sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

MILHÕES DE TIJOLOS DE LAMA

 

Construída com milhões de tijolos de lama moldados à mão, sem concreto, aço ou cimento, esta cidade africana atravessa séculos intacta e se reconstrói todos os anos com engenharia comunitária

Publicado em31/12/2025  
Construída com milhões de tijolos de lama moldados à mão, sem concreto, aço ou cimento, esta cidade africana atravessa séculos intacta e se reconstrói todos os anos com engenharia comunitária
Construída com milhões de tijolos de lama moldados à mão, sem concreto, aço ou cimento, esta cidade africana atravessa séculos intacta e se reconstrói todos os anos com engenharia comunitária

Cidade de Djenné, no Mali, usa tijolos de lama há séculos, sem concreto, e mantém suas estruturas com reconstrução anual feita pela própria comunidade.

Em um mundo dominado por concreto armado, aço e estruturas industrializadas, a cidade de Djenné desafia completamente a lógica da engenharia moderna. Localizada no interior do Mali, às margens do rio Bani, ela foi construída quase inteiramente com tijolos de lama moldados à mão, conhecidos como banco, e permanece habitável há séculos sem recorrer a cimento, vigas metálicas ou fundações profundas no padrão atual. O mais impressionante não é apenas o material, mas o sistema construtivo e social que mantém a cidade de pé até hoje.

Djenné abriga centenas de edifícios feitos de barro cru, incluindo casas, mercados e a Grande Mesquita de Djenné, considerada a maior estrutura de adobe do mundo. Algumas dessas construções ultrapassam 20 metros de altura, algo que parece incompatível com um material tão simples à primeira vista.

A resistência não vem da rigidez, mas da adaptação.


Tijolos de lama como solução estrutural

Os tijolos usados em Djenné são produzidos a partir de uma mistura de argila, areia, água e fibras vegetais, moldados manualmente e secos ao sol.


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Diferente do concreto, eles não endurecem de forma definitiva. Permanecem ligeiramente plásticos, o que permite que as estruturas absorvam variações térmicas, pequenos recalques do solo e até vibrações sem colapsar.

As paredes são extremamente espessas, em muitos casos com mais de 60 centímetros, o que garante estabilidade, isolamento térmico e resistência ao calor extremo do Sahel, onde temperaturas facilmente superam os 40 °C.

Arquitetura pensada para manutenção contínua

Ao contrário das cidades modernas, Djenné não foi projetada para ser “eterna” sem manutenção. Pelo contrário: ela foi pensada para ser reparada constantemente.

A cada ano, após a estação das chuvas, parte do revestimento de barro se desgasta. Em vez de tratar isso como falha, a cidade transformou o processo em um sistema organizado.

O resultado é um modelo urbano em que a durabilidade não depende da imutabilidade do material, mas da repetição do cuidado.

A reconstrução anual que mantém a cidade viva

Todos os anos ocorre o Crepissage de la Grande Mosquée, um evento coletivo em que moradores de todas as idades se reúnem para reaplicar lama fresca nas fachadas dos edifícios principais. Toneladas de barro são preparadas, transportadas e aplicadas manualmente em poucas horas.

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Essa reconstrução anual não é apenas simbólica. Ela renova a proteção das paredes contra a água, recompõe fissuras e reforça pontos estruturais críticos. É manutenção preventiva em escala urbana, feita sem máquinas, sem cimento e sem empresas contratadas.

Engenharia sem engenheiros formais

O conhecimento construtivo de Djenné não está em manuais técnicos, mas na tradição oral. Técnicas de mistura, espessura de paredes, inclinação de fachadas e posicionamento de aberturas foram transmitidas por gerações.

Elementos como vigas de madeira expostas nas fachadas não são decorativos: elas funcionam como andaimes permanentes, permitindo que os moradores alcancem as partes altas das construções durante a manutenção anual.

Resistência ao tempo e ao clima

Apesar de parecer frágil, o sistema mostrou uma resistência impressionante. Djenné sobreviveu a cheias do rio, períodos prolongados de seca, variações extremas de temperatura e até mudanças políticas e econômicas profundas na região.

Enquanto edifícios modernos de concreto muitas vezes se deterioram em poucas décadas sem manutenção adequada, estruturas de lama em Djenné continuam funcionais há centenas de anos porque foram concebidas para serem constantemente renovadas.

Uma lógica oposta à construção moderna

Na engenharia contemporânea, o objetivo costuma ser reduzir ao máximo a manutenção futura. Em Djenné, a lógica é inversa: a manutenção faz parte do projeto. O material não tenta resistir indefinidamente; ele aceita o desgaste e se recompõe.

Esse modelo reduz impacto ambiental, elimina a dependência de cadeias industriais complexas e cria um vínculo direto entre a população e a infraestrutura onde vive.

Djenné é reconhecida como Patrimônio Mundial pela UNESCO, mas, mais do que um sítio histórico, funciona como um laboratório vivo de engenharia vernacular.

Em tempos de debate sobre sustentabilidade, emissões de CO₂ e materiais alternativos, a cidade mostra que é possível construir com baixo impacto e longa duração desde que a lógica do projeto seja diferente.

Quando a força está na coletividade

A verdadeira resistência de Djenné não está apenas nos tijolos de lama, mas no sistema social que os sustenta. Sem concreto, sem aço e sem máquinas, a cidade continua de pé porque foi projetada para ser mantida por pessoas, não por materiais “indestrutíveis”.

Em um mundo que busca soluções cada vez mais complexas, Djenné prova que, às vezes, a engenharia mais durável nasce da simplicidade aliada à organização coletiva.

Enquanto edifícios modernos de concreto muitas vezes se deterioram em poucas décadas sem manutenção adequada, estruturas de lama em Djenné continuam funcionais há centenas de anos porque foram concebidas para serem constantemente renovadas.

Uma lógica oposta à construção moderna

Na engenharia contemporânea, o objetivo costuma ser reduzir ao máximo a manutenção futura. Em Djenné, a lógica é inversa: a manutenção faz parte do projeto. O material não tenta resistir indefinidamente; ele aceita o desgaste e se recompõe.

Esse modelo reduz impacto ambiental, elimina a dependência de cadeias industriais complexas e cria um vínculo direto entre a população e a infraestrutura onde vive.

Djenné é reconhecida como Patrimônio Mundial pela UNESCO, mas, mais do que um sítio histórico, funciona como um laboratório vivo de engenharia vernacular.

Em tempos de debate sobre sustentabilidade, emissões de CO₂ e materiais alternativos, a cidade mostra que é possível construir com baixo impacto e longa duração desde que a lógica do projeto seja diferente.

Quando a força está na coletividade

A verdadeira resistência de Djenné não está apenas nos tijolos de lama, mas no sistema social que os sustenta. Sem concreto, sem aço e sem máquinas, a cidade continua de pé porque foi projetada para ser mantida por pessoas, não por materiais “indestrutíveis”.

Em um mundo que busca soluções cada vez mais complexas, Djenné prova que, às vezes, a engenharia mais durável nasce da simplicidade aliada à organização coletiva.

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