quarta-feira, 8 de abril de 2026

NÃO SE COME FOTOGRAFIA

 


Henrique Wagner

Desde que cheguei aqui em São Paulo, em 2018, acompanho a programação do Instituto Moreira Salles, que tem uma excelente sala de cinema, biblioteca, salas para exposição fotográfica etc.
E o que me chamou a atenção foi a intensa programação voltada para o negro, seja brasileiro, seja africano, seja norte-americano. Inúmeras exposições de fotógrafos negros que fotografam negros, mostras de filmes tendo os negros como tema, show com juçara Marçal cantando Elizeth Cardoso etc.
O povo mais ingênuo deve estar achando a família de banqueiros mais rica deste país uma super mega master generosa, que está fazendo seu papel social etc. Acho tudo isso lindo, e aproveito, pois é só coisa boa mesmo, e tratada por profissionais de alto gabarito. A culpa que a família Salles carrega, de ter contribuído para a manutenção da escravidão no Brasil, tem rendido bons frutos culturais.
Mas é preciso lembrar que o dinheiro, que é aquilo que compra o leite, a carne e o curso para uma universidade, segue bastante concentrado entre eles, os banqueiros e parentes de banqueiros.
É bonita e importante a representatividade, mas sem dinheiro, é como aquela clássica situação em que um artista é convidado a se apresentar em um evento sem cachê, mas que promete "grande visibilidade" (ao artista) etc.
É bom lembrar que o banco Itaú, da família Salles, cobra os mais altos juros do país, e teve um lucro assombroso durante a pandemia.
Espero que em algum momento dessa tentativa de limpar o próprio nome (não se enganem, o objetivo é desfazer o zoom da História sobre os Salles e reescrever sua identidade), a família Salles, famosa não só por seus dois cineastas, mas também por seus antepassados escravocratas, destrave essa grana coagulada investindo em chances reais de alguém, uma pessoa negra, de preferência, conseguir levar uma vida menos difícil. Cobrar juros menores é um bom começo. Oferecer empregos a pessoas negras (em massa, e não dois ou três vagas de zelador no Instituto) é uma boa também.
Não se come fotografia.

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