quarta-feira, 2 de setembro de 2026
domingo, 30 de agosto de 2026
quinta-feira, 30 de julho de 2026
O SAL
Quando é que a humanidade começou a consumir sal? E porquê?
O sal já foi mais valioso que o ouro e moldou impérios inteiros. Hoje é o mesmo instinto que nos salvava a colocar a nossa saúde em risco.

Quando é que a humanidade começou a consumir sal? E porquê?
Cada vez que tempera a comida com uma pitada de sal, está a repetir um gesto que, durante a maior parte da história humana, foi uma questão de vida ou morte. O que hoje é automático e quase gratuito já foi um dos bens mais valiosos do planeta — o suficiente para construir impérios e financiar guerras.
O corpo precisa de sal para o coração não parar
O sódio não é um capricho do paladar — é essencial para regular fluidos, transmitir impulsos nervosos e permitir que os músculos se contraiam, incluindo o coração. Sem sódio suficiente, o sistema nervoso deixa de funcionar.
O problema é que, na natureza, o sódio é escasso. Os nossos ancestrais chegavam a recorrer à geofagia — lamber pedras ou comer terra rica em minerais — só para obter esse nutriente. Era uma necessidade tão forte que o corpo parecia “saber” da falta antes de a mente perceber.
A agricultura criou um problema que não existia
Durante o Paleolítico, comer carne, vísceras e sangue animal já garantia sódio suficiente. A chegada da agricultura mudou isso: com mais grãos e vegetais na dieta, os níveis de sódio caíram de forma acentuada — e foi essa lacuna que empurrou os humanos a começar a extrair sal ativamente.
As evidências mais antigas de extração sistemática têm cerca de 8.000 anos e vêm da atual Roménia, onde comunidades neolíticas ferviam água de nascentes para obter os cristais.
Da mumificação egípcia ao salário romano
A partir daí, quem controlava o sal controlava poder. No Antigo Egito, era essencial na preservação de alimentos e nos rituais de mumificação. Na China antiga, deu origem aos primeiros monopólios estatais da história.
Em Roma, a palavra “salário” nasce de salarium — parte do pagamento dos soldados era feito em sal, ou em dinheiro destinado a comprá-lo. No comércio transariano em África, chegou a trocar-se sal pelo seu peso em ouro.
Sem sal não havia forma de conservar alimentos — e sem essa tecnologia, cidades maiores e viagens marítimas longas simplesmente não seriam possíveis.
O mesmo instinto que nos salvou agora ameaça-nos
Aqui está o paradoxo: passámos milhões de anos a desenvolver um desejo forte por sal precisamente porque ele era raro. Hoje vivemos rodeados de excesso, mas o cérebro continua a ativar os mesmos circuitos de recompensa de sempre. A indústria alimentar sabe disto — e usa-o. Ao adicionar sal em quantidades industriais aos alimentos processados, torna-os quase impossíveis de resistir.
O resultado está nos números: a Organização Mundial da Saúde recomenda menos de 5g de sal por dia, mas a média global já passa dos 10g.
Um povo que quase não tem hipertensão
Os Ianomâmi, no Brasil, ainda seguem uma dieta próxima da ancestral — consomem só 1 a 2g de sódio por dia e praticamente não têm casos de hipertensão. O contraste com as cidades modernas, onde o mesmo mineral que outrora nos salvava agora contribui para doenças cardiovasculares, é direto.
O sal também já foi símbolo de resistência: em 1930, a Marcha do Sal de Gandhi transformou este mineral num ato de desafio contra o monopólio colonial britânico. Continua presente em rituais até hoje, do sumô japonês às referências bíblicas.
A próxima vez que sentir vontade de algo salgado, saiba que está a ouvir um eco muito antigo — o do corpo humano ainda a operar segundo as regras de um mundo onde o sal era raro, mesmo vivendo num mundo onde deixou de ser.
domingo, 12 de julho de 2026
DE TANGER AO ALGARVE
1661: quando milhares de retornados de Tânger regressaram ao Algarve
Em 1661, Portugal entregou Tânger à Inglaterra como dote de casamento de D. Catarina de Bragança. Milhares de portugueses - alguns há quatro gerações lá - vieram para o Algarve.
A entrega de Tânger à coroa britânica foi um detalhe do contrato matrimonial que uniu a princesa D. Catarina de Bragança a Carlos II de Inglaterra.
Do ponto de vista diplomático, era uma cedência razoável: Portugal precisava de aliados e Inglaterra queria um porto estratégico no estreito de Gibraltar. Do ponto de vista das pessoas que viviam em Tânger, era outra coisa.
Havia portugueses que habitavam Tânger há décadas, alguns nascidos lá, filhos e netos de quem lá tinha chegado durante a ocupação que durou quase dois séculos.
Chamá-los “retornados” — como ficaram conhecidos os que voltaram para Portugal continental — era tecnicamente impreciso: muitos nunca tinham estado no Algarve. Vieram para um lugar que era suposto ser a sua terra sem nunca lá terem vivido.
O que era Tânger portuguesa
Portugal tomou Tânger em 1471 e manteve-a durante 190 anos. A localização justificava o investimento: quem controlava Tânger controlava o fluxo de navegação no estreito de Gibraltar, interrompendo a actividade corsária islâmica que assolava a costa algarvia e criando uma plataforma logística para as conquistas africanas que ainda estavam por vir.
Mas viver em Tânger não era fácil. A cidade estava em permanente estado de guerra — ataques árabes e berberes eram uma constante ao longo de toda a ocupação portuguesa.
O quotidiano dos habitantes confinava-se à área amuralhada: saídas apenas durante o dia, numa faixa de território protegida por torres de vigia, onde o gado pastava e se recolhia lenha. Os abastecimentos essenciais chegavam por via marítima, vindos da metrópole. A cidade não se sustentava sozinha.
Para preencher este posto ingrato, a Coroa recorreu a dois tipos de recrutamento que dizem muito sobre a época: pessoas de condição social elevada eram atraídas com títulos nobres, pensões e privilégios; pessoas de condição inferior — frequentemente criminosos — viam as penas perdoadas em troca de servir na praça-forte africana. Era uma mistura humana improvável, que ao longo de gerações foi criando uma comunidade própria.
A saída de 1661
Quando Portugal cedeu Tânger à Inglaterra, as pessoas que ali viviam tiveram um curto período para deixar tudo e partir. A maioria rumou para o Algarve — o território nacional mais próximo geograficamente, a ponta sul de Portugal, do outro lado do estreito.
Chegaram às centenas, talvez aos milhares. Traziam consigo hábitos, práticas culinárias, elementos arquitectónicos e uma memória de vida em território norte-africano que não desapareceu na travessia.
Alguns dos traços que hoje associamos ao Algarve — na gastronomia, em certos elementos da arquitectura — têm origem não nos mouros que habitaram a região séculos antes, mas nestes “tangerinos” que chegaram no século XVII com a herança de quase dois séculos de vida no norte de África.
Uma história que se repetiu três séculos depois
A historiografia portuguesa tende a tratar o fluxo de retornados de 1974 — após o 25 de Abril e a descolonização — como um fenómeno sem precedente na nossa história. Não é.
Em 1661, o mesmo aconteceu em menor escala mas com a mesma lógica essencial: portugueses que tinham construído as suas vidas num território ultramarino foram obrigados a sair quando a coroa cedeu esse território a outra potência, e vieram instalar-se num país que era teoricamente o seu mas que na prática muitos não conheciam.
A diferença é que os tangerinos de 1661 ficaram tão integrados no Algarve que a sua origem se foi diluindo nas gerações seguintes. Hoje, a maioria dos algarvios não sabe que os tem como antepassados. Os vestígios estão na mesa e nas paredes — mas a memória da origem perdeu-se.
É o destino habitual das migrações bem-sucedidas: integram-se tão completamente que deixam de ser visíveis como migrações.
quarta-feira, 8 de julho de 2026
THOMAS JEFFERSON E A ESCRAVIDÃO
A sombria história de Thomas Jefferson com a escravidão

A estátua de bronze de um homem esguio em casaca do século 18 olha para a distância. Ela fica em Washington, a capital dos Estados Unidos, e representa o terceiro presidente do país, Thomas Jefferson – para os americanos, uma figura histórica monumental. Seu rosto também foi esculpido na rocha do famoso Monte Rushmore, no estado da Dakota do Sul, ao lado de outros três presidentes, George Washington, Abraham Lincoln e Theodore Roosevelt.
Como autor da Declaração de Independência, Jefferson tornou-se um dos Pais Fundadores dos Estados Unidos. Ele foi jurista, proprietário de plantações e político. Atuou como o primeiro secretário de Estado da jovem república e segundo vice-presidente antes de ocupar a Presidência.
O seu mandato presidencial ficou sobretudo marcado pela Compra da Louisiana: com a aquisição de um vasto território da França, a jovem nação praticamente dobrou seu território. Porém, como quase todo ícone histórico, Jefferson também tinha um lado sombrio, que só passou a ser abordado abertamente há algumas décadas: sua relação com a escravidão. Ao longo da sua vida, Jefferson (1743-1826) foi o senhor de mais de 600 escravizados.
Um dos aspectos desse lado obscuro de sua biografia está intimamente ligado a Tadeusz Kościuszko. O oficial polonês é uma das figuras mais importantes da Guerra de Independência dos Estados Unidos. Muitas ruas, praças e pontes nos EUA hoje levam seu nome, difícil de pronunciar para os americanos. O mesmo ocorre na Polônia: ali ele é venerado sobretudo como líder da fracassada revolta de 1794 contra a Rússia czarista.
Humanista e proprietário de escravizados
Jefferson encontrou Kościuszko pela primeira vez em 1780, durante a Guerra de Independência dos Estados Unidos. O futuro presidente Jefferson era então governador da Virgínia. O oficial polonês Kościuszko já havia se destacado na Armada Continental como engenheiro militar extraordinariamente talentoso.
Uma amizade mais estreita entre os dois, porém, só surgiu em 1797. Após sua libertação do cativeiro russo, Kościuszko chegou à Filadélfia, então capital dos Estados Unidos. Na Europa e na América, ele já era considerado um símbolo da luta pela liberdade de duas nações.
Kościuszko, marcado por ferimentos e pelas consequências da prisão russa, encontrava-se regularmente durante sua estadia com Jefferson, que naquela época era vice-presidente dos Estados Unidos.
Em uma carta ao general Horatio Gates, Jefferson escreveu: "Eu o vejo frequentemente, com grande alegria, misturada com compaixão. Ele é o filho mais puro da liberdade que já conheci — liberdade para todos, e não apenas para alguns ou para os ricos."
Quando Kościuszko, na primavera de 1798, decidiu deixar definitivamente os EUA, pediu a Jefferson um favor extraordinário. Ele deixou sua fortuna adquirida no país e determinou que, após sua morte, ela fosse usada para comprar a liberdade e financiar a educação dos escravizados de Jefferson.
Kościuszko era um firme opositor da servidão e da escravidão. Não foi por acaso que, como oficial do exército americano, escolheu ostensivamente um soldado negro como ajudante de ordens. Teria o testamento sido uma tentativa de constranger seu amigo americano? Ou Kościuszko queria lembrar os Estados Unidos dos ideais pelos quais havia arriscado sua vida?
A hora da verdade
Dois anos após a morte de Kościuszko, em maio de 1819, Thomas Jefferson compareceu ao tribunal do condado de Albemarle, na Virgínia, e apresentou o testamento. Declarou que não era capaz de cumprir a última vontade de seu amigo. Pediu ao tribunal que nomeasse outro executor testamentário.
Ainda em fevereiro de 1810, Jefferson havia assegurado a Kościuszko em uma carta: "Se algo lhe acontecer, o uso beneficente do capital por você determinado não será adiado."
Por sua vez, Kościuszko lembrou Jefferson, em sua última carta a ele, apenas algumas semanas antes da sua morte em outubro de 1817, do destino da fortuna. Ainda assim, sua vontade jamais foi cumprida.
Após décadas de disputas judiciais, em 1852, a Suprema Corte dos Estados Unidos concedeu a fortuna aos herdeiros europeus de Kościuszko.
Hipócrita ou realista?
A história da promessa não cumprida do autor da Declaração de Independência ocupa historiadores americanos até hoje. Após a descoberta de uma relação sexual de anos entre Jefferson e sua escravizada Sally Hemmings, este é o segundo grande abalo na legenda monumental do Pai Fundador dos Estados Unidos.
"O texto do testamento de Kościuszko me comove profundamente”, afirma Henry Wiencek, autor de uma biografia crítica de Jefferson. Para ele, é claro: ao contrário de George Washington, Jefferson não quis libertar escravizados, "porque eles eram mais valiosos para ele do que o dinheiro do testamento do general polonês". A execução desse testamento teria destruído seu estilo de vida luxuoso e sua posição entre a elite econômica do estado escravocrata, avalia o historiador norte-americano.
A historiadora e jurista de Harvard Annette Gordon-Reed vê a questão de outra forma. Em sua opinião, os críticos subestimam as dificuldades jurídicas. Ela observa que, após deixar os EUA, Kościuszko havia redigido outros testamentos na Europa. Na sua visão, o ex-presidente, como jurista experiente, reconheceu que longos processos judiciais seriam inevitáveis.
"Ele tinha cerca de 75 anos na época. Já era um homem idoso e não queria carregar problemas adicionais. Por isso, transferiu a tarefa a outra pessoa", afirma Gordon-Reed.
O biógrafo de Kościuszko, Alex Storozynski, por sua vez, está convencido de que a existência de outros testamentos forneceu sobretudo uma desculpa conveniente para Jefferson. A execução do legado de Kościuszko teria, de fato, colocado-o na liderança do nascente movimento abolicionista. O ex-presidente teria recuado diante disso.
O monumento em frente à Casa Branca
Kościuszko hoje observa a Casa Branca do alto de um pedestal. Ele é retratado com o uniforme de um oficial americano, com os planos das fortificações de Saratoga nas mãos.
Foram suas habilidades de engenharia que contribuíram de forma decisiva para a vitória americana em uma das batalhas decisivas da Guerra de Independência.
O primeiro ocupante da Casa Branca foi Jefferson. A ele, Kościuszko escreveu certa vez: "Eu te amo, você é a única esperança da humanidade, e gostaria que você fosse um modelo para os séculos vindouros."
No rosto da estátua há seriedade. Henry Wiencek está convencido de que há nisso uma ironia histórica: medido por sua fidelidade intransigente aos ideais de liberdade e igualdade, Kościuszko acabou sendo um americano maior do que o próprio Thomas Jefferson.
O autor agradece ao International Center for Jefferson Studies em Monticello (EUA) pelo apoio na pesquisa.
