terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

BARRAGENS ESQUECIDAS

 

Suécia derruba barragens esquecidas na taiga, rios voltam a correr livres, peixes reaparecem em dias, 84 quilômetros são reconectados, e um projeto silencioso mostra como retirar concreto pode restaurar paisagens inteiras, biodiversidade perdida e corredores naturais que estavam bloqueados históricos

Publicado em14/01/2026 
Suécia remove barragens na taiga nórdica, reconecta o rio Vindel, promove remoção de barragens e restaura biodiversidade aquática em 84 km livres.
Suécia remove barragens na taiga nórdica, reconecta o rio Vindel, promove remoção de barragens e restaura biodiversidade aquática em 84 km livres.
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Com verba do programa Open Rivers, a Rewilding Sweden derrubou quatro barragens na Reserva da Biosfera Vindelälven-Juhttátahkka, no condado de Västerbotten, a noroeste de Umeå. A ação devolve fluxo livre, melhora 84 km de conectividade, restaura sedimentos e facilita a migração de peixes e espécies em rios que alimentam Vindel.

Na Suécia, dentro da taiga nórdica e da Reserva da Biosfera Vindelälven-Juhttátahkka, no condado de Västerbotten, uma operação de campo está removendo barragens pequenas e obsoletas para devolver aos rios um atributo básico da natureza: a continuidade do fluxo, do leito e da vida.

O trabalho é conduzido pela equipe da Rewilding Sweden com apoio financeiro do programa Open Rivers e concentra resultados em algo raro de ver com tanta clarezaquando o  concreto sai do caminho, processos naturais reaparecem, a conectividade se recompõe e espécies aquáticas voltam a usar trechos que estavam bloqueados há décadas.

O que foi removido e onde exatamente isso aconteceu

A remoção das quatro barragens melhorará a conectividade e os processos naturais beneficiando uma ampla gama de espécies da vida selvagem.

A remoção ocorreu dentro da Reserva da Biosfera Vindelälven-Juhttátahkka, uma área a noroeste da cidade de Umeå, no condado de Västerbotten, no norte da Suécia.

Ali, quatro estruturas foram tratadas como barreiras fluviais a serem eliminadas para reabrir caminhos de água e de fauna.

As quatro barragens removidas têm nomes e histórico: Strömbäcksdammen, Långträskdammen, Långhjuksnordammen e Alträskdammen.

Apesar de pequenas, estavam posicionadas de forma a interromper trechos que alimentam uma rede maior.

Quando a barreira está no lugar errado, ela não bloqueia apenas “um ponto” do rio, ela bloqueia quilômetros inteiros de função ecológica.

O número que mede a virada: 84 quilômetros reconectados

A consequência mais objetiva da remoção das quatro barragens é a melhoria da conectividade em 84 quilômetros de cursos d’água.

Esses cursos deságuam no rio Vindel, descrito como um afluente com 450 quilômetros de extensão, que por sua vez deságua no rio Ume.

Na prática, isso significa que a intervenção não se limita ao local onde o concreto foi retirado. A reconexão se propaga rio abaixo e rio acima, porque o sistema fluvial funciona como um corredor.

Ao reabrir passagens, o rio volta a transportar o que sempre transportou, e a paisagem volta a receber o que sempre recebeu.

Por que barragens pequenas causam estragos grandes no ecossistema

As barreiras artificiais são apontadas como uma das principais ameaças à biodiversidade aquática e ribeirinha em escala global.

Mesmo quando não parecem “gigantes”, as barragens degradam ecossistemas fluviais de várias maneiras ao mesmo tempo.

Elas causam perda e fragmentação de habitats, alteram a distribuição de sedimentos e nutrientes e podem concentrar poluentes em trechos represados.

O resultado costuma ser menos diversidade, menos resiliência e menos capacidade do rio de sustentar as populações de vida selvagem que dependem dele.

Na taiga nórdica, isso pesa ainda mais porque os rios são corredores ecológicos em uma paisagem ampla.

Um bloqueio não interrompe apenas um deslocamento, ele fragmenta um caminho que conecta ambientes, estações do ano e ciclos de reprodução.

O que muda quando o fluxo livre volta de verdade

A remoção das barragens na bacia do Vindel tem como meta restabelecer processos naturais do rio e, com isso, melhorar a saúde geral do sistema fluvial.

Esse “retorno do natural” não é uma ideia abstrata. Ele acontece em componentes bem concretos do funcionamento de um rio:

A água volta a circular com menos interrupções e com padrões mais próximos do original. Sedimentos voltam a se mover e a se redistribuir.

Nutrientes deixam de ficar presos em pontos específicos. Sementes e matéria orgânica voltam a viajar com o fluxo, alimentando margens e trechos ribeirinhos.

Além disso, em alguns casos, o piso de madeira instalado no leito do rio também foi removido. Esse detalhe é decisivo, porque não era apenas a barragem que atrapalhava.

O revestimento de madeira no fundo do rio funcionava como obstáculo físico e como bloqueio dos processos de leito, impedindo a circulação natural de água, sedimentos e matéria orgânica.

Migração de peixes e a prova rápida: Salmo trutta em dois dias

Um dos sinais mais marcantes da resposta ecológica apareceu em velocidade incomum: houve retorno de Salmo trutta 2 dias após a restauração.

Esse tipo de retorno rápido é um indicativo de que a barreira física era um gargalo central para o deslocamento.

Quando o obstáculo some, a natureza tende a testar o caminho quase imediatamente, especialmente em espécies que dependem de movimento ao longo do rio.

A lógica é simples: rios com fluxo livre beneficiam peixes migratórios, porque eles precisam acessar diferentes trechos ao longo do ano para alimentação, abrigo e reprodução.

A remoção das barragens e de estruturas associadas abre caminho para que esses peixes voltem a circular sem o “paredão” interrompendo o corredor.

O desafio técnico que decide tudo: não deixar o nível da água cair

Derrubar barragens antigas tem uma dificuldade que não aparece em foto de antes e depois: manter o nível de água a montante.

Quando muitas dessas barragens foram construídas, pedras foram movidas rio abaixo para aumentar a diferença de altura acima e abaixo.

Se a barragem fosse removida sem recolocar essas pedras, o nível da água acima poderia cair artificialmente, criando um novo desequilíbrio, desta vez causado pela própria restauração.

Por isso, a equipe precisou construir limiares naturais e suaves onde as barragens estavam. Esses limiares fazem três coisas ao mesmo tempo.

Primeiro, evitam uma queda anormal nos níveis de água a montante. Segundo, melhoram a estética natural do curso d’água, para que a área restaurada não pareça uma cicatriz técnica. Terceiro, impedem que o fluxo fique tão forte a ponto de dificultar a movimentação de peixes e outras espécies da vida selvagem.

Como parte desse processo, grandes rochas foram recolocadas para estabilizar o trecho e garantir que o rio recupere função, não apenas “um caminho de água”.

A estratégia maior: paisagem aquática e corredores verde azul

A remoção de barragens não é tratada como um evento isolado. Ela faz parte de uma estratégia de longo prazo para restaurar a bacia hidrográfica do rio Vindel, maximizando resultados de trabalhos anteriores de restauração fluvial em larga escala e conectando a intervenção a outros esforços em andamento.

A abordagem adotada é descrita como “paisagem aquática”, com foco em aprimorar corredores verde azul para natureza e vida selvagem.

Isso significa fortalecer a conexão entre rios e paisagens circundantes, restaurando fluxo livre e permitindo que processos dinâmicos voltem a operar.

Quando o rio recupera liberdade, a paisagem inteira ganha coerência ecológica, porque margens, áreas úmidas e trechos florestais passam a interagir de novo com o pulso da água.

O que vem junto com barragens: áreas úmidas drenadas e florestas degradadas

Na bacia do Vindel, a Rewilding Sweden também atua em outras frentes de restauração ecológica de longo prazo. Além de remover barragens, a equipe foca na restauração de áreas úmidas drenadas e de florestas degradadas.

A restauração das florestas tem um papel adicional: aumentar a biodiversidade e apoiar a migração de renas por uma paisagem dominada pela silvicultura

Esse ponto ajuda a entender por que a remoção de barragens é mais do que “um projeto de rio”. Ela se encaixa em um plano territorial, onde água, floresta e fauna precisam voltar a funcionar como sistema.

De onde veio esse problema: o legado da indústria florestal sueca

Três das quatro barragens removidas, ou em processo de remoção, são descritas como legado da longa história da silvicultura em escala industrial na Suécia, que impactou fortemente a paisagem.

A partir da década de 1850, antes da era das estradas e ferrovias, cursos d’água foram canalizados e desobstruídos para formar uma vasta rede de transporte fluvial. Corredeiras foram removidas e curvas retificadas para permitir que troncos flutuassem centenas de quilômetros rio abaixo para processamento.

Em muitos locais, pisos de madeira eram colocados no leito dos rios para facilitar a passagem. Paralelamente, uma rede extensa de valas de drenagem conectadas aos rios foi escavada para criar solos mais secos e favorecer o crescimento de árvores.

E então vieram as barragens em massa: milhares de pequenas estruturas eram construídas para elevar artificialmente os níveis de água na primavera.

Quando os troncos estavam prontos para transporte, as barragens eram abertas e a madeira era levada rio abaixo pela correnteza resultante.

O que foi desenhado para acelerar madeira também deixou um rastro ecológico: centenas de barragens obsoletas ainda existem na bacia do Vindel e em outras regiões da Suécia, e as que restam seguem causando impacto negativo.

Por que “retirar concreto” virou uma medida simples e eficaz

Entre as ações possíveis para melhorar saúde e funcionalidade de rios e áreas conectadas, remover barragens é descrito como uma medida simples e eficaz porque elimina o obstáculo mais direto à conectividade.

Não exige “reinventar” o rio, exige tirar do caminho aquilo que o impede de se autogerir. Quando a barreira some, o rio volta a organizar sedimentos, nutrientes e fluxo, e a vida selvagem volta a ter caminhos completos, não fragmentos.

Próxima etapa já marcada: investigar mais cinco barragens

O plano segue com expansão. Uma segunda verba do programa Open Rivers financiará, no próximo ano, a investigação de mais cinco barragens na bacia hidrográfica do rio Vindel, para possível remoção pelas mãos da equipe do projeto.

Essa etapa é importante porque amplia o alcance do corredor reconectado e, ao mesmo tempo, reforça o método: mapear, avaliar e remover, sempre com cuidado para não criar quedas artificiais de nível de água e para manter passagens funcionais à fauna.

A conexão com metas europeias de rios livres até 2030

Os esforços de remoção de barragens na bacia do Vindel são descritos como alinhados às políticas europeias de gestão de cursos d’água, que buscam restaurar biodiversidade e conectividade ecológica.

O trabalho também contribui para um objetivo da Estratégia Europeia para a Biodiversidade: restaurar o fluxo livre em pelo menos 25.000 quilômetros de rios europeus até 2030.

Além do Open Rivers, há apoio financeiro citado da Rewilding Europe, envolvida no movimento europeu de livre circulação dos rios e parceira fundadora da Dam Removal Europe.

A lógica central por trás disso é a mesma do projeto sueco: com mudanças climáticas trazendo novos desafios, surge a necessidade de uma nova relação com a água, aceitando-a novamente nas paisagens e restaurando habitat natural onde for possível, com processos dinâmicos e naturais como fluxo livre e cheias.

Qual dessas ações você acha que traz resultado mais rápido em rios bloqueados por barragens: derrubar a estrutura primeiro ou reconstruir o leito com limiares naturais antes de liberar totalmente o fluxo?

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