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quinta-feira, 1 de outubro de 2026

E TAMBÉM É ESTÚPIDA


 "A Maria é professora. E também é estúpida. Ela sabe que é estúpida porque o João, o seu marido, lho diz. Explica sempre tudo o que a Maria expressa. E o João sabe o que diz. O João não tem nenhuma formação específica e prefere o café ao trabalho. Mas o João não é estúpido porque é homem e homens não são estúpidos.

A Raquel tem 50 anos. A Raquel é velha. Ela sabe que é velha porque o Pedro, o seu companheiro, a esclarece com frequência. Aponta lhe os cabelos brancos, as rugas no rosto, a flacidez das mamas. O Pedro tem 55 anos. Tem cabelos grisalhos, duplo queixo e a barriga já lhe encobre a pouca masculinidade. Mas o Pedro não é velho porque é homem e homens não envelhecem.
A Filipa é estudante. E é puta. Ela sabe que é puta porque o Miguel, o seu namorado, lho explica. Às vezes com manifestações físicas: já lhe rasgou o decote de um top, já lhe esfregou o batom pelo rosto, já a proibiu de usar certas saias. O Miguel implora sexo a tudo o que mexe, oferece se em praça pública, exibe se em tronco nu. Mas o Miguel não é puta porque é homem e homens não são putas.
A Bárbara é uma mulher realizada. E é infeliz. Ela sabe que é infeliz porque a Joana, a sua mãe, a informa constantemente. Precisas de alguém que te faça feliz, repete. A Joana é casada com o Raul, pai da Bárbara. O Raul é um adúltero que se diverte a abusar psicologicamente da Joana. Continua casado por cobardia. Sente um desprezo natural pela inércia da companheira. Mas a Joana não é infeliz porque ‘tem’ um homem e quem ‘tem’ um homem não é infeliz."
Texto de Ruth Martins.
Foto de Diana Arbus

terça-feira, 15 de setembro de 2026

FLORIPES

(A flor que o preconceito não conseguiu pisar)

Jorge papapá


Entre as décadas de 1960 e 1980, quando Salvador ainda carregava nas pedras do seu Centro Histórico uma vida que parecia existir fora do relógio, uma figura colorida começou a fazer das ruas sua morada, seu palco e sua trincheira.
Era uma Salvador de ladeiras íngremes, sobrados antigos, festas de largo, terreiros, igrejas, bares, becos e personagens que pareciam ter saído de dentro de uma história que a cidade contava para si mesma.
Foi nesse tempo — numa Bahia ainda profundamente conservadora, atravessada pelo preconceito e pelo silêncio em torno das identidades que fugiam às normas sociais — que Floripes apareceu.
Seu nome de batismo era Benedito Matos.
Mas Salvador a conheceu como Floripes.
E algumas pessoas parecem receber da cidade um segundo nascimento.
Floripes nasceu outra vez nas ruas.
Negra, pobre e travesti, atravessava o Pelourinho, a Rua Chile, a Baixa dos Sapateiros e a Ladeira da Montanha com uma liberdade que, para aquele tempo, era quase uma provocação.
Vestia-se de cor, carregava um galho de arruda atrás da orelha e parecia ter feito um pacto secreto com a própria coragem.
Enquanto a sociedade dizia que certos corpos deveriam permanecer escondidos, Floripes fazia justamente o contrário:
colocava seu corpo no mundo.
E Salvador nunca mais seria exatamente a mesma.
A cidade tem uma maneira muito particular de guardar seus personagens.
Alguns ficam nos livros. Outros, nas fotografias, nas placas, nos monumentos. Mas existem aqueles que escapam de qualquer moldura e continuam vivendo na memória das esquinas.
Floripes é uma dessas presenças.
Ela não passou simplesmente por Salvador.
Floripes aconteceu em Salvador.
As ladeiras conheciam seu passo, as pedras reconheciam sua voz, e os becos pareciam se abrir à sua passagem. Havia nela qualquer coisa de teatro, de festa e de encantamento.
Não precisava de carnaval para desfilar.
Não precisava de palco para representar.
A cidade inteira já lhe servia de cenário.
E naquele grande teatro de pedras antigas, sinos, maresia, dendê e pecado, Floripes representava o papel mais difícil de todos:
o de si mesma.
A arruda atrás da orelha era seu pequeno escudo.
Um galho verde contra o mau-olhado, contra a inveja, contra as energias ruins que, naquela Bahia de tantos mistérios, também faziam parte da paisagem.
Mas talvez a arruda fosse mais que proteção.
Talvez fosse uma bandeira.
Uma pequena folha dizendo ao mundo:
“Eu estou aqui.”
E quando vinham as provocações, quando alguma boca atravessava a rua carregando o veneno do preconceito, Floripes não desaparecia.
Parava.
Punha as mãos nas cadeiras.
E devolvia à cidade uma frase que se tornou quase um refrão de sua existência:
“SÓÓÓ NAAA BAAAHIIIAAAAAAA!”
A Bahia ria.
Mas hoje, olhando para trás, é preciso escutar o que havia por trás daquele riso.
Porque Floripes transformava a ofensa em espetáculo, o constrangimento em resposta e o preconceito em uma oportunidade de afirmar a própria existência.
Seu humor não apagava a violência que a cercava.
Ao contrário: fazia da irreverência uma forma de sobreviver.
Há pessoas que enfrentam o mundo com discursos.
Floripes enfrentava com presença.
Seu corpo era sua declaração.
Sua roupa, sua bandeira.
Sua voz, seu manifesto.
Seu jeito de existir, uma espécie de poesia rebelde escrita sobre as pedras de Salvador.
E talvez ninguém tenha percebido, naquele momento, a dimensão histórica daqueles passos.
Porque as grandes transformações nem sempre chegam acompanhadas de trombetas.
Às vezes chegam em silêncio.
Vêm disfarçadas de personagem.
Passam pela esquina.
Entram no bar.
Atravessam a praça.
Sorriem para alguém.
E seguem adiante.
Floripes foi uma dessas revoluções que não derrubaram governos, mas ajudaram a derrubar silêncios.
Ela ocupava espaços onde muitos queriam impor limites.
Estava nas festas de largo, no Bonfim, em Santa Bárbara, nas missas, nos terreiros de candomblé, nos lugares onde Salvador se encontrava com sua fé, sua festa e suas contradições.
Porque essa cidade sempre foi feita de encontros impossíveis.
Aqui o sagrado conversa com o profano.
O sino da igreja encontra o toque do atabaque.
A procissão cruza com a boemia.
O santo divide a paisagem com o malandro.
E o mar, indiferente às diferenças humanas, abraça todos os corpos com a mesma espuma.
Floripes pertencia a essa Salvador.
Uma Salvador que podia acolher e ferir no mesmo abraço.
Uma cidade capaz de rir de alguém e, ao mesmo tempo, transformá-lo em personagem inesquecível.
Talvez por isso sua história não deva ser contada apenas como folclore.
É preciso enxergar a pessoa por trás da personagem.
A mulher por trás da fantasia.
A humanidade por trás do riso.
Porque transformar Floripes apenas numa figura engraçada seria uma maneira silenciosa de diminuir sua importância.
Havia humor, sim.
Havia exagero, cor, irreverência.
Mas havia também uma vida atravessada pelas dificuldades de ser negra, pobre e travesti numa época em que a diferença frequentemente era tratada como pecado, doença, vergonha ou motivo de violência.
E ainda assim ela escolheu aparecer.
Escolheu viver.
Escolheu não pedir desculpas pela própria existência.
Isso também é resistência.
Talvez uma das formas mais profundas de resistência.
Floripes não esperou que o mundo se tornasse generoso para ser livre.
Ela começou pela própria liberdade.
E, sem discursos, abriu pequenas frestas na parede do preconceito.
Cada aparição era uma fresta.
Cada gargalhada, uma rachadura.
Cada passo, uma afirmação.
Cada vez que levantava a cabeça, alguma coisa no velho mundo perdia um pouco de sua autoridade.
Hoje falamos em visibilidade, identidade, respeito, diversidade e direitos.
Palavras necessárias, mas que nem sempre existiram.
Antes delas vieram os corpos.
Vieram as pessoas que desafiaram o silêncio sem ter sequer o vocabulário político para explicar aquilo que estavam fazendo.
Floripes foi uma delas.
Talvez não soubesse que estava escrevendo história.
Talvez só quisesse viver.
E justamente por isso sua história é tão bonita.
Porque algumas pessoas não entram para a história tentando entrar.
Entram porque tiveram a coragem de viver plenamente o próprio tempo.
Floripes viveu.
E deixou marcas.
Não em monumentos.
Não em estátuas.
Mas na memória de Salvador.
Ficou nas ladeiras, nos becos, nas festas, nas histórias contadas por quem a viu passar.
Ficou como ficam certas músicas depois que o rádio silencia.
Como ficam os perfumes depois que alguém vai embora.
Como fica o som de um sino dentro de uma tarde antiga.
E talvez seja por isso que gosto de imaginar que Floripes ainda anda por Salvador.
Não como fantasma.
Como memória viva.
Como certas estrelas que nascem justamente nas noites mais escuras.

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

11 DE SETEMBRO

 

11 SETEMBRO: A GLOBALIZAÇÃO E A ASCENSÃO DA EXTREMA DIREITA – ARMANDO AVENA

Redação - 11/09/2026

As manhãs de  Washington  no outono são límpidas e claras e fui correr às margens do Potomac para ver os prédios monumentais ao longo do rio. Passei pelo Lincoln Memorial, pelo monumento a Thomas Jefferson e vi de longe o obelisco dedicado a George Washington. Tive certeza, então, de que  Washington nunca seria a capital do mundo.  É apenas uma cidade americana arrogante, conservadora e preconceituosa, bem diferente de Nova York que, cosmopolita, se abre para o mundo e é a Roma dos tempos modernos.

Na noite anterior,  passeando em Georgetown, tudo parecia calmo, e no cais do Washington Harbour, nos restaurantes e nas  jam sessions  do Blue Alley Jazz era possível sentir nos americanos a característica que melhor os distingue: a egoísta ilusão, ou o desejo subconsciente, de estarem sós no planeta, e de serem os donos dele.

Às quinze para as nove, eu já estava no prédio do Banco Mundial. Foi quando soube que um Boeing  havia atingido uma das torres gêmeas em Manhattan e, já em frente à televisão, vi outro Boeing abrir um enorme buraco na Torre Sul. O Banco Mundial foi evacuado e já na Av. Pensilvânia pude ver, na margem sul do Potomac, em Arlington, a fumaça saindo de um edifício de cinco faces: o verdadeiro  símbolo do poder americano fora atingido por um Boeing  757.

Foi quando um dos ângulos do Pentágono ardia em fogo que eu percebi que  estava presenciando a História. Passei sete dias sem poder sair de Washington, já  ciente de que o 11 de setembro era fruto da globalização e que os terroristas se valeram da infraestrutura criada por ela para atacá-la. O terror matou milhares de pessoas e atingiu no coração um projeto de organização do mundo, baseado na integração econômica, na redução das fronteiras e na promessa de um futuro cosmopolita.  Após o 11 de setembro, a circulação internacional, sinônimo de  oportunidade, tornou-se um risco. E o estrangeiro, antes associado ao turismo, ao trabalho e à integração, passou a ser uma ameaça.

O atentado alterou, sobretudo no Ocidente, a percepção sobre a imigração e o fim das fronteiras travestiu-se de invasão, fortalecendo a extrema direita que pregava contra a globalização e a imigração.

E a crise financeira de 2008, a desindustrialização, a crise migratória europeia de 2015, o Brexit, a pandemia e a eleição de Donald Trump pavimentaram a ascensão da extrema direita no mundo.

Hoje, 25 anos depois, a globalização, um ideal de liberdade econômica, de livre circulação e de comércio entre nações está sob intenso ataque. E as grandes potências mundiais, EUA, China, Rússia, parecem desinteressadas desse modelo de integração e mais preocupadas em preservar o núcleo duro de suas nações e tomar, por todos os meios, os recursos de outros países e, quando necessário, os próprios países. A utopia de um mundo democrático integrado está cedendo lugar à ditadura política, ao nacionalismo econômico e à lógica das esferas de influência.

A semente que cresceu no solo dizimado das Torres Gêmeas foi a do poder ditatorial das grandes potências que, assenhoradas pela  extrema direita, estão destruindo  a ordem democrática e a ideia de um capitalismo fundado na liberdade, na cooperação e no comércio entre nações.

Texto do escritor e economista Armando Avena – Publicado no jornal A Tarde em 11 de setembro de 2026

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

JEHOVÁ DE CARVALHO


Jorge papapá

Há homens que escolhem uma profissão. Outros parecem escolher um destino. Jehová de Carvalho foi advogado, poeta, cronista e boêmio — mas talvez nenhuma dessas palavras, sozinha, dê conta do homem que ele foi. Porque Jehová parecia ter nascido para conversar com a vida, e a vida, com suas esquinas, seus personagens e suas contradições, era a matéria-prima de sua escrita.
Na Salvador de outros tempos, quando a noite ainda parecia mais comprida e as conversas tinham o vagar das coisas que não precisavam terminar, Jehová transitava entre livros, processos, poemas, mesas de bar e amizades. Tinha o olhar de quem sabia enxergar além da aparência. Onde muitos viam apenas uma rua, ele encontrava uma história. Onde havia uma mesa de bar, descobria uma pequena assembleia de filósofos. Onde existia uma conversa despretensiosa, podia nascer uma crônica.
O advogado conhecia as leis; o poeta, porém, conhecia as entrelinhas da alma. Talvez por isso Jehová nunca tenha deixado que o homem da toga sufocasse o homem da palavra. Entre artigos, pareceres e processos, havia sempre uma janela aberta para a poesia. E entre um poema e outro, a vida real — essa grande e desobediente literatura — entrava sem pedir licença.
Boêmio por vocação e por encantamento, Jehová pertencia àquela espécie de homens que não tinham pressa de chegar em casa porque sabiam que a noite ainda guardava alguma história. Gostava da conversa, da companhia, do riso, da inteligência solta sobre a mesa. A boemia, para ele, não era apenas beber ou atravessar madrugadas: era uma maneira de estar no mundo. Era saber que uma boa conversa podia valer mais que uma noite inteira de sono.
Sua crônica nascia justamente desse território onde a vida e a literatura se encontram. Jehová escrevia com a intimidade de quem conhecia as ruas por dentro, os costumes, as figuras populares, os amigos, os tipos humanos e as pequenas grandezas do cotidiano. Havia em sua escrita uma Bahia que não cabia nos cartões-postais: a Bahia das esquinas, das rodas de conversa, da irreverência, da fé, da malícia, da solidariedade e da memória.
E talvez seja essa a maior qualidade de um cronista: perceber que nada é pequeno quando visto com os olhos certos.
Jehová tinha esses olhos.
Sabia que a vida também se esconde nos detalhes. Num gesto, numa frase, numa lembrança aparentemente sem importância. Sabia que o tempo passa, mas deixa migalhas pelo caminho — e que escrever é, muitas vezes, recolher essas migalhas antes que o vento as leve.
Por isso sua poesia não estava apenas nos versos. Estava também na maneira de viver. Estava na amizade, na boemia, na conversa comprida, no riso compartilhado, na capacidade de transformar uma noite qualquer em memória.
Há pessoas que passam pela cidade. Outras deixam a cidade passar por dentro delas.
Jehová de Carvalho foi dessas.
Carregou Salvador consigo como quem carrega um livro aberto, cheio de personagens, ruas e vozes. E talvez tenha sido justamente por isso que conseguiu ser advogado sem abandonar o poeta, poeta sem fugir do mundo, cronista sem perder a delicadeza e boêmio sem deixar de ser observador.
No fim, talvez Jehová não tenha escrito apenas crônicas. Ele escreveu uma maneira de lembrar.
E algumas vidas são assim: continuam acontecendo depois que terminam, porque permanecem nas histórias que contamos, nas mesas onde ainda se fala delas e nas palavras que, de vez em quando, devolvem ao presente aqueles que o tempo tentou levar.
E talvez não seja apenas uma coincidência bonita do destino. Talvez seja como se a própria vida, ao despedir-se dele, tivesse escolhido deixar uma palavra viva para continuar dizendo aquilo que ele foi: o encontro entre coisas diferentes que, juntas, encontram uma forma de soar bem.
Não é justamente isso que Jehová parece ter sido? Advogado e poeta. Homem da lei e homem da noite. Cronista e boêmio. Razão e paixão. A toga e a mesa de bar. O rigor das palavras e a liberdade dos sonhos.
Ele viveu entre esses mundos sem precisar escolher um só..
Porque há homens que deixam livros, outros deixam histórias, outros deixam saudades. Jehová deixou tudo isso — e deixou também uma filha cujo nome parece dizer, em uma única palavra, o resultado bonito de uma vida inteira: quando a poesia, a amizade, a boemia, a inteligência e a liberdade encontram o mesmo compasso, o que nasce é Harmonia.

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

A ERA DO FAKE

 ... E DO CULTO AO EGO


Décio Torres Cruz*

 


É impressionante observar a transformação da ficção e das teorias acadêmicas em formas concretas que passam a afetar a realidade cotidiana. George Orwell, Aldous Huxley, Ray Bradbury, Philip K. Dick, Jean Baudrillard, Guy Debord e outros escritores descreveram, em suas obras do século passado, nossos atuais dias “pós-modernos”, nos quais a realidade se torna ficção, a história é reescrita e a ciência é transformada em narrativa.

Dados cientificamente comprovados e antes universalmente aceitos, como o formato geoide da Terra, passaram a ser questionados e difundidos por pessoas sem o mínimo conhecimento científico. Convencionou-se que mentira e verdade são apenas faces de uma mesma moeda, prevalecendo a versão de quem conta a melhor história e tem mais adeptos nas redes sociais.

Gourmertizando o vazio

Antes do atual milênio, para se ter uma profissão, eram necessários muitos anos de estudo e prática, seja com quem já era profissional na área, seja frequentando aulas em escolas, cursos e universidades. Para se exercer uma profissão (fora da área política e familiar, onde prevalecem indicações), era necessário conhecimento prévio e/ou um diploma. Hoje, qualquer um inventa uma profissão e se autointitula especialista naquilo que nunca estudou ou aprendeu na vida.

E como não se pode ser pós-moderno sem ser internacional, brasileiros com mentes colonizadas adotam palavras em inglês para esconder a real intenção do vazio de algumas profissões recém-inventadas, como os tais influencers e coaches (treinadores de esportes, palavra usada agora para designar um profissional que ajuda as pessoas a atingir um objetivo profissional ou pessoal com orientação, conselhos e treinamento).

Com o atual declínio da aura em torno da educação como fator transformador e com o surgimento de celebridades que não precisaram estudar muito para atingir a fama e a riqueza, muitas pessoas acham que podem se tornar tudo o que quiserem sem nunca ter frequentado um curso ou universidade. Acreditam que não necessitam de uma profissão ou formação, bastando apenas possuir um imenso número de seguidores fiéis e engajados nas redes sociais para virar influencer ou creator (criador) — um profissional que produz conteúdo na internet e que é capaz de influenciar seus seguidores a partir do seu comportamento (no dia a dia, nos produtos que consome, na forma de ver o mundo, nos eventos que possam gerar popularidade ou publicidade, na formação profissional etc.) e ganhar muito dinheiro com o marketing de empresas que contratam seus serviços. Os influenciadores funcionam como uma espécie de vitrine dos produtos e marcas que promovem, buscando criar o desejo por aquilo que oferecem a seus seguidores.

 

Mercado de diplomas

Embora parte da população simule um desprezo por formações acadêmicas, muitos querem obter um diploma a qualquer custo para não parecerem idiotas perante seus seguidores. Além dessas novas profissões da era digital, o número de compras de diplomas falsos parece ter aumentado. Há diversas empresas fabricando e vendendo títulos de doutor honoris causa, inventando faculdades que nunca existiram. Nesta lista de compras, encontram-se as ditas “pessoas de bem”, diversos profissionais (juízes, advogados, professores e escritores) comprando esses diplomas e recebendo-os em solenidades em câmaras de vereadores e até em algumas academias de Letras do interior.

Muita gente ostenta esses diplomas mesmo sabendo que são falsos. Coloque nessa lista os títulos de melhor prefeito, melhor comerciante, melhor empresário ou empreendedor e até de melhor escritor. Tudo está à venda para satisfazer o ego de pessoas medíocres que sempre desprezaram os estudos acadêmicos e nunca conseguiram se sobressair em nada. Agora, elas possuem a possibilidade não só de ser o que não são, mas também de ser as melhores em habilidades que nunca tiveram ou em profissões para as quais nunca foram habilitadas. Tivemos exemplos de ministro da Educação e até mesmo de membro da mais alta corte que procuraram turbinar currículos com cursos ou estágio pós-doutoral que nunca fizeram.

Escrita sem leitura e livros artificiais

A proliferação de profissões inexistentes abunda na mesma quantidade em que surgem diversas editoras que cobram para publicar qualquer coisa, não importa a qualidade. A rede está cheia de gente que nunca teve o hábito da leitura e da escrita e escreve muito mal, cometendo erros de toda espécie; pessoas que deveriam voltar aos estudos de gramática e redação antes de pensar em escrever. De repente, esses indivíduos se autointitulam escritores e se transformam em tais da noite para o dia, pagando para ter livros publicados até mesmo em outros países. Outros, que nunca escreveram ou publicaram um livro sequer, oferecem cursos, ensinando incautos a como se tornar um escritor.

E pior: tem muita gente usando Inteligência Artificial e publicando livros sem ter escrito uma única palavra; e alguns ganham prêmios literários, outros usam falsamente nomes de escritores reais, como o da escritora Jane Friedman, ex-presidente e diretora-executiva da famosa editora Harper Collins, cujo nome foi usado sem seu conhecimento por terceiros que ganham dinheiro com livros escritos por IA, vendidos na Amazon como se fossem dela.

A epidemia de desinformação nas bolhas ideológicas

Durante a pandemia, houve muitos casos de médicos ideologicamente fanáticos que prescreveram remédios e tratamentos contra a Covid-19 que eles sabiam (ou preferiam não saber) que eram totalmente ineficazes. Várias pessoas que nunca adentraram uma sala de aula de cursos de jornalismo ou comunicação, nem trabalharam em redações de jornais, revistas e televisão, subitamente se alçaram ao nível de jornalistas e blogueiros para disseminar informações falsas como se fossem dados reais.

Veículos sérios de comunicação passaram a ser evitados ao apresentarem a realidade dos fatos, sendo perseguidos por uma determinada camada da população que preferia acreditar nas versões mentirosas inventadas por um grupo político que pagava alguns veículos para disseminar suas mentiras como verdade. Criaram uma bolha, tornando seus seguidores completamente alienados do estado real dos acontecimentos. Alguns deles, quando confrontados com a realidade factual, ainda hoje se recusam a aceitá-la ou entram em devaneios.

Esse grupo fabricador e disseminador de mentiras aproveitou-se do desconhecimento escolar da população e criou um imenso séquito de seguidores desinformados, que acompanhavam falsos historiadores e filósofos terraplanistas que nunca estudaram história ou filosofia, mas escreveram livros e comentários com visões dos fatos totalmente deturpadas e erradas, distorcendo a verdade histórica de forma escabrosa, criando e espalhando mentiras funestas. Isso provocou uma perseguição a professores de história e geografia. Alguns foram ameaçados por alunos e seus pais, perdendo seus empregos por ensinarem a história do que realmente aconteceu no tempo da ditadura militar.

Intimidade exposta

O desenvolvimento da eletrônica, da tecnologia computacional e das redes sociais facilitou a expansão do fake e da idolatria ao ego. Todas as redes propiciam uma necessidade ilimitada de publicações, forçando as pessoas a fazerem propaganda de si mesmas. E, quando elas não têm o que falar de si, inventam, inclusive profissões que nunca exerceram, com o intuito de atrair a atenção de amigos e seguidores. Os apps de melhoramento de imagem ou de montagem de imagens fake estão disponíveis em todas as câmeras de celular.

As redes sociais incentivam esse culto exagerado do ego, quase forçando as pessoas a postarem o tempo todo sobre tudo o que estão fazendo, não importando o conteúdo ou o ridículo da ação. Tem gente que chega ao ponto de postar fotos de eventos privados que antes se limitavam ao meio familiar, desrespeitando a intimidade de pessoas doentes em hospitais ou de pessoas mortas em cerimônias fúnebres. Há, até mesmo, fotos de pessoas que, sem se preocuparem com reflexos da imagem no espelho, fotografam-se durante a realização de necessidades físicas nos banheiros e só se dão conta depois que as imagens viralizam.

Parece que a nossa contemporaneidade inaugurou uma nova espécie de ética aética, onde prevalece o vale-tudo para que as pessoas aumentem sua autoestima com o clique de likes e coraçõezinhos a cada nova postagem, sem qualquer compromisso com a ética, a empatia, ou com a veracidade do conteúdo exposto,. As redes criam a falsa ilusão de que não estamos sós por estarmos rodeados de “amigos” virtuais, como se cada curtida satisfizesse o ego e preenchesse o vazio da solidão nossa de cada dia.

E, quando as curtidas não vêm espontaneamente, alguns, que possuem condições para tal, compram seguidores para falsificar sua imagem perante os seguidores reais. Quando as curtidas não acontecem de modo algum, as pessoas inventam mentiras para se sentirem menos infelizes.

O preço da validação

Isso tem causado muitas doenças entre a população jovem. De acordo com a Agência Câmara de Notícias e o Panorama da Saúde Mental, estudos sobre a saúde mental de jovens demonstram o desenvolvimento de transtornos físicos e mentais em usuários de plataformas digitais, causados pelo abuso de compartilhamento de fotografias manipuladas de rosto e corpo, visando o estabelecimento de padrões estéticos inatingíveis. Hoje, é possível fabricar quase tudo digitalmente, seja falso ou verdadeiro. Fotografias de adolescentes e pessoas famosas estão sendo manipuladas para criar nudes falsos ou filmes pornôs expostos nas redes.

Os profissionais de saúde mental vêm emitindo alertas sobre a exposição dos jovens às redes sociais. Muitos adolescentes que não conseguem alcançar um determinado número de curtidas ou que são expostos indevidamente de forma comprometedora adquirem transtornos mentais devido à preocupação extrema com sua aparência e com a exposição de sua imagem, sendo acometidos de anorexia, ansiedade, autoflagelação, bulimia e depressão — doenças que podem levar ao suicídio.

Já passou da hora de a sociedade global debater a fundo os perigos que criamos para nós mesmos e estudar os meios de amenizar os danos causados pelo uso indiscriminado de tecnologias. Não podemos desprezar sua interferência e suas consequências nas relações humanas. O que antes parecia ser um sonho de ficção científica, que gerava o medo de máquinas controlarem os seres humanos, já se tornou realidade com o surgimento da IA.

Algoritmos moldam nossos desejos e nossas escolhas, selecionando os produtos, sonhos e a felicidade que devemos comprar, os espetáculos e filmes que devemos ver, além de sugerirem o que devemos fazer e de quem gostar ou odiar. Robôs (bots) transformam notícias falsas em verdadeiras e modificam o resultado de eleições em várias partes do mundo. Quando as fronteiras que separam a realidade da ficção e o falso do real se dissolvem, chega a hora de reavaliarmos onde fracassamos como espécie humana, analisarmos o que ainda nos reserva e nos resta no futuro e repensarmos se tudo isso vale a pena.

 



* Escritor, membro da Academia de Letras da Bahia e da Academia Contemporânea de Letras de São Paulo. Autor de Histórias roubadas, Viagens & travessias e A poesia da matemática, dentre outros.