade. Outras deixam a cidade passar por dentro delas.
Jehová de Carvalho foi dessas.
Carregou Salvador consigo como quem carrega um livro aberto, cheio de personagens, ruas e vozes. E talvez tenha sido justamente por isso que conseguiu ser advogado sem abandonar o poeta, poeta sem fugir do mundo, cronista sem perder a delicadeza e boêmio sem deixar de ser observador.
No fim, talvez Jehová não tenha escrito apenas crônicas. Ele escreveu uma maneira de lembrar.
E algumas vidas são assim: continuam acontecendo depois que terminam, porque permanecem nas histórias que contamos, nas mesas onde ainda se fala delas e nas palavras que, de vez em quando, devolvem ao presente aqueles que o tempo tentou levar.
E talvez não seja apenas uma coincidência bonita do destino. Talvez seja como se a própria vida, ao despedir-se dele, tivesse escolhido deixar uma palavra viva para continuar dizendo aquilo que ele foi: o encontro entre coisas diferentes que, juntas, encontram uma forma de soar bem.
Não é justamente isso que Jehová parece ter sido? Advogado e poeta. Homem da lei e homem da noite. Cronista e boêmio. Razão e paixão. A toga e a mesa de bar. O rigor das palavras e a liberdade dos sonhos.
Ele viveu entre esses mundos sem precisar escolher um só..
Porque há homens que deixam livros, outros deixam histórias, outros deixam saudades. Jehová deixou tudo isso — e deixou também uma filha cujo nome parece dizer, em uma única palavra, o resultado bonito de uma vida inteira: quando a poesia, a amizade, a boemia, a inteligência e a liberdade encontram o mesmo compasso, o que nasce é Harmonia.

GANHAM FORTUNAS, MAS...

 

STF completa 14 anos sem julgar ação de R$ 3 bilhões sobre cartórios

Mais de 100 tabeliães sem concurso seguem nos cargos e faturam ao contrário de outros estados; grupo arrecadou milhões para pagar advogados

 03/08/2026 
 Rosinei Coutinho/STF/30.jun.2023
O ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), atua na sessão de encerramento do primeiro semestre do Ano Judiciário 2023
ouvir notícia

Em setembro, completam-se 14 anos desde que chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF) ação que questiona a permanência de titulares de cartórios nomeados sem concurso específico na Bahia. Sem julgamento até hoje, o processo já permitiu que eles faturassem R$ 3,1 bilhões.

Sozinho, o então relator Dias Toffoli manteve o processo em seu gabinete por nove anos. Nesse meio-tempo, o ministro paralisou o julgamento cinco vezes. Quando recomeçava, Toffoli mandava tirar do plenário virtual para o presencial e vice-versa.

Made with Flourish • Create interactive content

O placar está em 6 a 0 para declarar inconstitucional lei que transformou mais de 100 servidores do Tribunal de Justiça da Bahia (TJBA) em titulares de cartório, mesmo sem concurso público de provas e títulos, como determina a Constituição. A lei é de 2011; a ação do Ministério Público Federal foi aberta em setembro de 2012.

Enquanto a ação não é concluída, os tabeliães beneficiados seguem arrecadando com os serviços prestados em Salvador e no interior do estado. As receitas somaram R$ 3,1 bilhões entre 2012 e 2025, de acordo com dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), em valores atualizados pela inflação.

À coluna, o Supremo defendeu o tempo do julgamento (14 anos sem conclusão). “O tempo de tramitação de processos no âmbito do controle concentrado de constitucionalidade decorre do cumprimento rigoroso das fases processuais, da análise das manifestações dos órgãos de origem e das partes, e da alta complexidade técnica das matérias debatidas”, diz nota da assessoria do tribunal (veja mais aqui) .

O próprio STF e o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), contudo, já julgaram casos semelhantes em sete unidades da Federação, enquanto o da Bahia segue sem decisão.

O Metrópoles pediu esclarecimentos à Associação dos Notários e Registradores (Anoreg), ao Instituto de Estudos e Protestos de Títulos da Bahia (IEPTBA) e aos advogados de Éden Márcio Almeida, ex-presidente da entidade. As respostas serão publicadas quando forem recebidas.

Grupo arrecadou milhões para advogados

Ata de reunião do IEPTBA em 04.ago.2016 mostra arrecadação para ação no STF sobre cartórios na Bahia
Em 4 de agosto de 2016, após suspensão de julgamento, tabeliães pedem R$ 1 milhão em caráter “urgente”

Cientes de que poderiam perder os cartórios, os tabeliães baianos se mobilizaram para arrecadar milhões de reais destinados ao pagamento de advogados que atuavam no processo no Supremo, mostram atas de reuniões do IEPTBA obtidas pelo Metrópoles.

Em meados de 2016, quando a ação esteve perto de ser julgada pela primeira vez, o então relator, Dias Toffoli, incluiu o processo em pauta e o retirou 43 dias depois. Diante desse cenário, tabeliães liderados por Éden Márcio Almeida, então presidente do IEPTBA e titular de um cartório em Feira de Santana (BA), reuniram-se em Salvador, em 11 de junho daquele ano.

Na reunião, decidiram repassar R$ 500 mil à Anoreg, que havia acabado de pedir ao Supremo o adiamento, além de aumentar o valor das contribuições dos associados. Também aprovaram a contratação de escritórios de advocacia. Um deles receberia R$ 320 mil de entrada, R$ 65 mil por mês e um pagamento adicional de R$ 1,5 milhão em caso de vitória no processo.

Mais de 40 dias após a suspensão do julgamento por Toffoli, os tabeliães voltaram a se reunir em Salvador. Em 4 de agosto de 2016, registraram em ata a “urgente necessidade” de levantar R$ 1 milhão para quitar honorários advocatícios em atraso. Também decidiram contratar outro escritório de advocacia, com remuneração mensal de R$ 315 mil e pagamento adicional de R$ 3,5 milhões em caso de êxito, além da contratação de parecer do jurista Celso Antônio Bandeira de Mello por R$ 200 mil.

A esposa de Éden, Selma Regina Vieira, era a secretária das reuniões. Ela morreu em abril de 2019, depois de ser agredida pelo marido e por uma amante dele, com quem mantinha triângulo amoroso. Éden e a amante foram condenados em decisão confirmada neste ano pelo Tribunal de Justiça da Bahia.

Sete unidades da Federação já tiveram leis derrubadas

Enquanto o Supremo leva quase 14 anos para julgar o caso baiano, o próprio STF e o Conselho Nacional de Justiça já decidiram outras sete ações semelhantes envolvendo pessoas que assumiram sem concurso público ou sem aprovação em concurso específico para a titularidade de cartórios.

A Constituição de 1988 determina que apenas candidatos aprovados em concurso público de provas e títulos podem assumir a titularidade de cartórios. A exigência vale para tabelionatos e registros e, na prática, restringe o acesso à atividade a profissionais com formação jurídica ou que atendam aos requisitos previstos na legislação.

Nos casos já analisados, o STF e o CNJ declararam inconstitucionais normas que permitiam esse tipo de investidura no Distrito Federal e em seis estados: Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás, Paraná, Espírito Santo e Mato Grosso do Sul.

No processo da Bahia, já votaram seis ministros, todos pela inconstitucionalidade da lei: Cármen Lúcia, a atual relatora; Gilmar Mendes; Nunes Marques; Dias Toffoli, o ex-relator; Marco Aurélio Mello; e Rosa Weber. André Mendonça e Flávio Dino não participam, pois substituíram os dois últimos ministros, que já haviam se manifestado. Faltam os votos de Luiz Fux, Edson Fachin, Alexandre de Moraes e o futuro sucessor de Luís Roberto Barroso, que deixou o cargo.

Após a publicação desta reportagem, o advogado da Associação Baiana dos Notários e Registradores (ABNR), Fernando César Cunha, defendeu a permanência dos titulares de cartório que ocupam os cargos graças à lei de 2011 questionada pelo Ministério Público Federal desde 2012. Ele destacou que um dos ministros – Dias Toffoli – votou pela inconstitucionalidade da lei mas propôs que os tabeliães continuassem em seus cargos “para evitar graves impactos para o Estado e para a população baiana”.