quarta-feira, 2 de abril de 2025

ACADEMIA SE OMITE

 Membros brasileiros criticam Academia americana por falta de reação à prisão de diretor palestino

Hamdan Ballal ganhou Oscar pelo documentário 'Sem Chão'. Ele foi preso por militares após sofrer ataque de colonos israelenses na Cisjordânia.


Hamdan Ballal é libertado da prisão na Cisjordânia após ser detido pelas forças israelenses, em 25 de março de 2025 — Foto: AP Photo/Leo Correa

Cineastas brasileiros assinaram uma carta com cerca de 600 membros que critica a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas por sua reação fraca à prisão do diretor palestino Hamdan Ballal, que venceu o Oscar 2025 pelo documentário "Sem chão" no começo de março, de acordo com o site Deadline.

Entre os brasileiros que se juntaram à iniciativa estão Alice Braga, Rodrigo Teixeira, Anna Muylaert, Petra Costa e Daniel Rezende.

A carta — que ainda tem assinatura de vencedores do Oscar como Olivia Colman, Joaquin Phoenix, Javier Bardem e Adam McKay — exige uma resposta mais forte da organização em relação ao tratamento que Ballal recebeu das autoridades.

"Nós condenamos o ataque brutal e a detenção ilegal do cineasta palestino ganhador do Oscar Hamdan Ballal por colonos e forças israelenses na Cisjordânia", diz o documento.

"Como artistas, dependemos de nossa capacidade de contar histórias sem represálias. Os documentaristas frequentemente se expõem a riscos extremos para informar o mundo. É indefensável para uma organização reconhecer um filme com um prêmio na primeira semana de março e, em seguida, deixar de defender seus cineastas apenas algumas semanas depois."

"O ataque a Ballal não é apenas um ataque a um cineasta, é um ataque a todos aqueles que ousam testemunhar e contar verdades inconvenientes."

Um comunicado da presidente da Academia, Janet Yang, e do presidente-executivo da instituição que organiza o Oscar, Bill Kramer, foi enviado a membros depois que o codiretor do filme Yuval Abraham criticou seu silêncio após o ataque.

O texto condenava a ataques a artistas, mas não mencionava o nome de Ballal ou do documentário. "Compreensivelmente, somos frequentemente solicitados a falar em nome da Academia em resposta a eventos sociais, políticos e econômicos. Nesses casos, é importante notar que a Academia representa cerca de 11.000 membros globais com muitos pontos de vista únicos", dizia o comunicado.

Lideranças da Academia se reuniram em uma sessão extraordinária nesta sexta-feira (28) para debater a crise gerada.

O ataque


Segundo o prefeito de Susiya, cidade na Cisjordânia, a agressão contra Ballal começou após colonos judeus tentarem roubar ovelhas de casas palestinas.

Ballal estava participando de um encontro pelo fim do jejum diário do Ramadã quando o grupo atacou a reunião. Segundo a agência de notícias Associated Press, testemunhas disseram que o grupo tinha de 10 a 20 colonos mascarados que usaram pedras e bastões no ataque.

"Colonos invadiram casas, atiraram pedras, quebraram janelas e veículos e agrediram violentamente moradores e ativistas de solidariedade. Várias pessoas ficaram feridas", disse o ativista palestino Ihab Hassan, uma das testemunhas do ataque, na rede social X.

Após o ataque, Ballal foi algemado e vendado a noite toda em uma base do Exército, enquanto dois soldados o espancavam no chão, disse sua advogada, Leah Tsemel.

As Forças Armadas de Israel confirmaram a prisão de Ballal e afirmaram que ele estava entre os palestinos que arremessavam pedras contra colonos judeus. Mas o Exército negou que o cineasta foi retirado à força de uma ambulância, onde estava para tratar ferimentos do linchamento.

Segundo o codiretor Yuval Abraham, Ballal tinha ferimentos na cabeça e na barriga e estava sangrando.

Retomada das tensões


O youtube, estranhamente, se recusa a reproduzir qualquer víveo que denuncia as violências sionistas. Para complemento de infoirmação, clique: 


Desde o início do ano, após a assinatura de uma trégua já encerrada entre Israel e Hamas na Faixa de Gaza, conflitos têm emergido na Cisjordânia.

As forças israelenses vêm conduzindo uma grande operação na Cisjordânia, alegando ter como alvo grupos terroristas e extremistas. Dezenas de milhares de palestinos foram forçados a deixar suas casas em campos de refugiados, enquanto residências e infraestrutura foram destruídas.

Em fevereiro, o ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, disse que ordenou que seus militares se preparem para uma "estadia prolongada" em partes da Cisjordânia, enquanto intensifica "operações contra grupos terroristas e extremistas".

Atualmente, existem mais de 140 assentamentos israelenses na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental, que abrigam 450 mil israelenses. A presença deles é condenada pela comunidade internacional.

Apesar de ser considerado um território palestino, Israel detém o controle militar da Cisjordânia. Palestinos que habitam o território estão sujeitos à lei militar israelense. Isso quer dizer que palestinos residentes na Cisjordânia podem ser julgados por tribunais militares de Israel.

O documentário



Hamdan Ballal (à esquerda) ergue estatueta do Oscar em Los Angeles, em 2 de março de 2025 — Foto: Mike Blake/Reuters

"Sem Chão" retrata a luta dos moradores de Masafer Yatta para impedir que o Exército israelense demolisse suas vilas. O filme tem dois diretores palestinos, Ballal e Basel Adra, e dois diretores israelenses, Yuval Abraham e Rachel Szor.

O Exército israelense designou Masafer Yatta como uma zona de treinamento militar de fogo real nos anos 1980 e ordenou a expulsão dos moradores, majoritariamente árabes beduínos.

Cerca de 1.000 habitantes ainda permanecem na área, mas os soldados frequentemente entram na região para demolir casas, tendas, reservatórios de água e plantações de oliveiras. Os palestinos temem que uma expulsão total possa acontecer a qualquer momento.

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