Viajar para
o Recôncavo é sempre uma festa. A festa seria total se nossos governantes tratassem
com menos desprezo tão farto tesouro natural e cultural. Esta riqueza poderia
ser, por exemplo, um excelente motivo para os turistas passarem mais dois dias
por aqui. Ao deixar a mal conservada BR 324, entramos em estrada ainda pior. Cansativa
gincana para evitar a buraqueira pontuada de crateras vulcânicas até Maragogipe.
Compensa o
mergulho na volúpia da natureza que remete aos escritos de Maximiliano de
Habsburgo no século XIX. Volúpia ameaçada pelo plantio de eucaliptos vulgo
“deserto verde” que empobrece a terra e afasta toda vida animal. Mas a verdadeira
decepção começa logo na entrada de Santo Amaro, berço de tanta gente ilustre.
Emanoel Araújo, Jorge Portugal, Caetano Veloso, Zilda Paim, Maria Bethânia,
Roberto Mendes etc. A selvagem descaraterização do casarão que hospeda o
Magazine Luísa é uma afronta ao patrimônio da cidade. Quantas agressões! O
desfile dos edifícios mais significativos da cidade arruinados dá vontade de
xingar todos os políticos pela falta de cultura e sensibilidade.
A descida
para Cachoeira pontuada por construções faveladas e carros abandonados e a
ferroviária novamente decadente são um bizarro cartão de visita para a
importância de uma cidade que tem tudo para ser nosso Paraty. Em São Felix outra
ferroviária grita ao descaso e o caminho para Maragogipe denúncia a total ausência
de planejamento urbano.
Enfim, após
passarmos por espetaculares vistas do Paraguaçu e evitando Nagé que dizem estar
sob domínio da bandidagem chegamos a Maragogipe. Vamos direto para a Casa de
Cultura onde naquela noite acontecerá o pré-lançamento de meu livro “O Carnaval
de Maragogipe”.
A museóloga
Rosa Vieira de Melo cuja família possui um dos mais belos casarões da região
–mereceria ser uma Casa-Museu - convidou
pessoalmente o prefeito e a câmara dos vereadores inteira para um evento que se
propõe divulgar uma das expressões populares mais significativas do Recôncavo.
Alas ninguém, absolutamente ninguém deu o ar de sua graça, nem mesmo o próprio diretor
da Casa de Cultura dublê de Secretário de Cultura do município. Suponho que o
Doutô estivesse ocupado com a organização da próxima FliMara, da programação de
concertos na Igreja Matriz e do novo projeto paisagístico da Praça Conselheiro
Antônio Rebouças que por enquanto carece dramaticamente de verde. Mesmo assim a
sala encheu.
Um breve
passeio pela cidade me convenceu de que em Maragogipe também não existe o
mínimo planejamento urbanístico nem a menor preocupação em preservar o casario
antigo. Mais uma cidade do Recôncavo que, sob pretexto de modernização, está
perdendo sua identidade.
O livro teve
excelente receptividade.
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