Desprezada
pelo establishment, tinha péssima reputação. Quem frequentava seria
impiedosamente cortado de toda e qualquer coluna social. Quantos me viraram
ostensivamente as costas após confessar ingenuamente morar na Rua Direita de
Santo Antônio?
Bem antes,
porém, da “reabilitação” da rua pelo rolo compressor da Conder, já tinham
passado por esta mesma casa desde Zubin Mehta e Frederico Morais a altezas
sereníssimas e reais, Adélia Prado, Jacqueline Bisset, Tahar ben Jelloun,
Marieta Severo, Alícia Alonso e outros
tantos.
Durante a
claustrofóbica pandemia, onde centenas de milhares de pessoas faleceram
enquanto o ex-capitão dava risada, a Conder aprontou sem qualquer intervenção
do IPHAN. E haja concreto e acrílico!
Esticada,
maquiada e mal iluminada, a rua começou uma ascensão social nunca dantes
sonhada até cair nas graças de meia dúzia de globais. As madames de salto alto
abandonaram o ar blasé e sorriram para as selfies. Morar na rua Direita de Santo Antônio com
vista para a baía virou privilégio.
Mas o céu de
brigadeiro passaria a ter gosto amargo com a colonização do pedaço pelas
produtoras de propaganda, vídeos, clips e outras aporrinhações. Entre os largos do Carmo e do Santo Antônio,
gigantescos caminhões se acostumaram a vomitar dia sim dia outro também,
geradores, léguas de cabos, câmeras, cadeiras de lona ou de plástico,
equipamentos sonoros, escadas, microfones, spots, grinaldas, banners, confetes,
serpentinas, isopores, caixas e mais caixas de tudo aquilo que você nem
imaginaria. Tudo devidamente derramado no meio da rua, da praça, transbordando
nas calçadas a dificultar para o morador o acesso a sua casa e a paralisar o
comércio local já que absolutamente nada é comprado no bairro, nem a água
mineral.
“Ah! Mas
pagamos uma nota para ter o alvará da prefeitura! ”. Deste Iguaçu de dinheiro a
gente do bairro não lucra a mínima gota. Veja o leitor: tem anos que pedimos
lixeiras para nosso bairro, mas nem isso conseguimos. Tudo para a sarjeta.
Deveríamos
ser isentos de IPTU, mas este ano, foi aumentado em até DEZ vezes. Além de não
podermos ter garagem, nenhum órgão projeta construir estacionamento para
moradores e visitantes. Não nos é permitido fazer qualquer obra sem kafkiana
burocracia, não nos é oferecida qualquer contrapartida nem ajuda técnica dos
órgãos competentes e a falta de controle da poluição sonora e ambiental chega a
ser criminosa. Nos fins de semana, cada um coloca seu som, tem banda de rock e
barzinhos improvisados sem qualquer vigilância sanitária, monopolizando a calçada.
Está apertado? Vai “tirando a água do joelho” entre dois carros. Liberou geral.
Quem ousa se queixar é hostilizado.
Só nos resta
aguentar, caladinhos, a abusos e proibições.

Nenhum comentário:
Postar um comentário