terça-feira, 31 de outubro de 2023

O POVO DA LUZ?


Em primeiro lugar devo dizer que nunca escrevi dois artigos consecutivos neste jornal sobre idêntico tema, mas a proporção que tomou a calamidade humanitária do genocídio perpetrado por Israel em Gaza neste novo capítulo sangrento (há 75 anos os palestinos sofrem apartheid, tortura, expulsão e mortes, precisamente desde 1948, ano da fundação do estado de Israel na Palestina) não admite relegar este episódio a apenas um artigo.

A guerra em curso dos Estados Unidos e a OTAN contra a Rússia, utilizando a Ucrânia como terceirizado, parece não bastar para afiançar a sua geopolítica imperialista - em decadência - no Oriente Médio e inclusive na Ásia, no seu afã e sonho belicista contra a China, foco final desta contenda em um mundo já multipolar. É a vez do seu sócio e ator coadjuvante, Israel, entrar em grande estilo nesta superprodução hollywoodiana de guerras fictícias contra focos indefensos ou minimamente armados manipulando a opinião pública ao seu favor através da indústria das fake news ao redor do mundo. Em contraposição, até o principal jornal israelense, o Haaretz, declara que o atual crime de guerra contra o povo palestino é de responsabilidade de Netanyahu e conceituados intelectuais judeus alertam há décadas sobre a política belicista do governo.

É evidente que nada disto teria acontecido sem a colaboração explícita do maior exército do mundo, o dos EUA, tanto é que Israel só iniciou a invasão de Gaza depois que os EUA posicionaram seu arsenal bélico para dar sustentação ao massacre que estamos observando, atônitos, todo dia. A construção na mídia internacional do conceito de vítimas (Israel) contra terrorismo (Hamas/Palestinos) é de uma hipocrisia e desumanidade revoltantes.

Antes de continuar é preciso destacar que na criação e empoderamento do Hamas, para dividir o mundo árabe, o dedo histórico de Israel esteve presente para ter mais um pretexto para colocar em prática a sua solução final, aniquilar a Palestina. Em uma reunião privada em 2019, Netanyahu disse que “qualquer pessoa que queira impedir o estabelecimento de um estado palestino tem de apoiar o fortalecimento do Hamas”. Onde estão os nomes e as imagens das 40 crianças “decapitadas pelo Hamas” no dia 7 de outubro? Até o New York Times desmentiu que o míssil que matou 471 palestinos num Hospital em Gaza tenha partido das forças de resistência palestina. Nem o Likud, partido do governo, nem Netanyahu, querem a paz. “Todos os ativistas do Hamas devem morrer, acima do solo, debaixo do solo, dentro e fora de Gaza” declarou o Hitler do século XXI. “Nós somos o povo da luz, eles são o povo das trevas e a luz triunfará sobre as trevas”, disse também, citando uma passagem do Antigo Testamento.

 

Carlos Pronzato

Cineasta, diretor teatral, poeta e escritor

Sócio do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB)



COMENTÁRIO DO BLOGUEIRO.- Os destaques em negrita são da


 responsabilidade do blogueiro.


ESTOU APÓSENTADA

 Saudades...


Estou aposentada, após 36 anos lecionando na UNIRIO, e as pessoas me perguntam se não sinto falta de dar aulas.
Não sinto. Nenhuma falta.
Ando ocupada, demais, para sentir saudades...
Desenho projetos para organização de acervos bibliográficos; rego e adubo as flores da minha varanda; preparo a segunda edição do Glossário de codicologia e documentação; levo Mr. Darcy, todo dia, para passear e recolho, alegremente, sua caca; faço entrevista de referência, remotamente, com algum pesquisador que me encontrou via web ou por indicação de algum outro pesquisador de que sequer me lembro; concluo a arte de um PPT para alguma palestra; conserto coisas que deveriam ter sido consertadas há décadas; leio algum artigo, TCC ou pesquisa recém-publicados sobre livros raros; saio para tomar vinho com amigos ou experimentar um novo restaurante; visito bibliotecas a pedido de ex-alunos que as gerenciam; bato pernas na Rua da Alfândega, atrás de pregos e parafusos; encontro algum tesouro da Biblioteconomia num sebo, que parece que vai ruir a qualquer momento; passo parte de alguma tarde vasculhando o brechó do Adylson atrás de materiais e instrumentos de escrita; maratono museus do Rio (ainda, em protesto contra o 8 de janeiro); escolho dias, aleatoriamente, para não fazer nada, além de ler jornal, pegar sol na rede da varanda (enquanto ainda posso) e falar remotamente com amigos queridos; dou uma paradinha para comer esfirras com mate no árabe do Largo do Machado; e me revolto com o gosto do ser humano para guerras...
É muita coisa, para sobrar espaço para saudades.
Mas, quando olho fotos como estas, com alunos que, agora, devem ser Bibliotecários, se a vida não lhes impôs barreiras... quando vejo os sorrisos orgulhosos de si, os olhos que olham para um futuro lapidável, os gestos de quem tem fé nas próprias escolhas... quando olho as faces, uma a uma, sinto mais que saudades.
Sinto uma espécie de banzo. Uma coisa que me traz lágrimas que ficam em mim, como no dia de hoje (sei lá, por quê!) e me fazem chorar até com beijo de Dorama!
Não, não sinto falta de dar aulas.
Sinto falta da massa informe de esperanças, que me cercava como um jardim, cada vez que eu entrava numa sala de aula, e que eu, de alguma forma, acho que ajudava a regar.
É disso que sinto falta...

Ana Virgínia Pinheiro


DE VLADIMIR HERZOG










 


segunda-feira, 30 de outubro de 2023

DE GIL VICENTE TAVARES

 Os SESCs de São Paulo e os jegues do Bonfim

Entrar numa das instalações do SESC é adentrar um espaço onde arquitetura diferenciada e aparato técnico fazem desses centros lugares de excelência artística


Publicado em 30/10/2023 

Estava eu dando uma passada de olho nas redes sociais, e me deparei com a inauguração de mais um SESC, em São Paulo, o 14 Bis.

A 25ª unidade na cidade de São Paulo foi aberta mantendo um alto padrão de arquitetura, estrutura técnica e programação.

O prédio escolhido foi o do antigo Fecomércio, seguindo uma tradição de requalificação de espaços antigos, abandonados ou sem condições de uso e manutenção, como já havia acontecido, recentemente, com o SESC 24 de Maio, construído no antigo prédio da Mesbla.

Esse, da 24 de maio, inclusive, contou com projeto arquitetônico de Paulo Mendes da Rocha, e foi um de seus últimos projetos.

Para quem não sabe, o arquiteto capixaba seguiu sendo o único brasileiro, além de Oscar Niemeyer, a ser laureado com o Prêmio Pritzker (considerado o Nobel da arquitetura) e com a Medalha de Ouro do RIBA.

Entrar numa das instalações do SESC é adentrar um espaço onde arquitetura diferenciada, opções culturais e aparato técnico fazem desses centros de cultura lugares de excelência artística, sempre com programações das mais variadas e parte considerável do melhor das artes visuais, cênicas, tradicionais e outras mais.

Claro que nada é perfeito, sempre que vou a São Paulo ouço uma crítica aqui, outra acolá, e alguns me dizem que não acompanho o dia-a-dia para saber dos supostos problemas.

Acredito.

No entanto, não é à toa que faziam a provocação de que Danilo Santos de Miranda, diretor do SESC São Paulo, era um ministro paralelo da cultura. Danilo, que nos deixou ontem, aos 80 anos, fez um trabalho revolucionário, excelente, mas ele mesmo ria dessa alcunha, sabendo que sua gestão era circunscrita ao Estado de São Paulo (mesmo que ele levasse o Brasil todo para suas unidades), e claro que por mais incrível que sejam os SESCs de lá, é somente para quem vive ou está na capital paulista, e nas cidades do interior onde o SESC atua.

É clara minha admiração pelo que representa o SESC para a cidade de São Paulo, por exemplo, mas confesso que quando vi o vídeo promocional sobre o 14 Bis, o que me bateu foi um incômodo profundo.

Sei que há muita grana por trás das ações do SESC São Paulo. É tudo grandioso, com programações nacionais e internacionais incríveis, boa remuneração de artistas, projetos arquitetônicos sofisticados, equipamentos de alto nível, estrutura técnica de alto padrão; tudo isso custa muito dinheiro.

Mas qual o meu incômodo?

Imediatamente, comecei a pensar em nossos espaços culturais da Prefeitura de Salvador e do Governo da Bahia.

Talvez não no mesmo ritmo, e nem na mesma quantidade, mas era para ambas instâncias estarem, como o SESC, fazendo sofisticadas reformas, e notáveis inaugurações de espaços culturais por Salvador e pela Bahia afora. Fosse de 5 em 5, ou de 10 em 10 anos, mas era para seguirmos colecionando novos espaços culturais, e tendo nossos antigos espaços sempre renovados, reequipados e reestruturados.

Já escrevi seguidamente sobre a responsabilidade das prefeituras do interior do Estado, que em sua esmagadora maioria sequer tem, ou cuida de seus teatros, centros culturais e afins. Quanto ao Estado, os centros de cultura espalhados pelo interior estão quase todos sucateados ou com problemas graves estruturais, equipamentos obsoletos, e, em vez de celebrarmos novas construções contemplando mais territórios de identidade, ficamos na expectativa de que ao menos os que existam tenham um mínimo de estrutura digna para um espaço de artes em pleno século XXI.


Em Salvador, o complexo da Biblioteca Pública dos Barris deveria, ao menos, se equiparar a um SESC paulistano, em termos de estrutura e funcionamento, já que conta com teatro, cinema e galeria, para além da própria biblioteca e do que se chama quadrilátero dos barris, uma estrutura central da edificação para apresentações. No entanto, está tudo decadente, depauperado.


O Cineteatro Solar Boa Vista nem é mais tido como alternativa de espaço viável a apresentações, e era para ser um oásis em Brotas, com uma praça e um casarão, onde Castro Alves morou, que, reformados, seriam destino certo de boa parte da população de um bairro extremamente populoso, e de vários acessos para pessoas de outros locais.

A reforma da Sala do Coro é uma exceção que confirma a regra, e a prometida reforma do Teatro Castro Alves que agora parece que vai acontecer, também. De resto, parece que é tudo remendo, arremedo, gambiarra e armengue.

Esses são só alguns exemplos do Estado.

Quanto à prefeitura, era para que a mesma já tivesse dezenas de teatros e espaços culturais espalhados por Salvador. Deveria assumir sua responsabilidade e seu protagonismo frente à produção artística da cidade.

No entanto, há décadas que os espaços seguem os mesmos. Ao menos, durante os últimos anos, os espaços Boca de Brasa passaram a invadir a periferia da cidade, e o anúncio de reforma do Vila Velha é uma das boas notícias recentes. Mas é assustador que, por exemplo, o Teatro Gregório de Mattos siga com problemas estruturais básicos, a começar pelos armengues super desconfortáveis que são as arquibancadas. O teatro que era para ser referência da prefeitura, disfarçando-se de seu teatro municipal, segue parecendo um galpão invadido por alguma trupe amadora que, à falta de recursos, “deu um jeito” no espaço. O Espaço Cultural da Barroquinha parece funcionar “como dá”, e essa mesma filosofia segue para diversos espaços públicos municipais e estaduais.

Pode ser problema de grana?

A prefeitura vem sistematicamente anunciando novos equipamentos sofisticados para a cidade. O Governo da Bahia vem dessa coisa da gestão passada, de “obra tamanho G”, para mostrar o tanto que está construindo de coisas grandiosas. Há verba, sim, sempre.

E, neste caso, tenho certeza que a culpa não recai, na maioria absoluta das vezes, nas costas dos gestores culturais envolvidos nestes equipamentos. Qual gestor não amaria uma reforma revolucionária, técnica, estrutural, tecnológica, arquitetônica, em seus teatros e centros culturais? Ou inaugurar novos, sofisticados e bem equipados espaços?

O problema, mesmo, é o desprezo que nossas mais altas instâncias públicas têm pelas artes.

Falo aqui apenas das estruturas físicas, porque sobre (falta de) políticas públicas para artes eu já cansei de falar.

Investimento pífio, falta de visão e de vontade, falta de gestores visionários e com pensamento sofisticado e sólido são problemas recorrentes há décadas. Agora, cada vez mais, há também a utilização das pastas da cultura como proselitismo para mostrar preocupações com inclusão e distribuição de renda, conseguindo o feito incrível de destruir com as artes profissionais, por um lado, e não distribuir e nem incluir ninguém efetivamente, do outro.

Assim, seguem desperdiçando verbas sem preocupação com técnica, qualidade, currículo, paradoxalmente numa terra com credenciais para ser uma referência nacional na formação de profissionais em artes.

Seguimos inscrevendo projetos como se estivéssemos nos cadastrando num Bolsa Família, para, na sorte de ser aprovados num sorteio sem critérios artísticos, depois correr atrás de raros espaços públicos desestruturados, conseguindo pautas curtas, com cada vez menos visibilidade.

Enquanto o SESC 14 Bis é mais um voo para as artes paulistanas, seguimos aqui parecendo jegues na Lavagem do Bonfim; expostos ao sol, maltratados, e carregando nossas carroças cheias de arte; buscando coragem para subir alguma colina que nos dê uma mínima visão da nossa terra devastada.

Gil Vicente Tavares

 

PAPA FRANCISCO E O INFERNO

 


As mídias sociais foram à loucura com as notícias de que o Papa Francisco havia negado a existência do inferno. Até mesmo alguns meios de comunicação tradicionais publicaram a história, supostamente baseada em uma entrevista com um jornalista italiano.

O comentário é do jesuíta estadunidense Thomas J. Reese, ex-editor-chefe da revista America, dos jesuítas dos Estados Unidos, de 1998 a 2005, e autor de O Vaticano por dentro (Ed. Edusc, 1998). O artigo foi publicado por Religion News Service, 03-04-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Qualquer um que tenha acompanhado as falas e os sermões do papa saberia imediatamente que algo não cheira bem aí. O papa de fato falou do inferno no passado de uma forma que indica claramente que ele acredita nele.

Em 2014, o papa mencionou o inferno ao chamar a máfia à conversão. Em 2016, ele disse que as pessoas que não abrem seus corações a Cristo acabarão condenando a si mesmas ao inferno. No mesmo ano, ele se referiu ao inferno como “a verdade” e descreveu-o como estar “longe do Senhor por toda a eternidade”.

explicação papal mais extensa sobre o inferno veio em 2015, em resposta à pergunta de uma escoteira que questionou: “Se Deus perdoa a todos, por que existe o inferno?”. Francisco reconheceu que essa era uma “pergunta boa e difícil”.

O papa falou de um anjo muito orgulhoso que tinha inveja de Deus, relata o Catholic News Service.

“Ele queria o lugar de Deus”, disse Francisco. “E Deus queria perdoá-lo, mas ele dizia: ‘Eu não preciso de perdão. Eu sou suficiente para mim mesmo!’”

“Isso é o inferno”, explicou o papa. “É dizer a Deus: ‘Arranje-se você, porque eu me arranjo sozinho’. Não te mandam ao inferno: você é que vai, porque você escolhe estar lá. O inferno é querer se afastar de Deus porque eu não quero o amor de Deus. Isso é o inferno.”

A maioria dos teólogos contemporâneos concordaria com o papa. O inferno não tem a ver com fogo e enxofre; tem a ver com a nossa liberdade de dizer não a Deus, a nossa liberdade de rejeitar o amor e escolher a solidão. Se você acredita em liberdade, você tem que acreditar no inferno.

Quando fechamos nossos corações e dizemos que o mundo vá para o inferno, estamos, de fato, escolhendo o inferno para nós mesmos. O inferno é a ausência de amor, companheirismo, comunhão. Nós não somos enviados para lá; nós o escolhemos.

Deus não criou o inferno; nós o criamos.

Por outro lado, alguns teólogos pensam que o inferno está vazio porque, uma vez que nos encontremos com Deus, nós o escolheremos.

Então, por que a confusão sobre Francisco e o inferno?

A confusão veio de Eugenio Scalfari, o cofundador de 93 anos e ex-editor do jornal italiano La Repubblica, que, em uma reportagem de 28 de março, afirma que o papa disse a ele que “o inferno não existe”.

Esta não é a primeira vez que Scalfari causou frisson relatando suas conversas com o papa. Scalfari é um amigo ateu com quem o papa gosta de falar. Scalfari apresenta citações detalhadas do papa, apesar de não gravar suas conversas, nem mesmo fazer anotações.

Todo repórter em Roma sabe que você não pode levar as reportagens de Scalfari a sério, mas suas histórias são sensacionais demais para serem ignoradas.

Sala de Imprensa do Vaticano emitiu uma declaração suave indicando que nenhuma citação no artigo pode “ser considerada como uma transcrição fiel das palavras do Santo Padre”. O que ela deveria ter dito é que o artigo era um absurdo absoluto. E poderia, então, ter dado aos repórteres a explicação do papa sobre o inferno em 2015. Isso teria poupado muita confusão a todos.

 Nota de IHU On-Line:

Karl Rahner, por ocasião do seu 75º aniversário, concedeu uma longa entrevista para a revista America. A entrevista foi republicada neste ano e traduzida em português e pode ser lida, na íntegra, aqui.

Na entrevista, falando da sua obra teológica, o teólogo alemão, confidencia:

"Há um ou dois anos, talvez, eu realmente tinha a intenção de escrever algo sobre um possível ensino ortodoxo sobre a apocatástase (a doutrina de que todos os seres livres, no fim, compartilharão a graça da salvação). Na realidade, a teologia anterior considerou a existência da condenação eterna e do inferno como um fato já dado ou do qual se tinha a certeza absoluta de que ocorreria, no mesmo sentido que considerava como certos o paraíso e a bem-aventurança eterna.

Hoje, penso eu, não apenas eu, mas também outros teólogos, falaríamos de um modo diferente, sem querer representar um ensino herético sobre a apocatástase. Dentro do meu tempo histórico, devo lidar, de fato, de forma absoluta e incondicional, com a possibilidade de estar eternamente perdido. Mas, apesar de certos textos do Novo Testamento, eu não sei com absoluta certeza se essa perdição eterna ocorre para qualquer pessoa em particular. E posso dizer, espero, sem conseguir saber disso agora com certeza, que Deus, de fato, criou um mundo em que todas as questões realmente encontram uma solução positiva.

Então, eu realmente ainda gostaria de escrever algo sobre esse ensinamento sobre a apocatástase que fosse ortodoxo e aceitável. Mas é uma questão muito difícil. Você provavelmente teria que estudar e responder mais uma vez novas questões na história do dogma e, especialmente, também na exegese. Você também deveria considerar questões de interpretação exegética e filosófica. Para tudo isso, meu tempo e forças podem não ser suficientes. Então, eu não sei como isso vai prosseguir."

OS PROBLEMAS DO MUNDO

 


OUTRO PONTO DE VISTA

 


Até agora, as sínteses de especialistas sobre o conflito entre Israel e o Hamas acentuam expressões fortes e pessimistas como "abismo de ódio" e "nenhuma porta de saída". Unânime é o reconhecimento enfático da barbárie perpetrada pelo Hamas contra a massa desarmada de mil e quatrocentos israelenses, embora a mesma ênfase arrefeça quanto à morte por bombardeios de mil e novecentas crianças, dentre um total de seis mil palestinos.

Barbárie tem fonte, mas não tem identidade. Nem se avalia por números. O extermínio massivo no Oriente Médio é tão bárbaro quanto o terror semanal na zona oeste ou na Baixada Fluminense, as endêmicas mortes de crianças por balas aleatórias, as execuções de turistas na paisagem carioca. O que assombra a consciência global é o estado de desvario em que a dizimação do outro parece destino irrecorrível. É a condição convulsa da guerra perpétua.

Essa condição foi pressentida por Sigmund Freud numa carta a Chaim Koffler, membro da Fundação para a Reinstalação dos Judeus na Palestina, quando diz não acreditar "que a Palestina possa jamais se tornar um Estado judeu (...) Parece-me mais avisado fundar uma pátria judia sobre um solo historicamente não carregado" (26/2/1930). Ele deplora "que o fanatismo pouco realista dos nossos compatriotas (Volksgenossen) tenha sua parte de responsabilidade no despertar a desconfiança dos árabes".

Judeu, o criador da psicanálise não viveu para ver o Estado de Israel nem as guerras que asseguraram, com apoio norte-americano, o domínio colonial da região. Mas já manifestava regozijo com a prosperidade de "nossos Siedlungen (colonos)". Aqui há um deslize na tradução de "Siedlung", que significa assentamento urbanizado, e não agência de colonização. Os povoamentos a que Freud se refere não tinham nada a ver com as práticas do já findo império colonial alemão.

Mas modernizar implica urbanizar. A modernização do Estado israelense sempre dependeu da urbanização de territórios arrebatados aos palestinos. É a lógica colonial na nova ordem pós-racial (pós-Segunda Guerra) da tomada de terras: constrói-se um Estado de colonizadores brancos à revelia da população nativa.

Método hard, limpeza de terreno pela violência: "Em nossa terra só há lugar para nós. Vamos dizer aos árabes: saiam" (Isaac Rolf, rabino alemão, antes da Segunda Guerra). Método soft, narrativas de exclusividade dos lugares santos lastreadas por uma estatização teocrática. Freud pensava e sentia: pressentia. Daí sua acidez contra "uma piedade mal interpretada, que faz de um pedaço do muro de Herodes uma relíquia nacional". Quanto à barbárie, diz a perversa Lei de Murphy que "se algo pode dar errado, dará". Só que tem piorado.

Muniz Sodré