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sábado, 26 de setembro de 2026

A ARTE DE CARREGAR LIVROS

 

A arte de carregar livros (Singelo manifesto)

Por Jean Pierre Chauvin, professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP


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 Publicado: 04/09/2026 



Ter o nome de pregador, ou ser pregador de nome, não importa nada; as ações, a vida, o exemplo, as obras, são as que convertem o Mundo.
(Antônio Vieira, Sermão da Sexagésima, 1655)

“O senhor mire veja”, diz o célebre narrador de Grande Sertão: Veredas, narrativa irrepetível de João Guimarães Rosa, publicada há setenta anos. Mire e repare, ousaríamos nós: as bibliotecas andam esvaziadas, na universidade. Também é raro ver alunos ou professores a carregar livros – exceção feita quando uns e outros estão em épocas específicas, quase sempre em preparação para exames e provas, ou quando é necessário entregar projetos, produtos e outros trabalhos, ditos “de aproveitamento”.

A que se deve a tímida circulação da palavra impressa nas salas de aula e nos corredoredores do Campus da maior universidade da América Latina, frequentemente ranqueada entre as cem melhores do planeta? Alguém argumentará que isso de deve ao peso excessivo dos livros e revistas; outros dirão que há alternativas de leitura disponibilizadas nos gadgets e aparelhos eletrônicos; os mais audaciosos talvez admitam que a era digital inculcou a dispersão como modo geral de existência. Entre o tédio e o trabalho excessivo (cada vez se estagia mais cedo, na universidade; cada vez os professores perfazem mais rotinas, dentro e fora dos sistemas digitais), a página de papel cedeu lugar às macro e microtelas.

Não é preciso longa reflexão para constatarmos que o suporte (físico ou digital) interfere na qualidade da leitura e na apreensão do texto. Os historiadores do livro alertam, há décadas, para a importância da mediação editorial, no consumo dos livros. Algo parecido se observa na diferença que há entre escrever e digitar, por exemplo. Neurocientistas de renome enfatizam que a manuscritura é uma operação muito mais complexa que a de acionar teclas.

Face a esse diagnóstico, facilmente observável para quem percorre os caminhos e desvãos da universidade, este professor propõe-se a lançar um pretensioso manifesto intitulado Carreguem Livros!, grafado assim, em fonte com estilo bold, seguida de ponto de exclamação. Se o título não lhe aprouver, obviamente pode ser outro. Pense lá, o senhor, a senhora leitora, em melhor alvitre e como melhor proceder, para ampliar o contágio.

É fato digno de nota que uma das maneiras mais eficazes de recomendar a leitura dos livros (e teses e dissertações e relatórios e revistas) é transportá-los, mostrá-los – ou, quando for o caso, emprestá-los aos colegas de ofício e aos estudantes. Carregar livros é um modo de irradiar mensagens, dentre elas a de que não somos refratários à leitura de palavra impressa. Além disso, a visão dos livros físicos pode contagiar mesmo os não-leitores, afinal é da natureza humana saborear narrativas; ter sede de conhecimento(s).

Se vossa mercê permite o segundo atrevimento, numa pseudocrônica tão enxuta, eu recomendaria que a campanha – provisoriamente nomeada Carreguem Livros!, embutida no sinal de exclamação – fosse adotada feito postura cotidiana, no âmbito pessoal e profissional; na ida ou na volta do trabalho; a caminho da atividade de lazer, ao retornar do consultório médico…

Imagine-se, digamos, que a ideia se disseminasse e constituísse uma das importantes recomendações de caráter institucional (isso mesmo, no âmbito da universidade, da empresa, do hospital, da oficina, do estádio, da padaria, da fábrica, do espaço de coworking etc.).

Aposto que ler, abraçar, proteger e transportar livros estimularia, ainda mais, a natural curiosidade das crianças e incentivaria o diálogo (sobre livros, é claro) entre os adultos, à hora do café. Ademais, certas obras, assim como determinados filmes, são capazes de ampliar nossa visão de mundo; mudar, inclusive, o sentido de nossa mirrada existência. Riobaldo, o narrador rosiano, diria que “o mais importante do mundo é que as pessoas não estão prontas e vão sempre mudando, afinando ou desafinando”.

Carreguem Livros!

domingo, 6 de setembro de 2026

AS CORDAS DA MINHA MEMÓRIA

 



Jorge papapá
Há lembranças que não envelhecem.
Elas ficam guardadas em algum lugar da gente, esperando que o tempo, com suas mãos pacientes, venha buscá-las de volta. Quando isso acontece, não voltamos apenas ao passado. Voltamos a ser quem éramos.
Talvez por isso eu goste tanto de lembrar das viagens que meu pai fazia para a roça.
Meu pai nasceu em Irará, no interior da Bahia. Em 1955, veio para Salvador com minha mãe e sete filhos. Primeiro moraram na Avenida San Martin. Depois, a família foi morar na Avenida Santo Antônio, no Largo do Tanque, onde nascemos eu e mais três irmãos: Edson, o Dinho; Everaldo, o Beco; e Oséas, o Oseinha.
Meu avô João de Barba, pai de meu pai, foi quem trouxe seus filhos — meu pai, tio Chico e tio Tonho — para trabalhar no porto de Salvador.
A vida, às vezes, começa com uma mudança de endereço, mas carrega dentro dela uma mudança muito maior. Meu avô trouxe os filhos para a cidade, mas a cidade nunca conseguiu arrancar deles o cheiro da terra.
Meu pai continuava sendo um homem da roça.
De vez em quando, a saudade apertava e ele inventava uma viagem para visitar meus avós maternos, seu Avelino e dona Petronilia.
Eles já estavam velhinhos, mas continuavam trabalhando na terra. A roça era a vida deles. Talvez porque para algumas pessoas a terra não seja apenas um lugar onde se planta. É também onde se plantam lembranças.
A viagem até lá era longa.
A gente descia do ônibus na beira da estrada e seguia caminhando no meio da madrugada, atravessando fazendas. Meu pai ia na frente, abrindo caminho com uma vara de pau. Meu irmão mais novo vinha montado nos ombros dele. Eu, Beco e minha mãe seguíamos atrás.
Eu era menino e achava aquela caminhada apenas uma aventura.
Hoje, tantos anos depois, vejo outra coisa.
Vejo meu pai carregando um filho nos ombros e uma família inteira dentro do coração.
Vejo aquele homem abrindo caminho na escuridão, como se soubesse que, quando se tem filhos, é preciso caminhar primeiro para que os outros possam caminhar depois.
A noite era grande. O caminho, maior ainda.
Mas havia uma certeza: no fim daquela estrada estava a casa do vô Avelino.
E algumas casas da infância nunca desaparecem.
Mesmo quando as paredes caem, elas continuam de pé dentro da memória.
Depois que meu avô morreu, continuamos fazendo aquela viagem para visitar tia Julinha, irmã de minha mãe. Ela permaneceu morando na mesma casa com meu tio Pedro Lalut.
Tio Pedro foi uma das pessoas mais bonitas que conheci.
Ele tinha um jeito muito próprio de demonstrar amor: chegava carregado.
Quando vinha para Salvador, trazia beijus de vários tipos, farinha, carne-seca, galinha e outras coisas que sabia que nós gostávamos.
Era uma festa.
Os beijus não duravam dois dias.
Hoje acho graça quando lembro disso. Mas talvez aqueles beijus desaparecessem tão depressa porque não eram apenas beijus.
Eram pedaços da roça.
Eram pedaços da família.
Eram pedaços de um lugar que chegavam embrulhados nas mãos de tio Pedro.
Na infância, a gente não sabe dar nome às coisas. Só muitos anos depois entende que determinados momentos eram felicidade.
Na roça, também visitávamos outros parentes. Tio João de Aceno era um deles. Era casado com tia Donzinha, uma mulher linda, de cabelos loiros que desciam até a cintura como uma cachoeira de ouro, que fazia questão de nos receber da melhor maneira possível.
A gente gostava de montar cavalo, andar pelos caminhos e comer aquelas comidas que tinham um sabor que a cidade nunca conseguiu reproduzir.
Talvez porque a comida da roça tivesse outro ingrediente.
A memória.
Foi também nesse mundo que conheci a primeira pessoa que vi tocar violão.
Meu primo Epitácio, filho de tia Julinha.
Eu devia ter cinco ou seis anos.
Ele tinha um violão velho, surrado, talvez um tanto desafinado.
Mas o que ouvi naquele momento não foi desafinação.
Foi um chamado.
Fiquei olhando para aquele instrumento e para as mãos de Epitácio. As cordas vibravam e, de algum modo, alguma coisa também começou a vibrar dentro de mim.
Eu ainda não sabia que música era aquilo.
Não sabia que uma melodia podia nascer de algumas cordas.
Não sabia que palavras podiam encontrar notas e virar canção.
Não sabia que, muitos anos depois, eu também escreveria músicas.
Mas talvez a música já soubesse.
Talvez ela estivesse esperando por mim havia muito tempo.
Hoje penso que ela pode ter começado antes mesmo daquele violão.
Talvez estivesse no canto dos pássaros da roça.
No barulho das porteiras.
No vento passando pelas árvores.
Nos passos de meu pai durante aquelas caminhadas de madrugada.
Na voz de minha mãe.
Na algazarra dos irmãos.
No cheiro da comida de dona Petronilia.
Nos beijus que tio Pedro trazia para Salvador.
Ou talvez estivesse até na voz da minha vó Belmira.
Minha vó Belmira, mãe de meu pai, era cega. Morava com tia Sebastiana, irmã de meu pai, pelas bandas do fim de linha do São Caetano.
Eu gostava de visitá-la.
Sentava perto dela e lia a Bíblia.
Eu achava que estava sendo os olhos de minha avó.
Hoje penso que era o contrário.
Talvez fosse ela quem estivesse me ensinando a enxergar.
Porque existem pessoas que enxergam com os olhos e não veem.
E existem aquelas que, mesmo privadas da visão, conseguem perceber coisas que muitos de nós passamos a vida inteira sem perceber.
Vó Belmira me ensinou, sem saber que ensinava, que a palavra também pode ser uma forma de luz.
E talvez tenha sido essa luz que me acompanhou até a música.
Quando penso naquela infância, percebo que minha história musical não começou quando fiz minha primeira canção.
Começou muito antes.
Começou em Irará.
Começou na mudança para Salvador.
Começou no Largo do Tanque.
Começou nas viagens para a roça.
Começou na vara de pau que abria caminho pela escuridão.
Começou nas mãos de meu pai.
Começou na voz de minha vó Belmira.
E, talvez, tenha encontrado sua primeira melodia naquele violão velho que meu primo Epitácio tocava.
Um violão surrado.
Um pouco desafinado.
Mas capaz de abrir dentro de um menino uma janela para um mundo que ele ainda não conhecia.
Hoje, quando olho para tudo isso, percebo que aquela estrada para a roça era muito mais do que uma viagem para visitar os avós.
Era uma estrada para dentro de mim.
Eu ainda não sabia.
Meu pai também não.
Epitácio muito menos.
Mas alguma coisa já estava sendo construída.
A infância plantava.
O tempo regava.
A vida haveria de colher.
Talvez seja por isso que, tantos anos depois, quando pego um violão, ainda consigo ouvir, lá no fundo, o menino que fui.
Ele está lá.
Sentado em algum canto daquela casa da roça, olhando para Epitácio tocar.
E acho que, se eu pudesse perguntar a ele o que sentiu naquele instante, ele talvez não soubesse responder.
Criança não sabe explicar certas coisas.
Apenas sente.
Mas eu, hoje, sei.
Aquele menino estava ouvindo o começo da própria história.
Antes de existir a canção, existia a estrada.
Antes de existir o músico, existia o menino.
E antes que eu soubesse fazer música, a música já fazia morada em mim.

sábado, 18 de julho de 2026

600 MIL SEM TETOS

 


A resposta deste australiano ás investidas de Trump sobre a "NATO não estar ao lado da América" ​​é perfeita:

“Oh meu. Tu governas um país com 600.000 pessoas sem-teto que estão a dormir nas ruas hoje à noite. Um país onde 40% dos adultos não conseguem suportar uma emergência de 400 dólares sem pedir dinheiro emprestado.
Um país onde a insulina custa mais do que a prestação de um carro e as pessoas a racionam para sobreviver.
Um país onde as dívidas médicas são a principal causa do número elevado de falências.
Um país onde muitas mulheres morrem nos parques de estacionamento de hospitais porque os médicos têm muito medo das leis sobre o aborto para tratar um aborto espontâneo.
Tu prendes mais cidadãos do seu próprio país do que qualquer nação na Terra. Mais do que a China. Mais do que a Rússia. Mais do que a Coreia do Norte.
A 'terra do livre' tem 2 milhões de pessoas enjauladas, e nem um quarto delas sequer foi condenado por alguma coisa. Elas são simplesmente demasiadamente pobres para pagar a fiança exigida.
A tua esperança de vida está regredindo. É a única nação desenvolvida onde isso acontece. A tua taxa de mortalidade infantil é pior que a de Cuba.
As tuas crianças fazem simulações de ataque a tiros entre as aulas de matemática e inglês, enquanto tu vendes ações de fabricantes de armas para os teus amigalhaços.
O teu salário mínimo não varia há 15 anos. Tu tens professores a trabalhar em dois empregos e veteranos a dormir debaixo de pontes, mas acabaste de gastar um trilhão de dólares para arrasar um país que não te atacou.
E tu tens um insurreicionista condenado pela justiça, declarado culpado de estupro, protetor de pedófilos e que que se envolve com estrelas porno, liderando a campanha de guerra mais caótica e desastrosa desde que osTalibãs te agradeceram muito por perderes de novo.
E tu dizes que a Gronelândia é mal administrada?
A Gronelândia tem saúde pública universal. Educação gratuita. Uma das taxas de encarceramento mais baixas do mundo. Ninguém vai à falência na Gronelândia por ficar doente.
Ninguém morre numa sala de espera porque o plano de saúde negou o atendimento.
‘A NATO não estava lá quando precisávamos deles'. Quando exatamente aconteceu isso, campeão? 11 de setembro? Porque a NATO invocou o Artigo 5º pela primeira e única vez na história POR Vós.
Soldados de dezenas de países foram mobilizados, lutaram, sangraram e morreram no Afeganistão POR Vós . A Austrália nem fazia parte da OTAN e nós comparecemos mesmo assim.
E tu recolheste às duas da manhã sem dizer nada a ninguém e deixaste-os a lidar com a asneirada. Por isso, talvez antes de começares a dizer que outros países são mal geridos, olha para o teu próprio quintal, seu vendedor de revestimentos de alumínio com bronzeado de spray. A única coisa mal gerida nesta imagem é a p--- da tua boca."
Traduzido do inglês
Da página de Joy Mitchell

sábado, 11 de abril de 2026

STILL I RISE

 




Still I Rise

You may write me down in history
With your bitter, twisted lies,
You may trod me in the very dirt
But still, like dust, I'll rise.

Does my sassiness upset you?
Why are you beset with gloom?
’Cause I walk like I've got oil wells
Pumping in my living room.

Just like moons and like suns,
With the certainty of tides,
Just like hopes springing high,
Still I'll rise.

Did you want to see me broken?
Bowed head and lowered eyes?
Shoulders falling down like teardrops,
Weakened by my soulful cries?

Does my haughtiness offend you?
Don't you take it awful hard
’Cause I laugh like I've got gold mines
Diggin’ in my own backyard.

You may shoot me with your words,
You may cut me with your eyes,
You may kill me with your hatefulness,
But still, like air, I’ll rise.

Does my sexiness upset you?
Does it come as a surprise
That I dance like I've got diamonds
At the meeting of my thighs?

Out of the huts of history’s shame
I rise
Up from a past that’s rooted in pain
I rise
I'm a black ocean, leaping and wide,
Welling and swelling I bear in the tide.

Leaving behind nights of terror and fear
I rise
Into a daybreak that’s wondrously clear
I rise
Bringing the gifts that my ancestors gave,
I am the dream and the hope of the slave.
I rise
I rise
I rise.