EUA despejaram cerca de 27 mil barris com resíduos radioativos e altamente poluentes no fundo do mar, e cientistas só agora começam a descobrir o que há dentro desses recipientes
Entre as décadas de 1930 e o início dos anos 1970, milhares de barris com resíduos radioativos, químicos industriais e rejeitos de refinarias foram descartados em áreas profundas do oceano, prática autorizada à época que hoje levanta alertas ambientais, científicos e regulatórios sobre vazamentos, contaminação marinha e riscos de longo prazo
Você sabia que, durante décadas, os Estados Unidos despejaram milhares de barris, chamados de ‘barris halo contendo resíduos radioativos e altamente poluentes no fundo do oceano, em uma prática pouco documentada que só agora começa a ser investigada em detalhe.
Trata-se de um vasto depósito de resíduos despejados deliberadamente em águas profundas durante décadas, cujos impactos ambientais só agora começam a ser compreendidos com maior precisão científica.
Entre os anos 1930 e o início da década de 1970, empresas industriais e setores ligados à defesa despejaram toneladas de resíduos no oceano Pacífico, em áreas oficialmente designadas para descarte em águas profundas ao longo da costa do sul da Califórnia.
Naquele período, a prática era permitida ou pouco regulada, baseada na premissa de que o oceano profundo funcionaria como um meio de diluição permanente, capaz de neutralizar substâncias tóxicas ao longo do tempo.
14 locais de descarte

Relatório do Projeto de Pesquisa de Águas Costeiras do Sul da Califórnia (SCCWRP) de 1973 (pdf)
Segundo registros históricos compilados pela Agência de Proteção Ambiental dos EUA, ao menos 14 locais de descarte foram utilizados para receber materiais extremamente diversos: resíduos radioativos de baixo nível, subprodutos do refino de petróleo, rejeitos químicos industriais, resíduos da perfuração de poços de petróleo e até explosivos militares obsoletos.
Muitos desses materiais foram acondicionados em barris metálicos simples, sem qualquer planejamento para armazenamento de longo prazo.
Durante décadas, esses locais permaneceram praticamente fora do radar científico e do debate público. A grande profundidade – frequentemente superior a 600 metros – , aliada à dificuldade técnica e ao alto custo de expedições oceanográficas, fez com que o conteúdo e o estado desses depósitos fossem pouco investigados.
Isso mudou apenas recentemente, com o avanço de tecnologias de mapeamento do fundo do mar e o uso de veículos operados remotamente.
A redescoberta do cemitério químico submarino

O interesse público pelo tema aumentou significativamente em 2020, quando uma reportagem investigativa do Los Angeles Times revelou que expedições robóticas haviam identificado dezenas de barris espalhados pelo fundo do mar.
As imagens mostravam tambores corroídos, parcialmente soterrados nos sedimentos, alguns deles cercados por estranhas manchas claras no solo marinho.
Nos anos seguintes, campanhas científicas mais amplas foram conduzidas pelo Scripps Institution of Oceanography, ligado à Universidade da Califórnia.
Em 2021 e 2023, levantamentos com sonar de alta resolução e veículos submersíveis identificaram cerca de 27.000 objetos com formato compatível com barris e mais de 100.000 detritos espalhados pelo leito oceânico.
Esses números reforçaram a dimensão do problema e levantaram novas questões sobre o conteúdo dos barris. Uma hipótese inicial, amplamente discutida, era de que muitos deles contivessem DDT, pesticida amplamente utilizado no pós-guerra e posteriormente banido devido à sua persistência ambiental e efeitos tóxicos.
Os “halos” brancos e a suspeita inicial de DDT

A associação com o DDT não surgiu por acaso. A região apresenta histórico de contaminação por esse composto, e diversos barris observados nas imagens submarinas eram cercados por halos esbranquiçados nos sedimentos – formações incomuns que despertaram a atenção dos pesquisadores.
A semelhança visual com outros locais contaminados por DDT levou à suspeita de que os tambores fossem uma fonte direta desse pesticida.
No entanto, apesar da relevância da hipótese, faltavam dados diretos que comprovassem a presença do composto dentro dos barris específicos observados no fundo do mar. Essa lacuna motivou uma investigação mais detalhada, focada na análise química e biológica dos sedimentos ao redor dos recipientes.
O estudo que mudou o foco da investigação
Em 2021, uma equipe liderada pela microbiologista Johanna Gutleben, da Scripps Institution, coletou amostras de sedimentos próximos a cinco barris utilizando um veículo operado remotamente. O objetivo era avaliar como a composição química e a vida microbiana variavam à medida que se aproximavam dos recipientes.
Os resultados, publicados em 9 de setembro na revista científica PNAS Nexus, trouxeram uma surpresa importante. As análises mostraram que os níveis de DDT não aumentavam nas proximidades dos barris, indicando que aqueles recipientes específicos não continham o pesticida.
Essa constatação levou os pesquisadores a reconsiderar hipóteses antigas e a direcionar a atenção para outros tipos de resíduos possivelmente mais negligenciados.

Resíduos altamente alcalinos e ambientes extremos
Três dos cinco barris analisados apresentavam halos brancos bem definidos ao redor. As amostras coletadas nessas áreas revelaram um dado alarmante: o pH dos sedimentos era extremamente alto, em torno de 12, um nível considerado fortemente alcalino. Para efeito de comparação, a água do mar normalmente apresenta pH em torno de 8.
Ambientes com pH tão elevado são hostis à maioria das formas de vida. Isso ficou evidente na análise biológica: os sedimentos próximos aos barris com halos continham quantidades mínimas de DNA microbiano, indicando uma drástica redução da vida microscópica.
Segundo a equipe, os barris continham resíduos alcalinos cáusticos, capazes de destruir matéria orgânica, alterar profundamente a química dos sedimentos e liberar metais potencialmente tóxicos. Em concentrações semelhantes às medidas no local, esses resíduos seriam letais para seres humanos em caso de exposição direta.
Que resíduos alcalinos podem ser esses
O estudo não identificou exatamente quais substâncias químicas estavam dentro dos barris, mas os pesquisadores apontam pistas importantes. Processos industriais comuns na época, como a fabricação de DDT e o refino de petróleo, geravam grandes volumes de resíduos alcalinos como subprodutos.
Gutleben chama atenção para um detalhe histórico relevante: o principal resíduo da produção de DDT era ácido, e esse material não costumava ser acondicionado em barris para descarte no mar. Isso levanta uma questão crucial: que tipo de resíduo era considerado perigoso o suficiente para justificar o uso de barris metálicos e o descarte em águas profundas?
Essa pergunta permanece sem resposta definitiva, mas reforça a gravidade do material envolvido.
Como se formam os halos brancos no fundo do mar
Além de identificar a natureza alcalina dos resíduos, os cientistas conseguiram explicar a formação dos halos que deram nome aos barris. Quando o material alcalino vaza, ele reage com o magnésio presente na água do mar, formando um mineral chamado brucita, ou hidróxido de magnésio.
A brucita cria uma crosta rígida, semelhante a concreto, ao redor do ponto de vazamento. Com o tempo, esse mineral se dissolve lentamente, mantendo o pH elevado nos sedimentos e desencadeando novas reações químicas. Uma delas resulta na formação de carbonato de cálcio, que se deposita como um pó branco ao redor dos barris, formando os halos visíveis.
Esse processo ajuda a explicar por que os resíduos persistem por décadas, em vez de se diluírem rapidamente na água do mar.
Um poluente persistente de longo prazo
Para o coautor do estudo, Paul Jensen, os resultados indicam que os resíduos alcalinos devem ser tratados como poluentes persistentes, com potencial de impacto ambiental comparável ao do DDT.
Mais de 50 anos após o despejo, os efeitos químicos continuam claramente detectáveis no fundo do oceano. Isso sugere que o legado do descarte industrial não apenas permanece, como pode continuar influenciando o ecossistema por décadas ou até séculos.
O que ainda não se sabe
Apesar dos avanços, as incertezas permanecem significativas. O número total de barris no fundo do mar ainda é desconhecido, assim como o conteúdo exato da maioria deles. Não se sabe:
- Quantos recipientes permanecem intactos
- Quantos já vazaram completamente
- Que outros tipos de resíduos, além dos alcalinos, estão presentes
- Se contaminantes estão entrando na cadeia alimentar
Os pesquisadores estimam que cerca de um terço dos barris analisados até agora apresenta halos brancos, mas não está claro se essa proporção se manterá conforme novas áreas forem mapeadas.
Próximos passos da pesquisa
A equipe sugere que os halos podem ser usados como um indicador visual para identificar barris contendo resíduos alcalinos, ajudando a mapear a extensão da contaminação sem a necessidade de amostragem imediata em todos os locais.
No entanto, qualquer estratégia de monitoramento ou eventual remoção enfrenta enormes desafios técnicos, financeiros e ambientais.
A profundidade extrema, a fragilidade dos barris corroídos e o risco de liberar ainda mais contaminantes tornam qualquer intervenção um dilema complexo.
Este artigo foi elaborado com base em dados e informações divulgados pela Agência de Proteção Ambiental dos EUA, em reportagens do Los Angeles Times e em resultados de pesquisas científicas conduzidas pelo Scripps Institution of Oceanography, incluindo o estudo publicado na revista PNAS Nexus,
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