domingo, 23 de agosto de 2026
segunda-feira, 17 de agosto de 2026
A POEIRA DO SAÁRA
Poeira do Saara cruza o Atlântico e despeja 27,7 milhões de toneladas sobre a Amazônia todo ano
O material carrega minerais importantes para o solo da floresta, especialmente o fósforo. Estimativas baseadas em observações por satélite indicam que cerca de 22 mil toneladas desse nutriente chegam à Amazônia a cada ano, em volume semelhante ao que as chuvas e o escoamento da água retiram do solo.
Os satélites também estimaram que 182 milhões de toneladas de poeira deixam o continente africano por ano e que 132 milhões de toneladas ainda permanecem na atmosfera ao alcançar a costa sul-americana. A intensidade do transporte varia conforme o regime de chuvas no Sahel: períodos mais secos tendem a elevar a quantidade de poeira carregada pelos ventos.
terça-feira, 11 de agosto de 2026
CIDADANIA
quarta-feira, 5 de agosto de 2026
terça-feira, 4 de agosto de 2026
EUCALIPTOS E INCÊNDIOS
Em 1950, Portugal plantou eucaliptos para estabilizar seus solos. Sem saber, multiplicou a velocidade com que os incêndios se propagam
O que começou como um ambicioso programa para proteger os solos e fortalecer a economia acabou modificando a própria dinâmica dos incêndios
Victor Bianchin / Licenciado de Xataka
Incêndios em Portugal Foto: anagh / Xataka
Na década de 1950, boa parte da Europa recorreu a grandes programas de reflorestamento para conter a erosão e abastecer de madeira uma economia em reconstrução. Portugal, por exemplo, apostou em uma árvore australiana que parecia perfeita para estabilizar seus solos e abastecer sua indústria de papel. Oito décadas depois, essa decisão continua marcada na paisagem: ela mudou para sempre a forma como o fogo se propaga pelo país.
Para entender a crise atual, é preciso voltar ao Portugal dos anos 1950. O país enfrentava graves problemas de erosão, amplas áreas rurais estavam sendo despovoadas e a ditadura de Salazar buscava impulsionar uma indústria florestal capaz de gerar riqueza.
Nesse contexto, o eucalipto parecia reunir todas as qualidades desejáveis: crescia muito rapidamente, ajudava a estabilizar terrenos degradados e fornecia uma excelente matéria-prima para a fabricação de papel. Mas o que na época parecia uma decisão praticamente incontestável acabaria alterando o comportamento dos incêndios por gerações.
Não foi apenas uma questão de plantar árvores, mas de transformar a paisagem. A grande mudança não foi introduzir uma nova espécie e sim redesenhar o território. Onde antes existia um mosaico de lavouras, pastagens e florestas diversificadas, passaram a se espalhar extensas áreas contínuas de pinheiros e, principalmente, de eucaliptos.
Essa nova paisagem era muito mais rentável do ponto de vista econômico, mas também eliminou muitas das barreiras naturais que antes ...
domingo, 2 de agosto de 2026
DESERTOS VERDES
Da promessa de 130 anos ao fim em 12: a mina que desapareceu no Vale da Celulose
Pesquisa mostra perda de moradores, fechamento de escola e esvaziamento dos distritos de Arapuá e Garcias
Por Vasconcelo Quadros,
Estrada de terra divíde plantação de eucalipto do cerrado, na região leste do Estado (Foto: arquivo)
Antes de arrendar parte de suas terras, o fazendeiro Hélcio Kamano acumulou frustrações. Ele conta que investiu na exploração da água mineral amparado por um estudo de viabilidade econômica elaborado pelo geólogo e agrimensor paulista José Lourenço Donega. O documento foi encaminhado ao Ministério de Minas e Energia, por meio do órgão que antecedeu a ANM (Agência Nacional de Mineração), e serviu de base para a obtenção da concessão de exploração.
Segundo o fazendeiro, Donega estimou que a surgência natural da mina teria capacidade para manter a produção por cerca de 130 anos. A realidade, porém, foi outra. A extração começou em meados de 2002, mas, por volta de 2014, a vazão deixou de se recompor e a atividade foi encerrada.
“Se tivesse água, estaria trabalhando”, resume o produtor, que afirma nunca ter obtido grande retorno financeiro com o empreendimento. O que poderia ter se tornado um grande negócio, estruturado para produzir 50 mil garrafões por mês, conforme o fazendeiro declarou à época, terminou com o secamento da mina.
A segunda desilusão relatada por Kamano envolve o discurso, difundido por representantes públicos e privados, de que a expansão dos eucaliptais na região não prejudicaria o sistema hídrico.
Hélcio afirma que, em reuniões realizadas na época, a avaliação transmitida aos proprietários de terra era de que não ocorreriam os impactos ambientais hoje apontados nos relatos de antigos moradores.
O promotor Antônio Carlos de Oliveira, atualmente responsável pelo inquérito civil que investiga possíveis efeitos do eucalipto, participou de um dos encontros. Kamano ressalta, porém, que o promotor “não garantiu nada a respeito dos impactos, apenas estava presente”.
O fazendeiro diz que aceitou a avaliação apresentada na época, embora houvesse receio entre os proprietários rurais de que a cultura consumisse muita água.
Anos depois, ao perceber a redução da vazão da mina e dos córregos da propriedade, Hélcio Kamano passou a associar o fenômeno à expansão das florestas plantadas.
Essa relação, no entanto, corresponde à percepção do entrevistado e é justamente uma das questões que o inquérito do MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul) busca esclarecer.
Para encerrar a concessão registrada na ANM em nome da empresa Extração de Água Mineral Labor, Kamano recorreu novamente ao geólogo, que atestou o secamento em um novo parecer. Procurado pelo Campo Grande News, Donega não quis conceder entrevista.
Imagem de nascente em inquérito aberto pelo MPMS sobre efeitos do eucalipto na Região Leste
Encolhimento da comunidade
Entre 2000 e 2020, a população dos distritos de Arapuá e Garcias encolheu, apesar do crescimento econômico impulsionado pela indústria da celulose.
Dados do Censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e projeções populacionais utilizadas no estudo apontam redução de 17% no número de moradores de Arapuá, que passou de 1.911 para 1.586 habitantes. Em Garcias, a queda foi de 15%, de 2.301 para 1.967 moradores.
O estudo da geógrafa francesa Marine Dubos-Raoul, professora convidada da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), mostra que os moradores não relatam apenas mudanças econômicas ou impactos ambientais. Eles também descrevem a perda da vida comunitária.
A pesquisadora ouviu dezenas de moradores. Os relatos convergem para a percepção de que bailes, quermesses, campeonatos de futebol, festas religiosas e encontros de fim de semana praticamente desapareceram com a redução do número de famílias que viviam nas fazendas.
Um morador resume a transformação dizendo que “tem dias que você passa lá, parece uma cidade deserta”. Outro recorda que, antigamente, os bailes atravessavam a madrugada e que, atualmente, antes da meia-noite, o distrito já está vazio.
A pesquisadora observa que a queda da população desestruturou justamente os espaços onde a comunidade construía sua identidade coletiva.
Outro aspecto recorrente é a memória da substituição das fazendas. Os entrevistados contam que antigas moradias de trabalhadores, instaladas nas sedes das propriedades, foram demolidas e até enterradas para dar lugar aos plantios.
Um deles afirma que propriedades que empregavam dezenas de famílias desapareceram junto com as casas, alterando não apenas a economia local, mas também a paisagem e a memória da região.
Segundo os relatos, uma cena recorrente era a abertura de grandes valas pelas lâminas dos tratores. As máquinas empurravam para dentro delas tudo o que havia na superfície e, depois, cobriam o material com uma grossa camada de terra.
Acesso de terra e residência precária no Distrito de Garcias, em Três Lagoas (Foto: Divulgação)
Escola fechada e memória
O estudo também registra uma percepção recorrente de desequilíbrio ambiental. Moradores relatam que aves típicas, como perdizes, jaós e anus, se tornaram raras.
Ao mesmo tempo, araras, papagaios, tucanos, macacos e outros animais passaram a aparecer com maior frequência nos quintais, supostamente em busca de alimento.
Outros entrevistados associam à mudança da paisagem o desaparecimento de frutos nativos do Cerrado, como guavira, pequi e marolo, que antes faziam parte do cotidiano das famílias.
Os autores ressaltam que esses depoimentos representam a percepção dos entrevistados sobre as transformações vividas no território e não estabelecem, por si só, uma relação direta de causa e efeito.
Um dos símbolos mais fortes do esvaziamento é a escola. A pesquisa mostra que ela deixou de ser apenas um espaço de ensino para representar, na memória dos moradores, o principal ponto de encontro da comunidade.
Com a redução das famílias rurais, o número de matrículas caiu, turmas foram encerradas e, em Garcias, a escola acabou desativada em 2018.
Os entrevistados associam o fechamento ao enfraquecimento da própria comunidade. Também relatam que as crianças passaram a permanecer durante horas dentro de ônibus para estudar em outro distrito.
sexta-feira, 31 de julho de 2026
NAS PROFUNDEZAS DO OCEANO
Criatura marinha de 47 metros segue viva nas profundezas desde a época de Napoleão
Uma criatura colossal de 47 metros foi encontrada vagando pela escuridão do oceano, provando que gigantes históricos ainda vivem entre nós. A sifonóforo gigante cresce silenciosamente nas profundezas desde a época de Napoleão, desafiando tudo o que sabemos sobre longevidade no planeta.
Como a sifonóforo gigante consegue atingir esse tamanho?
Diferente de qualquer animal comum, a sifonóforo gigante é um organismo colonial composto por milhares de clones especializados que funcionam como um único corpo. Encontrada por pesquisadores do Schmidt Ocean Institute na costa da Austrália, sua estrutura em espiral captura presas nas profundezas abissais.
Cada parte da criatura tem uma função específica, como reprodução ou alimentação, permitindo crescimento contínuo por séculos. A baixa temperatura e a pressão das profundezas reduzem seu metabolismo, viabilizando uma sobrevivência tão longa e estável.

O que o canal CGTN revelou sobre essa descoberta?
O canal CGTN, com 5,21 milhões de inscritos, destacou a descoberta como um dos achados oceanográficos mais impressionantes das últimas décadas. O conteúdo mostrou como a expedição utilizou tecnologia de ponta para registrar a criatura sem causar danos ao seu corpo delicado.
A cobertura reforçou a urgência de proteger os oceanos profundos, ambientes que guardam tesouros biológicos que levaram séculos para se desenvolver. A sifonóforo gigante se tornou símbolo dessa biodiversidade invisível e ameaçada.
Quais são as características biológicas desse ser milenar?
A sifonóforo pertence ao gênero Apolemia e se assemelha a uma corda luminosa e translúcida flutuando nas correntes abissais. Ela não possui cérebro central, operando como uma rede viva altamente eficiente e coordenada.
Veja como sua estrutura colonial funciona na prática:
- Milhares de unidades chamadas zooides atuam de forma coordenada para mover o corpo e digerir alimentos.
- Células urticantes poderosas são distribuídas ao longo dos 47 metros para paralisar crustáceos e peixes.
- Cada zooide é geneticamente idêntico, mas se especializa em uma única função para o benefício do conjunto.
Essa divisão de tarefas torna a sifonóforo um dos exemplos mais extremos de cooperação celular já estudados pela ciência.
Onde e como a criatura foi descoberta e mapeada?
A expedição explorou os cânions de Ningaloo, uma região de águas profundas e pouco conhecidas, utilizando ROVs para filmar a criatura em alta resolução. O mapeamento revelou que o animal estava posicionado em forma de anel gigante para maximizar sua área de caça.
Confira um comparativo do tamanho da sifonóforo com outras criaturas e estruturas conhecidas:

Esses números deixam claro que a sifonóforo gigante é, de longe, o animal mais longo já documentado pela oceanografia moderna.
O que essa descoberta revela sobre os oceanos profundos?
A existência de um organismo tão antigo prova que o fundo do mar é um reservatório de biodiversidade muito mais resiliente do que se imaginava. Ela funciona como um indicador de saúde dos ecossistemas abissais, que permanecem estáveis e produtivos há centenas de anos.
Entender como esses seres sobrevivem por tanto tempo pode oferecer pistas sobre regeneração celular e adaptação a ambientes extremos. Preservar esse gigante é essencial para que futuras gerações estudem os limites da vida biológica em nosso próprio planeta.
quinta-feira, 30 de julho de 2026
A POEIRA DO SAHARA
O Sahara está a mudar-se para a Europa e Portugal é um dos países mais afetados
Um estudo na Nature confirma que Portugal está entre os países europeus mais afetados pela poeira do Sahara, com concentrações crescentes e riscos documentados para a saúde.
O deserto do Sahara não está a avançar fisicamente sobre a Europa. Mas as suas partículas chegam ao continente em quantidades crescentes — e Portugal está entre os países mais afetados.
É a conclusão de um estudo publicado na revista Nature, liderado pelo Paul Scherrer Institute (PSI), na Suíça, com coautoria da investigadora Célia Alves, do CESAM da Universidade de Aveiro. O trabalho reuniu cerca de 18.500 medições diárias de concentrações de elementos químicos presentes em partículas atmosféricas, recolhidas em 103 locais rurais e urbanos europeus entre 2012 e 2021.
O que os dados mostram
No sul da Europa, a concentração média estimada de poeiras desérticas nas partículas atmosféricas foi de 5,28 microgramas por metro cúbico de ar — mais do dobro dos 2,09 registados no centro e norte do continente.
Em grande parte da Europa, os níveis aumentaram em média 0,055 microgramas por metro cúbico por ano ao longo da década analisada. Traduzido numa percentagem, isso representa uma subida entre 10% e 25% em dez anos.
Portugal é expressamente identificado pelos investigadores como uma das regiões particularmente afetadas, a par de Espanha, Itália e Grécia. Uma das razões está na trajetória habitual das massas de ar: as poeiras do Sahara podem avançar sobre o Atlântico e infletir para norte, atingindo a Península Ibérica. No sector ocidental do sul da Europa, as concentrações atingem o máximo em julho e agosto.
Episódios menos frequentes, mas mais concentrados
Um dado que contraria a intuição: entre 2012 e 2021, o número de dias classificados como intrusões de poeiras não aumentou de forma generalizada — nalguns casos até diminuiu. O que aumentou foi a concentração média de fundo.
Os episódios tornaram-se mais intensos sobretudo no sul de Itália, no Adriático, no Egeu e em partes dos Balcãs. Em Portugal, os mapas do estudo apontam principalmente para um crescimento da concentração média, sem demonstrar uma subida da frequência das intrusões.
Os riscos para a saúde
As consequências vão além do céu esbranquiçado e da camada de pó sobre automóveis e edifícios. Para o sul da Europa, os autores estimam que a exposição durante estes episódios está associada a um aumento de 0,67% da mortalidade diária e de 0,73% dos internamentos respiratórios em pessoas com mais de 15 anos. Nas crianças até aos 14 anos, a subida estimada dos internamentos respiratórios é de 2,55%.
São valores regionais, calculados com base em estudos epidemiológicos anteriores — não uma contagem específica para Portugal. Mas indicam que os episódios de poeiras do Sahara representam um risco sanitário real, especialmente para populações vulneráveis.
O impacto na produção de energia solar
A poeira reduz a radiação solar que chega ao solo e acumula-se nos painéis fotovoltaicos, diminuindo a produção de eletricidade. Uma previsão mais rigorosa destes episódios permitiria aos operadores energéticos antecipar quebras de produção e contribuir para a estabilidade da rede — especialmente relevante num país como Portugal, com crescente peso da energia solar.
A ligação às alterações climáticas
Os autores associam o agravamento recente das intrusões sobretudo a alterações na circulação atmosférica. O aumento de longo prazo registado nos gelos alpinos está relacionado com a crescente aridez e degradação dos solos no Norte de África.
“Ainda não é claro em que medida o aquecimento de origem humana contribuiu para esta evolução, embora a compreensão atual sugira que o fenómeno é, pelo menos, facilitado pelas emissões de gases com efeito de estufa”, afirma Kaspar Dällenbach, investigador do PSI e autor principal do estudo.
Como esta fonte de poluição não pode ser controlada pelos países atingidos, as principais medidas disponíveis são a previsão dos episódios e a emissão de alertas à população. A Agência Portuguesa do Ambiente avalia estas intrusões e disponibiliza informação e previsões através do portal QualAr.

