domingo, 30 de março de 2025
BALANÇA MAS NÃO CAI
A ponte que “balança, mas não cai”
sábado, 29 de março de 2025
UM PRÍNCIPE AFRICANO
A fascinante história do 'Príncipe Africano' de Gustav Klimt
Durante muito tempo, o retrato do príncipe da África Ocidental pintado em 1897 pelo austríaco Gustav Klimt foi dado por perdido: seus rastros desapareciam depois de 1938.
A reaparição da pintura Príncipe William Nii Nortey Dowuona se tornou uma sensação no mundo da arte, assim como o fato de ela estar prestes a ser vendida por 15 milhões de euros (R$ 92 milhões) na feira de arte Tefaf, em Maastricht, Holanda.
Um casal de colecionadores levou o quadro até a galeria dos negociantes de arte vienenses
Wienerroither & Kohlbacher, há 25 anos especializada em Klimt. "Foi uma grande surpresa para nós", comenta o diretor da galeria, Alois Wienerroither.
Ele e seus sócios não reconheceram imediatamente o tesouro que estava escondido atrás da sujeira. "Nós olhamos para a pintura; ela estava suja e tinha uma moldura ruim; não parecia nada com Klimt." Após a limpeza, ficou claro que era a pintura de um príncipe da África Ocidental, de uma região que atualmente é parte do território de Gana.
Klimt, pioneiro da vanguarda austríaca
O vienense Gustav Klimt (1862-1918) foi um dos pintores mais importantes austríacos do final do século 19. Considerado o representante máximo do estilo art nouveau vienense, ou jugendstil, seus retratos abstratos de mulheres, como O beijo e a Dama dourada são mundialmente famosos.
Em 1897, fundou com um grupo próximo de artistas a Secessão de Viena. O coletivo de 50 artistas de vanguarda queria romper com o estilo realista do historicismo e lançar uma nova estética, tendo Klimt como presidente da associação.
Durante esse período de mudança ele pintou o retrato do príncipe da África Ocidental, em estilo realista. Para Wienerroither, trata-se de um quadro fundamental: "O fundo floral da pintura já é moderno e também evoca o retrato de Sonja Knips, filha de uma família de oficiais, que ele pintou um ano depois."
Exposições etnológicas em Viena
De acordo com as informações mais recentes, o próprio príncipe de Gana posou como modelo para Gustav Klimt, como parte de uma assim chamada "exposição etnológica".
O zoológico no parque de diversões vienense Prater, com suas populares "exibições etnográficas", seguia a tendência da virada do século. Representantes de outras culturas eram exibidos ou se apresentavam à força nesses shows, devido às ofertas tentadoras dos clientes.
Eventos semelhantes também eram realizados na Alemanha, por exemplo, no Zoológico Hagenbeck de Hamburgo. Os indivíduos dos grupos étnicos representados eram muitas vezes mantidos em espaços abertos, como animais num zoológico, em condições desconfortáveis e expostos à curiosidade do público. Da perspectiva atual, essas exibições eram racistas e indignas.
O BISPO E O NARCO
Bispo Bruno Leonardo é citado em relatório por transação com alvo da PF
Religioso baiano tem mais de 50 milhões de seguidores no YouTube e já lotou o Parque de Exposições
Metrópoles
Publicado em 27 de março de 2025

A Polícia Federal e o Ministério Público Federal citam em relatórios transações suspeitas entre a igreja Avivamento Mundial, do bispo Bruno Leonardo Santos Cerqueira, e uma empresa investigada por relação com o concierge da cúpula do Primeiro Comando da Capital, Wiilian Barile Agati
.O bispo Bruno Leonardo tem mais de 50 milhões de seguidores em sua conta no YouTube, o que o coloca como um dos maiores youtubers do país. No Instagram, o religioso tem 9,7 milhões de seguidores.
Ele é o responsável pela Igreja Batista Avivamento Mundial, sediada em Salvador (BA).
As informações sobre as transações estão em documentos da Operação Mafiusi, que mira Willian Barile Agati, apontado como uma espécie de faz-tudo da cúpula do PCC e integrante de um grupo envolvido no tráfico internacional de drogas. O bispo, no entanto, não aparece como investigado no caso.
gati e outras 13 pessoas já foram denunciados pelo esquema de tráfico internacional de drogas, mas ainda são investigados por lavagem de dinheiro proveniente do envio de cocaína para a Europa.

O empresário foi apelidado de concierge da cúpula do PCC por fornecer, segundo a PF, diversos serviços ao grupo criminoso. Entre eles, consta a logística para a exportação da droga e uma rede de empresa que seria utilizada para lavagem de dinheiro.
Várias dessas empresas são citadas pela PF e foram alvo de relatórios do Conselho de Controle de Atividade Financeira (Coaf) por causa de transações suspeitas.
Uma delas é a Starway Locação de Veículos. Segundo a PF, trata-se de uma empresa de fachada utilizada para lavagem de dinheiro do grupo criminoso.
Entre as transações suspeitas da empresa citadas pelo Coaf estão sete transferências da Igreja Batista Avivamento Mundial para a Starway no valor total de R$ 2,2 milhões.

“Em conformidade com os dados obtidos a partir do afastamento do sigilo bancário e fiscal, identificou-se que a Igreja realizou transferências para a Starway no valor total de R$ 2.225.000,00, sendo que as movimentações começaram em 6/8/2021, com um valor de R$ 635.000,00, e se encerraram em 5/4/2022”, diz a PF.
De acordo com os investigadores, muito embora as transações somem mais de R$ 2 milhões e tenham sido efetuadas ao longo de oito meses, entre 2021 e 2022, não foi localizada qualquer nota fiscal para justificar as transferências.
“Apesar desta expressiva quantidade de transações bancárias, não houve notas fiscais emitidas entre os envolvidos, ratificando o caráter de fachada da Starway Locação”, diz a PF.
A Starway é investigada na Operação Mafiusi e foi alvo de busca e apreensão por causa das suspeitas de lavagem de dinheiro.
Defesa
A coluna fez contato com a defesa de Bruno Leonardo desde a segunda-feira (24/3). Em um primeiro momento, o advogado do bispo disse que as transações estão relacionadas à compra de veículos com notas fiscais registradas e que encaminharia uma posição oficial sobre o tema.
O advogado, no entanto, não enviou posteriormente a posição oficial da defesa do bispo.
Após a publicação da reportagem, o bispo publicou um vídeo em que afirma que a Igreja comprou automóveis da empresa em 2021 e que as notas existem. Ele afirma ainda estar sendo perseguido.
Ele ainda fez um paralelo do caso da compra de veículos com uma doação que fez ao Rio Grande do Sul em 2024.
“Ano passado, nós compramos R$ 2 milhões de alimentos para enviar ao Rio Grande do Sul. Eu também não conheço os donos da loja. A nossa equipe foi, olhou, comprou e nós enviamos. Se daqui a alguns anos, essa distribuidora estiver com algum envolvimento com coisas ilícitas, nós também estamos envolvidos porque somos clientes?”, questionou.
quinta-feira, 27 de março de 2025
UMA ADVOGADA AFRICANA
A advogada de 80 anos que arrisca a vida para defender direitos dos homossexuais na África

- Author,Armand Mouko
- Role,BBC Afrique
Apesar de ter sido difamada, ameaçada e humilhada em público, a experiente advogada camaronesa Alice Nkom está determinada a defender os direitos das pessoas homossexuais em seu país.
Uma ONG de direitos humanos que ela dirige, a Redhac, foi suspensa recentemente pelo governo, e ela foi convocada a comparecer perante investigadores para responder a acusações de lavagem de dinheiro e financiamento de grupos terroristas — que ela nega.
A advogada de 80 anos afirma que as autoridades de Camarões estão obstruindo seu trabalho, e acredita que está sendo alvo por causa da assistência jurídica que presta à comunidade LGBT.
"Sempre defenderei os homossexuais, porque eles arriscam sua liberdade todos os dias e são jogados na prisão como cães", disse ela à BBC com um tom firme, falando em seu escritório na cidade de Douala.
Vestida com uma túnica preta, Nkom transmite sua mensagem contundente com uma voz comedida que reflete anos de argumentações jurídicas ponderadas.
De acordo com o código penal do país, tanto homens quanto mulheres podem ser condenados a até cinco anos de prisão e a pagar uma multa, se forem considerados culpados de relações homossexuais.
Os membros da comunidade LGBT também enfrentam o ostracismo de suas famílias e da sociedade em geral.
Como resultado, Nkom é vista como uma "mãe adotiva" para algumas pessoas que não ocultam sua orientação sexual no país.
A advogada tem filhos, mas centenas, talvez milhares, de outras pessoas também a considerem sua protetora, devido ao seu trabalho de mais de duas décadas defendendo acusados de homossexualidade.
"Ela é como nosso pai e nossa mãe. É a mãe que encontramos quando nossas famílias nos abandonam", diz o ativista LGBT Sébastien (nome fictício).
Comprometida com a Declaração Universal de Direitos Humanos, que está incluída na Constituição de Camarões, Nkom argumenta que ser livre de discriminação com base na orientação sexual deve ser visto como um direito fundamental que prevalece sobre o código penal.
"Não se deve aprisionar direitos fundamentais, não se deve reprimi-los — você deve protegê-los", diz ela.
Esta é uma luta que colocou Nkom em perigo.
JAMAIS ESQUECEREMOS
Stuart Edgar Angel foi barbaramente torturado pelo sargento da Aeronáutica Abílio Correa de Souza, o "Pascoal". Após a sessão de tortura, entre espancamentos, eletrochoques e afogamentos, ele foi preso a um carro e arrastado pelos agentes do Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica (CISA) pelo pátio da base aérea do Galeão, no Rio de Janeiro, onde estava detido.
NOVAK E MARIE-ANGE
Desembarcaram
bronzeados, sadios e sorridentes, numa manhã ensolarada de maio. O grande
veleiro, encorado na Rampa do Mercado, precisando de alguns reparos após a
tormentosa travessia do Atlântico. Afinal não são mais de cinco mil quilómetros
entre Salvador e Lagos?
Novak era
sérvio, de passaporte iugoslavo. Estamos falando dos anos 80. Cinquentão
atlético, cabelo louro e curto, camisa aberta ostentando cordão de ouro.
Marie-Ange, francesa, fina, discreta e perfumada. Um bibelô, uma estatueta de
Tânagra.
Passeavam
pelo decadente centro histórico a examinar pedras preciosas como quem conhece do
assunto, ou pelas ruelas engarrafadas do Comércio. Por duas vezes os vi sair de
um banco. No Mercado Modelo, mesmo sem falar palavrinha de português, o diálogo
se estabelecia sem dificuldade com todos, comerciários e comerciantes. Aos
poucos foram descobrindo nossos segredos ou, pelo menos, alguns deles. Aprenderam
palavras mais corriqueiras, gíria. Olhavam tudo com atenção, fazendo mil
perguntas. Marie-Ange adorou as toalhas bordadas, Novik, as coloridas redes da
Paraíba. Ninguém se incomodava em responder detalhadamente. Quase davam o preço
de compra e o endereço do fornecedor. Nunca o Mercado Modelo vira casal tão
sedutor.
Quando o céu
permitia, zarpavam para o arquipélago de Tinharé
onde, durante dois ou três
dias, podiam praticar nudismo nas praias desertas. Na volta, todos estranhando
a ausência, satisfeitos do retorno. Quiseram adquirir um terreno em Boipeba.
Alguém daria umas dicas? Vislumbrando polpuda comissão, todos enfiaram o boné
de corretor.
O sérvio e a
francesa começaram a comprar. Pouca coisa, como ainda hesitando. Toalhas e
redes. Da melhor qualidade. Pagavam no ato. Depois, compras mais consequentes.
Dólares, ao câmbio paralelo. O falatório ia solto, na antiga Alfândega. Novak
devia sentir dor de tantas palmadinhas nas costas. Sem a patroa, ia tomar umas
batidas com algum comerciante nos bares do fundo. Aguentava bem a cachaça. Longos
papos com muitos gestos, muitas risadas. O sérvio sempre pagando.
Naquele dia,
a compra seria realmente importante. Nada de dólar ou traveller-check. Muito
arriscado. O velho Vavá o ajudaria com as caixas até o barco. Depois iriam
transferir do banco. Assim fizeram. No Banco Econômico, o Novak foi falar com
um gerente, pedindo a Seu Vavá para aguardar. A conversa ia ser longa. Sabe
como são estas burocracias.
Pegou a
escada de serviço, foi correndo até o veleiro onde o bibelô aguardava, tudo
pronto para zarpar. A hora de o banco fechar quando o coitado do Seu Vavá
começou a desconfiar, a vela já tinha desaparecido no chuvisco do horizonte.
Depois se soube que o casal-maravilha vinha fugido da polícia nigeriana por
tráfico de armas.