sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

GOVERNAR É DIZER NÃO

 

GOVERNAR É DIZER NÃO – ARMANDO AVENA

Redação - 20/02/2026 07:53

No Brasil disseminou-se a ideia de que governar é fazer obras. Desde que Washington Luís disse, nos anos 30, que governar é abrir estradas, a frase ficou no subconsciente dos políticos que chegam ao poder. Ficou também a ideia de realizar grandes obras que fiquem à vista da população e, por isso, aumentem a popularidade; ao contrário daquelas que não são visíveis, embora sejam fundamentais, como, por exemplo, obras de saneamento básico.

Na verdade, governar é, sim, construir estradas, ferrovias, portos e obras que facilitem o escoamento da produção e a mobilidade da população, mas não é apenas isso. Governar é também dizer não e estabelecer e manter limites.

Dizer não é um ato de governo. É não autorizar obras em áreas de proteção ambiental, negar licenciamentos que ameacem ecossistemas frágeis, impedir a verticalização predatória, barrar empreendimentos que pressionem a infraestrutura urbana, controlar gabaritos que desfiguram a paisagem e por aí vai.

Em Salvador, por exemplo, a Câmara de Vereadores está discutindo o PDDU, e esse debate é urgente. É urgente também discutir a ocupação urbana no Litoral Norte, na Ilha de Itaparica e em outras regiões.

Em uma cidade tão bela como Salvador, não se pode permitir a liberação indiscriminada de espigões na orla, sem estudos rigorosos de impacto de vizinhança e de sombreamento. Permitir alturas indiscriminadas em qualquer área, sem avaliar mobilidade, ventilação e drenagem, não é modernizar a cidade, é transferir para o futuro um passivo ambiental, paisagístico e social que depois não pode ser desfeito.

Além disso, não se pode permitir a construção de grandes obras de infraestrutura na orla, nem a liberação de estabelecimentos comerciais e de serviços em frente ao mar, que fazem de Salvador a única cidade do Brasil que tem, por exemplo, supermercados pé na areia. Além disso, Salvador é uma das cidades menos arborizadas do país, e cada fragmento de vegetação urbana removido significa mais calor, menos drenagem natural, mais pressão sobre um sistema já saturado.

O poder público, federal, estadual e municipal precisa compreender que governar é resistir à captura do interesse público pelo imediatismo econômico. A função do Estado é estabelecer regras de ocupação e proteger o patrimônio coletivo, natural, urbano, cultural e paisagístico. Precisamos de uma lei de uso do solo moderna, com regras que não permitam exceções.

Governar é resistir à tentação do curto prazo. É compreender que o papel do Estado é, sim, viabilizar investimentos, mas fazer isso arbitrando o conflito entre o interesse econômico e o direito coletivo à cidade, à paisagem e ao meio ambiente equilibrado.

O governante que apenas autoriza agrada no presente, mas compromete o futuro. No nosso tempo, governar não é abrir estradas. Governar é definir onde elas não podem passar.

 

Publicado no jornal A Tarde em 20/02/2026

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