A longa agonia do Império Americano
A crise
da hegemonia americana, que se arrasta há cinco décadas, entrou em sua fase
mais aguda. A velha ordem, forjada nas cinzas da Segunda Guerra Mundial, se
desfaz, mas a nova ainda não nasceu
18/01/2026 |
O tom apocalíptico que cada vez
mais acompanha as ações de Donald Trump e a reconfiguração da ordem mundial nos
leva a crer que vivemos o “fim do mundo como a gente conhece”, uma ruptura
abrupta com um passado de suposta estabilidade. Mas convenhamos, para além do
alarmismo imediatista, os historiadores e teóricos do “sistema-mundo” apontam
há décadas que a crise de hegemonia do império americano não é uma novidade,
mas o desenrolar de um processo longo e complexo, cujas raízes remontam à
década de 1970. Longe de ser um evento isolado, a situação atual se insere em
um padrão histórico de ascensão e queda de potências hegemônicas, um ciclo que,
como nos mostram Giovanni Arrighi, Immanuel Wallerstein e David Harvey (à sua
maneira) é inerente à própria dinâmica do capitalismo histórico.
Harvey, em “O Novo Imperialismo”,
e Giovanni Arrighi, em “O Longo Século XX” e “Adam Smith em Pequim”, demonstram
que o ciclo hegemônico dos Estados Unidos, consolidado após a Segunda Guerra
Mundial, começou a dar sinais de esgotamento já nos anos 1970. A crise do
petróleo, a derrota no Vietnã e a crescente competição econômica com a Alemanha
e o Japão marcaram o início do que Arrighi chama de “crise sinalizadora” da
hegemonia americana. Essa crise, longe de ser uma anomalia, segue um padrão
histórico. As transições hegemônicas no sistema capitalista mundial, como a da
Holanda para a Inglaterra e desta para os Estados Unidos, foram invariavelmente
acompanhadas por períodos de caos sistêmico e guerras virulentas. O século XX,
com suas duas guerras mundiais e a Guerra Fria, foi o palco sangrento da
disputa pela sucessão da hegemonia britânica, um conflito que envolveu não
apenas as potências capitalistas estabelecidas, mas também o desafio
representado pela União Soviética.
Com o colapso do bloco socialista
em 1991, os Estados Unidos emergiram como a única superpotência, um “império
global” sem rivais aparentes. No entanto, essa unipolaridade mascarava uma
profunda crise estrutural. Sem um desafiante direto que justificasse sua
liderança e sem a capacidade de reverter o declínio de sua base produtiva, os
EUA passaram a projetar seu poder de forma cada vez mais espetacular e
militarizada. As intervenções no Iraque e no Afeganistão, mais do que
estratégias geopolíticas, foram demonstrações de força, espetáculos macabros
que pareciam saídos de um roteiro de Hollywood. Eram a expressão de um poder
que, embora ainda imenso em sua capacidade destrutiva, já não conseguia mais
liderar e organizar o sistema-mundo de forma consensual, como fizeram após a
segunda guerra (1939-1945).
Pois é neste cenário de declínio
hegemônico que a ascensão da China ganha seu fundamental significado. Giovanni
Arrighi, em “Adam Smith em Pequim”, oferece a análise mais provocadora sobre
esta transição. Para ele, a crise final da hegemonia americana não levará
necessariamente a uma nova guerra mundial nos moldes das anteriores. Arrighi
argumenta que a China, ao contrário dos desafiantes europeus do século XX, não
busca uma confrontação militar direta, mas sim uma recentralização da economia
global em torno da Ásia, baseada em uma lógica de mercado que ele, de forma
instigante, associa ao Adam Smith de “A Riqueza das Nações”, em oposição ao
Smith de inspiração imperialista.
O fato é que, economicamente,
Adam Smith já parece ter se mudado para Pequim. A China se tornou a “fábrica do
mundo”, o principal parceiro comercial da maioria das nações e uma potência
tecnológica em consolidação. Este avanço corrói as bases materiais da hegemonia
americana, que se tornou crescentemente dependente da financeirização e do
poderio militar para compensar seu déficit produtivo. Contudo, a dimensão
militar ainda é o trunfo incontestável dos Estados Unidos, como vimos
recentemente no sequestro de Nicolás Maduro. A questão que se coloca, e para a
qual não há resposta fácil, é se a transição poderá ocorrer de forma pacífica,
como Arrighi sugere ser uma possibilidade, ou se o “momento caótico” da
sucessão hegemônica, descrito por Wallerstein, levará inevitavelmente a um
conflito de grandes proporções. Certamente Trump está apostando forte neste
caminho, resta saber quando o jogador de cassino e trambiqueiro nova-iorquino
vai dobrar a aposta.
A esperança de que a China possa
“barrar a sanha americana” reside menos em sua capacidade militar e mais em sua
habilidade de construir uma ordem alternativa, menos predatória e mais centrada
no desenvolvimento mútuo. No entanto, a história das transições hegemônicas,
como nos lembra Hobsbawm ao analisar o “breve século XX”, é uma história de
violência. Estamos, portanto, com o “diabo na rua, no meio do redemoinho”. A
crise da hegemonia americana, que se arrasta há cinco décadas, entrou em sua
fase mais aguda. A velha ordem, forjada nas cinzas da Segunda Guerra Mundial,
se desfaz, mas a nova ainda não nasceu. Neste interregno, como diria Gramsci,
surgem os “sintomas mórbidos”. A guerra pela nova hegemonia já começou, e seus
desdobramentos definirão o contorno do século XXI. Uma coisa é certa, na longa
duração, “a paz sempre foi a guerra” (que o diga o facínora Adolf Hitler), a
crise é uma constante e o “fim do mundo” é o nosso pesadelo de todos os
dias. Carpe diem, leitoras e leitores, nada será como antes,
amanhã.
Professor, Historiador, Comunicador. Mestre e Doutor pela USP. Curador Acadêmico no Instituto Conhecimento Liberta (ICL). Apresentador do “Provocação Histórica", programa semanal de divulgação de História, Cultura e Arte nos canais do ICL. Autor de "Crônico e Anacrônico: escritos de um operário do tempo", pela editora Autonomia Literária (2025).
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