sábado, 4 de abril de 2026

UM LIVRO PARA MARAGOGIPE

Mais uma agressão!


Viajar para o Recôncavo é sempre uma festa. A festa seria total se nossos governantes tratassem com menos desprezo tão farto tesouro natural e cultural. Esta riqueza poderia ser, por exemplo, um excelente motivo para os turistas passarem mais dois dias por aqui. Ao deixar a mal conservada BR 324, entramos em estrada ainda pior. Cansativa gincana para evitar a buraqueira pontuada de crateras vulcânicas até Maragogipe.

Compensa o mergulho na volúpia da natureza que remete aos escritos de Maximiliano de Habsburgo no século XIX. Volúpia ameaçada pelo plantio de eucaliptos vulgo “deserto verde” que empobrece a terra e afasta toda vida animal. Mas a verdadeira decepção começa logo na entrada de Santo Amaro, berço de tanta gente ilustre. Emanoel Araújo, Jorge Portugal, Caetano Veloso, Zilda Paim, Maria Bethânia, Roberto Mendes etc. A selvagem descaraterização do casarão que hospeda o Magazine Luísa é uma afronta ao patrimônio da cidade. Quantas agressões! O desfile dos edifícios mais significativos da cidade arruinados dá vontade de xingar todos os políticos pela falta de cultura e sensibilidade.

A descida para Cachoeira pontuada por construções faveladas e carros abandonados e a ferroviária novamente decadente são um bizarro cartão de visita para a importância de uma cidade que tem tudo para ser nosso Paraty. Em São Felix outra ferroviária grita ao descaso e o caminho para Maragogipe denúncia a total ausência de planejamento urbano.

Enfim, após passarmos por espetaculares vistas do Paraguaçu e evitando Nagé que dizem estar sob domínio da bandidagem chegamos a Maragogipe. Vamos direto para a Casa de Cultura onde naquela noite acontecerá o pré-lançamento de meu livro “O Carnaval de Maragogipe”.

A museóloga Rosa Vieira de Melo cuja família possui um dos mais belos casarões da região –mereceria ser uma Casa-Museu -  convidou pessoalmente o prefeito e a câmara dos vereadores inteira para um evento que se propõe divulgar uma das expressões populares mais significativas do Recôncavo. Alas ninguém, absolutamente ninguém deu o ar de sua graça, nem mesmo o próprio diretor da Casa de Cultura dublê de Secretário de Cultura do município. Suponho que o Doutô estivesse ocupado com a organização da próxima FliMara, da programação de concertos na Igreja Matriz e do novo projeto paisagístico da Praça Conselheiro Antônio Rebouças que por enquanto carece dramaticamente de verde. Mesmo assim a sala encheu.

Um breve passeio pela cidade me convenceu de que em Maragogipe também não existe o mínimo planejamento urbanístico nem a menor preocupação em preservar o casario antigo. Mais uma cidade do Recôncavo que, sob pretexto de modernização, está perdendo sua identidade.

O livro teve excelente receptividade.

 

 

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