sábado, 7 de março de 2026

BENDITA GENÍ

Tive que dar um grito ppara obter uma passagem


Desprezada pelo establishment, tinha péssima reputação. Quem frequentava seria impiedosamente cortado de toda e qualquer coluna social. Quantos me viraram ostensivamente as costas após confessar ingenuamente morar na Rua Direita de Santo Antônio?

Bem antes, porém, da “reabilitação” da rua pelo rolo compressor da Conder, já tinham passado por esta mesma casa desde Zubin Mehta e Frederico Morais a altezas sereníssimas e reais, Adélia Prado, Jacqueline Bisset, Tahar ben Jelloun, Marieta Severo,  Alícia Alonso e outros tantos.

Durante a claustrofóbica pandemia, onde centenas de milhares de pessoas faleceram enquanto o ex-capitão dava risada, a Conder aprontou sem qualquer intervenção do IPHAN. E haja concreto e acrílico!

Esticada, maquiada e mal iluminada, a rua começou uma ascensão social nunca dantes sonhada até cair nas graças de meia dúzia de globais. As madames de salto alto abandonaram o ar blasé e sorriram para as selfies.  Morar na rua Direita de Santo Antônio com vista para a baía virou privilégio.

Mas o céu de brigadeiro passaria a ter gosto amargo com a colonização do pedaço pelas produtoras de propaganda, vídeos, clips e outras aporrinhações.  Entre os largos do Carmo e do Santo Antônio, gigantescos caminhões se acostumaram a vomitar dia sim dia outro também, geradores, léguas de cabos, câmeras, cadeiras de lona ou de plástico, equipamentos sonoros, escadas, microfones, spots, grinaldas, banners, confetes, serpentinas, isopores, caixas e mais caixas de tudo aquilo que você nem imaginaria. Tudo devidamente derramado no meio da rua, da praça, transbordando nas calçadas a dificultar para o morador o acesso a sua casa e a paralisar o comércio local já que absolutamente nada é comprado no bairro, nem a água mineral.

“Ah! Mas pagamos uma nota para ter o alvará da prefeitura! ”. Deste Iguaçu de dinheiro a gente do bairro não lucra a mínima gota. Veja o leitor: tem anos que pedimos lixeiras para nosso bairro, mas nem isso conseguimos. Tudo para a sarjeta.

Deveríamos ser isentos de IPTU, mas este ano, foi aumentado em até DEZ vezes. Além de não podermos ter garagem, nenhum órgão projeta construir estacionamento para moradores e visitantes. Não nos é permitido fazer qualquer obra sem kafkiana burocracia, não nos é oferecida qualquer contrapartida nem ajuda técnica dos órgãos competentes e a falta de controle da poluição sonora e ambiental chega a ser criminosa. Nos fins de semana, cada um coloca seu som, tem banda de rock e barzinhos improvisados sem qualquer vigilância sanitária, monopolizando a calçada. Está apertado? Vai “tirando a água do joelho” entre dois carros. Liberou geral. Quem ousa se queixar é hostilizado.

Só nos resta aguentar, caladinhos, a abusos e proibições.

 

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