Verão de
1971. No Rio de Janeiro, a Portela ganhou com o samba-enredo Festa para um Rei
Negro enquanto o arcebispo de Salvador proibia Jesus Cristo, sucesso-maremoto
de Roberto Carlos.
Respondendo ao convite de Origenes “O feijão e o sonho” Lessa, embarquei no avião da Varig rumo a Salvador. Mais de meio-século depois não esqueci o almoço oferecido a bordo. Raramente tinha saboreado um bife tão, mas tão gostoso! Classe econômica.
Memoráveis também serão as duas refeições que a Latam teve o desplante de colocar na placa de meu assento, primeiro entre Salvador e Fortaleza e depois entre Fortaleza e Belém.
Um festival de processados.
Classe Premium.
E se fosse só
nas interestaduais...
Em fim de
outubro fui passar um mês inteirinho no México onde a morte é uma festa. Após
quase setenta anos de trabalho, beirando os noventa, acho que posso me permitir
o conforto da classe executiva. Ter espaço para descansar sem cotoveladas durante
as monótonas horas de voo cortadas por refeições caprichadas é direito
adquirido. Adquirido, mas na Latam, frustrado. O imenso menu impresso
impressiona pela elegância do texto apresentando o talentoso chef e a promessa
de uma série de delícias sardanapalescas. Mas, quando chega a sorridente
aeromoça, levanta-se a sombria cortina da realidade. Não, isto não temos mais,
e isso também não. Resta o que resta que tem sabor de nada e uma taça de
espumante. De manhã, a omelete será de isopor e a salada de frutas idem. O café
é americano. Não sei definir se do Ohio ou do Kentucky.
Mas não pense
que a tortura se limite ao rango. Como tenho limitações ambulatoriais (sic),
solicito sempre uma cadeira de rodas. Quem conhece os intermináveis labirintos
dos terminais de Guarulhos, Congonhas, Galeão ou até mesmo de nosso Dois de
julho entenderá meu drama. Com a Latam, é como o bet do Tigrinho. Você pode
apostar que a cadeira estará na porta quando você sair do avião, mas as possibilidades
de perder são de 96,72%. Ninguém espera o coroa rabugento. O jeito é arrastar a
mala e andar capengando por aí até encontrar uma alma caridosa e uniformizada
da Latam. Raridade. A indiferença às angústias humanas parece ser a marca dessa
empresa. Mas quem já se perdeu nos corredores, escadas rolantes e elevadores do
André Franco Montoro, do Tom Jobim ou do Benito Juárez rezará por minha
sobrevivência.
A ineficiência
da Latam no apoio à terceira idade chega a ser caso de polícia. Espero poder
evitar, no curto prazo que ainda me cabe, qualquer necessidade de voltar a usar
os serviços dessa empresa. Que aliás lidera as queixas de usuários de
transportes aéreos.
Quanta
saudade da Varig, da Transbrasil e da Vasp!
Dimitri Ganzelevitch
Sábado, 24 de janeikro 2026



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