Com quase 80 anos e mais de 300 mil km percorridos, um professor italiano transformou uma van em biblioteca e resgatou o amor pelos livros em vilarejos esquecidos do sul da Europa

Professor italiano percorre mais de 300 mil km com uma van-biblioteca levando livros a crianças de vilarejos remotos e preservando a cultura da leitura.
Pouca gente teria a disposição de transformar a própria aposentadoria em uma missão cultural itinerante. Menos ainda fariam isso guiando uma pequena van pelas estradas estreitas e cheias de curvas de regiões rurais italianas. Mas o protagonista desta história fez exatamente isso. Antonio La Cava, professor primário italiano, hoje próximo dos 80 anos, decidiu que não iria simplesmente se desligar da educação quando deixou a sala de aula. Em vez disso, ele transformou um veículo simples em uma biblioteca ambulante para levar livros a comunidades isoladas da Basilicata, no sul da Itália.
A origem do “Bibliomotocarro” e o incômodo com o declínio da leitura
O projeto nasceu de uma inquietação muito específica. La Cava percebeu, nos últimos anos de docência, que as crianças estavam perdendo o hábito de ler. Para ele, isso não era apenas uma mudança de comportamento escolar, mas um risco cultural.
A Itália, apesar de possuir tradição literária respeitável, enfrenta desigualdades entre centros urbanos e áreas rurais no acesso a bibliotecas e livrarias.
La Cava conta, em várias entrevistas, que começou a temer o futuro: “Eu não queria envelhecer em um país de não leitores”. Essa frase se tornou uma espécie de lema da iniciativa.
Em 1999, ainda na ativa, ele iniciou pequenas ações comunitárias ligadas à leitura. Mas foi em 2003 que o projeto ganhou a forma que o tornaria conhecido internacionalmente: a transformação de uma Piaggio Ape de três rodas – veículo leve e econômico, clássico da Itália rural – em um micro caminhão-biblioteca decorado como uma casinha azul sobre rodas. Surgia ali o Bibliomotocarro.
Percurso, rotas e o público infantil como prioridade absoluta
La Cava deixou claro desde o início que o público principal eram crianças em idade escolar, especialmente as que viviam em pequenos povoados com pouca infraestrutura cultural.
A Basilicata, região onde ele atua, é composta por cidades pequenas, muitos vilarejos em colinas e longas distâncias entre comunidades. Isso cria um cenário em que o acesso a livros depende de deslocamentos e dinheiro – fatores que nem sempre estão disponíveis para famílias locais.
O Bibliomotocarro visita regularmente vilarejos, pracinhas, escolas e comunidades. A chegada do veículo é anunciada por uma pequena música de órgão que ecoa pelas ruas, chamando atenção de crianças, pais e curiosos.
Não há burocracia. As crianças podem emprestar, ler na hora ou até receber livros de presente, sem taxas ou exigências.
Com o tempo, a rota se expandiu. La Cava passou a percorrer centenas de municípios na Basilicata e, ocasionalmente, estendeu viagens a regiões vizinhas como Puglia e Campania.
Somando anos de estrada, o Bibliomotocarro superou a marca de 300 mil quilômetros, um número impressionante para um veículo pequeno e uma iniciativa individual.
A importância de levar livros onde eles não chegam
Para entender a força dessa iniciativa, é necessário lembrar que políticas de incentivo à leitura variam muito entre países e dentro deles. Cidades grandes geralmente concentram:
• bibliotecas públicas,
• livrarias,
• feiras literárias,
• projetos culturais,
• escritores convidados.
Mas vilarejos rurais – tanto na Itália quanto no Brasil – raramente possuem estruturas desse tipo.
La Cava percebeu essa lacuna e adotou uma abordagem simples: se o leitor não pode ir até os livros, os livros irão até ele.
Esse modelo é semelhante a programas itinerantes adotados em outros países, como bibliotecas móveis nos Estados Unidos, os bookmobiles do Reino Unido e iniciativas de bicicletas-livro na América Latina. O diferencial do Bibliomotocarro está no fato de ser uma iniciativa individual e não estatal, financiada pelo próprio professor e por doações espontâneas.
A dimensão humana e emocional do projeto
O impacto do Bibliomotocarro não pode ser explicado apenas por números de quilômetros ou de livros distribuídos. Há um componente emocional e humano que sustenta a iniciativa: o vínculo entre La Cava e as crianças.
Ele relata que muitos jovens esperam o veículo como se fosse um sinal de que alguém se importa com eles, de que não estão culturalmente isolados.
Esse é um ponto sensível porque a falta de acesso à cultura não é apenas uma questão de consumo intelectual, mas de autoestima e pertencimento.
Ver uma criança escolher seu primeiro livro, ler em voz alta ou pedir recomendações é, para La Cava, a confirmação de que o esforço vale a pena.
O professor não usa o livro como instrumento de avaliação, mas como gatilho de curiosidade, o que contrasta com modelos escolares excessivamente técnicos.
Reconhecimento internacional e legado cultural
O Bibliomotocarro chamou atenção da imprensa internacional. BBC, Reuters, jornais italianos, revistas especializadas e sites educativos já registraram o projeto, transformando La Cava em referência cultural. Ele participou de eventos como TEDxMilano e recebeu prêmios regionais pela contribuição à cultura da leitura.
Mas talvez o maior reconhecimento esteja na memória das crianças. Há registros de jovens que cresceram acompanhando o Bibliomotocarro e hoje levam seus próprios filhos para receber livros.
Esse ciclo geracional revela algo importante: o projeto não apenas distribui livros, ele semeia leitores.
Uma reflexão sobre leitura, acesso e compromisso cultural
O caso de Antonio La Cava provoca uma pergunta incômoda para qualquer país: quem leva livros para quem está longe das cidades?
Em uma era marcada por telas, algoritmos e consumo acelerado de informação, a ideia de uma pequena van repleta de livros viajando lentamente por estradas rurais parece quase anacrônica. E talvez seja justamente por isso que ela seja tão poderosa.
Enquanto plataformas digitais competem por atenção, o Bibliomotocarro oferece algo que o digital não entrega sozinho: presença humana, escolha livre e contato físico com um objeto cultural.
Aos quase 80 anos, La Cava continua dirigindo, conversando, distribuindo livros e recusando a ideia de que leitura é um privilégio urbano. Seu legado não está apenas na trajetória percorrida, mas na defesa concreta da cultura como direito – mesmo em lugares esquecidos pelos mapas e pelas políticas pública
No fim, o Bibliomotocarro não é apenas um veículo, mas uma mensagem: um país que lê é um país que se reconhece e se projeta. E isso vale para a Itália, para o Brasil e para qualquer lugar onde haja crianças, vilarejos e um professor decidido a não se aposentar da educação.


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