Toneladas de troncos de banana que sobravam após a colheita estão virando insumo para roupas e papel, enquanto a extração mecânica e a secagem controlada aceleram a industrialização

Da chegada do pseudocaule à fibra pronta para a indústria, o processo combina máquinas de extração, muita lavagem, secagem controlada e controle de qualidade para padronizar o material
A fibra de banana deixou de ser curiosidade de laboratório e passou a entrar no radar de empresas que buscam matérias primas renováveis para têxteis sustentáveis, papel e compósitos. O impulso vem de um fato simples e difícil de ignorar. A bananicultura gera muito resíduo e a maior parte não vira produto.
Estudos sobre circularidade do setor apontam que, do peso total da bananeira, apenas uma fração vira alimento, enquanto o restante se torna biomassa descartada no campo após a colheita. Há estimativas na literatura de cerca de 220 toneladas de resíduos por hectare, dependendo do sistema produtivo, o que ajuda a explicar por que o tema ganhou urgência industrial.
É nesse contexto que surge a fábrica de fibra de bananeira moderna. Em vez de depender de artesanato e pequenos lotes, ela organiza o resíduo agrícola como uma cadeia produtiva, com padrões, rastreabilidade e rotinas de segurança e qualidade semelhantes às de outras indústrias de fibras naturais.
No Brasil, iniciativas recentes também reforçaram a visibilidade do tema. Em julho de 2025, a FIESC divulgou que o Instituto SENAI de Tecnologia Têxtil, Vestuário e Design participou de um projeto para desenvolver tecido a partir da fibra do caule da bananeira com foco em aplicação industrial, em parceria com empresas do setor.
A operação começa do lado de fora, com caminhões ou utilitários trazendo o pseudocaule fresco de propriedades próximas. A logística costuma ser curta porque o material é pesado e úmido, e isso encarece o transporte.
Na recepção, a planta industrial faz triagem por tamanho, estado de conservação e nível de umidade. Essa etapa define a eficiência do restante do processo, porque pseudocaules muito degradados tendem a gerar fibras mais curtas e com mais impurezas.
Por que a fibra de banana virou assunto de economia circular e têxteis sustentáveis
A matéria prima principal não é a fruta e sim o pseudocaule, aquela estrutura que parece um tronco e sobra depois da colheita. Em muitas regiões, esse volume é deixado no campo, levado para descarte ou, em situações piores, queimado, o que abre espaço para soluções de reaproveitamento.
A ciência já mapeou bem os caminhos para tirar fibra desse material. Revisões técnicas descrevem extração por métodos mecânicos, e também por rotas químicas e biológicas, variando custo, consumo de água e características da fibra obtida.
Com o mercado de materiais sustentáveis crescendo, o interesse industrial passa a ser menos sobre a novidade e mais sobre consistência, escala e padronização. Em outras palavras, não basta extrair, é preciso entregar um lote de fibra com qualidade repetível.
Extração mecânica com decorticação quando o caule vira feixes de fibra
O coração da fábrica é a linha de extração. Muitas plantas usam decorticação mecânica, na qual rolos e lâminas esmagam e raspam o pseudocaule para separar a parte fibrosa do material mais macio e úmido. Esse princípio aparece em estudos técnicos que descrevem a rota mecânica como base para escala industrial.
Na prática, a máquina recebe lâminas do pseudocaule já cortadas em dimensões padronizadas. O material entra, é comprimido e raspado, e sai em duas correntes, uma de fibras e outra de polpa e seiva vegetal.
Logo após a extração, vem a lavagem intensiva. O objetivo é remover resíduos não fibrosos, reduzir odor e melhorar aparência e toque. Dependendo do produto final, a fábrica pode incluir etapas de amaciamento e limpeza com processos biológicos ou químicos controlados, já que há pesquisas mostrando ganhos em propriedades físicas e mecânicas com diferentes tratamentos.
Quando há uso de processos do tipo retting, a lógica é usar ação microbiológica para soltar componentes como pectinas e lignina em parte, facilitando a separação e melhorando o manuseio. A literatura descreve esse caminho como uma alternativa para melhorar características da fibra, embora o controle de tempo e higiene seja crítico para evitar variabilidade.
O lado menos visível, e mais importante, é o tratamento de efluentes e a recirculação de água. Fábricas mais avançadas tentam reduzir consumo hídrico com reuso em circuito, porque a lavagem é um dos pontos que mais pressiona custo e sustentabilidade do processo.
Secagem controlada e padronização para atender a indústria
Depois de lavada, a fibra precisa secar de forma previsível. É comum a fábrica trabalhar com secagem ao ar em áreas ventiladas e depois complementar com estufas, sempre buscando evitar mofo e manter cor estável.
Há estudos recentes avaliando como a temperatura de secagem influencia propriedades físico químicas e mecânicas da fibra extraída do pseudocaule, um detalhe que ajuda a entender por que a indústria trata essa etapa como controle de processo e não como simples espera.
Na sequência, entram equipamentos de abertura e alinhamento, similares aos usados em outras fibras vegetais, para reduzir nós, separar feixes e preparar a fibra para virar fio, manta não tecida ou reforço para compósitos. É aqui que se define se o lote vai para aplicação têxtil, papel ou outros usos.
O controle de qualidade costuma medir comprimento médio, presença de impurezas, teor de umidade e, em plantas mais estruturadas, parâmetros de resistência. A meta é garantir que a indústria compradora receba fibra de bananeira padronizada, minimizando surpresas na fiação ou na formação de mantas.
Para onde vai a fibra e o que acontece com o restante do material
O destino mais comentado é o têxtil. No Brasil, o tema ganhou projeção com projetos de desenvolvimento de fios e tecidos a partir do resíduo da bananicultura, como as iniciativas divulgadas pelo SENAI e por veículos do setor em 2022 e 2025.
Outra rota é papel e celulose alternativa. Pesquisas relatam produção de papel a partir de fibra do pseudocaule, com etapas de separação, preparo de polpa e formação de folha em processos de laboratório e piloto, o que indica potencial para nichos e misturas com outras fibras.
Há ainda aplicações em compósitos, embalagens e produtos de casa, onde a fibra funciona como reforço vegetal em vez de sintéticos. Esse uso depende muito da regularidade do lote, por isso a obsessão industrial por secagem e limpeza.
Já a parte que sobra, polpa e líquidos, pode virar composto orgânico, adubo, biogás ou insumo para outras cadeias, mas isso varia muito de região e de investimento. O ponto central é que a fábrica só se sustenta no longo prazo se aproveitar o máximo do material e reduzir custo ambiental e financeiro do descarte.
No fim, fica a discussão que divide opiniões. Fibra de bananeira é solução real ou só marketing verde, já que o processo pode exigir água, energia e tratamentos para chegar ao padrão industrial. Você acha que essa cadeia vai se firmar como alternativa relevante ao algodão e ao poliéster, ou tende a ficar em nichos por causa do custo e da escala. Deixe seu comentário e diga de que lado você está.

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