Da cultura ao lucro: Carnaval de Salvador abandona
tradição e consolida exploração do trabalho
Vendido ao mundo inteiro como a maior festa popular do planeta, o Carnaval de Salvador tornou-se, na prática, um dos exemplos mais acabados de como a mercantilização extrema pode esvaziar a cultura, apagar identidades e normalizar a exploração do trabalho.
O que antes era celebração coletiva, invenção popular e afirmação da famosa 'baianidade', atualmente, opera sob a lógica dura da indústria cultural, na qual a experiência é segmentada por classe social e o lucro se impõe como valor intransigente.
A narrativa oficial, reproduzida por emissoras de TV, campanhas publicitárias e discursos institucionais, constrói um Carnaval de conto de fadas, um "outdoor" da cultura baiana. Mas, será mesmo?
Cultura x lucro
Durante os festejos, as câmeras têm endereço nos camarotes luxuosos, blocos fechados e trios patrocinados por grandes marcas. O que fica fora desse enquadramento estatal é, justamente, aquilo que deu origem à festa, a pipoca. A ocupação democrática da rua e a mistura de corpos, sons e histórias sempre definiu o carnaval baiano.
Porém, o povo, hoje empurrado para faixas cada vez mais estreitas e invisíveis do circuito, não é um detalhe marginal, é o coração histórico da festa. Foi ali, na ausência de cordas, abadás e credenciais VIP, que o carnaval se constituiu como espaço de invenção cultural e encontro social. Ao reduzir esse espaço, o poder público e os grandes empresários do entretenimento não estão apenas reorganizando o fluxo da festa, mas redefinindo quem tem direito à cidade e sob quais condições.
Esse processo não ocorre por acaso, ele é resultado direto de uma política urbana e cultural que transformou o carnaval em negócio. Prefeituras sucessivas passaram a tratar a festa como ativo econômico, justificando a privatização do espaço público em nome da geração de receitas, do turismo e do crescimento do comércio. Esses objetivos, em si, não são ilegítimos, já que, consequentemente, causa o avanço da cidade como centro comercial, ampliando os horizontes, mas a que custo?
O problema é o preço social e cultural pago por eles, sempre cobrado dos pobres, negros, trabalhadores informais e periféricos. Nesse cenário, chama atenção o abandono progressivo dos blocos afros, a espinha dorsal da identidade cultural do carnaval de Salvador. Ilê Aiyê, Olodum, Muzenza, Malê Debalê e tantos outros foram responsáveis por afirmar a negritude, internacionalizar ritmos, politizar a festa e disputar narrativas sobre quem somos enquanto povo.

Hoje, sobrevivem com dificuldade, disputando migalhas de patrocínio e vagas no edital Ouro Negro, disponibilizado pela Secretaria Estadual de Cultura da Bahia (Secult), enquanto milhões são investidos em estruturas que reproduzem um carnaval pasteurizado, embranquecido e cada vez mais alinhado a padrões globais de entretenimento.
Não por acaso, Luiz Caldas, o chamado “Pai do Axé”, tornou-se um dos críticos mais contundentes desse modelo. Ao reconhecer seu próprio papel na abertura do carnaval às grandes gravadoras e ao capital, Caldas aponta para um dilema central: o axé nasceu como síntese democrática, mas foi capturado por uma engrenagem que concentra visibilidade em poucos artistas e esvazia a diversidade criativa da festa. Quando a música passa a obedecer mais à lógica do mercado do que à pulsação do povo, a cultura deixa de ser expressão e vira produto.
O Carnaval perde na essência para poder lucrar na parte financeira”, lamentou Caldas em entrevista à Terra Magazine em 2012.
Precarização do trabalho
Mas, talvez, nenhuma face desse carnaval mercantilizado seja tão brutal quanto a precarização do trabalho. Os “cordeiros”, trabalhadores responsáveis por segurar as cordas que privatizam as ruas, simbolizam de forma quase didática a permanência de estruturas escravocratas no Brasil contemporâneo. O paralelo com os liteireiros do período colonial não é retórico: trata-se de corpos negros e pobres usados como muros humanos para garantir o conforto de uma elite foliã.
Esses trabalhadores enfrentam jornadas extenuantes, ausência de direitos básicos, humilhações constantes e remunerações irrisórias. Receber cerca de 80 reais por seis horas de trabalho pesado, em meio ao calor, à violência e ao caos da festa, enquanto fantasias e camarotes custam milhares de reais, não é uma distorção ocasional, é projeto. É o capitalismo operando em sua forma mais crua, naturalizando a desigualdade e transformando a exploração em paisagem.

O mesmo vale para os ambulantes, que são autônomos, mas dependem da gestão pública e das marcas de cervejas que patrocinam o evento. A responsabilização da Ambev e da Prefeitura de Salvador pelo Ministério do Trabalho e Emprego, após a constatação de trabalho análogo à escravidão envolvendo mais de 300 vendedores no Carnaval de 2025, escancarou o que já era sabido, as grandes empresas não apenas patrocinam a festa, mas controlam diretamente a força de trabalho, impondo jornadas de até 20 horas, negando acesso à água, descanso e higiene. O Estado, longe de atuar como garantidor de direitos, aparece como facilitador desse modelo, concedendo exclusividades e fechando os olhos para abusos sistemáticos.
Reflexo do que foi apresentado, na última semana, durante a preparação para as festas deste ano, os trabalhadores acamparam em plena calçada na região do Morro do Gato, no bairro da Barra, para garantir um local “privilegiado” nas vendas no circuito. Em nota ao BNews, a Secretaria Municipal de Ordem Pública (SEMOP) afirmou que “os ambulantes foram devidamente orientados e advertidos de que o descumprimento das normas resultará na apreensão imediata do material e no descredenciamento para atuação nos eventos”.
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