quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

UM TURISMO INSUSTENTÁVEL

 

 SALVADOR E BAHIA, UM TURISMO INSUSTENTÁVEL



Estamos na alta estação turística e os números serão novamente inflados, numa pouco saudável competição entre Prefeitura e Estado, como demonstração do crescimento, ano a ano, do fluxo turístico em Salvador e na Bahia.

Não se pode continuar medindo o sucesso do fluxo turístico pela taxa de ocupação da limitada rede hoteleira local. Aliás, mais da metade dos “turistas” que nos visitam são oriundos do próprio interior do Estado, que aqui se hospedam em casa de parentes, têm baixo ticket e em geral não consomem cultura, preferindo sol e praia. Nem mesmo o efeito airbnb tem se constituído em alavanca para incrementar o nosso turismo.

O aeroporto de Salvador – principal do Estado – atingiu, em 2025, o total de oito milhões de passageiros, mas isto é apenas a recuperação de uma marca que tínhamos antes da pandemia. Ainda assim, já não somos mais o primeiro do Nordeste!

Enquanto isto, Porto Seguro – o quinto destino aéreo mais movimentado do Nordeste – continua sem contar com um aeroporto de classe internacional. O Centro de Convenções local, por sua vez, foi convertido em sede da Universidade Federal do Sul da Bahia. Porto Seguro, aliás, abandonou o turismo histórico.

Estado de dimensões nacionais – com território, por exemplo, equivalente ao da França – não contamos com serviço de transporte aéreo suficiente para atender a localidades como Ilhéus e Porto Seguro, nem regular para atender a Paulo Afonso e Chapada Diamantina, entre outros destinos turísticos relevantes. O custo das passagens aéreas internas corresponde ao de viagens internacionais.

Muito se comemora o crescimento, continuado é certo, do número de visitantes estrangeiros em Salvador, mas esses não passam de 200 mil/ano, um número irrelevante. Nesse indicador, qualquer meta inferior a 1 milhão/ano de visitantes estrangeiros será sempre algo pouco expressivo.

É preciso ser ambicioso, sobretudo quando os principais destinos turísticos europeus adotam medidas para restringir o número de visitantes que, em várias cidades, ultrapassam, anualmente, a uma dezena de milhões. Há, portanto, uma oferta internacional que precisa ser atraída e captada. Mas isto requer uma política promocional de caráter profissional, contínua e estruturada. Saudades de Paulo Gaudenzi.

A insustentabilidade do nosso turismo não é um fenômeno local, mas também nacional. Apesar de eventos extraordinários de grande porte, como a Copa do Mundo e as Olimpíadas, continuamos patinando na faixa dos seis milhões de visitantes estrangeiros por ano. Em 2025, excepcionalmente, o Brasil alcançou, pela primeira vez, nove milhões de visitantes estrangeiros (incluídos os refugiados venezuelanos). O milagre se deve ao efeito Milei, que inverteu o fluxo, tornando possível que os argentinos voltassem a visitar o Brasil. Na Bahia, eles representaram 42,8% do fluxo em 2025!


Incendiado em janeiro de 2023, o TCA continua com obras a passos de cágado.  CHAMEM OS CHINESES!

Não bastam sol e praia e patrimônio histórico-cultural que data de apenas 500 anos. São indispensáveis equipamentos urbanos que marcam todas as grandes cidades turísticas. Aqui, no entanto, passamos longos cinco anos sem contar sequer com um centro de convenções de grande porte. E o Teatro Castro Alves encontra-se fechado.

Temos a nossa torre invertida, que é o Elevador Lacerda. Mas continuam nos faltando um grande museu que possa ter expressão internacional, oceanário, roda gigante, teleférico e outros equipamentos do tipo, que marcam todos os grandes destinos turísticos.  A eles se acrescentam parques públicos equipados e qualificados. Temos, é certo, Abaeté, Pituaçu, Costa Azul, Dique do Tororó, todos incompletos. Até a Arena Fonte Nova, mesmo concedida à iniciativa privada, foi incapaz de agregar outros atrativos. O terminal de cruzeiros, também concedido, não recebeu atividades complementares, funcionando, por isto mesmo, apenas sazonalmente. A implantação ali, do Hub Salvador, é um claro indicador do não aproveitamento de sua estrutura para os fins a que se destina.

Cidade da Música – título conferido pela Unesco – somente agora estamos implantando uma arena de eventos, depois que a Axé Music fez 40 anos, e os nossos artistas tiveram que percorrer o Brasil, de norte a sul, ano após ano, para ir ao encontro do seu público, por não haver condições de atraí-los, durante todo o ano, para serem aplaudidos aqui na sua própria terra.

A chegada dos centros culturais do Banco do Brasil e da Caixa agregarão valor a Salvador e, no âmbito metropolitano, a implantação de um parque aquático na Costa de Sauipe terá grande impacto na atração de turistas à Bahia.

No receptivo, falta-nos um centro de visitantes minimamente estruturado. Ninguém sabe se existem e de onde partem as excursões rodoviárias e marítimas – essas para a Baía de Todos os Santos, um excepcional e diferenciado patrimônio natural. Aliás, a Praça Cairu – local de embarque – bem que poderia concentrar a oferta de serviços ao turista, dando-lhes a visibilidade necessária.

Não há um serviço hop on – hop off e o miolo do Centro Histórico, com suas ladeiras íngremes e pavimento de pedra irregular, incompatíveis com idosos e deficientes, é área vedada à circulação desses veículos, que aqui poderiam ser de menor porte e movidos a biocombustível. Faltam folheteria, mapas turísticos, sinalização, adereços das atividades e ambientes turísticos.

Ainda que com ticket médio de baixo valor, as agências hoje precisam oferecer passeios que combinam Salvador com Morro de São Paulo – onde a acessibilidade é desastrosa – para venderem pacotes de oito dias. Apesar de ter havido investimento na recuperação do patrimônio histórico-arquitetônico, para Cachoeira e São Félix não são sequer oferecidos passeios do tipo bate-e-volta. E faltam ali hotéis, serviços e equipamentos ativos.

O desenvolvimento recente de um turismo de alta renda, com base na rua Chile, carece de produtos complementares que lhe assegure perenidade. O turismo náutico na Baía de Todos os Santos representa aqui excepcional oportunidade.

Isto não obstante a Cidade do Salvador contar com clima agradável e ser extremamente bem-dotada de áreas com forte e clara vocação turística, além de diferenciadas, tais como o Centro Histórico, a Barra, o Rio Vermelho, Itapuã e Itapagipe, entre outras.

Decididamente, nosso turismo é insustentável, daí depender do ciclo permanente de festas populares que assola a cidade para dar uma falsa ilusão de dinamismo econômico. Será esse modelo de turismo uma base sólida para a sustentação da economia urbana?

Waldeck Ornélas é especialista em planejamento urbano-regional. Autor de Cidades e Municípios: gestão e planejamento.


COMENTÁRIO DO BLOGUEIRO.- Muito oportuno - o Rei está nu - o texto de Waldek Ornelas mereceria alguns longos comentários e complementos. Única discordância, o Paulo Gaudenzi que afirmava aos berros "Não quero qualidade, quero quantidade!" afundou o turismo cultural na Bahia ao investir no turismo de massa que consume pouco e é predador.

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