sábado, 1 de agosto de 2026

SOCIABILIDADE

 

Levantamento internacional identifica centenas de interações amistosas entre macacos, grandes primatas e outras espécies, ampliando o entendimento sobre a evolução da empatia, do cuidado e da sociabilidade entre animais

A capacidade de estabelecer vínculos afetivos com outras espécies pode ter surgido muito antes da domesticação dos animais pelos seres humanos. Um amplo estudo internacional reuniu centenas de registros de interações amistosas entre primatas e diferentes espécies, indicando que comportamentos como brincar, cuidar, carregar e até adotar indivíduos de outros grupos animais fazem parte da história evolutiva desses mamíferos. As descobertas também oferecem subsídios para aprimorar estratégias de conservação da fauna e manejo em zoológicos e santuários.

A pesquisa, publicada na revista científica Primates, compilou 427 episódios envolvendo 88 espécies de primatas e 127 espécies parceiras. Entre elas, 55 pertencem a grupos que não são primatas. O levantamento reuniu informações provenientes de artigos científicos, relatos da mídia e questionários respondidos por especialistas em primatologia, formando a revisão mais abrangente já realizada sobre relações sociais interespecíficas nesse grupo de animais.

Os resultados mostram que as interações mais frequentes foram brincadeiras, registradas em 139 ocasiões, seguidas por comportamentos de limpeza corporal, conhecidos como grooming, observados em 136 casos. Os pesquisadores também identificaram episódios de afago, transporte, acolhimento e adoção de animais pertencentes a outras espécies.

A tendência variou conforme idade e sexo dos primatas. Indivíduos jovens demonstraram maior propensão às brincadeiras, enquanto fêmeas adultas apareceram com mais frequência realizando cuidados corporais em animais de outras espécies. Machos adultos participaram dessas interações com intensidade significativamente menor.

Embora a maior parte das relações tenha ocorrido entre espécies evolutivamente próximas, o estudo documentou aproximações com uma ampla diversidade de animais, incluindo cães, porcos, aves, esquilos, répteis e cervos. Em grande parte dos registros, a iniciativa para estabelecer contato partiu dos próprios primatas.

Os pesquisadores destacaram diversos episódios considerados incomuns. Na Tailândia, macacos-de-cauda-de-toco foram observados limpando cães domésticos. No Sri Lanka, langures-cinzentos acariciaram delicadamente esquilos-gigantes. Na China, jovens macacos-nariz-arrebitado brincaram com porcos domésticos. Em Madagascar, lêmures-de-cauda-anelada realizaram grooming (limpeza social, como tirar piolhos) em lêmures-do-bambu.

Um dos casos mais marcantes ocorreu no Brasil, onde macacos-prego selvagens acolheram um filhote de sagui e cuidaram dele durante vários meses. O episódio, registrado originalmente em 2006, integra agora a revisão internacional e reforça a capacidade desses animais de desenvolver vínculos duradouros além dos limites da própria espécie.

Segundo os autores, essas relações diferem das associações normalmente observadas entre espécies, que costumam ocorrer por vantagens imediatas, como proteção contra predadores ou facilitação da busca por alimento. Nos casos analisados, muitos comportamentos ocorreram sem uma recompensa aparente, sugerindo elevados níveis de curiosidade social, tolerância e disposição para o contato.

Os cientistas ressaltam, entretanto, que essas aproximações apresentam desfechos variados. Em 13 registros, o animal envolvido morreu em consequência da interação. Entre os exemplos está um babuíno macho, na Arábia Saudita, que carregou um filhote de cachorro por longos períodos após retirá-lo de seu grupo, comportamento interpretado como um possível sequestro. Os pesquisadores observam que demonstrações de cuidado e curiosidade podem evoluir para manipulação excessiva, causando danos ao outro animal.

Além de ampliar o conhecimento sobre as origens evolutivas da convivência entre humanos e animais, os resultados oferecem aplicações práticas para o bem-estar animal. A compreensão dos fatores que favorecem relações harmoniosas entre espécies pode contribuir para o manejo de grupos mistos em zoológicos e centros de conservação, reduzindo conflitos e promovendo ambientes mais compatíveis com o comportamento natural dos animais.

A equipe responsável pelo estudo também defende que primatólogos passem a registrar essas interações de forma mais sistemática durante pesquisas de longo prazo. O acúmulo de novas observações poderá aprofundar o entendimento sobre a evolução da empatia, da flexibilidade social e das capacidades cognitivas que aproximam diferentes espécies ao longo da história evolutiva.

PROMOTORA TRANS

 Primeira mulher trans a assumir cargo de promotora de Justiça no Brasil toma posse

Advogada e professora, Fabi Diniz de Queiroz Pilate deixa um marco inédito no sistema de Justiça brasileiro

31/07/2026 |



O Ministério Público do Estado do Amazonas (MPAM) empossou nesta sexta-feira (31) a advogada e professora Fabi Diniz de Queiroz Pilate como promotora de Justiça substituta, em um marco inédito para o sistema de Justiça brasileiro. Ela passa a ser a primeira mulher trans a ocupar o cargo de promotora de Justiça no país.

A cerimônia, realizada em Manaus, também oficializou a entrada de outros cinco promotores aprovados em concurso público. O evento foi conduzido pela procuradora-geral de Justiça do Amazonas, Leda Mara Nascimento Albuquerque, e reuniu autoridades, membros do Ministério Público, familiares e convidados.

Natural de Paranaíba, em Mato Grosso do Sul, Fabi Diniz construiu sua trajetória acadêmica e profissional na área jurídica após estudar em escolas públicas e se formar em Direito pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Antes da aprovação no concurso, acumulou quase uma década de experiência em atividades ligadas ao Ministério Público, entre estágios e assessoria jurídica.

A posse é considerada um marco de representatividade e diversidade dentro das instituições públicas brasileiras. Para o MPAM, a chegada da nova promotora simboliza avanços na inclusão e amplia a presença de grupos historicamente sub-representados em cargos de destaque no sistema de Justiça.

Além do significado histórico, os novos promotores reforçarão a atuação do Ministério Público em diferentes comarcas do Amazonas, fortalecendo o atendimento à população e a defesa dos direitos coletivos, da ordem jurídica e do regime democrático.

TEL AVIV PROTESTA


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YACOUBA E O DESERTO



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sexta-feira, 31 de julho de 2026

O CANICHE

 


Como uma grande potência econômica e militar como a América tornou-se o CANICHE de um bando de criminosos sionistas?

NAS PROFUNDEZAS DO OCEANO

 

Criatura marinha de 47 metros segue viva nas profundezas desde a época de Napoleão

Uma criatura colossal de 47 metros foi encontrada vagando pela escuridão do oceano, provando que gigantes históricos ainda vivem entre nós. A sifonóforo gigante cresce silenciosamente nas profundezas desde a época de Napoleão, desafiando tudo o que sabemos sobre longevidade no planeta.

Como a sifonóforo gigante consegue atingir esse tamanho?

Diferente de qualquer animal comum, a sifonóforo gigante é um organismo colonial composto por milhares de clones especializados que funcionam como um único corpo. Encontrada por pesquisadores do Schmidt Ocean Institute na costa da Austrália, sua estrutura em espiral captura presas nas profundezas abissais.

Cada parte da criatura tem uma função específica, como reprodução ou alimentação, permitindo crescimento contínuo por séculos. A baixa temperatura e a pressão das profundezas reduzem seu metabolismo, viabilizando uma sobrevivência tão longa e estável.

Criatura marinha de 47 metros segue viva nas profundezas desde a época de Napoleão
Criatura marinha de 47 metros segue viva nas profundezas desde a época de Napoleão

O que o canal CGTN revelou sobre essa descoberta?

O canal CGTN, com 5,21 milhões de inscritos, destacou a descoberta como um dos achados oceanográficos mais impressionantes das últimas décadas. O conteúdo mostrou como a expedição utilizou tecnologia de ponta para registrar a criatura sem causar danos ao seu corpo delicado.

A cobertura reforçou a urgência de proteger os oceanos profundos, ambientes que guardam tesouros biológicos que levaram séculos para se desenvolver. A sifonóforo gigante se tornou símbolo dessa biodiversidade invisível e ameaçada.

Quais são as características biológicas desse ser milenar?

A sifonóforo pertence ao gênero Apolemia e se assemelha a uma corda luminosa e translúcida flutuando nas correntes abissais. Ela não possui cérebro central, operando como uma rede viva altamente eficiente e coordenada.

Veja como sua estrutura colonial funciona na prática:

  1. Milhares de unidades chamadas zooides atuam de forma coordenada para mover o corpo e digerir alimentos.
  2. Células urticantes poderosas são distribuídas ao longo dos 47 metros para paralisar crustáceos e peixes.
  3. Cada zooide é geneticamente idêntico, mas se especializa em uma única função para o benefício do conjunto.

Essa divisão de tarefas torna a sifonóforo um dos exemplos mais extremos de cooperação celular já estudados pela ciência.

Leia também: Um satélite em órbita está testando agora o motor que quebra a Terceira Lei de Newton e os primeiros dados estão deixando cientistas sem resposta

Onde e como a criatura foi descoberta e mapeada?

A expedição explorou os cânions de Ningaloo, uma região de águas profundas e pouco conhecidas, utilizando ROVs para filmar a criatura em alta resolução. O mapeamento revelou que o animal estava posicionado em forma de anel gigante para maximizar sua área de caça.

Confira um comparativo do tamanho da sifonóforo com outras criaturas e estruturas conhecidas:

Criatura marinha de 47 metros segue viva nas profundezas desde a época de Napoleão
Criatura marinha de 47 metros segue viva nas profundezas desde a época de Napoleão

Esses números deixam claro que a sifonóforo gigante é, de longe, o animal mais longo já documentado pela oceanografia moderna.

O que essa descoberta revela sobre os oceanos profundos?

A existência de um organismo tão antigo prova que o fundo do mar é um reservatório de biodiversidade muito mais resiliente do que se imaginava. Ela funciona como um indicador de saúde dos ecossistemas abissais, que permanecem estáveis e produtivos há centenas de anos.

Entender como esses seres sobrevivem por tanto tempo pode oferecer pistas sobre regeneração celular e adaptação a ambientes extremos. Preservar esse gigante é essencial para que futuras gerações estudem os limites da vida biológica em nosso próprio planeta.

O CATADOR DOUTOR

 

Alex Cardoso, o primeiro catador doutor do mundo

Foto: Arquivo Pessoal/Alex Cardoso
Foto: Arquivo Pessoal/Alex Cardoso

Na primeira vez em que o Alex Cardoso conversou com a redação do Sul 21, ele já cumpria um feito quase inacreditável: depois de mais de 20 anos longe da educação, com o ensino fundamental incompleto e três filhos para sustentar, o catador concluiu o ensino básico através do Ensino de Jovens e Adultos (EJA) e foi aprovado em Ciências Sociais no vestibular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Tudo isso em apenas três anos.

Lá se vão oito anos. E se antes a conquista parecia extraordinária, motivo de notícia, como definir o capítulo mais recente dessa história? “Uma das maiores alegrias da minha vida”, é como Alex descreve a sensação de entregar a sua tese de doutorado à banca avaliadora.

Prestes a se tornar o que acredita ser o primeiro catador doutor do mundo, ele conta que a conquista não é individual, mas representa o coletivo de trabalhadores e de trabalhadoras da reciclagem, classe que na academia costuma ser objeto – e não sujeito – de estudo.

O contato com o ambiente universitário não é tão recente. Apesar de ter ingressado enquanto aluno somente em 2018, aos 38 anos, ele já passou por inúmeras instituições de ensino como militante social pelos direitos dos catadores. Representando o Fórum de Catadores de Porto Alegre (FCPOA) e o Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR), Alex participou de palestras em universidades em diversos cantos do Estado, do Brasil e do mundo.

Mesmo quase doutor, Alex nunca abandonou a catação. “Geralmente, se entra para a academia, se aprende a teoria e depois se vai a campo para pesquisar. No meu caso, eu já estive no campo desde quando sequer pensava que iria entrar na academia”, conta ele. E é justamente desse ambiente que surge a tese de doutorado intitulada “Catadoras e Catadores de Materiais Recicláveis Enfrentam a Máquina de Moer Mundos: Território Vivo e Reciclagem Popular na Cooperativa Unicca”, que será defendida no dia 2 de setembro durante o Encontro Estadual do MNCR realizado em Cruz Alta, cidade em que fica a cooperativa Unicca e onde Alex reside hoje.

“O título de doutor não cria um catador pesquisador; apenas reconhece uma caminhada forjada no trabalho, na organização popular, na educação e na luta dos catadores e catadoras por direitos, dignidade e pelo reconhecimento da reciclagem popular como um projeto de transformação da sociedade”, declara o catador.

Confira a conversa completa com o Alex abaixo:

Sul 21: A primeira vez que tu esteve aqui com o Sul 21, fazia um pouquinho mais de um mês que tu tinha passado em Ciências Sociais na UFRGS. Agora, oito anos depois, tu estás prestes a se tornar um doutor. Qual é a sensação?

Alex Cardoso: Pois é. Eu acho que não é uma questão individual. Eu acho que, por eu ser o primeiro no Brasil – no mundo, na verdade, porque não tem nenhum outro companheiro que conseguiu atingir isso –, é muito mais a universidade reconhecendo um conhecimento que já existe. Porque o título de doutor reconhece uma contribuição científica dada. E essa contribuição não é individual. Ela é fruto da organização coletiva, do trabalho diário da categoria e também dessa universidade pública que, a partir das cotas sociais, passou a incluir pessoas que antes serviam só como objetos de pesquisa e que hoje estão produzindo ciência.

Sul 21: Esse conhecimento a que tu te referes é o conhecimento da profissão do catador de reciclagem?

Alex Cardoso: Exato. A gente consegue identificar, quando a gente olha para a figura do catador e para uma empresa de reciclagem, uma grande distinção entre os dois sujeitos. O primeiro, o catador, aparece como um sujeito vulnerável, altamente precarizado. Uma pessoa que está fazendo esforço físico extremo, usando o seu corpo como força motriz principal do trabalho. Ele está sujeito às intempéries do trânsito e ambientais, ao calor excessivo, à chuva, ao frio. Enfim, está com o seu corpo exposto na rua. Enquanto o empresário, aquele que opera dentro da indústria recicladora, é um sujeito muito bem pago, muito bem vestido, que tem uma estrutura de vida. O seu trabalho é feito com alta tecnologia; as máquinas fazem o trabalho. E aí a gente consegue ver, então, uma questão simbólica extremamente forte. Tanto que as pessoas tendem a chamar os catadores de recicladores. Justamente porque impera essa lógica. Mas os catadores são os que fazem a maior parte do trabalho.

E para conseguir fazer o trabalho enfrentando tudo isso e, mesmo assim, ser responsável por 90% de todo o trabalho que é feito, é porque existe um grande conhecimento. Existe uma inteligência coletiva que faz com que esse trabalho continue. A exemplo de Porto Alegre, que tenta proibir, desde 2005, a circulação dos catadores. Ou seja, há mais de 20 anos se resiste à extinção da profissão do catador. Significa que tem uma inteligência muito grande.

É preciso conhecer, antes de mais nada, o local onde os resíduos estão, os horários, os roteiros. É preciso saber qual é o equipamento adequado, a força que vai ser utilizada, a quantidade de resíduos gerados. É preciso saber como separar esses resíduos, classificar eles, armazenar, preparar para comercializar, quanto que custa cada resíduo, onde vender. Ou seja, é necessária uma inteligência para esse trabalho acontecer. Isso não é fruto do acaso. Não é qualquer um que consegue fazer isso. É preciso que se tenha uma inteligência. Não vou ser eu, que nunca vi isso, que vou sair um dia a catar e vou conseguir fazer o trabalho.

Sul 21: Tu introduziste um pouco da temática da tua tese de doutorado. Se tu pudesses resumir, qual é a questão levantada por essa tese?

Alex Cardoso:  O título já fala muito da pergunta antropológica que é feita: “Catadoras e Catadores de Materiais Recicláveis Enfrentam a Máquina de Moer Mundos: Território Vivo e Reciclagem Popular na Cooperativa Unicca”. Boa parte da pesquisa é desenvolvida aqui em Cruz Alta, onde eu moro, e na cooperativa Unicca, onde eu trabalho. A pergunta é: como que os catadores conseguem fazer esse enfrentamento, sobreviver a isso, viver, ganhar, sustentar a sua vida mesmo diante de todas as dificuldades impostas? Seja pela questão simbólica – os catadores como marginais, excluídos, pobres, iletrados, enfim –, quanto pela questão material, em que há pouca estrutura, em que os preços são muito baixos. Como que se consegue organizar a cooperativa, incluir pessoas, gerar trabalho, dar oportunidades e fazer a reciclagem?

Essa tese busca responder como que a gente faz esse enfrentamento, sendo que a máquina de moer mundos é entendida como o sistema capitalista. O sistema não é só econômico. É um sistema político, social e, claro, um sistema econômico. Ele não busca só mais recursos, poder, status: ele busca ser único. Esse sistema vai operar dentro da lógica da acumulação de riqueza e da destruição ambiental e, por outro lado, da distribuição da pobreza. Porque se tem concentração de um lado, tem pobreza do outro. Se distribuem também os problemas ambientais, a crise ambiental que a gente tá vivendo. Aqueles que poluem não pagam o preço da crise climática, né?

E a resposta vem a partir da organização do trabalho coletivo. Da organização da cooperativa, que tem como viés a inclusão social, a distribuição da riqueza de forma coletiva, a distribuição do conhecimento a partir da formação e da participação das pessoas, a luta para que o Estado reconheça e pague pelo trabalho que os catadores e as catadoras fazem.

Sul 21: Alex, tu mencionaste os resultados que essa pesquisa aponta. Me recordo que uma das últimas contribuições que tu fizeste aqui para o Sul 21 foi através de um texto opinativo sobre o PPP da concessão das reciclagens para a iniciativa pública. Tu acreditas que, de algum modo, a tua tese possa orientar a formação de uma política pública voltada aos catadores que seja mais adequada do que aquela apresentada pela Prefeitura de Porto Alegre?

Alex Cardoso: Eu acho que ela tem toda a condição de trazer isso. Um dos objetivos era o de estabelecer um marco civilizatório que mude a sociedade como um todo. A tese toda tem 520 páginas. Ela é extremamente robusta e busca trazer todos os detalhes em torno da construção da figura do catador, da organização e do processo constitucional legal que vai reger as cooperativas, os princípios e objetivos que regem a organização, e vai apontar isso como um modelo para as cidades.

Por exemplo, não tem como tu ter uma cooperativa em que se consiga trabalhar e que consiga gerar resultados positivos se ela não tiver um contrato de prestação de serviços (com a prefeitura), porque toda cooperativa precisa retirar 20% de contribuição de cada catador, que é a Seguridade Social. Toda cooperativa precisa gerar, no mínimo, um salário mínimo por catador, por cooperado, e, geralmente, os catadores ganham menos de um salário mínimo. Significa que a venda do material reciclável sozinha não sustenta uma cooperativa. Se os catadores dependerem só da venda do material, eles não conseguem sequer ter uma cooperativa organizada.

É preciso ter o contrato e esse contrato não é um pedido de ajuda ao município, é uma obrigação. O município precisa ter coleta seletiva justamente por todo o impacto ambiental que os resíduos trazem à sociedade contemporânea. Quando não se contrata catadores, possivelmente há uma empresa privada fazendo o trabalho, que é muito bem paga. Então, por que não pagar os catadores? Aqui em Cruz Alta, por exemplo, tinha uma empresa que fazia coleta anteriormente. A tese faz a comparação entre os dois sistemas, e o sistema da cooperativa gera resultados 350% melhores, considerando a renda, a quantidade de material e a quantidade de pessoas incluídas no trabalho.

Sul 21: Pensando um pouco agora não só sobre a tese, que é um marco da conclusão desse período de estudos, pelo menos até esse momento, mas refletindo sobre todo esse processo. Desde 2015, quando tu voltaste a estudar, completaste o ensino fundamental, o ensino médio e, como a gente comentou, entrou na universidade em 2018… Refletindo sobre todo esse processo, o que tu dirias sobre o que o acesso à educação te permitiu conquistar?

Alex Cardoso: Primeiro, a educação deve ser gratuita, universal, garantida para todo mundo que queira estudar. Não dá para a gente pensar que só quem estudou na universidade vale e aqueles que não estudaram não valem. A universidade não deve ser ligada à questão da meritocracia. Ela precisa ser uma construção coletiva.

É preciso que a gente dê garantias para os estudantes, principalmente aqueles iguais a mim, que já são pais, que são da periferia, que enfrentam a jornada de trabalho, que têm uma série de responsabilidades e, além disso, ainda voltam a estudar. Tem um contexto ali que precisa ser acolhido pela universidade, e eu não estou dizendo com “acolhido” como “vamos pegar mais leve com ele”. Não é a isso que eu estou me referindo. Digo sobre uma estrutura que dê condições para que o estudante possa, de fato, estudar. Eu acho que a graduação não garante isso. É por isso que grande parte dos estudantes que desistem é justamente porque não conseguem garantir os estudos, seja por questão financeira, por não terem transporte, por não terem alimentação.

Na pós-graduação, geralmente se consegue uma bolsa, e por isso a desistência é muito menor se comparada com a graduação, em que a bolsa é de valor extremamente baixo. O estudante tem que cumprir 20 horas semanais para conseguir ter uma bolsa que era de 400 reais na minha época; hoje é 700. Como é que tu vai ter o fulano, pai de três crianças, que vai voltar a estudar e que tem que pagar aluguel, comprar comida e tudo mais, ganhando uma bolsa que vai pagar 400 reais e que vai exigir 20 horas do fulano? Isso é irreal, não existe. A não ser na universidade antiga, né, que era o playboyzinho, filho da classe média alta que tinha tudo garantido e que usava esses 400 reais para tomar cerveja ali na vilinha.

Aí vale para esse tipo de estudante. Mas para o estudante, que é para quem as cotas sociais abrem as portas, que está engajado nos movimentos sociais, na sua comunidade, aquele que já tem sua família, que produz conhecimento a partir do seu próprio local… é preciso que a universidade tenha uma perspectiva diferente de inclusão e manutenção desse estudante.

Eu consegui concluir a graduação nos primeiros quatro anos e, logo depois, já consegui ingressar no mestrado. O mestrado me deu mais dinheiro do que eu ganhava na reciclagem. Só para se ter ideia, eu ganhava R$2.200 por mês, e hoje eu ganho R$3.100 por mês. Ou seja, tu entendes que a bolsa realmente faz uma diferença na vida do estudante como eu?

Sul 21: Agora, pensando esse mesmo processo de maneira contrária: como que a experiência de mais de duas décadas trabalhando como catador influenciou o teu trabalho enquanto um acadêmico?

Alex Cardoso: Eu acho que eu tenho uma relação diferente com a academia. Geralmente, se entra para a academia, se aprende a teoria e depois se vai a campo para pesquisar. No meu caso, eu já estive no campo desde quando sequer pensava que iria entrar na academia. Desde criança, na catação, na organização da cooperativa. Depois, na construção e militância do movimento em defesa da pauta dos catadores e das catadoras. Isso foi credenciado a partir de um conhecimento empírico.

A academia, por sua vez, me deu a metodologia, ou seja, como olhar para isso, as perguntas a fazer, o que responder. Uma problematização, ou seja, o que eu busco resolver com isso, quais são os resultados apresentados, a conclusão. Então, a academia é um processo que traduz o conhecimento já existente. Ela vai traduzir o conhecimento prático de uma forma metodológica, construída teoricamente e que vai se transformar, depois disso, num conhecimento científico.

Sul 21: Alex, antes de a gente finalizar, quais os próximos passos depois da finalização do doutorado?

Alex Cardoso: Bom, na minha perspectiva, o meu final na academia chegou. Eu não pretendo ir para um pós-doutorado. A minha ideia é contribuir com a organização do movimento. Agora eu consigo fazer elaboração e coordenação de projetos, construção de políticas públicas. A minha contribuição para o movimento está muito maior do que anteriormente. Mesmo que eu tivesse uma contribuição boa, ela muda a partir do momento em que se consegue interpretar melhor a sociedade, as relações sociais, institucionais e políticas.

O meu desejo é continuar na catação como gestor de cooperativa, mobilizador dos catadores, formador e construtor – através da representatividade dos catadores – de políticas públicas que possam, de fato, melhorar, mudar a nossa sociedade, garantindo a inclusão dos catadores como sujeitos de direito. Que sejam reconhecidos, valorizados, ou seja, pagos pelo seu trabalho.