Ilha de Itaparica: entre o paraíso turístico e a disputa do tráfico
Facções criminosas avançam sobre a maior ilha marítima do Brasil e colocam em xeque a tranquilidade de moradores e visitantes
Bruno Wendel
Publicado em 12 de janeiro de 2026
Duas ilhas em uma. Para turistas e veranistas, Itaparica é sinônimo
Atualmente, facções como o Bonde do Maluco (BDM), o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC)
atuam no território dividido entre os municípios de Itaparica e Vera Cruz — este último concentrando cerca de 80% da área da ilha. O interesse do crime organizado é estratégico: localizada a cerca de 45 quilômetros de Salvador, a ilha possui poucas rotas marítimas com fiscalização constante, o que facilita o transporte de drogas por barcos e lanchas.
Facções disputam controle da Ilha de Itaparica
Além disso, a posição geográfica favorece o deslocamento rápido para a capital, o Recôncavo Baiano e o litoral sul do estado. Manguezais isolados também são usados como rotas alternativas e áreas de fuga, ampliando a vantagem logística das organizações criminosas.
Os conflitos entre facções colocam em xeque a tranquilidade que, por décadas, consolidou Itaparica como “o eterno refúgio de Salvador”. Casos de desaparecimentos sem solução reforçam o clima de insegurança. Um deles é o do mineiro Daniel Araújo Gondim, de 25 anos, visto pela última vez em outubro do ano passado, em um restaurante na localidade de Barra do Pote, área dominada pelo CV. A família chegou a pagar R$ 3 mil a supostos integrantes de uma facção, mas, no último dia 8, completaram-se três meses do desaparecimento sem qualquer resposta.
Com 14 povoados — quatro em Itaparica e dez em Vera Cruz — a ilha tem cerca de 57 mil habitantes, segundo o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Cone Sul: domínio e disputas
O Comando Vermelho concentra sua atuação principalmente nas áreas próximas ao Recôncavo, conhecidas como “Cone Sul”, que engloba as praias de Aratuba, Berlinque e Tairu. Segundo um morador e comerciante local, que preferiu não se identificar, a presença da facção se expandiu após o rompimento de uma antiga aliança com o grupo Katiara.
“O Cone Sul era ‘Tudo 3’, mas foi tomado. Hoje, boa parte do CV já foi um dia Katiara. De uma hora para outra, os cariocas assumiram tudo, e a Katiara ficou restrita a Nazaré das Farinhas e São Roque do Paraguaçu”, relata.
Ainda segundo ele, os conflitos entre o BDM, forte em Mar Grande, e o CV se intensificaram há cerca de quatro anos. “Havia uma espécie de trégua, até que um entregador de pizza foi executado em Berlinque. Aquilo foi o estopim. Desde então, há ataques e contra-ataques, e quem mora aqui acaba no meio do fogo cruzado.”
Em Tairu, a presença do CV é mais discreta. Já em Aratuba, o domínio é explícito, com pichações em postes, muros e até próximas às barracas de praia, na Avenida Beira-Mar. “Todo mundo sabe que eles estão aqui, mas ninguém pode fazer nada. Quem tenta ser ‘Super-Homem’ não dura muito”, diz um garçom, em tom de alerta. “Aqui é ‘boca pio’.”
A influência do Cone Sul alcançou também Cacha Pregos, hoje sob domínio do CV. O avanço, no entanto, segue em disputa. “Eles tomaram Barra Grande e agora querem Ponta Grossa, que ainda é da facção das três letras”, conta um agente das forças de segurança que costuma veranear na região. As localidades são separadas pela BA-001, entre Bom Despacho e a Ponte do Funil. Segundo ele, a Gameleira, principal porta de entrada da ilha via ferry-boat, também está sob domínio do CV. “É estratégia para avançar, aos poucos, sobre Mar Grande.”
Mar Grande: a força do BDM
Segundo principal acesso marítimo à ilha, Mar Grande é conhecida pelas águas cristalinas e pelo intenso fluxo de passageiros das lanchinhas que fazem a travessia para Salvador. Apesar do forte comércio e do turismo ativo, a região é majoritariamente controlada pelo Bonde do Maluco, que domina cerca de 90% do território local.
A facção atua em áreas como Ilhota, Maragogipinho, Rua Campo Formoso, Alto do Cruzeiro e Tererê. Nesta última, pichações com a sigla “T3” aparecem sobre marcas antigas do CV, indicando retomada territorial.
Falar sobre o assunto é tabu. “Parede tem ouvido e mato tem coelho. Qualquer conversa errada, você sabe o que acontece”, resume um morador local. Na região da Faustina, o alerta é ainda mais direto. “Não vá lá. É tráfico pesado. Só entra quem eles permitem”, diz uma moradora do Centro. “Outro dia, fui levar amigos e mandaram a gente voltar. Eles seguiram a pé.”
A Baixinha do Riachinho também é considerada área de alto risco. “Durante o dia parece tranquilo, mas basta subir a Rua do Ouro para ver jovens armados, alguns com fuzis maiores do que eles”, relata um morador com parentes na região. Segundo ele, recentes ataques do CV provocaram noites de intenso tiroteio. “Ninguém dormia. Depois das operações policiais, a poeira baixou.”
Alto do Riachinho: presença do PCC
Vizinho à Baixinha do Riachinho, o Alto do Riachinho é controlado pelo Primeiro Comando da Capital (PCC), antigo aliado da facção dominante em Mar Grande. Moradores afirmam que a área é “mais tranquila”, mas quem vive no entorno discorda.
“Dá para ouvir gritos e tiros daqui. Quando isso acontece, ninguém se aproxima por dias”, conta um entregador de móveis, que faz referência à execução recente de três técnicos de internet em Salvador, no bairro do Alto do Cabrito. “O medo é que algo parecido aconteça aqui.”
Operações policiais e desafios
Apesar do cenário de violência, a Ilha de Itaparica segue como
“O combate é feito com base em inteligência policial, visando identificar lideranças e elucidar homicídios relacionados ao tráfico. Em muitos casos, as vítimas têm envolvimento com a criminalidade”, afirma o delegado titular da 24ª Delegacia Territorial de Vera Cruz, Leandro Mascarenhas.
Segundo ele, um dos líderes do Comando Vermelho, Ângelo Martins de Cerqueira Neto, conhecido como “Tio Chico”, teve a prisão decretada pela Justiça baiana. Ele integra o Baralho do Crime, na carta ‘Rainha de Paus’. “Nosso trabalho é identificar e prender as lideranças e indivíduos de alta periculosidade”, conclui o delegado.




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