sábado, 25 de fevereiro de 2017

O MISTÉRIO DO TEMPLO DE KARNAK

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No final de uma longa vida, durante as pausas cada vez mais frequentes, o espírito vaga prazerosamente pelos arquipélagos da memória. Algumas ilhas são obscuras, outras parecem coloridas iluminuras medievais.


O trem que me leva do Cairo a Luxor divide o país em duas paisagens opostas. De um lado, como uma interminável e estreita aldeia de casas humildes construídas na encosta dourada do deserto. Algumas fachadas ostentam toscas ilustrações da ritual viagem a Meca. Do outro lado, o majestoso azul do Nilo emoldurado por uma colcha de retalhos esverdeados pontuada pelas galabiés lilás, rosa, turquesa, dos lavradores conduzindo seus bois.

Do povoado de Luxor, poucas imagens ficarão. Do templo, a dois passos de meu hotel, a iluminação noturna não perturba o silêncio milenar. Entre as colunas fálicas, faraós e deuses avançam, imóveis, imperiais.


Resultado de imagem para FOTOS DO TEMPLO DE KARNAKNa manhã seguinte, irei me perder no labiríntico templo de Karnak entre salas, capelas, esfinges e pátios. Outras colunas esmagam-me. A areia do deserto forra minhas narinas, meus ouvidos, entra por baixo de minhas unhas, tinge a camiseta de bege. Desisti de entender a planta desta amazônia de pedra. Até meados do século XIX, grande parte de Karnak estava submersa nas areias. Ainda nítida é a parte inferior dos muros, mais escura. Lá no alto, encontro assinaturas gravadas por antigos visitantes. 

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Em que sala o nome de Rimbaud, bem visível, surge no meu olhar, 

como um signo, na elegante grafia típica de seu tempo? A pequena câmera documentou o grafite. Guardarei a transparência – o slide, como se falava nos anos 80. Teria o autor de Uma estação no inferno, estado no alto Egito antes ou depois do Iêmen ou da Etiópia? Já doente, subiria a duna para gravar, lá em cima, seu nome?



Em 1983, voltei ao Egito com minha mãe. No imenso e vazio terraço de um café, contemplamos o sol desaparecer por trás das Pirâmides, enquanto a silhueta negra de camelos para turistas balançava na contraluz do crepúsculo.

Viajamos nas mesmas, eternas paisagens bíblicas rumo ao poeta maldito.

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Por uma manhã inteira, após oito horas de viagem e apesar do calor junino, rodamos do obelisco de Hatshepsut ao lago sagrado, perdemo-nos de Amon-Rá a Osíris, sem que nenhum deus, nenhum faraó, nos indicasse o caminho da sala de Rimbaud.


Retornei às brisas outonais da trezena de Santo Antônio. Os dias foram se sobrepondo em estratificações relativamente iguais até formar morros que o horizonte incerto de minha memória veste de sutis azuis. A pequena derrota perdoou-se na certeza de guardar a prova inquestionável da descoberta.

Ontem, abri a mala turca de madeira pintada. Vasculhei centenas de fotos desarrumadas. Não mais encontrei a foto.


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