"Cada pessoa é, na realidade, três: aquela que ela acredita ser, aquela que os outros acreditam que ela seja e aquela que ela realmente é."
Tiramos uma foto. Olhamos para ela por alguns segundos, damos zoom, olhamos de novo. Na verdade, é uma foto perfeitamente normal, mas ainda assim não a publicamos. Talvez porque não nos reconheçamos nela, ou talvez porque nos reconheçamos demais. Há uma estranha distância entre a imagem que vemos de nós mesmos e aquela que queremos ou achamos que os outros verão.
Muito antes do Instagram, dos filtros que alteram rostos sem deixar vestígios ou da possibilidade de editar uma fotografia com alguns toques na tela, Miguel de Unamuno já havia traduzido em palavras um sentimento presente nesse conflito.
"Na realidade, cada um de nós é três: aquele que acreditamos ser, aquele que os outros acreditam que somos e aquele que realmente somos."
A frase pertence à sua obra-prima de ensaios, "O Sentido Trágico da Vida", publicada originalmente em 1912. Trata-se de um tratado filosófico no qual Unamuno analisa a angústia existencial, a imortalidade e a identidade humana. Nos capítulos dedicados à personalidade e ao eu interior, ele desenvolve esse paradoxo para explicar a fragmentação que os seres humanos vivenciam no cotidiano.
Não se trata de uma frase sobre autoestima nem exatamente sobre aparência. É uma reflexão muito mais profunda, tão relevante hoje quanto na época em que foi formulada. Afinal, falar sobre identidade é algo atemporal. A ideia aborda a busca incessante por descobrir quem realmente somos quando todas as versões que criamos de nós mesmos — ou que os outros constroem ao projetarem suas percepções sobre nós — desaparecem.
Um homem obcecado por perguntas
Miguel de Unamuno passou grande parte da vida tentando responder a questões para as quais sabia que provavelmente não existiam respostas definitivas. Escritor, filósofo, ensaísta, reitor da Universidade de Salamanca e uma das vozes mais influentes da Geração de 98, transformou a dúvida em uma forma de pensar e quase em um modo de vida.
Sua trajetória foi marcada por contradições. Duvidava da fé enquanto a buscava desesperadamente. Defendia ideias que mais tarde questionava. Entrou em conflito com governos, instituições e, acima de tudo, consigo mesmo. Quando escreveu sobre identidade, falou a partir da experiência de alguém que sabia que uma pessoa nunca é apenas uma coisa.
Três pessoas vivendo no mesmo corpo
O que torna essa reflexão tão fascinante é que todos compreendem imediatamente do que ela trata. Existe a pessoa que cada um acredita ser: a história que conta a si mesmo sobre quem é. Estão aí os valores, as intenções, as virtudes e também as justificativas que cada um cria para si.
Depois, existe a pessoa que os outros acreditam que somos. Essa versão muda de acordo com quem observa. A mesma pessoa pode parecer engraçada para alguns, distante para outros e completamente diferente para alguém que mal a conhece.
Por fim, surge o terceiro e mais misterioso personagem: aquele que realmente somos. Não é a pessoa que imaginamos ser nem aquela que projetamos para os outros, mas a que existe por baixo de todas essas camadas.
Unamuno percebeu que essa era a tarefa mais difícil de realizar. Talvez porque exija encarar a realidade de que nem sempre a imagem que temos de nós mesmos corresponde aos fatos.
Nunca foi tão fácil construir uma versão de si mesmo
Se a reflexão de Unamuno continua tão atual mais de um século depois, é porque o mundo parece ter evoluído exatamente nessa direção. Hoje, não apenas mostramos quem somos ou quem acreditamos ser, como também moldamos a forma como desejamos ser percebidos.
Escolhem-se os momentos a compartilhar, as opiniões a expressar, as facetas a ocultar e aquelas que merecem destaque. A imagem pessoal é administrada com uma precisão nunca antes vista na história. As redes sociais, porém, não inventaram esse fenômeno. Os seres humanos sempre desejaram ser aceitos, pertencer a grupos e causar uma boa impressão. O que a internet fez foi transformar esse processo em uma atividade constante.
O problema é que, quanto mais tempo se dedica à construção de uma identidade pública, mais fácil se torna esquecer onde termina essa representação e onde começa a pessoa real. Corre-se o risco de acreditar no próprio personagem. A reflexão de Unamuno convida a questionar se a imagem que cada um tem de si mesmo é, de fato, precisa.
Costuma-se acreditar que o autoconhecimento é profundo, mas a realidade é que grande parte da identidade é construída a partir de narrativas. São histórias repetidas tantas vezes que acabam parecendo fatos: "É assim que eu sou", "Eu nunca faria isso", "Isso me define". No entanto, a experiência mostra repetidamente que os seres humanos são muito mais contraditórios do que gostam de admitir.
Uma ideia libertadora em tempos de filtros
Unamuno sabia disso e desconfiava de definições fechadas e identidades excessivamente rígidas. O aspecto mais interessante de sua reflexão é que ela não incentiva uma busca obsessiva por uma definição definitiva de quem somos. Pelo contrário, sugere a aceitação de que talvez nunca seja possível chegar a uma resposta completa.
Talvez isso seja uma boa notícia. Em uma era que pressiona constantemente as pessoas a construir uma marca pessoal, definir-se, explicar-se e apresentar-se de forma linear e perfeitamente coerente, a frase de Unamuno lembra algo muito mais simples: uma pessoa é sempre mais complexa do que a imagem que projeta. Mais complexa do que uma fotografia. Mais complexa do que um perfil. Mais complexa até do que a ideia que faz de si mesma. Afinal, a pessoa mais difícil de conhecer não é aquela que está à frente de nós, mas aquela que vemos todas as manhãs no espelho.


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