quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

FACÇÕES DOMINAM PORTO DE GALINHAS

 Como facções transformaram destinos turísticos do Nordeste em um grande negócio

    • Author,Vitor Tavares
    • Role,Da BBC News Brasil em São Paulo

Esta reportagem foi publicada originalmente em julho de 2025

Coqueiros, águas mornas, frutos do mar... Venda de drogas à luz do dia, "olheiros" monitorando as esquinas, assassinatos violentos e uma vida local dominada pelo poder paralelo das facções. Essa descrição hoje serve para três dos principais (e mais bonitos) destinos turísticos de praia do Nordeste brasileiro: Porto de Galinhas, em Pernambuco; Pipa, no Rio Grande do Norte; e Jericoacoara, no Ceará.

E as semelhanças não param por aí. Praias mais famosas de seus respectivos Estados, as três mantêm um certo clima de tranquilidade, com regras do crime organizado para coibir roubos contra aqueles que as visitam - uma forma de não afastar os turistas que movimentam a economia e o tráfico na região.

Para quem mora ali, porém, a presença e a crueldade das facções são bastante conhecidas, das ameaças a quem não cumprir ordens e decapitações aos pontos de venda em espaços centrais das vilas, segundo moradores, autoridades e pesquisadores com quem a BBC News Brasil conversou nas últimas semanas.

"O Estado vende isso aqui como o paraíso, mas não garante o mínimo para a população. O assunto é ainda abafado na cidade, porque não se pode falar mal para não correr o risco perder turistas", diz Carla, uma moradora de Jericoacoara.

"É normalizado. Você sabe sempre quem é o olheiro, o pistoleiro ou o gerente de boca, e interage com eles todos os dias, no mercado, na rua, nos bares", resume Ricardo, morador de Porto de Galinhas.

O nome de todos os moradores foram alterados na reportagem para garantir a segurança deles.

Além das três praias, também há notícias de grupos criminosos atuando em outros destinos populares no Nordeste, como São Miguel dos Milagres, em Alagoas, e na região de Trancoso e Caraíva, na Bahia.

Por trás do cenário de violência, está o processo de expansão das facções pelo Brasil, antes restritas às grandes cidades e fronteiras, e a alta circulação de dinheiro nessas vilas que concentram festas e turistas de alto poder aquisitivo.

"São como filiais do negócio de drogas. O descontrole desde a fronteira, passando pelos grupos de Rio e São Paulo, deságua aqui", resume o promotor de Justiça Eduardo Leal dos Santos, de Ipojuca, cidade do Grande Recife onde está localizada a praia de Porto de Galinhas.

"E elas encontraram nesses destinos do Nordeste uma alta concentração de renda, com turismo ligado a festas e uso recreativo de drogas o ano inteiro. São também cidades com muito movimento, mas com estrutura de cidade pequena, com poucos policiais e pouca presença do poder público", completa Santos.

Só uma caderneta apreendida pela Polícia Civil com um traficante na praia pernambucana mostrou uma movimentação de quase R$ 10 milhões por ano, segundo um inquérito concluído no fim de 2022.

Mapa mostra facções presentes em praias do nordeste

Crédito,Caroline Souza/BBC

Apesar da presença em geral fora dos olhos de turistas, o domínio das facções tem repercutido nos últimos anos diante de casos de repercussão nacional que escancaram a força dos grupos.

Em Jericoacoara, por exemplo, o assassinato de um turista de 16 anos de São Paulo, em dezembro de 2024, ganhou as manchetes pelo Brasil.

Segundo a conclusão da Polícia Civil do Ceará, ele foi confundido pelo Comando Vermelho, facção que domina a praia, como membro de um grupo rival paulista. O jovem não tinha ligação com grupos criminosos - e a polícia chegou a investigar se um gesto que ele fez com as mãos para tirar uma foto teria sido o motivo para o crime.

"Ele estava com o pai na praça e resolveu voltar sozinho para a pousada. No caminho ele foi abordado por esse grupo de pessoas que atribuíram a ele, ninguém sabe por qual motivo, a participação nessa organização criminosa", disse na época o diretor da Polícia Civil, Marcos Aurélio França.

No mesmo mês, em Pipa, um triplo homicídio na principal rua da vila, a Avenida Baía dos Golfinhos, causou pavor entre os moradores e turistas.

Segundo a Polícia Civil do Rio Grande do Norte, os crimes, bem na esquina da delegacia local, foram motivados por uma briga entre facções criminosas rivais.

"Um novo grupo criminoso queria entrar em Pipa, mas durou pouco a investida", disse uma fonte policial à BBC News Brasil. O grupo que se mantém dominante ali é o Sindicato do Crime, surgido no Rio Grande do Norte.

Já em Porto de Galinhas, em 2022, numa demonstração de força que até hoje está na mente dos moradores, estradas foram bloqueadas e o comércio fechou as portas após ordem da facção local, a Trem Bala.

O toque de recolher aconteceu após uma operação da Polícia Militar contra a facção acabar com a morte de uma criança de 6 anos, vítima de bala perdida.

Na última sexta-feira (18/07), em um novo caso recente, um jovem foi morto em Porto após trocar tiros com policiais.

Mas como cada uma dessas praias chegou a esse ponto?

Porto de Galinhas: câmeras do crime e vidros abaixados

Vista aérea de Porto de Galinhas

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Porto de Galinhas

A pouco mais de um quilômetro das piscinas naturais que deram fama internacional a Porto de Galinhas, a vida é controlada sob olhos atentos da facção que surgiu no litoral pernambucano, a Trem Bala - mais recentemente conhecida como Comando do Litoral Sul.

Nas comunidades de Salinas, Socó e Pantanal, onde vive grande parte da força de trabalho da praia, moradores são proibidos de chamar a polícia, câmeras instaladas na rua pelas gangues monitoram o movimento de quem entra e sai e agentes públicos precisam baixar os vidros de carros e se identificarem para acessar a região, segundo fontes disseram à BBC News Brasil.

O grupo Trem Bala domina outras praias no Litoral Sul de Pernambuco, começando no Cabo de Santo Agostinho, cidade que está na 5ª colocação entre as cidades mais violentas do Brasil em 2024, segundo dados recém-divulgados no Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

A cidade seria justamente um local de disputa entre o Trem Bala e outros grupos que atuam mais próximos do Recife.

Em Ipojuca, onde está Porto de Galinhas, os números de violência são menores, desde um pico de assassinatos em 2017.

"São baixos por não haver mais disputa entre grupos, o que reduz as mortes. Não é porque é seguro, é porque não tem mais outra facção para disputar", disse uma fonte policial à BBC News Brasil.

Em Porto de Galinhas, segundo essa fonte e moradores, há leis informais da facção que proíbem roubos e brigas nas ruas.

"Diferenças com mau pagamentos, divisão de terras, discussões de vizinhos, som alto, tudo deve passar pela facção", relata Ricardo, morador.

Em um caso que chegou à Promotoria da Criança de Ipojuca, uma menina com menos de 18 anos foi torturada até a morte por praticar pequenos furtos.

O promotor Eduardo Leal dos Santos relata a prática de um tribunal do crime a quem descumpre alguma ordem ou tente deixar o grupo. "Tem uma cultura de decapitar mediante tiro de escopetas calibre 12. Do peito para cima, não sobra nada", diz.

Armas e drogas apreendidas em Porto de Galinhas

Crédito,Polícia Civil

Legenda da foto,Armas e drogas apreendidas em Porto de Galinhas

A Polícia Civil já encontrou também cemitérios clandestinos em regiões de mangue, onde são enterrados os julgados pelo tribunal por "burlar" leis próprias, como comercializar drogas sem a autorização dos líderes e ser informante da polícia.

Além disso, há um controle para que crimes contra turistas não sejam cometidos, como assaltos.

O promotor Eduardo Santos explica que esse controle ocorre pelo receio de prejudicar o negócio.

"Assim, você vai parar a receita deles e atrair a polícia", diz.

Mas nem sempre é assim.

Luzia, uma ex-empresária da região, preferiu se mudar de Porto de Galinhas após um dia receber uma ordem da facção para fechar as portas de seu negócio. Começou a ter crises de ansiedade por morar ali.

"Eu vi os homens com armas na minha porta, gritando, algo horrível". Ela descreve o dia do toque de recolher em 2022, quando uma menina foi assassinada numa operação policial.

Os três dias de tensão escancararam a força da facção, dominante desde 2019. O grupo tem ligações com a facção carioca Comando Vermelho, mas também compra drogas do PCC, segundo inquérito da Polícia Civil ao qual a BBC News Brasil teve acesso.

O pesquisador e sociólogo Eduardo Matos de Alencar, que trabalhou em projetos de segurança na prefeitura de Ipojuca e no governo de Pernambuco, diz que desde 2013 havia rumores de um grupo se organizando para controlar o território de Porto de Galinhas.

A situação chama a atenção desde o início porque Pernambuco é considerado um estado fracionado entre facções, sem grupos muito poderosos que controlam grandes territórios, como no Ceará ou Rio Grande do Norte, explica Alencar.

"Mas Porto de Galinhas tinha um mercado consumidor enorme e um território com muitas conexões por manguezais que facilitam fugas e transporte", opina Alencar, presidente do Instituto Arrecifes e autor do livro De quem é o comando? O desafio de governar uma prisão no Brasil.

Porto de Galinhas também está na mesma cidade que o Porto de Suape, o principal de Pernambuco

Uma fonte do poder municipal de Ipojuca diz que a chegada dos grandes empreendimentos à região nos anos 2010, com seus milhares de trabalhadores, fortaleceu o tráfico de drogas.

"Os empreendimentos tanto em Suape quanto na própria praia de Porto trouxe um ganho financeiro, mas um prejuízo social muito grande. Por incrível que pareça, esse aumento de renda não se reverteu em benefício à população", diz Fernanda, que atua em projetos em Porto de Galinhas.

Piscinas naturais de Porto de Galinhas

Crédito,Getty Images

Legenda da foto,Piscinas naturais de Porto de Galinhas atraem milhões de turistas

A cidade de Ipojuca, com 99 mil habitantes, hoje tem o maior PIB per capita de Pernambuco, número que não se reflete nos índices sociais - só o 92º em taxa de escolarização no Estado, por exemplo.

Sem muita perspectiva de futuro, os mais jovens são facilmente aliciados pelo crime.

"É uma mão de obra extremamente barata para o tráfico. A gente recebe crianças sem perspectivas, sem sonhos", diz o promotor Eduardo dos Santos, um dos criadores do projeto Voltar a Sonhar, que tenta fornecer atividades para jovens não ficarem ociosos.

"Quando o poder público age fazendo operações para prender, ele age no sintoma, não na causa", completa.

Entre 2018 e 2022, somente em Ipojuca, foram realizadas prisões de ao menos cem pessoas vinculadas a organizações criminosas.

Mas essas operações, segundo fonte policial disse à BBC, acabam tendo um efeito indesejado. "A gente acaba prendendo os rivais, e essa facção [Trem Bala] cresce cada vez mais".

Em nota, a Secretaria de Defesa Social de Pernambuco disse que "monitora a presença e coíbe a instalação e expansão dessas organizações". Uma operação nacional coordenada pelo Estado em abril cumpriu 53 mandados de prisão.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

BANDIDOS DISFARÇADOS...

 ... DE COMERCIANTES


Casal agredido por ambulantes em praia se manifesta: "Iam matar a gente"

Turistas mato-grossenses foram atacados por um grupo de cerca de 15 ambulantes em Porto de Galinhas (PE)


Johnny e Cleiton denunciaram a falta de policiamento no local e alegaram que o Corpo de Bombeiros, que estava próximo à cena, demorou de agir - (crédito: Reprodução/X)


Na praia de Porto de Galinhas (PE), um casal de Mato Grosso foi agredido por comerciantes. Segundo relato de uma das vítimas, Johnny Andrade, ele e o namorado, Cleiton Zanatta, alugaram um serviço de barraca por R$ 50. No entanto, na hora da cobrança, o ambulante aumentou o valor para R$ 80 sem consulta prévia. O casal acredita que as agressões também foram motivadas por homofobia. 

“Eu falei ‘cara, não é justo, você me cobrou R$ 50, então eu vou te pagar os R$ 50’ e ele ‘não, você vai me pagar os R$ 80’”, relatou. Após Johnny se recusar mais uma vez, o vendedor atirou uma cadeira contra ele. 

A situação se agravou ainda mais com a chegada de outros comerciantes. “Juntou mais uns 10, 15 em cima de mim, me deram vários pontapés”, conta. “O Cleiton, meu companheiro, ele saiu correndo para pedir ajuda”.

As vítimas denunciaram a falta de policiamento no local e alegaram que o Corpo de Bombeiros, que estava próximo à cena, demorou de agir. “Os bombeiros vieram na hora que viram que eles iam linchar, que eles iam matar a gente, mas antes deixaram a gente apanhar para caramba, de uma forma muito brutal”, afirma Cleiton. 

Mesmo após serem colocados na parte na carroceria da picape dos salva-vidas, os agressores continuaram a atacar as vítimas, enquanto os agentes tenta afastar os envolvidos. “Antes de o salva-vidas sair, eles conseguiram me tirar de cima da camionete, me arrastaram de novo e me deram muito chute nas costas, na cabeça”, revela Cleiton em outro depoimento. 

Além do episódio assustador, os dois enfrentaram descaso ao procurar assistência médica. Segundo o relato, não havia ambulâncias disponíveis e eles precisaram arcar com as despesas. Na delegacia, eles relataram demora para registrar o boletim de ocorrência. Johnny e Cleiton continuam na cidade, mas contam que não conseguem sair do hotel por medo. Eles afirmaram que vão entrar na Justiça contra a Prefeitura do Ipojuca, onde fica localizada a praia, e o estado de Pernambuco. 


O ALMIRANTE NEGRO

MPF processa União por ataques da Marinha à memória de João Cândido Felisberto

29 de dezembro de 2025, 19h51

O Ministério Público Federal ajuizou uma ação civil pública contra a União com o objetivo de responsabilizá-la por dano moral coletivo decorrente de manifestações oficiais da Marinha do Brasil consideradas ofensivas à memória de João Cândido Felisberto, líder da Revolta da Chibata. A ação busca, além da reparação econômica, impedir novos atos que desabonem a trajetória e o legado histórico do marinheiro conhecido como “Almirante Negro”.

Reprodução

João Cândido liderou a Revolta da Chibata, que reivindicou melhores condições para marinheiros em 1910

De acordo com o MPF, as manifestações da Marinha afrontam a Constituição Federal, tratados internacionais de direitos humanos ratificados pelo Brasil e a Lei 11.756/2008, que concedeu anistia a João Cândido e aos demais participantes da revolta de 1910.

Para o procurador adjunto dos Direitos do Cidadão no Rio de Janeiro, Julio Araujo, que assina a ação, a anistia tem efeitos jurídicos e simbólicos concretos e impõe ao Estado o dever de respeitar e preservar a memória coletiva associada à luta pelo fim dos castigos físicos na Marinha.

Na ação, o MPF pede que a Justiça Federal declare a responsabilidade civil da União, com o pagamento de R$ 5 milhões por dano moral coletivo, e determine que o poder público se abstenha de novas manifestações ofensivas à memória de João Cândido.

O valor deverá ser destinado exclusivamente a projetos e ações voltados à valorização da memória do líder da Revolta da Chibata, conforme regras estabelecidas em resolução conjunta do Conselho Nacional do Ministério Público e do Conselho Nacional de Justiça.

Inquérito civil

A ação tem como base elementos reunidos em inquérito civil instaurado a partir de demanda da sociedade para valorização da memória de João Cândido em âmbito nacional. O MPF sustenta que persistem práticas institucionais de ataque à imagem do líder da Revolta da Chibata, o que configura continuidade da perseguição histórica sofrida pelo marinheiro, inclusive após sua morte.

Entre os fatos destacados, está o envio, em abril de 2024, de carta do comandante da Marinha à Comissão de Cultura da Câmara dos Deputados manifestando oposição ao projeto de lei que propõe a inscrição de João Cândido no Livro de Heróis e Heroínas da Pátria.

No documento, a Revolta da Chibata é classificada como “deplorável página da história nacional” e “fato opróbio”, relegando ainda características negativas aos revoltosos. O mesmo entendimento foi reproduzido em documentos enviados ao MPF após recomendação do órgão.

As qualificações representam, segundo a ação, ataque direto à memória do anistiado e aos valores de justiça e igualdade reconhecidos pela legislação.

Diante dessas manifestações, o MPF expediu recomendação para que a Marinha se abstivesse de praticar atos que violassem a memória de João Cândido. A resposta oficial, no entanto, afirmou não haver providências a serem adotadas, com o argumento de que as declarações refletiam apenas a “perspectiva histórica” da instituição. Para o MPF, a posição indica a intenção de manter discursos incompatíveis com a anistia legalmente concedida.

Direito à memória

Na ação, o MPF ressalta que o direito à memória é assegurado na ordem constitucional, relacionado à dignidade da pessoa humana, ao direito à informação e à preservação do patrimônio histórico-cultural.

O órgão destaca ainda que a proteção da memória de João Cândido está diretamente ligada ao enfrentamento do racismo estrutural e à valorização das lutas da população negra por cidadania e igualdade no Brasil, temas destacados recentemente pelo Supremo Tribunal Federal na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental 973.

O MPF argumenta que as declarações oficiais da Marinha extrapolam os limites da liberdade de expressão, uma vez que partem de agentes públicos e contrariam normas constitucionais, legais e compromissos internacionais assumidos pelo Estado brasileiro, além de precedentes da Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte IDH).

Segundo a ação, ao desqualificar João Cândido e a Revolta da Chibata, a União viola não apenas a memória do personagem histórico, mas também o direito coletivo da sociedade de conhecer e interpretar sua própria história.

Revolta da Chibata

Os açoites haviam sido abolidos formalmente na Armada em 1889. Um decreto do ano seguinte, porém, criou a Companhia Correcional na Marinha, com vistas a combater pessoas “incorrigíveis e irrecuperáveis” no tribunal do convés, formado às margens dos tribunais legais. Na prática, jovens marinheiros, na sua maioria pretos e pobres, continuaram sendo vítimas dos castigos.

Na revolta, os marinheiros exigiram o fim das chibatadas e denunciaram as péssimas condições de trabalho e a falta de alimentação adequada. Em 22 de novembro de 1910, após receber 250 chibatadas, um dos marinheiros desmaiou, fazendo eclodir a revolta, liderada por João Cândido Felisberto.

O movimento durou quatro dias e parou o Rio de Janeiro, levando o governo da época a negociar com os rebeldes. Após a revolta, os castigos físicos foram finalmente abolidos na Marinha. Com informações da assessoria de imprensa do MPF.

Processo 5138220-44.2025.4.02.5101



Expulsão de João Cândido da Marinha é herança da família de General Heleno para o Brasil

Documento de 1912 revela participação do almirante Augusto Heleno Pereira no conselho que julgou e baniu o líder da Revolta da Chibata dos quadros da Marinha.

Paulo Motoryn

Por mais de um século, a Marinha brasileira tentou apagar a história de João Cândido, o marinheiro negro que liderou, em 1910, a revolta contra os castigos físicos impostos quase exclusivamente a praças negros e pobres.

Um documento oficial do Almirantado Brasileiro obtido pelo Intercept Brasil, de 27 de agosto de 1912, ajuda a explicar quem são os responsáveis pela institucionalização desse apagamento.

O papel, localizado nos arquivos da Biblioteca Nacional, trata da substituição de um juiz no Conselho de Guerra responsável por julgar João Cândido e outros marinheiros.

Com o impedimento do presidente do conselho, a função foi assumida pelo capitão-de-fragata Augusto Heleno Pereira. O nome pode soar familiar: trata-se do avô do general Augusto Heleno Ribeiro Pereira, ex-chefe do Gabinete de Segurança Institucional no governo do ex-presidente Jair Bolsonaro.

O Conselho de Guerra foi o instrumento que consolidou a expulsão de João Cândido da Marinha — apesar de ele ter sido absolvido das acusações formais relacionadas à Revolta da Chibata. O julgamento abriu caminho para uma punição administrativa que o empurrou para décadas de perseguição, miséria e ostracismo.

No texto oficial, o Almirantado informa que, diante do impedimento do presidente do conselho, o capitão de fragata Pedro Max Fernando Frontin, Augusto Heleno Pereira foi nomeado para substituí-lo “para os fins convenientes”. A linguagem seca esconde o peso do ato: o conselho julgava os marinheiros que haviam ousado se insurgir contra a chibata, prática herdada da escravidão e mantida na República.

João Cândido já havia passado pelo pior. Preso após a revolta, foi lançado às masmorras da Ilha das Cobras, onde 16 companheiros morreram. Em 1911, acabou internado no Hospital Nacional dos Alienados, acusado de insanidade — diagnóstico que não se sustentou.

Libertado e absolvido em 1912, ainda assim foi expulso da Marinha, sob a alegação de envolvimento em outro levante. A absolvição judicial não o salvou da punição institucional.

“Famílias de Estado reproduzem funções históricas”

Eu apresentei o documento ao sociólogo Ricardo Costa de Oliveira, professor da Universidade Federal do Paraná, a UFPR, e um dos principais pesquisadores brasileiros sobre genealogias do poder, nepotismo e elites políticas. Para ele, não há coincidência nesse encadeamento histórico.

“As famílias de Estado reproduzem suas funções históricas. A hierarquia, o autoritarismo e a defesa da ordem são transmitidos como herança”, afirma.

Costa de Oliveira é autor, ao lado de Mônica Helena Harrich Silva Goulart, do artigo “A nobreza armada”, publicado na Revista NEP, que analisa a permanência de famílias político-militares no comando do Estado brasileiro. O estudo mostra como generais e ministros do período recente são, em grande parte, filhos, netos e herdeiros diretos de oficiais que ocuparam posições-chave ao longo do século XX, inclusive durante a ditadura militar de 1964.

No caso de Augusto Heleno, a linhagem é explícita: o general é neto do almirante Augusto Heleno Pereira, ex-comandante da Escola Naval; e filho de Ari de Oliveira Pereira, coronel e professor do Exército. “Os privilégios são hereditários”, resume o pesquisador.

Da chibata ao golpe

A história de João Cândido termina oficialmente em 1969, quando morreu pobre, trabalhando como peixeiro na Praça XV, no Rio de Janeiro. O reconhecimento só veio tardiamente: anistia em 2008 e inscrição no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria em 2021. Mesmo assim, a Marinha segue resistindo à reabilitação plena de sua memória.

Agora, em 2025, o Ministério Público Federal moveu ação contra a União por ataques institucionais à memória de João Cândido, após manifestações oficiais da Marinha classificarem a Revolta da Chibata como “página deplorável” da história.

O MPF pede R$ 5 milhões por dano moral coletivo, a serem destinados a projetos de valorização da memória do líder negro, e sustenta que as declarações violam a Constituição, tratados internacionais de direitos humanos e a própria lei de anistia.

Mais de cem anos depois, o neto do oficial que participou do processo que expulsou João Cândido, o general Augusto Heleno, foi condenado por envolvimento em uma tentativa de golpe de Estado.

‘As famílias de Estado reproduzem suas funções históricas. A hierarquia, o autoritarismo e a defesa da ordem são transmitidos como herança’.

Para Costa de Oliveira, a linha que conecta 1912 a 2025 não é simbólica, mas estrutural: trata-se da permanência de uma cultura de poder que reage com punição sempre que a hierarquia é desafiada — seja por marinheiros negros exigindo dignidade, seja por instituições democráticas limitando a ação de generais.

A vingança da história não devolve a João Cândido os anos roubados, nem apaga o sofrimento imposto pelo Estado. Mas o documento de 1912 faz algo talvez ainda mais incômodo para as Forças Armadas: reinscreve nomes, sobrenomes e responsabilidades em uma narrativa que por décadas tentou se esconder atrás da palavra “ordem”.

O ATERRO DE SALVADOR

 Se você não tem noção da dimensão do aterro que foi feito em Salvador, olhe bem para essa foto e leia a descrição.


Pare um pouco e olhe com atenção para esta foto. A partir dela, vou explicar pra você um pouco do processo de crescimento urbano da nossa cidade.
A foto é de 1931 e já mostra o avanço da construção do imenso aterro que deu origem ao bairro do Comércio. Lembrando que essa intervenção urbana teve início em 1911.
Pra você se localizar, note na parte alta um largo com uma igreja. Ali é o Santo Antônio além do Carmo. A Enseada de Água de Meninos ficava na direção dele e do Barbalho.
Nessa época, Salvador ainda tinha menos de 400 mil habitantes. Atualmente, tem 2,4 milhões! Um salto populacional quântico que aconteceu por um conjunto de fatores. Dentre eles, a falência das lavouras do Recôncavo, que provocou migração em massa da população do interior para a capital.
Se você olhar para o horizonte da foto vai notar que Salvador ainda tinha imensas áreas verdes. A pequena mancha urbana (área construída) era quase 100% concentrada numa linha beirando o mar, tanto na borda da Baía de Todos os Santos quanto na borda do Oceano Atlântico.
Note que o miolo da cidade (parte atualmente situada entre a BR324 e a Avenida Paralela) ainda era absolutamente tomado por áreas verdes. Onde hoje existe o Cabula e Resgate, por exemplo, existiam grandes fazendas de frutas, especialmente laranja. E na orla, ao longe, onde hoje existe a Pituba, existia uma grande fazenda de coqueiros. Então, podemos afirmar que nosso território ainda era majoritariamente rural.
Voltando para parte de baixo da foto, note o mar sendo aterrado na região da Enseada de Água de Meninos que hoje não existe mais. Só restou o nome do lugar que atualmente tem a Avenida Jequitaia, o Moniinho Salvador, galpões do Porto e da Codeba e também o Sistema Ferry Boat.
Essa foto mostra como o frontispício de Salvador foi radicalmente modificado. Toda a arquitetura colonial da nossa cidade foi destruída ou escondida atrás de prédios modernos na área do Comércio.