sábado, 22 de agosto de 2026

UM POUCO DE UCRONIA



Se Lilibeth Monteiro de Carvalho não tivesse se divorciado do Fernando Collor, talvez influenciasse o caçador de marajás para uma política econômica mais razoável e a Zélia Cardoso de Mello não teria inventado o famigerado Plano Collor. Quantas pessoas não se teriam suicidado após perder décadas de economia para comprar sua casinha! E, quem sabe, o Walter Salles não teria filmado o excelente Terra Estrangeira.

Em tempo de vacas magras, magérrimas, a consulesa da Áustria Eva Adler não me teria sugerido organizar as tables d´hôtes, quando a cada quinta-feira durante três anos me transformei em chef – muita cara de pau - recebendo na casa do Santo Antônio até mais de vinte pessoas para saborear um menu a preço fixo, bebidas incluídas.

Não teria recebido o Tout-Salvador e adjacências, empresários, secretários de estado e estrelas globais que, sem esta curiosa proposta, nunca teriam se lembrado de que existia na Primeira Capital do Brasil um lindo bairro adormecido, a mil léguas de qualquer badalação ou coluna social. Uma jornalista da Gazeta Mercantil, após satisfatória janta, não me teria pedido para preencher uma longa coluna – uns 5 mil toques, espaços incluídos - a cada semana no então muito prestigiado jornal econômico. Nessa eventualidade, eu não teria falado mal do decadente Chez Bernard e do pretencioso Trapiche e louvado o então desconhecido Paraíso Tropical.

O Caetano Veloso não reservaria mesa com vista para a baía e luz de velas para Gilberto Gil e Regina Casé. Esta não se teria encantado com a casa, a vista e os ladrilhos hidráulicos. Não teria voltado várias vezes, com diferentes amigos, para mostrar minha residência e por consequente não compraria duas casas no Largo do Carmo a poucos metros do Solar Santo Antônio.

Podemos supor que até hoje, meu bairro não seria o objeto de todos os holofotes da fama. Restaurantes “metidos” com vista para o porto nunca teriam sido abertos. Continuaria uma ilha provinciana onde o casario dificilmente muda de habitantes, todos se conhecem e as fofocas correm soltas.

Se a Gazeta Mercantil não tivesse falido em 2004 com a poderosa concorrência do Valor Econômico, não teria sido convidado pelo Ranulfo Bocayuva para preencher este espaço aqui e agora, sábado sim, sábado não. Já lá vão uns bons quinze anos.  

Costuma se dizer que em matéria de História o “Se” não existe. Mas nada custa a gente sonhar em refazer a dita. Imaginem que Napoleão não tivesse invadido Portugal. Teria havido um Imperador do Brasil? Se o Hitler tivesse escolhido continuar pintor de aquarelas medíocres, o nazismo teria existido? Sem a Segunda Guerra Mundial, o Sionismo seria só uma opção política e Gaza continuaria um belo jardim à beira-mar plantado...

Dimitri Ganzelevitch

A Tarde, sábado 25 de agosto 2026

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