Fazia tempo que não respirava tão bem no Recife!
Cheguei cedo ao Parque Treze de Maio, pouco depois das 16h, queria ver a exposição que ainda estava fechada e aproveitei para dar uma volta. Vários palcos espalhados, muita gente chegando e o apresentador anuncia a programação. Começa então a festa, voltei para fila e entrei na exposição. Logo vi alguns mamulengueiros e fiquei observando um deles talhando a madeira; enquanto trabalhava conversava com quem parasse, como eu. Perguntei seu nome e ele disse João, o rapaz ao lado completou: Mestre João! Posso fotografar o senhor trabalhando? Claro, amigo, fique à vontade (outra pessoa também conversava com ele), e seguiu dizendo, “e olhe tudo que tá aí, nossa arte, nossa cultura que é essa maravilha, nosso Patrimônio Imaterial”! Olhei tudo demoradamente.
Ao sair da mostra a quantidade de gente havia aumentado bastante, vi um morador de rua (me disseram que tá sempre no parque) dançando e sorrindo, passei uns quinze minutos só observando ele que não parava um segundo! Tanta gente de todo tipo, que só fazia aumentar, e foi tão bom respirar aquele ar! Cada detalhe revelava uma equipe preparada, dedicada, gentil, feliz por estar trabalhando. Não me lembro de ter visto no Recife um evento desse porte e naquela harmonia, alegria, emoção, encontro... Sim, que seria dos parques e praças se não fossem os encontros? Uma multidão diversa, pessoas sem medo de quem estava do seu lado.
Pensando em Mestre João me veio uma frase do Mestre Vitalino (lembro o sentido, embora não lembre exatamente de todas as palavras): “Tenho necessidade de usar as mãos, preciso mantê-las ocupadas; em minha terra as mãos produzem uma boa comida, a arte e tantas coisas boas, mas a cabeça só tem produzido confusão!” Claro que parques e praças são palcos de diversos tipos de manifestações, porém, naquele sábado (tenho certeza que o domingo também foi assim) foi só coisa boa cheia de leveza!
E das mãos dos mamulengueiros passamos para as mãos de artistas maravilhosos a hipnotizar a multidão. O espetáculo com Bonecos Minúsculos que vi na Kombi Amarela (um pequeno palco), os Bonecos Gigantes Infláveis que seduziram a multidão que parecia flutuar junto, o drama Romeu e Julieta, a delicadeza da Sereia, dos Peixes, da Bailarina...
Mestre João é um exemplo desses profissionais que trabalharam tão bem em cada setor do festival - seja produção, monitoria, segurança, fotografia, coordenação... Sei que foram muitos sem saber quantos, mas percebi que o grupo era uma espécie de orquestra muito bem regida e com músicos bem especiais, todos envolvidos com suas mentes e corações.
Não lembro quanto tempo passou sem que visse um espetáculo de Mamulengo, sempre ouvia dizer que os Bonecos “ganham vida” quando entram no palco. Percebi minha cegueira já no Teatro de Santa Isabel ao assistir Pequenos Contos (Cia Hugo e Inês) na quinta-feira passada, uma beleza! Os bonecos são muito mais que isso, eles nos dão vida! Durante o espetáculo a memória foi buscar uma parte da minha infância que precisava reencontrar. Voltei no tempo, e com um regador na mão, passei a noite como se fosse manhã e entrei na casa que morei quando era criança, uma linda casa que possuía um jardim enorme com alguns canteiros... Quantas coisas boas eu lá vivi, era preciso regar as plantas e molhar o gramado com a mangueira, brincar com os irmãos, irmãs, amigas e amigos, reencontrar meus pais naquele tempo e depois tomar banho no quintal. As coisas ruins que vivi, as que a lembrança fez doer, deixei-as para trás como lições de episódios que não posso mudar; assim, adotei o perdão que preciso exercitar e fiz as pazes com a minha infância!
Renato Valle
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