Por trás da briga entre Virginia e Luana Piovani há um alerta sobre saúde mental e financeira
Em artigo para
VEJA, psicóloga examina cenário preocupante impulsionado pelas plataformas de
apostas
Por Karen
Scavacini* 30 abr 2026, 15h57 | Atualizado em 30 abr 2026
Virgínia Fonseca durante depoimento na CPI das Bets, no Senado (Andressa Anholete/Agência Senado)
A recente troca de críticas entre duas influenciadoras
conhecidas no mundo da internet – Virginia Fonseca e Luana Piovani – ultrapassa
o ruído típico das redes sociais para iluminar uma transformação silenciosa (e
preocupante) no comportamento financeiro dos brasileiros.
O crescimento acelerado das chamadas “bets” não é
apenas um fenômeno econômico ou tecnológico. Trata-se, sobretudo, de uma
mudança cultural, impulsionada pela naturalização da aposta como entretenimento
cotidiano e, em muitos casos, como promessa implícita de solução financeira.
Os dados recentes da Confederação Nacional do Comércio são contundentes: em pouco mais de três anos, os gastos mensais com apostas saltaram para além de R$ 30 bilhões, em paralelo à deterioração de indicadores de inadimplência.
Essa coincidência
não parece trivial. Ao contrário, sugere um deslocamento relevante no uso da
renda, especialmente em contextos de vulnerabilidade econômica. Quando a aposta
deixa de ocupar um espaço marginal e passa a competir com despesas essenciais,
o que está em jogo não é apenas o orçamento, mas a própria percepção de risco.
Do ponto de vista
psicológico, esse movimento é ainda mais sensível. A exposição constante a
conteúdos de apostas, frequentemente mediados por influenciadores, contribui
para reduzir barreiras cognitivas e emocionais. Ao ver figuras públicas
associando ganhos rápidos a experiências positivas, o indivíduo tende a
reinterpretar a aposta não como um jogo de probabilidade desfavorável, mas como
uma alternativa viável diante de dificuldades financeiras.
Esse processo pode
transformar o ato de apostar em uma estratégia ilusória de enfrentamento,
especialmente em momentos de pressão econômica.
O impacto se
materializa de forma concreta. O aumento significativo no número de famílias
incapazes de pagar suas dívidas entre apostadores revela que o problema não se
limita a excessos pontuais, mas indica um padrão de comportamento. Mais do que
isso, o prolongamento do tempo de atraso das contas sugere uma inversão de
prioridades: antes de quitar compromissos básicos, parte da renda é direcionada
às plataformas de aposta. Esse dado é particularmente relevante porque aponta
para a persistência da inadimplência, e não apenas para episódios isolados.
Outro aspecto que
desafia leituras simplistas é o perfil dos afetados, pois embora famílias de
menor renda permaneçam mais vulneráveis, o avanço entre adultos acima de 35
anos e indivíduos com maior escolaridade evidencia que o fenômeno atravessa
diferentes camadas sociais.
A maior
familiaridade com o ambiente digital e o acesso facilitado a serviços
financeiros ampliam não apenas a entrada, mas a recorrência no consumo. Entre
os mais ricos, o efeito assume outra forma: a chamada “despoupança”, na qual
recursos próprios são direcionados às apostas, comprometendo a estabilidade
financeira no médio prazo.
Diante desse
cenário, a discussão sobre regulação e publicidade se torna inevitável, mas
insuficiente se isolada. É preciso reconhecer que estamos diante de um fenômeno
que combina tecnologia, comportamento e contexto socioeconômico. A forma como
as apostas são comunicadas (muitas vezes dissociadas de seus riscos reais)
contribui para distorcer a tomada de decisão.
Mais do que proibir
ou restringir, o desafio está em reconstruir a percepção de risco e fortalecer
a educação financeira e emocional da população. Porque, no fim, a linha que
separa o entretenimento do prejuízo não é definida pela plataforma, mas pela
forma como cada indivíduo percebe, ou deixa de perceber, o que está realmente
em jogo.
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Karen Scavacini é doutora em psicologia pela USP e fundadora do instituto de
pesquisa em saúde mental Vita A
