segunda-feira, 13 de julho de 2026

UM JOVEM MARROQUINO

 

Jovem marroquino criou sistema para reciclar plástico recolhido por catadores, transformou o lixo em blocos de construção, superou 200 toneladas reaproveitadas, passou a produzir mais de 15 mil peças por mês e viu a demanda ultrapassar a capacidade da própria fábrica

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Escrito por Valdemar MedeirosPublicado em 11/07/2026
Jovem marroquino criou sistema para reciclar plástico recolhido por catadores, transformou o lixo em blocos de construção
Jovem marroquino criou sistema para reciclar plástico recolhido por catadores, transformou o lixo em blocos de construção

Zelij Invent, resíduos plásticos, blocos ecológicos e construção civil impulsionam projeto marroquino que já reaproveitou mais de 200 toneladas.

No Marrocos, o empreendedor Saif Eddine Laalej decidiu transformar um dos resíduos mais visíveis das ruas e comunidades em matéria-prima para a construção civil. A iniciativa deu origem à Zelij Invent, empresa social voltada à coleta de plástico descartado e à fabricação de blocos, pisos e pavimentos com uso intensivo de material reaproveitado.

Segundo o PNUD, a empresa já havia reaproveitado mais de 200 toneladas de resíduos plásticos até 2023, alcançado produção superior a 15 mil blocos por mês e chegado a um ponto incomum para um negócio jovem: a demanda passou a superar a capacidade de fabricação. A proposta colocou a Zelij Invent entre os casos mais conhecidos de economia circular aplicada ao setor da construção no país.

Resíduos plásticos encontrados em comunidades deram origem à Zelij Invent

A origem do projeto está ligada a visitas de campo feitas por Saif Eddine Laalej durante atividades universitárias. Segundo o PNUD, ele encontrou grandes quantidades de plástico acumulado em comunidades que não contavam com estrutura adequada de coleta e gestão de resíduos.

bloco com restos de residuos
Zelij Invent bloc – Divulgação

A partir dessa constatação, o empreendedor passou a investigar como embalagens, recipientes, garrafas e sacolas poderiam ganhar uma destinação com valor econômico maior do que a reciclagem convencional.

Em vez de apenas separar o material por peso, a ideia era convertê-lo em produto final para um dos setores mais relevantes da economia, a construção civil.

A proposta se consolidou na Zelij Invent, que passou a recolher plástico descartado e transformá-lo em materiais usados em obras, calçadas, áreas externas e projetos de pavimentação. O negócio nasceu com foco ambiental, mas também com ambição industrial e comercial.

Plástico descartado passou a virar blocos, pisos e pavimentos com valor comercial

O processo produtivo da empresa começa pela coleta e triagem dos resíduos. Parte dessa matéria-prima chega por meio de trabalhadores locais que já atuam na recuperação informal de plástico, criando uma cadeia que conecta descarte, separação e transformação industrial.

Assista o vídeo
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Depois da triagem, o material passa por preparação, mistura com outros componentes e moldagem. O resultado são blocos, pisos e pavimentos voltados a aplicações na construção, em um modelo que tenta retirar o plástico do ambiente e reinseri-lo em uma cadeia de maior valor agregado.

Segundo o Middle East Exchange, uma das formulações apresentadas pela empresa foi desenvolvida com cerca de 80% de resíduos plásticos e 20% de outros materiais ambientalmente mais adequados. Essa composição ajudou a diferenciar o projeto e a reforçar sua identidade como solução de construção ecológica.

Empresa desenvolveu processo próprio e apostou em fabricação a frio

A Zelij Invent não se limitou a adaptar uma linha industrial comum. A empresa desenvolveu uma fórmula própria e estruturou um processo de produção desenhado especificamente para incorporar grande volume de plástico aos materiais de construção.

A One Young World descreve a tecnologia como um processo próprio de fabricação a frio, criado para transformar resíduos plásticos em materiais de construção com menor dependência dos métodos convencionais mais intensivos em recursos.

Zelij Invent, resíduos plásticos, blocos ecológicos e construção civil impulsionam projeto marroquino que já reaproveitou mais de 200 toneladas.
Zelij Invent bloc – Divulgação

A lógica do negócio está em dar destino útil a resíduos que, em muitos casos, poderiam seguir para áreas de descarte inadequado, terrenos baldios ou sistemas frágeis de coleta. Com isso, o plástico deixa de ser apenas problema ambiental e passa a integrar uma nova cadeia produtiva.

Mais de 200 toneladas de plástico foram reaproveitadas e a produção superou 15 mil blocos por mês

Os números divulgados pelo PNUD ajudaram a dimensionar a escala alcançada pelo projeto. Até 2023, a Zelij Invent já havia reaproveitado mais de 200 toneladas de resíduos plásticos, o equivalente a mais de 200 mil quilos de material retirado do descarte e redirecionado para a fabricação de produtos usados na construção.

No mesmo levantamento, o PNUD informou que a produção da empresa havia ultrapassado 15 mil blocos por mês. As peças passaram a abastecer construtoras, consumidores e iniciativas ligadas à construção sustentável no Marrocos, mostrando que a solução já tinha saído da fase de protótipo.

O dado mais revelador talvez tenha sido outro: a procura pelos produtos já era maior do que a capacidade de entrega da fábrica. Isso indicou que o principal desafio da empresa deixou de ser provar que a tecnologia funcionava e passou a ser ampliar escala, estrutura e investimento.

Jovens fundadores enfrentaram desconfiança antes de consolidar o negócio

A trajetória da empresa também foi marcada pela resistência enfrentada pelos fundadores no início. De acordo com o Middle East Exchange, muitas pessoas não levaram a proposta a sério quando Saif Eddine Laalej e Houda Mirouche começaram a apresentar a ideia de transformar plástico descartado em materiais para pavimentação e construção.

Ainda muito jovens, eles precisaram desenvolver protótipos, testar formulações e participar de programas de incubação para mostrar que o produto tinha viabilidade técnica e mercado. A barreira não era apenas industrial, mas também de credibilidade.

Esse ponto ajuda a entender por que a consolidação da Zelij Invent não dependeu apenas da tecnologia. O avanço do negócio também exigiu capacidade de apresentação, busca por parceiros, aceleração e conexão com redes de apoio ao empreendedorismo verde.

Nome da empresa remete à arquitetura tradicional do Marrocos

A escolha do nome Zelij também ajudou a construir a identidade do projeto. Segundo o Middle East Exchange, a palavra está ligada à ideia de pequena pedra polida e remete à tradição marroquina de revestimentos geométricos e mosaicos muito associados à arquitetura do país.

Essa referência não foi apenas estética. Ela ajudou a conectar a inovação ambiental a um elemento cultural reconhecível, aproximando o produto reciclado de uma linguagem arquitetônica com valor simbólico no mercado local.

Com isso, o plástico reaproveitado deixou de aparecer apenas como resíduo transformado. Ele passou a compor peças com função prática, visual e comercial, reforçando o posicionamento da empresa além do discurso ambiental.

Blocos ecológicos tentam reduzir pressão sobre cimento e matérias-primas convencionais

A construção civil depende de grandes volumes de cimento, agregados, água e energia, por isso iniciativas que substituem parte desses insumos por resíduos vêm ganhando atenção em diferentes países. A Zelij Invent se inseriu nessa frente ao propor materiais que incorporam grande quantidade de plástico reaproveitado.

Jovem marroquino criou sistema para reciclar plástico recolhido por catadores, transformou o lixo em blocos de construção
Jovem marroquino criou sistema para reciclar plástico recolhido por catadores, transformou o lixo em blocos de construção

Isso não significa que todo impacto ambiental de uma obra desapareça. O que a empresa tenta fazer é reduzir parte da dependência de matérias-primas convencionais e ampliar a vida útil de um resíduo que, sem esse tipo de solução, poderia permanecer por décadas no ambiente.

Ao mesmo tempo, o desempenho final das peças precisa ser avaliado de acordo com a aplicação, as exigências do projeto e as normas técnicas pertinentes. O avanço comercial do produto depende justamente de conseguir unir apelo ambiental, funcionalidade e confiança de mercado.

Expansão para outros países entrou no radar da empresa

Depois de consolidar operações no Marrocos, a Zelij Invent passou a mirar novos mercados. O PNUD informou em 2023 que a empresa estudava ampliar a produção para países como Iraque, Quênia e Malásia, levando o modelo de recuperação de resíduos e fabricação de materiais a outras realidades.

A One Young World também registrou que a organização passou a atuar em atividades ligadas ao empreendedorismo verde e à pesquisa sobre soluções para resíduos plásticos em outros contextos, inclusive no Iraque. Esse movimento ampliou o escopo do projeto para além da produção industrial local.

A ambição de expansão faz sentido porque o problema enfrentado pela empresa não é exclusivo do Marrocos. O acúmulo de plástico, a deficiência de coleta e a necessidade de materiais acessíveis para construção aparecem em vários mercados emergentes ao mesmo tempo.

Plástico encontrado nas ruas virou matéria-prima para uma nova cadeia industrial

A história da Zelij Invent começou com um problema visível em comunidades marroquinas e evoluiu para uma operação que conecta coleta de resíduos, fabricação de materiais de construção e geração de valor econômico.

O caso ganhou força porque atacou duas pressões ao mesmo tempo: o excesso de plástico descartado e a demanda constante por soluções na construção civil.

Até 2023, os dados divulgados pelo PNUD apontavam mais de 200 toneladas de plástico reaproveitadas, produção acima de 15 mil blocos por mês e procura superior à capacidade de entrega. Esses números ajudaram a consolidar a empresa como um dos exemplos mais conhecidos de transformação de resíduos em produtos de uso construtivo no país.

O projeto mostra como um material de baixo valor no descarte pode entrar em uma cadeia industrial completamente diferente quando tecnologia, design, empreendedorismo e mercado passam a atuar sobre o mesmo problema.

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