Quem, fora
do ninho, recebe convite no dia de Natal? Muitos consideram, e concordo, ser uma
festa estritamente familiar, outros aproveitam o feriado para pagode e cerveja,
mas este ano para mim foi diferente. Subi um morro secreto no Itaigara até uma
casa confortável, sem ostentação, projetada por um dos arquitetos mais respeitados
do país e membro da Academia de Letras da Bahia.
Apesar de
ter chegado muito cedo com minha amiga Claudine, fomos recebidos com a maior
gentileza. A festa seria no jardim protegido em boa parte por uma gigantesca
mangueira, enquanto, do outro lado, uma escadinha leva a criançada até uma
casinha nas canafístulas. Me deu vontade de voltar aos meus dez anos, mas minha
bengala me aconselhou a ficar sentado num sofá e conversar com o Thales de
Azevedo, bebendo uma batida de maracujá encomendada ao D´Venetta. Para quem não
sabe, o Thales desenvolveu um trabalho de grande complexidade ao reproduzir os
protótipos das invenções de Leonardo da Vinci, helicóptero incluído, obra que
bem mereceria ter um espaço próprio nesta cidade de tantas memórias e tantos
casarões abandonados por governantes amnésicos.
Mesa farta
onde não podiam faltar o bacalhau e o peru. Entre dois beliscos, pude admirar
uns cusquenhos de rara beleza. Aproveitei a reunião para levantar uma
minipolêmica – fui provocado – à volta da prefeitura do Lelê. Uns exigindo a
retirada imediata do edifício, outros defendendo a obra, eu entre eles, como
saudável testemunha da arquitetura de seu tempo. O argumento mor é sempre a
disparidade com o conjunto da Praça Municipal. Contestação fácil, já que não
existe qualquer unidade estilística no dito espaço. “Mas é feio! ”. O mesmo diziam com a Torre Eiffel. “Não! A
torre Eiffel é linda”.
145 anos
depois, o discurso permanece atual. Com uma agravante: a primeira capital do
Brasil virou província e, como outro convidado falou acertadamente, aqui nunca seria
permitida uma pirâmide do Louvre nem um Centre Pompidou. Aproveito para
parabenizar o Guilherme Bellintani pela sua clara colocação na Rádio Metrópole a
favor do edifício.
A pequena
polêmica em nada perturbou a harmonia do momento, todos admirando a imensa
fogueira com os galhos cortados para proteger o telhado da casa, a celebrar o
solstício de verão.
O apix da
reunião foi quando o anfitrião pegou o microfone –mais perto da boca, por favor,
sou meio surdo! – para apresentar alguns convidados, eu entre outros e
mencionar meu recém-publicado livro de crônicas. Chegou junto a minha amiga
Claudine com uma bandeja onde reinava uma bem francesa “bûche de Noël”. Esta gentilíssima
homenagem muito nos comoveu, já que nos sentíamos um pouco estranhos no meio de
tanta gente que se conhecia desde a infância.

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