terça-feira, 16 de junho de 2026

FOMOS TORTURADOS

 

"O que viram no vídeo foi a parte boa. Fomos torturados, espancados": médicos detidos por Israel contam tudo na chegada a Portugal

22 mai, 11:43

A ativista sublinhou também que o que foi tornado público, através de um vídeo publicado pelo ministro da Defesa de Israel, não reflete toda a realidade

“Houve muita violência, fomos torturados, fomos espancados. Contamos pelo menos 35 pessoas com membros partidos. As pessoas foram alvejadas, foi horrível.” É assim que, já no aeroporto Francisco Sá Carneiro, no Porto, Maria Beatriz descreve o momento vivido pelos ativistas detidos por Israel.

A ativista integrou uma missão humanitária que seguia para Gaza quando a embarcação foi intercetada em águas internacionais por Israel.

“Fomos raptados em águas internacionais, estivemos num barco de prisão, sem contacto com o mundo”, descreveu, acrescentando que terão sido levados para uma prisão no deserto, perto de Gaza. “Fomos espancados sistematicamente, fomos obrigados a estar de joelhos durante horas”, disse, referindo ainda que houve pessoas feridas com gravidade.

A ativista sublinhou também que o que foi tornado público, através de um vídeo polémico publicado pelo ministro da Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben-Gvir, não reflete toda a realidade. “O que viram no vídeo foi a parte boa, eles estão constantemente a fazer propaganda”.

De recordar que esta semana o Governo português condenou "veementemente" o vídeo publicado pelo ministro da Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben-Gvir, no qual é possível ver dezenas de ativistas que viajavam da flotilha para Gaza, ajoelhados, com as mãos atadas atrás das costas e a cabeça encostada ao chão. 

No vídeo, divulgado com a legenda "bem-vindos a Israel" e que pode ver na imagem associada ao artigo, ouve-se o hino nacional israelita e vê-se o governante ligado à extrema-direita, que parece divertir-se com a situação, a incentivar os militares e a acenar uma bandeira de israelita.

Antes de contar a sua esperiência no Médio Oriente, Maria Beatriz descreveu aos jornalistas o impacto emocional do regresso “emocionante” a casa, mas lamentou que esta solidariedade só surja quando cidadãos estrangeiros são expostos à violência. “Esta violência acontece muito pior todos os dias em Gaza, na Cisjordânia, no Líbano”, afirmou, defendendo que é necessário repensar a relação dos Estados com Israel.

Questionada sobre a reação do Governo português, Maria Beatriz deixou duras críticas. “Espero há muitos anos que realmente haja um impacto no corte de relações diplomáticas, económicas, e que realmente se sancione este Estado genocida. É o mínimo que se pode fazer”, afirmou a ativista.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

MAS É MUITA CARA DE PAU!


 

SEM VERGONHA


 

A HISTÓRIA DO RINOCERONTE

 

A história do rinoceronte que deu origem à calçada portuguesa

A calçada portuguesa nasceu para um rinoceronte chamado Ganga não sujar as patas num cortejo real. A sua história inclui um naufrágio e gravuras de Dürer.


Em janeiro, no aniversário de D. Manuel I, a corte portuguesa preparava-se para um cortejo. Não um cortejo qualquer — um desfile com a família real e figuras da nobreza a exibir riquezas vindas do Oriente, numa Lisboa de inverno onde as ruas eram, na melhor das hipóteses, lama compactada. E entre os participantes estava Ganga, um rinoceronte branco com coleira de veludo verde decorada com rosas e cravos dourados.

Para que Ganga e o resto do cortejo não chegassem ao destino cobertos de lama, as ruas por onde passariam foram calcetadas.

Foi assim, segundo a tradição, que nasceu a calçada portuguesa.

Como um rinoceronte chegou a Lisboa

A história de Ganga começa em 1514, quando Afonso de Albuquerque, governador das Índias portuguesas, pediu ao rei de Cambaia autorização para construir uma fortaleza em Diu. O rei Modofar recusou o pedido — mas, em gesto de gratidão pelas ofertas que tinha recebido, deu a Albuquerque um rinoceronte.

Manter um rinoceronte em Goa não era prático. Albuquerque enviou-o como presente para D. Manuel I. Quando chegou a Lisboa, causou um alvoroço que ultrapassou as fronteiras portuguesas: era o primeiro rinoceronte vivo em solo europeu desde o século III. Mais de duas toneladas de animal enrugado que ninguém na Europa tinha visto em mil e duzentos anos.

D. Manuel instalou Ganga no parque do Palácio da Ribeira, junto a um elefante que já lá estava. Organizou, inevitavelmente, um combate entre os dois — perante o rei, a rainha e convidados importantes. O elefante, ao ver o rinoceronte aproximar-se, fugiu em pânico. O combate durou o tempo que um elefante demora a decidir que não quer lutar.

A morte de Ganga

Em dezembro de 1515, D. Manuel organizou uma embaixada a Roma para garantir o apoio papal à expansão portuguesa — e entre as ofertas para o Papa estava, de novo, Ganga, com a sua coleira de veludo verde. O navio que o transportava enfrentou uma tempestade violenta ao largo de Génova e afundou-se. Toda a tripulação morreu.

Ganga sabia nadar. Mas estava amarrado, e as amarras impediram-no de escapar. Afogou-se.

O corpo foi recuperado. D. Manuel mandou empalhá-lo e enviou-o para Roma de qualquer forma — uma oferta póstuma que não teve o impacto que o elefante vivo, enviado anteriormente, tinha causado. Um rinoceronte empalhado é, compreensivelmente, menos impressionante do que um vivo.

O que ficou

Ganga acabou imortalizado de formas que sobreviveram séculos. Está representado numa das guaritas da Torre de Belém. No Mosteiro de Alcobaça existe uma representação naturalista do seu corpo completo, usada como gárgula no Claustro do Silêncio.

E foi desenhado por Albrecht Dürer — a partir de uma carta de um mercador português que continha um desenho do animal, sem que Dürer alguma vez o tivesse visto pessoalmente.

A gravura de Dürer tornou-se uma das imagens mais reproduzidas da história da arte europeia, apesar de ter detalhes anatómicos incorrectos que qualquer biólogo identificaria hoje.

Quanto à calçada: as cartas régias de D. Manuel I, de 1498 e 1500, marcam o início do calcetamento de Lisboa, com granito trazido do Porto a um custo considerável. Mas a calçada que hoje reconhecemos — em calcário branco e negro, com o padrão irregular característico — só apareceu no século XIX.

Em 1842, presidiários calcetaram uma zona de Lisboa por ordem do governador do Castelo de São Jorge, e a obra foi suficientemente incomum para que cronistas da época escrevessem sobre ela — está mencionada no romance O Arco de Sant’Ana, de Almeida Garrett, e no poema Cristalizações, de Cesário Verde.

A ligação directa entre o rinoceronte de 1515 e a calçada de 1842 é mais simbólica do que documental — são três séculos de distância. Mas a história gosta de ligações como esta: um animal vindo da Índia, amarrado a um navio que afundou ao largo de Génova, deu o impulso simbólico para um pavimento que se tornou, séculos depois, uma das imagens mais reconhecíveis de Portugal no mundo.

O MESSIAS



Era um álbum por mim comprado na Valentim de Carvalho em Lisboa no final dos anos 50. Salvo erro da Deutsche Grammophon que na época produzia o melhor das gravações de música clássica. Acústica perfeita, os regentes mais famosos, os melhores solistas, os coros mais afinados. Acompanhou-me durante uns sessenta anos até desaparecer misteriosamente. Quem, em Salvador, se lembraria de surrupiar tão antiga gravação? Ou será que oferecera a amigo esquecido que teria declarado amar esta interpretação?

De qualquer forma, nestes tempos modernos, a não ser que você seja sortudo e possua um toca-discos daqueles que tanto podem tocar 45 e 33 rotações como os de 78 de baquelita, de fragilidade deprimente, são discos impossíveis de se ouvir. Dos 78 ainda tenho interpretações quase centenárias de Edith Piaf, Caymmi, Carmen Miranda, Caruso, Amália...

Quantas vezes terei ouvido o barroco e suntuoso oratório do Haendel.... Ao lado dos seis Concertos Brandeburgueses de Bach era minha obra musical preferida. Estudante em Londres, assisti pelo menos umas três vezes no Royal Festival Hall. Desde Collingham Gardens onde morava até a ribeira sul (Southbank) ia a pé. Uma boa meia hora. Entrada baratinha, excelente acústica, assentos confortáveis, mesmo lá em cima, no fundo. Na hora do “Aleluia”, a sala inteira se levanta, lembrando a emocionada reação do rei George II ao ouvir tão sublime obra em 1742. Em Salvador, assisti pelo menos duas vezes, na catedral do Terreiro de Jesus e no salão nobre da Ufba. Minha amiga a soprano Eneida Lima, ainda bem jovem, no coro.

Se não desafinasse de forma tão constrangedora, acho que poderia cantá-lo por inteiro, durante as mais de duas horas, recitativos incluídos.

Mas a última audição, em outubro de 2024, aconteceu num lugar para lá de especial: na sala superior da Scuola di San Rocco, joia maneirista da Renascença italiana, popularmente considerada a Capela Sistina de Veneza. Imagine estar sentado num vasto espaço decorado, nas paredes como no teto, com sessenta obras de Tintoretto encaixadas em ricas molduras douradas, sem contar, espalhadas pelo edifício, obras de Tiepolo e Veronese. Sala lotada por moradores locais e turistas avisados.

Temo que meus companheiros não tenham apreciado com o mesmo entusiasmo – vez ou outra, olhavam para o relógio - a oportunidade de participar da simultânea imersão na obra de dois gênios. Um do século XVII, conservado em perfeitas condições apesar da umidade de Veneza (seria bom nosso Iphan imitar) e outro, excepcional compositor do século XVIII cuja herança se mantém viva até hoje graças a uma longa série de talentosos intérpretes.

Difícil imaginar que, em paralelo e com a mesma fé, a Inquisição torturava e queimava quem fosse diferente.

 Dimitri Ganzelevitch

AS PRAIAS DA GRÉCIA

 

Grécia protege 251 praias imaculadas: proíbe espreguiçadeiras e guarda-sóis ou bares


Este Verão, a Grécia aumenta o número de áreas com protecção especial. Há novas entradas em parques nacionais, Corfu e Creta. E há protestos e aplausos.

Foto
Na Grécia, avançam protecções especiais para centenas de praias Y. Skoulas/Visit Greece

Nas listas das melhores e das mais bonitas praias do mundo, nunca falta a Grécia

E, muito frequentemente, até a liderar esses chamativos tops. Sob o mote da preservação ecológica e da defesa das praias, o Governo grego actualizou recentemente a sua já longa lista de praias sob protecção especial, onde são proibidas construções de estruturas turísticas além de actividades comerciais, nomeadamente o omnipresente aluguer de guarda-sóis e espreguiçadeiras, espaços de bar, desportos aquáticos e em geral veículos motorizados, ou música amplificada. São agora 251 as zonas incluídas, consideradas "praias imaculadas" e "intocadas".

A iniciativa, segundo o ministério grego do Ambiente, pretende "garantir a protecção eficaz das praias com especial valor estético, geomorfológico ou ecológico, bem como a preservação dos tipos de habitat e das espécies vegetais e animais presentes nessas praias específicas". As decisões seguem recomendações da Agência para o Ambiente Natural e Alterações Climáticas e a maioria dos locais encontram-se em zonas protegidas no âmbito da rede Natura 2000 da União Europeia.

De ano para ano, a lista tem crescido: eram 198 em 2024, 238 no ano passado e, este ano há 13 praias novas que entram em defeso. Entre elas alguns "paraísos" muito procurados, adianta o jornal grego Kathimerini​, no Parque Nacional da Lagoa de Messolonghi, Chalikounas em Corfu, Pori e Italida em Ano Koufonisi, Kastro em Lefkada, sete praias na região de Hania em Creta incluindo a praia de Vienna.

Embora apresentada como uma medida de protecção natural (e dos habitats de algumas espécies, entre tartarugas e focas-monge), e de controlo do sobreturismo, as proibições de usos mais massivos e comerciais não recebem o aplauso unânime, particularmente de populações locais, habituadas a usar para lazer ou explorar comercialmente a área, que acabam por ver destruídas algumas edificações.

Foi o que aconteceu em finais de Abril na pequena ilha de Gavdos, relata a France 24, a sul de Creta. Foram destruídas construções ilegais, várias barracas à beira-mar, por entre protestos vigiados pela polícia de intervenção.

Noutros locais, porém, sublinha o portal Greece Is, que tem várias publicações sobre destinos na Grécia, as medidas acompanharam movimentos de cidadãos, caso da praia de Kastro, na ilha jónica de Lefkada, onde se lutou contra projectos de construção turística numa área de costa ainda selvagem.