Se Lilibeth
Monteiro de Carvalho não tivesse se divorciado do Fernando Collor, talvez
influenciasse o caçador de marajás para uma política econômica mais razoável e
a Zélia Cardoso de Mello não teria inventado o famigerado Plano Collor. Quantas
pessoas não se teriam suicidado após perder décadas de economia para comprar
sua casinha! E, quem sabe, o Walter Salles não teria filmado o excelente Terra Estrangeira.
Em tempo de
vacas magras, magérrimas, a consulesa da Áustria Eva Adler não me teria
sugerido organizar as tables d´hôtes,
quando a cada quinta-feira durante três anos me transformei em chef – muita
cara de pau - recebendo na casa do Santo Antônio até mais de vinte pessoas para
saborear um menu a preço fixo, bebidas incluídas.
Não teria
recebido o Tout-Salvador e
adjacências, empresários, secretários de estado e estrelas globais que, sem
esta curiosa proposta, nunca teriam se lembrado de que existia na Primeira
Capital do Brasil um lindo bairro adormecido, a mil léguas de qualquer
badalação ou coluna social. Uma jornalista da Gazeta Mercantil, após satisfatória
janta, não me teria pedido para preencher uma longa coluna – uns 5 mil toques,
espaços incluídos - a cada semana no então muito prestigiado jornal econômico. Nessa
eventualidade, eu não teria falado mal do decadente Chez Bernard e do
pretencioso Trapiche e louvado o então desconhecido Paraíso Tropical.
O Caetano
Veloso não reservaria mesa com vista para a baía e luz de velas para Gilberto
Gil e Regina Casé. Esta não se teria encantado com a casa, a vista e os
ladrilhos hidráulicos. Não teria voltado várias vezes, com diferentes amigos,
para mostrar minha residência e por consequente não compraria duas casas no Largo
do Carmo a poucos metros do Solar Santo Antônio.
Podemos supor
que até hoje, meu bairro não seria o objeto de todos os holofotes da fama. Restaurantes
“metidos” com vista para o porto nunca teriam sido abertos. Continuaria uma
ilha provinciana onde o casario dificilmente muda de habitantes, todos se
conhecem e as fofocas correm soltas.
Se a Gazeta
Mercantil não tivesse falido em 2004 com a poderosa concorrência do Valor
Econômico, não teria sido convidado pelo Ranulfo Bocayuva para preencher este
espaço aqui e agora, sábado sim, sábado não. Já lá vão uns bons quinze anos.
Costuma se
dizer que em matéria de História o “Se” não existe. Mas nada custa a gente
sonhar em refazer a dita. Imaginem que Napoleão não tivesse invadido Portugal.
Teria havido um Imperador do Brasil? Se o Hitler tivesse escolhido continuar
pintor de aquarelas medíocres, o nazismo teria existido? Sem a Segunda Guerra Mundial,
o Sionismo seria só uma opção política e Gaza continuaria um belo jardim à
beira-mar plantado...
Dimitri Ganzelevitch
A Tarde, sábado 25 de agosto 2026
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