segunda-feira, 13 de novembro de 2017

SE ESTA PRAÇA FOSSE MINHA

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Um quarto de século que acompanho as operações estéticas da Praça da Sé. Como se pode descaracterizar tão bela dama ao vento dos caprichos de administrações contraditórias... Cada vez mais se parecendo com foto de coluna social, pele esticada, sorriso dentudo e olhar fixo. Já vi tantas intervenções absurdas, incoerentes predatórias e custosas, que me é possível ouvir o lamento das pedras de um espaço que deveria ser o ágora sagrado de nossa capital. Ronda o fantasma da mais antiga catedral do Brasil, cujos restos suntuosos ainda podem ser admirados em museus e coleções. Ronda a culpa jamais redimida de governadores, ministros, arcebispos e prefeitos. Todos acusados de improbidade, sacrilégio, subserviência. Ronda a ferida de tantas árvores plantadas e arrancadas, vítimas silenciosas de secretários obtusos e arquitetos de escritório.

A última intervenção transformou em skatódromo ou heliporto um dos mais nobres espaços públicos de Salvador. Seriam realmente indispensáveis estas grelhas que dizem preservam a “pesquisa” arqueológica da praça? Pesquisa? Que pesquisa? Em dois anos de semi-inauguração, raramente tenho notado outros senão humildes varredores. Incontornável a colocação de granito, cimentos e mais parafernália modernosa?

Tenho chorado, sim, sem vergonha confesso, o assassinato das árvores, chuvas de ouro, flamboyants, tantos outros... E ainda choro por ver o belo cinema Excelsior, fachada original reencontrada, sem destino, futuro refúgio de ratos e pombos.
O que mais dói é o constato de praças, a Sé e o Terreiro, desprovidas da vida que confere identidade cultural e social a uma terra talvez boa, mas que poderia ser melhor se houvesse mais humildade e mais sensibilidade dos responsáveis.

Para que nos serve um patrimônio arquitetônico tombado a nível mundial, se recusamos, rejeitamos as expressões genuínas do povo que o construiu, única forma de habitar um cenário sem alma?
Não adianta montar e desmontar pesados palanques, especialmente pesados para nossos magros bolsos, a toda hora, com acréscimo desastroso – para os monumentos – de “som envenenado” e apresentação de barulhentas bandas inventadas na semana anterior, se são proibidos ou desestimulados os repentistas, a literatura de cordel, dos contadores de histórias, todos aqueles que mantêm a identidade de nossa verdadeira cultura. Onde estão os lambe-lambes, os tronos enfeitados dos engraxates, os modestos artesãos que exibiam talhas, quadros e velharias ao domingo?

Se esta praça fosse minha, organizaria uma feira de pintura primitiva aos sábados. De livros, discos e roupas usadas aos domingos. Convidaria grupos de roda de samba, teatro de rua, poetas, mamulengos e marionetes, equilibristas e palhaços. Faria um coreto com bandas militares para alegrar o fim do expediente. Convidaria? Não. Deixaria simplesmente invadir. A praça não é de Castro Alves? Organizaria um festival de sorvetes, um concurso de acarajés e abarás, colocaria uma tela com filmes de Carlitos, do Gordo e Magro, de Carmen Miranda, mesmo americanizada. Usaria minha praça para mostrar como se trança uma cesta, se torneia um jarro, se faz uma corda de sisal.

Faria de minha praça uma festa para os olhos, o nariz, a boca e a mente. Nelas meus amigos se encontrariam para conversar, namorar, refazer o mundo.
Devolveria a cada bairro do centro seu espírito de aldeia. Santo Antônio, não é uma aldeia?
Saúde, Mouraria, Nazaré, não são aldeias? Ah! Que saudade dos singelos povoados de nossa memória...

Você já foi à Praça Djema el Fna, nega? Em Marrakesh há um espaço imenso, limitados por construções sem graça nem idade definida, irregular, mal asfaltada, mal iluminada.
Mas é monumento da Unesco porque nela convergem todas as formas de cultura dos árabes, tuaregues e negros gnauás. Lá pulsa a vida como ele é, naturalmente, sem investimentos astronômicos nem vigilâncias burocráticas. Sem esta bulimia de promoção pessoal ou política que deturpa qualquer projeto de animação cultural.

Se esta praça fosse minha, ninguém poderia usar microfones e caixas de som. Tudo seria acústico, como na sua infância, lembra? Assim seriam respeitados ouvidos e edifícios, cultos e descansos. Você poderia ler seu jornal sem esforço de concentração e eu conversar com meu vizinho sem perigo para as cordas vocais.
Se esta praça fosse minha, eu a devolveria ao povo, que mais que nossos expertos, sabe como traduzir suas necessidades de expressão artística.

Se esta praça fosse minha, faria a cada nova estação uma feira de flores e plantas. Sem agregar axé nem pagode nem desfile de moda, sem paisagismo fuleiro nem fiscal empunhando celular. Faria uma feira livre uma vez por semana, porque haveria moradores, como nos bons tempos. Donas de casa comprando tomates e batatas...Existe poesia mais bela? Com crianças correndo e gato dormindo ao sol.

Plantaria mangueiras, como em Belém, e amendoeiras como em Cachoeira. E claro, flamboyants e chuvas de ouro, porque a praça é deles também. Meus convidados teriam sombra contra o sol inclemente, teriam abrigo nas primeiras chuvas. À volta dos troncos haveria bancos para conversar ou cochilar, por que não? Barracas de comidas típicas no fim do dia. E pipoca, milho cozido, mungunzá, pamonha, amendoim, violões e pandeiros. Carros de cafezinho circulando.
Agora sim, que os turistas iriam gostar. E os baianos também.

...Mas esta praça não é minha, esta praça não é sua. 
Esta praça é deles.

Dimitri Ganzelevitch

Salvador, 2001.

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