sexta-feira, 30 de maio de 2025
FREEDOM AND I
MALDONADO, O NIILISTA
ARMANDO AVENA
Dizia-se um niilista e, com uma fluência impressionante, sempre aos borbotões, como se vomitasse as palavras, investia contra tudo e contra todos.
Detestava os “ismos”, quaisquer que fossem. Dizia, citando a piada polonesa, que o capitalismo era a exploração do homem pelo homem e o comunismo, o contrário. Quanto ao anarquismo, afirmava que os homens não são capazes de viver “sem deuses e sem senhores”. E lembrava que até Bakunin, no fim da vida, afirmou: nada permanecerá a não ser a música de Beethoven.
E, enquanto isso, praguejava contra o imperialismo americano e a violência ianque na América Central, e dizia que a Revolução Russa não foi feita para o povo, mas para as vanguardas. Reclamava ferozmente contra a Igreja Católica, que considerava a responsável histórica pelas injustiças sociais. Dizia impropérios contra a riqueza e a pompa da antiga Roma, recordando a Inquisição e a venda de indulgências. E contra a Roma moderna, que se tornou progressista, mas não distribuiu a riqueza do Vaticano entre os pobres. Era contra tudo, até a Revolução Francesa, que definia com uma frase:
« Liberté, égalité, fraternité : les Français en calèche, et nous à pied. »
Penso que, se Maldonado visse o mundo atual, com um arremedo de Napoleão, sem cultura ou estratégia, governando a Rússia e invadindo a Ucrânia; um bastardo de Hitler matando crianças em Gaza e um valentão, ignorante e boquirroto, governando a América, ele demonstraria seu pessimismo, dizendo mais uma vez: “Tengo la sensación de que el mundo se va a acabar breve!”. Para então voltar a praguejar contra russos, americanos, o Papa e tudo mais.
Lembro que certa vez ele presenciou uma acirrada discussão sobre esquerda e direita, fascistas e capitalistas, Marx e todo o arco ideológico. Manteve-se em silêncio o tempo todo, olhando para todos de modo circunspecto e misterioso, como se tivesse algo importante para dizer. Quando a discussão ia descambar para as vias de fato, Maldonado pediu a palavra, e o silêncio foi absoluto, pois todos esperavam um comentário definitivo ou uma frase brilhante. Foi então que ele se levantou e disse pausadamente: “Marx ha muerto, Freud ha muerto, Nietzsche ha muerto y yo mismo no me siento nada bien.” A velha frase, repetida milhares de vezes nos pátios universitários, fez gargalhar a todos. E a discussão deu lugar à confraternização e ao riso.
Publicado no jornal A tarde em 30/05/2025
LE GRAND PRIX
Quatro noites praticamente sem conseguir fechar o olho. A escuridão que ainda se arrasta no céu gélido de março me vê sentado na sacada de minha suíte do Hotel de Paris, assistindo ao aparecer do azul do Mediterrâneo.
Quando o
diretor do banco me telefonou pessoalmente para me dar a notícia, não consegui
responder. Precisaria ir a Monte-Carlo para assinar os papeis e resolver o que
fazer com seiscentos milhões de euros. Pois é. Isso tudo. Tinha ganhado o Grand
Prix des Princes de Mônaco. Mandaria reservar no próximo avião para Paris e de
lá, táxi aéreo. A hospedagem seria por conta do banco. Lembrando um velho
ditado árabe: “Só se dá aos ricos” não pude reprimir uma risadinha. Eu, modesto
galerista do Mercado Modelo, um quase pé-de-chinelo, dois dias antes nem me
teriam deixado entrar no saguão do palace. Felizmente tenho bagagens discretas
que escapam a praga das samsonites. Adivinhe quem pegou o mesmo elevador? Naomi
Campbell. Linda, mas muito enjoada. Vou ter que me acostumar a conviver com
ricos e famosos.
Agora vem
the question. O que fazer com mais de oitenta anos de vidinha nem sempre fácil,
mas bem gostosa? Não vou poder continuar com minha velha casa do Santo Antônio
onde todos me conhecem. Posso adivinhar a longa fila de velhos, caros e íntimos
amigos que, de repente, se lembrarão de mim. A propósito, estou com um projeto
que você vai adorar. E barato! Detesto lhe cobrar, mas você tem que me ajudar:
minha filha está com câncer, hanseniase, HIV, tuberculose, meu pai foi preso
injustamente e precisamos de um bom advogado, você tem que levantar o cinema
baiano, quero editar um livro de poesia com vídeo acoplado e talvez uma peça de
teatro. Você não vai me dar aquela casinha em Interlagos?!! Isso sem contar com
figuras estranhas que sem demora começarão a rondar o bairro. Não pretendo
acabar sequestrado. E vou perder o pastel do outro lado da rua e a pizza do
Gustavo?
Para ir morar aonde? Numa destas torres que sempre abominei? Só se for uma cobertura, perdão um rooftop, mas com entrada separada e elevador particular. Pretendo continuar usando minhas camisetas surradas e meus velhos jeans sem afrontar os olhares enviesados dos homens de bem. Terá que ser bem grande e com condições para plantar árvores frutíferas. Não vou deixar de conviver com pássaros e borboletas. E, evidente, a mesma vista sobre a baia. Ou então, como no “Gog” de Giovanni Papini quando um ricaço compra um quarteirão em Manhattan, indemniza regiamente todos os moradores, manda destruir tudo, cerca com um muro bem alto, constrói uma casinha muito simples e deixa a natureza invadir o resto do terreno. Acho que vou fazer o mesmo no Corredor da Vitória ou no Horto Florestal.
Serei feliz, mesmo?



