A morte é parte intrínseca de nosso quotidiano. Cada dia, jornais e canais de televisão descarregam dezenas senão centenas de mortes. Informações que nos emocionam por segundos antes de virarmos a página para outros dramas, outros bailes. Afinal, quem sou eu para querer reformar o ser humano que não sabe resolver seus problemas sem armas na mão?
Ao
atravessar o Mediterrâneo ou o canal da Mancha sonhadores desaparecem nas ondas
indiferentes. Perseguidos pelo ódio, mulheres, crianças e homens inocentes
morrem nos escombros de Gaza ou abandonados por coiotes mexicanos nas
fronteiras ianques. Bandos rivais e policiais matam nos subúrbios de Salvador
ou do Rio de Janeiro, quando balas perdidas não atingem moradores nas suas
camas.
Numa noite
de chuva, o noticiário da televisão mostrou um guarda-chuva atravessando a
avenida deserta. De repente, o guarda-chuva desaparece, engolido por um enorme
bueiro. Com ele também desaparecia um ser humano.
Amanda tinha
doze anos. O vídeo amplamente divulgado nas redes sociais nos revela, no meio
do cabelo farto, o sorriso imensamente luminoso de uma linda menina de traços
bem nordestinos. Voltava da escola, apressada em se abrigar do temporal, feliz
por voltar no seio familiar, tirar o calçado encharcado, comer uma sopa
quentinha.
Um dia,
talvez médica ou engenheira, sua primeira meta seria comprar uma casa para a
mãe, ajudar nos estudos dos irmãos menores. Em nada diferente dos sonhos de
tantos outros adolescentes dos subúrbios que tentam escapar da pobreza inicial
para entrar numa sociedade mais justa.
O sorriso se
transformou em terror por alguns intermináveis segundos até não ser mais que um
corpo sem vida bamboleando nas águas turvas de uma noite de muita chuva.
Fatalidade?
Não. Omissão criminosa dos poderes públicos. Não existe a mínima razão para
este buraco na calçada não estar devidamente coberto. Afinal Dias d´Ávila é um
município próspero. O Polo Petroquímico está lá em boa parte estabelecido.
Quanto ganha o prefeito? Quanto ganham os vereadores? Quantas horas trabalham
por semana? A segurança e o bem-estar de seus habitantes não deveriam ser a
preocupação maior? Não tem uma secretaria para fiscalizar o estado em que se
encontram ruas e passeios?
A prefeitura
é inteiramente culpada, sim. Resta saber quantos anos as instâncias legais
levarão para indenizar os familiares pela omissão vergonhosa. Resta também
saber em quanto este assassinato será avaliado financeiramente pela justiça.
Mesmo que nenhuma fortuna compense a morte de uma adolescente, esta é a mais
óbvia forma de criminalizar os culpados pelo desleixo.
No município
de Dias d´Ávila uma família vai passar um Natal de tristeza e desespero.
Choremos por
Amanda.
Dimitri Ganzelevitch
A Tarde, sábado 14 dezembro 2024
Nenhum comentário:
Postar um comentário