sábado, 24 de janeiro de 2026

DA VARIG E DA LATAM


Verão de 1971. No Rio de Janeiro, a Portela ganhou com o samba-enredo Festa para um Rei Negro enquanto o arcebispo de Salvador proibia Jesus Cristo, sucesso-maremoto de Roberto Carlos.

Respondendo ao convite de Origenes “O feijão e o sonho” Lessa, embarquei no avião da Varig rumo a Salvador. Mais de meio-século depois não esqueci o almoço oferecido a bordo. Raramente tinha saboreado um bife tão, mas tão gostoso! Classe econômica.

Memoráveis também serão as duas refeições que a Latam teve o desplante de colocar na placa de meu assento, primeiro entre Salvador e Fortaleza e depois entre Fortaleza e Belém. 

Um festival de processados. 


Classe Premium. 

E se fosse só nas interestaduais...

Em fim de outubro fui passar um mês inteirinho no México onde a morte é uma festa. Após quase setenta anos de trabalho, beirando os noventa, acho que posso me permitir o conforto da classe executiva. Ter espaço para descansar sem cotoveladas durante as monótonas horas de voo cortadas por refeições caprichadas é direito adquirido. Adquirido, mas na Latam, frustrado. O imenso menu impresso impressiona pela elegância do texto apresentando o talentoso chef e a promessa de uma série de delícias sardanapalescas. Mas, quando chega a sorridente aeromoça, levanta-se a sombria cortina da realidade. Não, isto não temos mais, e isso também não. Resta o que resta que tem sabor de nada e uma taça de espumante. De manhã, a omelete será de isopor e a salada de frutas idem. O café é americano. Não sei definir se do Ohio ou do Kentucky.

Mas não pense que a tortura se limite ao rango. Como tenho limitações ambulatoriais (sic), solicito sempre uma cadeira de rodas. Quem conhece os intermináveis labirintos dos terminais de Guarulhos, Congonhas, Galeão ou até mesmo de nosso Dois de julho entenderá meu drama. Com a Latam, é como o bet do Tigrinho. Você pode apostar que a cadeira estará na porta quando você sair do avião, mas as possibilidades de perder são de 96,72%. Ninguém espera o coroa rabugento. O jeito é arrastar a mala e andar capengando por aí até encontrar uma alma caridosa e uniformizada da Latam. Raridade. A indiferença às angústias humanas parece ser a marca dessa empresa. Mas quem já se perdeu nos corredores, escadas rolantes e elevadores do André Franco Montoro, do Tom Jobim ou do Benito Juárez rezará por minha sobrevivência.

A ineficiência da Latam no apoio à terceira idade chega a ser caso de polícia. Espero poder evitar, no curto prazo que ainda me cabe, qualquer necessidade de voltar a usar os serviços dessa empresa. Que aliás lidera as queixas de usuários de transportes aéreos.

Quanta saudade da Varig, da Transbrasil e da Vasp!

Dimitri Ganzelevitch

Sábado, 24 de janeikro 2026

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