sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

UMA FOGUEIRA DE NATAL

Bûche de Noël


Quem, fora do ninho, recebe convite no dia de Natal? Muitos consideram, e concordo, ser uma festa estritamente familiar, outros aproveitam o feriado para pagode e cerveja, mas este ano para mim foi diferente. Subi um morro secreto no Itaigara até uma casa confortável, sem ostentação, projetada por um dos arquitetos mais respeitados do país e membro da Academia de Letras da Bahia.

Apesar de ter chegado muito cedo com minha amiga Claudine, fomos recebidos com a maior gentileza. A festa seria no jardim protegido em boa parte por uma gigantesca mangueira, enquanto, do outro lado, uma escadinha leva a criançada até uma casinha nas canafístulas. Me deu vontade de voltar aos meus dez anos, mas minha bengala me aconselhou a ficar sentado num sofá e conversar com o Thales de Azevedo, bebendo uma batida de maracujá encomendada ao D´Venetta. Para quem não sabe, o Thales desenvolveu um trabalho de grande complexidade ao reproduzir os protótipos das invenções de Leonardo da Vinci, helicóptero incluído, obra que bem mereceria ter um espaço próprio nesta cidade de tantas memórias e tantos casarões abandonados por governantes amnésicos.

Mesa farta onde não podiam faltar o bacalhau e o peru. Entre dois beliscos, pude admirar uns cusquenhos de rara beleza. Aproveitei a reunião para levantar uma minipolêmica – fui provocado – à volta da prefeitura do Lelê. Uns exigindo a retirada imediata do edifício, outros defendendo a obra, eu entre eles, como saudável testemunha da arquitetura de seu tempo. O argumento mor é sempre a disparidade com o conjunto da Praça Municipal. Contestação fácil, já que não existe qualquer unidade estilística no dito espaço. “Mas é feio! ”.  O mesmo diziam com a Torre Eiffel. “Não! A torre Eiffel é linda”.

145 anos depois, o discurso permanece atual. Com uma agravante: a primeira capital do Brasil virou província e, como outro convidado falou acertadamente, aqui nunca seria permitida uma pirâmide do Louvre nem um Centre Pompidou. Aproveito para parabenizar o Guilherme Bellintani pela sua clara colocação na Rádio Metrópole a favor do edifício.

A pequena polêmica em nada perturbou a harmonia do momento, todos admirando a imensa fogueira com os galhos cortados para proteger o telhado da casa, a celebrar o solstício de verão.

O apix da reunião foi quando o anfitrião pegou o microfone –mais perto da boca, por favor, sou meio surdo! – para apresentar alguns convidados, eu entre outros e mencionar meu recém-publicado livro de crônicas. Chegou junto a minha amiga Claudine com uma bandeja onde reinava uma bem francesa “bûche de Noël”. Esta gentilíssima homenagem muito nos comoveu, já que nos sentíamos um pouco estranhos no meio de tanta gente que se conhecia desde a infância.

 Dimitri Ganzelevitch

A Tarde, sábado 9 de janeiro 2026

 

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