sábado, 30 de junho de 2018

AS LAMBISGOIAS E A BOCETA DA VIÚVA*


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Aprendi a língua lusitana aos trancos e barrancos - e algumas leituras - nos becos e tascas de Lisboa e arredores. Assim que escrever em português nunca deixou de ser um permanente e prazeroso desafio.

Esta semana estou a deliciar-me com uns “Contos sem datas” de Machado de Assis, numa edição da Civilização Brasileira de 1956, comprada num sebo da rua Rui Barbosa. Apesar de edição popular, meu livro porta o número 2073.

Não obstante o título, cada conto é devidamente datado e com referência de origem. Vários são os jornais com os quais o fundador da Academia de Letras colaborou. Além da descontraída elegância do estilo, descubro palavras, geralmente arcaicas, talvez familiares ao leitor, mas novas para mim. 

Logo de entrada esbarrei, no “Caso da viúva”, com a bocetinha de tartaruga da charmosa dama. Desconhecia por completo, confesso, seu significado acadêmico. Como muda, ao longo dos anos, o uso de certas palavras!....Sabemos que nossos irmãos do além-mar chamam de raparigas suas próprias filhas e que, lá, os paneleiros participam alegre e assumidamente das paradas arco-íris da bem-chamada Avenida da Liberdade.

Se, na primeira estadia no Rio me hospedei em casa de um tio, na segunda, acompanhado de amigos, ficamos num hotel de Copacabana. De manhã, cedinho, usei o telefone para pedir meu pequeno almoço no quarto, como era costume nos anos 70. A telefonista me respondeu “Pois não, senhor...”. Intrigado, perguntei porque não podia, já que o horário estava dentro da normalidade. “Pois não! ” repetiu a moça. Ainda demorei até entender que esta negação era na verdade uma afirmação.

Recém-chegado à Bahia, fiquei profundamente chocado quando alguém me interpelou com um sonoro “Moço!...”, algo que em Portugal, dirigido a um adulto, equivale a moleque. Em outra oportunidade, aguardando na bicha... ops, na fila do banco, vi uma senhorita passar na frente de todos; não me detive e chamei-a em alto e bom som, de descarada, Só por milagre não foi linchado pela agência inteira. Em Portugal esta palavra equivale a um banal “cara de pau”. Restou-me a aguentar o muxoxo das lambisgoias e a reprovação geral dos engravatados, explicando que lá, do outro lado do oceano...

Mas, voltando ao genial mulato, como fluem as frases, sem esforço aparente, sem descrição enfadonha nem adjetivos supérfluos, sempre banhado numa ironia discreta que tanto o diferencia de um Eça de Queiroz – pelo menos daquilo que li -  de Dickens ou Balzac, os três impregnados de sombrio realismo social. Notemos, en passant, que Machado de Assis tem o mesmo fascínio pelos delicados pés femininos que o Swann de Proust.

Pedindo desculpa por eventual ostentação livresca, despeço-me com um ósculo de partida.



* Publicado hoje no jornal A Tarde sob o título "A vida das palavras" já que o título original fora recusado pela redação do jornal, tão moralista que recusa citação de Machado de Assis! 

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