
Em véspera
de Natal recebi de um amigo francês um livro de Gael Faye, autor totalmente
desconhecido para mim. O título “Petit pays” nada anunciava. Ao princípio, leve
e até divertido, fala da infância de um estudante no Burundi. Mãe africana, pai
francês. De repente, a terça parte daquilo que parecia algo como amáveis memórias,
mergulha no horror da guerra civil em Ruanda (1990), guerra que iria em breve
também massacrar grande parte do povo burundiense (1993), levando, até hoje, milhares
de refugiados pelos incertos caminhos do Congo e da Tanzânia.
Sem cair na
armadilha da demagogia, que tal lembrarmos, entre os primeiros festejos do ano
novo e o carnaval que se aproxima, do drama vivido por milhões de seres humanos
que vagam pelo planeta à procura da mais precária sobrevivência?
Turcos,
paquistaneses ou haitianos, sírios, afegãos ou bolivianos, mal nutridos senão
esfomeados, doentes senão moribundos, vêm bater ás portas do Primeiro Mundo na
louca esperança de um teto, de um trabalho, de uma vida digna. A Alemanha, a
França, a Inglaterra e outras prósperas bandeiras de cada lado do Oceano Atlântico
tremem ante a eventualidade de perder um pouco de seu espaço, um pouco de sua
cultura, ambos contaminados por elementos inesperados.
Mal sabem o bem que poderá advir destas pacíficas invasões. Nem a violência do Estado
Islâmico pode esconder a legitimidade destes tristes errantes. Do alto de meus
80 anos, é pouco provável que testemunhe as novas sociedades, aquelas que
deverão maturar durante duas ou três gerações, peles mais coloridas, idiomas
ampliados, culturas mais exóticas e renovadoras.
Quando estive na França em
maio passado, certa noite observei um impressionante prefácio para esta
reflexão. Convidado a jantar num restaurante basco, dividi a mesa com uma
argelina, um marroquino, um filho de espanhol, dois franceses da gema e uma
argentina, todos do meio da imprensa e da televisão. Muito papo, muita risada e
uma prazerosa cumplicidade. Quem costuma assistir ao Festival de cinema Varilux,
no Glauber Rocha, por favor, analise com atenção a ficha técnica dos filmes.
Entre
os atores encontrará senegaleses, vietnamitas, portugueses e tunisianos. E nos
bastidores, o coquetel de etnias e culturas será ainda maior. O socialista
Hollande como o reacionário Sarkozy nomearam ministros de nome claramente
africano ou ibérico. Não tem dinastia Le Pen que impeça. Temos que nos
conscientizar de que um novo mundo está a se formar, modelando nossa mente para
outros valores, outras verdades.
E como
pensaria de outra forma, tendo eu mesmo nascido francês em Marrocos, de nome e
avô russo, ascendência suíça, italiana e até mongol, hoje escrevendo em
português para leitores baianos?


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