sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

A VELHA CASA DE MEU AVÔ

Rildo Polycarpo Oliveira

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Da última vez que passei um tempo em Recife, revisitei - aliás, como sempre - a velha casa de meu avô, que já há mais de um quarto de século morreu. Pedi licença pra rever a casa, que hoje abriga outra família. De novo, a simpatia daquelas pessoas de quem, apesar de tudo, nunca lembro os rostos e nomes.
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A gratidão que sucede os terríveis segundos, se tantos, de expectativa pela resposta, se sim ou não me deixam entrar, essa gratidão sucumbe à milimétrica e ao mesmo tempo dispersa avidez dos olhos a vasculhar os restos de memória impregnada nas paredes, no madeirame, sobretudo no piso e na escuridão das telhas largas, compridas, antiquíssimas, entrevistas lá em cima, na penumbra. A casa fica na rua da Glória, na Boa Vista.
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Era uma espécie de semirefúgio, porque também conturbado, um pouco, aquele lar de velhos evangélicos. De meu avô, João Humberto - a quem todos os netos chamavam, e ainda chamam, invariavelmente, Papai Jomberto - é de seus óculos qualquer luz que me apareça ali. Homem de muitos cuidados na cozinha. Ainda saboreio seus omeletes. Ainda me impressiona aquela colher cheia de pimenta que ele arremessava no próprio prato. Ainda lembro e já não temo o seu cinto de couro, alguma rara lapeada no lombo de menino. Ainda lembro do seu carinho, que era sentimento tocante já por suas emanações, sentido mesmo se as suas mãos não nos tocassem.
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Minha vó Filó, certamente ranzinza e sovina, sempre repetindo um "avalie!" como expressão do indignar-se diante de alguma coisa, em geral qualquer mínimo desperdício ou extravagância em compras. Gostava de cafunés e a chamávamos Mãe Filó. E assim a chamamos.
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O primeiro e talvez único lugar de que fiz um mapeamento olfativo é a Boa Vista. Lembro cada cheiro. O primeiro deles sendo o da descarga dos automóveis, às vezes penetrando pelas frestas da porta e da janela fronteiras. Os cheiros de açúcar do que não lembro se era fábrica ou depósito, ainda na rua da Glória e chegando já na Rua Velha, onde o cheiro do Capibaribe. Se retornasse pela rua velha, de nome e tempo, na direção do Pátio de Santa Cruz, era esse o cheiro maior, o do rio, vindo por trás no vento. No pátio havia o cheiro dos mármores da Igreja de Santa Cruz, também o cheiro das madeiras de suas portas, espessíssimas.
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Depois vinha o Mercado da Boa Vista. E os cheiros das frutas e legumes variavam conforme a incidência dos raios de sol sobre os tabuleiros. A impressão era a de uma excitante mistura entre cheiros, luzes e gente rumorando a vida, sobretudo se matinal. E havia os cheiros das padarias, sobretudo a de Santa Cruz, das melhores, mas também a da Maciel Pinheiro.
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Para os lados dos Coelhos se encontravam outros cheiros, dentre eles se destacando, de novo, o do Capibaribe, ali porém mais ácido, hoje me parecendo que em razão do mangue. Não sei. Para os lados da rua da Matriz, os cheiros eram também muitos, mas deles eu me lembro melhor do que era das flores de uma casa, transcendendo através das grades, depois de rodopiar pelo jardim.
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Fossem quais fossem os cheiros - e eles ainda estão lá - havia sempre, a todos misturado, o cheiro das casas velhas. Poderiam ser diferentes os seus sotaques, conforme quem tivesse habitado e quem habitasse a casa, mas todas essas variedades de cheiro se uniam numa mesma língua que, incansável, lambiscava e ainda lambisca os fios do vento. Soberano, um outro cheiro se imiscuia em tudo, deixando sua nota grave naquele concerto para os nossos olfatos. Era o cheiro de uma lama subterrânea, antiga, ancestral. Era o cheiro avô do cheiro do rio e, sendo assim, esse cheiro é o cheiro avô da própria cidade. Na Boa Vista, seu templo era e ainda é o mercado.
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É o cheiro do mangue, apenas abafado pela urbanidade, que em vão tentou sufocá-lo. É cheiro ao mesmo tempo etéreo e pétreo. Vasculha os telhados das casas mais antigas e de todas as casas. Não há prédio novo que a ele resista, o que termina por conferir à novidade concreta uma espectral antiguidade, como se fosse uma camisola antiga a cobrir o corpinho novo e lhe emprestar alguma dignidade ancestral, primeva, reminiscências de berço mineral da vida. Esse cheiro está por dentro do mármore das catacumbas e dos guarda-ossos seculares da Igreja de Santa Cruz, impregnado às suas moléculas, impregnado também aos ossos, que dele bebem como de possível vida eterna. Esse cheiro em Recife, tão especial na Boa Vista e nos seus arredores, esse cheiro é o cheiro do começo do mundo.
Para Lucilio Bernardes e Carolina Gomes, que sabem por sentir e sentem por saber a cidade.

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