Cientistas australianos espalham resíduos de lã orgânica sobre terras degradadas, reduzem a evaporação em até 35%, elevam microrganismos em 30% a 50% e aumentam colheitas em 12% a 18% transformando lixo em solução em campos antes estéreis

Em um país com 427 milhões de hectares agrícolas, cientistas australianos passaram a espalhar resíduos de lã de ovelha sobre terras degradadas para segurar água e reativar o solo. Testes em Nova Gales do Sul reduziram evaporação em até 35% e elevaram microrganismos em 30% a 50% em poucos meses.
A Austrália sustenta uma agricultura de escala continental, com vastas pradarias que geram mais de 90 bilhões de dólares por ano. Ao mesmo tempo, o território agrícola convive com a aceleração da degradação do solo: após décadas de cultivo intensivo, a perda de matéria orgânica supera 60%, e cerca de 4 milhões de hectares entram em degradação severa a cada ano.
O novo experimento com resíduos de lã mira justamente esse ponto crítico. A proposta é simples na forma e complexa no efeito: usar lã orgânica que se acumula nas fazendas como cobertura ou como insumo processado para recuperar terras degradadas, reduzir a evaporação, devolver umidade ao perfil e criar condições para o retorno de microrganismos, com impacto direto nas colheitas.
O tamanho do problema: quando a terra perde carbono, água e produtividade

A crise descrita é de base física e biológica.
Em Nova Gales do Sul, os níveis de carbono orgânico do solo caíram mais de 3,1% em 14 anos, entre 2006 e 2020, um sinal de que a terra está perdendo capacidade de reter água e nutrientes.
Em regiões ainda mais expostas, como a Austrália Ocidental, a erosão eólica chegou a remover até 1,8 toneladas de solo por hectare por ano, levando embora uma camada que leva centenas de anos para se formar.
O quadro se amplia no mapa.
Mais de 6 milhões de hectares são classificados como de altíssimo risco de erosão e outros 3,2 milhões de hectares enfrentam degradação induzida pela água.
Em Queensland, famílias de agricultores abandonaram áreas que antes produziam por a estrutura do solo ter colapsado, incapaz de reter umidade suficiente para sustentar uma estação de crescimento.
É nesse tipo de cenário, de terras degradadas que viram pó vermelho e quebradiço, que a cobertura de lã começou a ser testada.
O outro lado da equação: a lã vira resíduo caro e abundante

A Austrália também é associada à indústria da lã, que por anos gerou receitas com exportações acima de 4 bilhões de dólares anuais.
Nas últimas duas décadas, a demanda global caiu, fábricas fecharam e os preços da lã bruta despencaram.
A consequência direta foi o acúmulo de material sem destino.
No período de 2024 a 2025, a produção nacional de lã foi projetada para cair para 279 milhões de quilos, mais de 12% abaixo do ano anterior.
Mesmo assim, cerca de 200.000 toneladas de lã residual se acumulam nas fazendas a cada ano.
O descarte é caro e, se deixada ao ar livre, a lã pode levar de 3 a 5 anos para se decompor completamente.
O que era passivo ambiental e financeiro virou matéria-prima para reanimar terras degradadas.
Por que a lã funciona: queratina, retenção de água e oxigenação do solo
A explicação técnica começa na estrutura da fibra.
Cada fio de lã contém escamas de queratina capazes de reter de 1,5 a 2 vezes o próprio peso seco em água.
Ao mesmo tempo, a fibra cria pequenas bolsas de ar que permitem a entrada de oxigênio no solo, algo que falta em solos empobrecidos e compactados.
Esse mecanismo combina dois efeitos que costumam andar separados em terras degradadas: manter umidade e preservar a aeração.
Em vez de apenas “tapar” o solo, a lã atua como um reservatório físico, ajudando a reduzir a evaporação e a prolongar o tempo em que o solo permanece úmido, condição necessária para que microrganismos se restabeleçam.
O que mudou nos testes: evaporação até 35% menor e microrganismos até 50% maiores
Os testes iniciais citados ocorreram em Nova Gales do Sul.
Uma camada de lã com apenas alguns centímetros de espessura foi espalhada sobre terras degradadas e produziu um efeito mensurável: a evaporação na superfície caiu em até 35%.
A umidade do solo permaneceu estável por quase o dobro do tempo observado com cobertura morta orgânica convencional.
A resposta biológica veio na sequência.
Em apenas alguns meses, a densidade microbiana do solo, que havia despencado após anos de cultivo intensivo, aumentou entre 30% e 50%.
O retorno de microrganismos, associado à maior umidade, iniciou um novo ciclo de recuperação, com formação mais rápida de matéria orgânica e retomada gradual da vitalidade necessária para sustentar colheitas.
Queensland como campo de prova: uma estação seca e sinais de reversão
Em Queensland, a técnica foi levada a campos abandonados, onde agricultores relatavam que o solo não retinha sequer uma gota de água.
Após apenas uma estação seca com aplicação experimental, foram relatadas melhorias visíveis: retenção de umidade maior, ausência de solo superficial levado pelo vento e recuperação da estrutura do solo.
O relato descreve uma mudança de estado.
A área deixa de ser pó vermelho quebradiço e passa a se comportar como solo friável e arável, pronto para ser plantado.
Para terras degradadas, a diferença prática é o retorno da capacidade de segurar água, condição básica para qualquer estratégia de recuperação.
O limite da solução bruta: por que não basta espalhar lã sem preparo
O uso de lã orgânica não é descrito como um despejo indiscriminado.
Existe um problema físico: se não for processada, a lã tende a formar grumos e tapetes espessos, se decompõe muito lentamente e pode dificultar a permeação de água no solo.
Em terras degradadas, isso pode significar trocar um problema por outro, criando barreiras físicas que atrapalham a infiltração.
Para “desbloquear” o potencial, foram desenvolvidas duas formas de aplicação: grânulos de lã e composto orgânico de lã.
A diferença entre as duas soluções está no objetivo, uma focada em água, outra em nutrição e recuperação de longo prazo.
Grânulos de lã: a bateria biológica que estende a umidade do solo
Os grânulos são resíduos de lã moídos e compactados em pequenas partículas que podem ser misturadas diretamente ao solo.
A queratina, que se expande e se contrai com a umidade, transforma cada grânulo em um reservatório: absorve água quando o solo está úmido, armazena internamente e libera gradualmente quando o solo começa a secar.
O efeito medido é um aumento de 25% a 40% no tempo de retenção de umidade.
Em um país descrito como a nação mais seca da Terra, essa extensão reduz a pressão de irrigação e ajuda a estabilizar o microambiente necessário para microrganismos se manterem ativos, especialmente em terras degradadas.
Composto de lã: nutrientes em liberação lenta e colheitas até 18% maiores
Quando a lã de ovelha é compostada com microrganismos e matéria orgânica, a queratina se decompõe lentamente e libera uma fonte constante de nutrientes, incluindo nitrogênio, enxofre, carbono orgânico e oligoelementos.
Esse aporte favorece o retorno de microrganismos, elevando novamente a densidade microbiana em 30% a 50% em poucos meses.
A consequência agrícola aparece nas colheitas.
Em regiões de teste, a adição de composto de lã ajudou a aumentar a produtividade de 12% a 18% sem exigir fertilizantes químicos adicionais.
Em terras degradadas, onde o solo perde matéria orgânica e capacidade de retenção, um insumo que entrega umidade e nutrição muda a linha de base do sistema.
Efeito colateral econômico: resíduos viram produto e criam emprego rural
A transformação não se limita ao solo.
Com a perspectiva de uso agrícola, a lã residual muda de status e passa a ser tratada como matéria-prima.
Em 2024, o estado de Victoria viu mais de 40 startups de reciclagem de lã surgirem, criando cerca de 2.500 novos empregos em áreas rurais.
A conversão também tem escala industrial.
De cada tonelada de lã residual, oficinas conseguem produzir quase 900 quilos de grânulos, um material descrito como valendo três vezes mais do que a lã bruta.
O que antes era custo de descarte se torna uma cadeia de produtos associada à recuperação de terras degradadas.
Por que a mudança é relevante: água, microrganismos e matéria orgânica na mesma equação
Em processos de degradação, três perdas se reforçam: água, biologia e matéria orgânica.
A proposta com lã orgânica é atacar essas três frentes ao mesmo tempo, primeiro reduzindo evaporação, depois estabilizando umidade e, com isso, permitindo que microrganismos retornem.
A partir daí, a formação de matéria orgânica acelera, criando um ciclo de recuperação.
O resultado descrito não é instantâneo nem automático.
Ele depende de aplicação correta, de processamento quando necessário e de acompanhamento do comportamento do solo ao longo da estação seca.
Ainda assim, o conjunto de indicadores, evaporação até 35% menor, microrganismos 30% a 50% maiores e colheitas 12% a 18% superiores, coloca a recuperação de terras degradadas em um patamar mensurável, com parâmetros claros de comparação.
A estratégia australiana de cobrir terras degradadas com resíduos de lã orgânica transforma um problema em insumo: um resíduo que se acumula e custa para descartar passa a reduzir evaporação, estabilizar umidade e reativar microrganismos.
Os dados citados apontam ganhos consistentes, com evaporação até 35% menor, aumento microbiano de 30% a 50% e colheitas 12% a 18% maiores quando a aplicação é feita de forma adequada.
Para quem acompanha restauração de solos, o caso coloca uma régua objetiva para discutir eficiência em terras degradadas: medir evaporação, umidade, resposta de microrganismos e produtividade ao longo da estação seca, diferenciando uso de lã bruta, grânulos e composto de lã conforme o objetivo.
Você acha que a recuperação de terras degradadas com lã na Austrália tem escala para virar prática comum, ou tende a ficar restrita a projetos piloto?

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