As obras de Gustave Eiffel além da famosa torre em Paris
Formado pela École Centrale Paris, Eiffel construiu seu legado em diversas obras ao redor do mundo, cada uma tão inovadora quanto a anterior
Gustave Eiffel foi um engenheiro francês cujo trabalho não passou despercebido. Estudou na mais prestigiada escola de engenharia de Paris, contrariando as expectativas da família. Seu pai, um oficial militar, e sua mãe, uma comerciante, esperavam que ele seguisse os passos do tio em uma fábrica de produtos químicos. Seu primeiro emprego foi em uma companhia ferroviária, onde descobriu que o aço não precisava ser apenas um elemento estrutural, mas possuía uma beleza até então desconhecida. Com uma mente criativa e aptidão natural para a matemática, dedicou-se a projetar com seu toque único: seu primeiro projeto foi uma ponte ferroviária, mas alcançou o ápice com a famosa Torre Eiffel. Sempre com o metal como elemento central, ascendeu rapidamente à proeminência na indústria da construção e seu talento transcendeu fronteiras, chegando até o México e à América Latina.
1. Ponte ferroviária, Bordeaux (1858)
Gustave Eiffel iniciou sua carreira de engenheiro aos 26 anos, quando foi encarregado de coordenar uma ponte ferroviária, hoje conhecida como Ponte Eiffel. Além da pouca idade para liderar um projeto dessa magnitude, Gustave impressionou a todos com a habilidade técnica demonstrada na construção da ponte, que atravessava o rio Garonne por completo, com 510 metros de extensão. Este não foi apenas o primeiro passo em sua carreira, mas a Ponte Eiffel também lhe permitiu descobrir o material que se tornaria a base de seu trabalho de engenharia nos anos seguintes: o aço. Robusta, segura e bela, a ponte manteve sua função ferroviária até 2008, facilitando centenas de milhares de viagens de trem entre Paris e Bordeaux. Posteriormente, foi declarada Monumento Histórico e o tráfego ferroviário foi desativado para dar lugar à área exclusiva para pedestres.
2. Farol de Ristna, Estônia (1874)
Sabemos que Gustave Eiffel projetou e construiu pontes, estações de trem, cúpulas e até pequenos palácios, mas entre seus muitos empreendimentos também se destaca um farol na Estônia. Após se associar ao engenheiro Louis Sautter em 1868, a dupla começou a trabalhar em melhorias nas estruturas de aço e em novos projetos, eventualmente construindo diversos faróis do Brasil a Madagascar. No entanto, o Farol de Ruhnu e, especialmente, o Farol de Ristna atraíram atenção particular. Por quê? A neblina que cobria a região durante os períodos mais difíceis da Estônia era tão densa que exigia um farol alto o suficiente para iluminar e funcionar; o Farol de Ristna se elevava a uma altura de 30 metros do solo para cumprir eficazmente seu propósito.
3. Ex-Aduana de Arica, Chile (1874)
Muitas das obras de Gustave Eiffel na América Latina foram construídas na França e transportadas através dos oceanos para seus respectivos países. Foi o caso da Estátua da Liberdade, do Palácio de Ferro e, claro, da antiga Alfândega de Arica, no Chile. Embora hoje seja um centro cultural e tenha sido declarado Monumento Histórico Nacional, durante vários anos serviu como prédio governamental. Sua construção ocorreu durante a presidência de José Balta, quando Peru e Chile ainda definiam suas fronteiras e disputavam território. Pintada em um característico vermelho e branco, a arquitetura é considerada de estilo neoclássico e foi restaurada inúmeras vezes para preservar um vestígio da maior visão francesa.
4. Catedral de San Marcos, Chile (1875)
Longe do solo europeu, Gustave Eiffel decidiu explorar seus projetos em diferentes áreas. Assim, no México, projetou uma chaminé para uma mina e, no Chile, uma catedral. A Catedral de San Marcos, em Arica, foi originalmente planejada para Ancón; no entanto, sua construção acabou sendo levada para Arica devido a um desastre natural. Em 1868, um terremoto destruiu o único edifício religioso da cidade, levando o governo a destinar o projeto de Eiffel para essa região. Embora não siga estritamente os estilos arquitetônicos europeus, o edifício ostenta uma estética neogótica. Como a história nos ensina, na América Latina, a arquitetura tornou-se uma fusão de estilos e movimentos do Velho Mundo com grande sucesso.
5. Hall da Estação de Budapeste, Hungria (1877)
Durante o século XIX, Budapeste dedicou-se à urbanização de suas cidades com tecnologias de ponta. Entre seus projetos, destacavam-se as estações ferroviárias que cruzavam três dos principais eixos da Teréz Körút, incluindo, naturalmente, a Estação Budapest-Nyugati (Oeste). Embora todas as estações tivessem importância funcional, a Estação Oeste se sobressaía por ter sido construída e projetada pelo engenheiro mais renomado da época: Gustave Eiffel. Após três anos de árduo trabalho, o resultado final foi uma bela estrutura de aço e vidro que se iniciava na fachada, cruzava o telhado e se estendia até a fachada secundária. Com seu gosto peculiar pela beleza, ele também adicionou ornamentos amarelos e manteve o estilo clássico tão predominante no final do século.
6. Viaduto Garabit, França (1884)
A nota de 200 francos suíços apresenta o Viaduto de Garabit, outra das famosas pontes projetadas por Gustave Eiffel. Localizado na região de Cantal, o projeto preliminar foi confiado a outra figura: o arquiteto Léon Boyer, que, fã da obra do famoso engenheiro, decidiu inspirar-se em uma de suas criações: a Ponte Maria Pia, em Portugal. No entanto, a execução do projeto final foi confiada ao próprio Eiffel, que construiu uma estrutura que incorporava elementos de sua própria obra. Na época, era considerada a ponte com o maior vão, 65 metros, e elevava-se a uma altura de 122 metros em meio a aço incandescente.
7. Estátua da Liberdade, Nova Iorque (1886)
Para homenagear os laços entre a França e os Estados Unidos, a França decidiu materializar a independência americana em uma estátua que, até hoje, simboliza a liberdade. Em 1886, após o centenário da Declaração de Independência, os Estados Unidos receberam a famosa Estátua da Liberdade, uma escultura de Auguste Bartholdi que se ergue sobre a estrutura metálica construída pelo próprio Gustave Eiffel na França e transportada através do oceano até seu destino final. Graças ao seu valor simbólico e estético, a UNESCO declarou este monumento um Monumento Nacional e Patrimônio Mundial.
8. Chaminé “La Ramona”, México (1890)
No México, os nomes são dados por qualquer pretexto: qualidades físicas, caráter e até mesmo dias sagrados. A chaminé "La Ramona" não é exceção, pois seu nome deriva do dia de sua inauguração, 31 de agosto, dia de São Raimundo. Ela é considerada uma das obras de Gustave Eiffel, já que a construtora responsável pelo projeto, El Progreso, se orgulhava de ter o engenheiro francês como o autor. Entre suas principais características estão sua altura, que se destaca na paisagem da Baja California Sur com 47 metros, e sua função, visto que auxiliava a principal indústria da região: a mineração.
9. Palácio de Hierro, México (1894)
No final do século XIX, Orizaba era uma cidade em pleno florescimento econômico e cultural, e seus moradores queriam demonstrar sua prosperidade construindo um edifício icônico, tanto para Veracruz quanto para o resto do México. Assim, o governo mexicano solicitou a Sebastián Antonio que contatasse a Société Anonyme des Forges d'Aiseau, na Bélgica, e encomendasse uma obra sem precedentes. O projeto, supervisionado por Gustave Eiffel, impressionou todo o México, pois se tratava de uma estrutura Art Nouveau construída inteiramente em aço; não havia precedentes para tal feito em nenhum lugar do mundo. Embora tenha servido como prefeitura por 97 anos, hoje abriga o Museu do Futebol, o Museu da Cerveja, o Museu das Raízes de Orizaba e o Museu Interativo.
10. Edifício “El Forjador”, Argentina (1894)
Este edifício é conhecido como "El Forjador" (O Ferreiro) porque, originalmente, era uma fábrica e showroom de máquinas da empresa El Forjador; aliás, os observadores quase imediatamente notam a estátua de um ferreiro que coroa a fachada. Embora o edifício tenha sido modificado com diferentes materiais, a estrutura foi obra de Gustave Eiffel, que projetou uma estrutura capaz de suportar grandes vãos. Construído com arquitetura em ferro, funciona hoje como um centro cultural dedicado a preservar o legado de Eiffel.
11. Cúpula do Hotel Hermitage em Monte-Carlo, Mônaco (1896)
Os contemporâneos de Eiffel o viam como um engenheiro que estruturava edifícios com uma visão intimamente ligada aos valores estéticos tão populares em sua época. Tamanha era sua fama que Nicolas Marquet, o arquiteto responsável pelo Hôtel Hermitage, o incumbiu de projetar uma cúpula de vidro que coroa o saguão do hotel, conhecido como Jardim de Inverno. Fiel ao estilo Belle Époque, Gustave Eiffel capturou a essência etérea e atemporal do hotel e construiu um teto curvo e cativante que transporta o visitante para outra dimensão. O projeto original não incluía dourado ou cores pastel, mas estes foram adicionados após a restauração em 1970. Hoje, abriga um restaurante chamado La Mezzanine, sob o comando do chef Philippe Joannes.
12. Ponte Trang Tien, Vietnã (1899)
Quarenta anos após o projeto que lançou sua carreira no mundo do design, Gustave Eiffel teve a oportunidade de construir outra ponte, desta vez no Vietnã. Seu retorno ao universo das pontes, símbolos de conexão e união, evocou nostalgia no engenheiro francês, mas também representou uma oportunidade para adicionar um toque extra de beleza. Assim, Eiffel inspirou-se na arquitetura gótica e interpretou os arcos ogivais de maneira singular, utilizando o aço que lhe era característico. A Ponte Trang Tien, com 60 metros de comprimento, atravessa o Rio Huong, ou "Rio Perfume", no coração da província de Hue. Embora não tenha passado por grandes restaurações, foram adicionados diversos refletores que iluminam a ponte à noite, criando uma verdadeira façanha da engenharia.
13. Terminal Rodoviário de La Paz, Bolívia (1917)
Quem conhece a obra de Gustave Eiffel e vê este terminal percebe um detalhe: a linguagem da engenharia se revela por si só no edifício. A construção levou quatro anos, com o construtor Miguel Nogue atuando como intermediário junto à empresa de Eiffel. O projeto consiste em uma estrutura metálica que sustenta uma bela claraboia no teto e uma fachada de vidro que oferece um espaço aberto e onírico para todos os passageiros que aguardam seu embarque. No interior, os arcos metálicos se desdobram em uma disposição rítmica, repleta de engenhosidade francesa.
Se há algo que se pode dizer sobre Gustave Eiffel, é que ele era capaz de encontrar beleza no cotidiano, como em pontes, e em materiais, como o aço. Essa visão singular permitiu-lhe projetar e construir obras que se destacaram não só em sua época, mas ao longo da história. Agora que você conhece sua trajetória, é ainda mais gratificante apreciar sua obra.
*Matéria originalmente publicada na Architectural Digest México.

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