Salvador nasceu planejada com uma matriz virtual elaborada na Metrópole pelo Mestre das Obras Régias, Miguel de Arruda, e adaptado ao local pelo construtor Luís Dias. Uma das características desse plano em xadrez era a criação de duas praças, uma sede do poder civil, mais tarde denominada de Praça Municipal, e outra do poder religioso, conhecida como Terreiro de Jesus. Entre as duas ficavam a Biblioteca Pública, a Imprensa Oficial, a Santa Casa de Misericórdia, a primitiva Sé e parte do colégio jesuítico. Em 1933 a igreja da Sé e o seminário menor dos jesuítas foram vendidos para a criação de um terminal de bondes da Cia. Linha Circular e virou a Praça da Sé.
Mas as duas praças continuavam com suas funções bem definidas. A Praça Municipal panorâmica, debruçada sobre a Baia de Todos os Santos, reunia a sede do Governo Colonial, a Câmara de Vereadores e a Alfândega, depois substituída pela Biblioteca Pública e Imprensa Oficial. Entre 1549 e 1763, Salvador foi a capital do Brasil e ali se elaborava a política para todo o país.
O Terreiro de Jesus, com o Convento de São Francisco, a Ordem Terceira de São Domingos e a igreja de São Pedro dos Clérigos ganhou mais força como centro religioso com a transformação da igreja jesuítica em Catedral Basílica.
Em 1970 o prefeito Clériston Andrade com o apoio do Governador ACM, que transferiu a sede do governo estadual para o CAB, demoliu uma quadra inteira para ampliar a Praça Municipal. O Arq. Valdomiro Cunha, preferido de ACM, criou uma laje seca a 1,50 m sobre o nível da praça. Cleriston ficou tão envergonhado que não queria inaugurar a laje e o povo a apelidou de Cemitério de Sucupira, plagiando a novela O Bem Amado, de Dias Gomes.
Como o gabinete na Câmara de Vereadores do prefeito biônico Mário Kertész fosse pequeno, ele solicitou em 1979 a transferência para o Palácio Rio Branco vazio, mas ACM vetou. A Prefeitura foi parar, em 1981, em Brotas, no Solar Boa Vista. Eleito em 1986, Kertesz prometeu trazer de volta a Prefeitura para a Praça Municipal e solicitou ao genial arquiteto Lelé construir no Cemitério de Sucupira o Palácio Tomé de Souza. Embora provisório, o palácio se incorporou à praça.
Com uma visão ultrapassada de unidade estilística, a Prefeitura, o MPF e a Justiça querem demolir o palácio Tomé de Souza para criar ali um centro de convenções engarrafando a colina da Sé, esquecendo que ali embaixo há o Centro Cultural da Câmara que não suporta uma mega estrutura.
Ao invés de ampliar o Palácio Thomé de Souza, a Prefeitura vai se transferir para o Paço Arquiepiscopal, a Câmara para o Cine Excelsior e o Palacio Rio Branco vai virar hotel chic, esvaziando de toda significação a sede original do Governo do Brasil. Este é o retrato de uma cidade sem planejamento, gerida só pelo achismo e pela especulação imobiliária.
SSA: A Tarde, 01/02/2026
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