quinta-feira, 31 de agosto de 2023

AS DUAS MAIORES INVENÇÕES DO HOMEM


Inventada pelos povos da Mesopotâmia 6500 anos atrás, a roda mudou o curso de todas as civilizações. Infelizmente, o arquiteto egípcio Imhotep nasceu algo como um século antes e enfrentou a dura tarefa de construir a maior pirâmide – nos subúrbios do Cairo - sem ajuda da dita. Aliás, pensando bem, não haveria roda nenhuma bastante resistente para carregar um monólito de dez toneladas. Troncos de árvores e chicote nas costas dos coitados contribuíram para erguer uma das Sete Maravilhas de Todos os Tempos como dizem os jornalistas que adoram superlativos superativados.

Esta invenção tem sido usada para tudo e qualquer coisa. Para as corridas de bigas e quadrigas, por exemplo, nas arenas romanas, um dos raros jogos que era permitido às mulheres assistir. Não podiam deliciar-se com outros esportes porque os atletas concorriam peladinhos da silva, como provam as estátuas do Louvre e do Vaticano. Como se concentrar no lançamento do disco quando risadinhas e comentários picantes correm pela plateia?

Na Idade Média serviu para torturas. Nem detalharei os horrores da chamada Roda de Santa Catarina usada na Alemanha até o século XIX.

Hoje, além do carro de boi, do fusquinha e da Lamborghini, existe a Roda Viva, muito mais divertida quando não informativa, acrescentando que quem está sentado no meio usufrui de uma cadeira giratória. Até onde vai a sofisticação!

Mas para uma boa fatia dos oito bilhões de habitantes neste planeta o que importa mesmo é a rede. Não, não estou a falar das idiotices que circulam pelos computadores dos pretensamente civilizados alimentados por alienados tipo Eduardo Bananinha Nantes Bolsonaro e outras zambelis. 



O objeto de meu permanente desejo é aquela oriunda dos teares cearenses, de algodão colorido bem popular, bem minha roça, minha vida, ou branca com elaboradas franjas, prontas para figurar na Casa Vogue Special Equador. Após demorada pesquisa na Enciclopédia Britânica e na Universal de Diderot, foi o Google que revelou algo surpreendente: a rede de dormir já existia na Europa do século XIV! Quem sabe se Luís XV e a Pompadour teriam usado?

Mas rede mesmo, que nos permite voltar a infância, ao berço e ao ventre materno na doce brisa tropical, é essa que nos vem dos índios. É o mesmo cordão umbilical que une a sofredora família sertaneja de Morte e Vida Severina aos ociosos dos hotéis de luxo de Trancoso. O único móvel da oca talvez seja o maior símbolo da identidade nacional.

Se a roda é sinônimo de dinâmica, trabalho e evolução, a rede representa a imagem mais perfeita de tempo suspenso, paz, laser e harmonia. Existe na rede uma poesia e uma sensualidade das quais, definitivamente, carece a roda por muito cromada que seja. Ô balancê, balancê...

quarta-feira, 30 de agosto de 2023

NEGÓCIO DAS ARÁBIAS


 

CHACINAS DA POLÍCIA BAIANA

Com polícia mais letal e chefiada pelo PT, BA se opõe a projetos de Lula

Carlos Madeiro e Leonardo Martins

Colunista do UOL, em Maceió, e do UOL, em Brasília



 A gestão de Rui Costa (PT) como governador ficou marcada pela explosão de mortes praticadas por policiais na Bahia. Chefe do Executivo entre 2015 e 2022, ele viu as mortes por membros das forças de segurança saltarem 313% e baterem recorde no ano passado, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Isso contrasta com promessa de campanha do presidente Lula.

O que aconteceu

Rui Costa é hoje ministro da Casa Civil e um dos mais próximos interlocutores de Lula.

Durante sua gestão na Bahia, fez declarações defendendo as polícias em episódios de morte, o que vai na contramão de promessa de campanha do presidente, que propôs o combate à violência policial e à perseguição a jovens negros.

Procurados, o ministro e o Planalto não se manifestaram até a publicação desta reportagem.


Ação da PM da Bahia nas ruas de SalvadorImagem: SSP/BA

Há na Bahia uma articulação político-jurídica de não deixar responsabilizar a Polícia Militar. Eles têm um acordo de letalidade, que vem apresentando um resultado que, para nós, é de um genocídio.Wagner Moreira, coordenador do grupo Ideas e articulador do Fórum Popular de Segurança Pública do Nordeste

Segundo ele, os movimentos sociais que lutam contra a violência policial denunciaram em várias ocasiões Rui e sua gestão pela falta de ações para reduzir a letalidade e pela falta de transparência dos dados.


O governo Rui Costa implementou um controle social da população preta por meio da força. Não existe política pública de segurança na Bahia. A polícia está solta, matando para dar uma falsa proteção à elite, mas ela não encontra respostas positivas nos resultados.

O que os dados apontam

As polícias da Bahia mataram 1.464 pessoas em intervenções oficiais em 2022, o que representa 22,7% do total das 6.430 mortes das polícias no ano passado no país. O estado não informa número de policiais mortos em confronto.

Pela primeira vez no histórico de dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado na quinta (20), a polícia da Bahia aparece como a que mais matou pessoas em intervenções, tomando o lugar que nos anos anteriores sempre foi do Rio de Janeiro.

Em 2015, quando Rui assumiu, o número de mortes por intervenções policiais na Bahia havia sido bem menor: 354.

Bahia também tem 11 das 20 cidades com maiores taxas de homicídios.


Promessa do governo Lula

Em seu plano de governo, Lula prometeu "amplo conjunto de políticas públicas" para combater, entre outros problemas, "a política atual de genocídio e perseguição à juventude negra, com superencarceramento, e que combatam a violência policial".

É imprescindível a implementação de um amplo conjunto de políticas públicas de promoção da igualdade racial e de combate ao racismo estrutural, indissociáveis do enfrentamento da pobreza, da fome e das desigualdades, que garantam ações afirmativas para a população negra e o seu desenvolvimento integral nas mais diversas áreas. Construiremos políticas que combatam e revertam a política atual de genocídio e a perseguição à juventude negra.Proposta de governo apresentada em 2022 pela chapa de Lula e Alckmin

10.abr.23 - O presidente Lula (PT) e o ministro-chefe da Casa Civil, Rui Costa, em reunião no Palácio do Planalto

Imagem: REUTERS/Adriano Machado

A Bahia é um reduto eleitoral importante do PT e, principalmente, do presidente Lula. Na última eleição, Lula só perdeu para Jair Bolsonaro (PL) em dois dos 417 municípios do estado.

Jerônimo Rodrigues (PT) é o atual governador e parece que vai seguir a linha do seu antecessor.

Em nota divulgada anteontem, a Secretaria de Segurança Pública alegou que não contabiliza os dados de mortes violentas quando a polícia mata "criminosos".

A SSP destaca ainda que não coloca o homicídio, latrocínio ou lesão dolosa seguida de morte praticado contra um inocente na mesma contagem dos homicidas, traficantes, estupradores, assaltantes, entre outros criminosos, mortos em confrontos durante ações policiais.


Nota da Secretaria de Segurança Pública da Bahia

Disse ainda que "aqueles criminosos que atacam as forças de segurança receberão resposta proporcional e dentro da legalidade".

Certamente a disposição do governador anterior [Rui Costa] de incentivar essa ótica ostensiva da tropa influencia no comportamento. Vemos que 35% da violência armada em Salvador e região metropolitana é provocada em ações policiais. 


Incentivo do estado

O principal ponto para entender essa explosão de mortes é o apoio ou inação do governo com as polícias, explicam especialistas em segurança pública.


Em 2015, uma chacina tirou a vida de 12 jovens numa pobre região de Salvador chamada Cabula. Todos mortos por policiais. Na época governador da Bahia, o hoje ministro Rui Costa definiu o episódio como uma partida de futebol: "É como um artilheiro em frente ao gol", disse.

A grande contradição é ele estar num partido que defende direitos humanos, que colocou a redução da letalidade e controle da força como objetivo deste mandato. É completamente contraditório. Como governador, não só pregava, mas fez, ao longo de oito anos, com que as polícias baianas se tornassem a primeira [que mais mata] em número absolutos.Samira Bueno, diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública

6.fev.2015 - 12 pessoas morreram em um tiroteio entre a polícia e supostos criminosos na Vila Moisés, no bairro do Cabula, em Salvador

Imagem: Edilson Lima/Agência A Tarde/Estadão Conteúdo

Chacina mata jovens

No ano passado, outra chacina deixou marcas e matou Alexandre dos Reis, 20, filho de Silvana dos Santos, 42.

chacina da Gamboa, como ficou conhecida, ocorreu em 1º de março. Ela conta que o filho foi levado para uma casa abandonada antes de ser morto.


A polícia já tinha matado outros dois, e levou meu filho ainda vivo. Eu cheguei lá e me apresentei como mãe dele. Eles me destrataram e apontaram a arma para a minha cabeça. Quando virei, eles dispararam três tiros contra meu filho.Silvana dos Santos, mãe de jovem morto pela polícia da Bahia

Ela e outras mães e moradores da comunidade lutam até hoje por Justiça. O caso está ainda na fase judicial, à espera do julgamento dos PMs envolvidos.

Eu me sinto até hoje desprotegida. O policial é uma pessoa que deveria me proteger, não me matar. Se a polícia matou meu filho, ela me matou também.





REFLORESTAR A AMAZÔNIA

 

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