Ateu desde
os 16 anos, nunca me senti nem judeu nem cristão. Se ás diferentes religiões
devemos obras-primas da arquitetura, escultura, pintura, mosaicos e música,
também herdamos Inquisição, Jihadismo e Sionismo com direito a caças ás bruxas,
torturas e massacre de inocentes. Tudo em nome de um ente invisível que nunca
ninguém viu, mas que leva os jogadores a levar o indez para o céu cada vez que
fazem um gol.
Um dos
resultados deste obscurantismo pode ser visto no filme palestino “A voz de Hind
Rajab” quando assistimos a longa agonia de uma menina de 5 anos, assassinada
pelos tanques israelenses dentro de um carro enquanto ela chora por socorro "Por favor, venham até mim, por favor, venham.
Estou com medo” no meio dos cadáveres de sua família.
Há muito tempo
que, inconformado, contesto o holocausto de um povo que só pretendia permanecer
em paz na terra onde seus ancestrais viveram, modestamente, dos produtos desta
mesma terra, em total harmonia com vizinhos judeus e cristãos.
Da Palestina,
os palestinos são varridos com desmedida crueldade para dar espaço a
recém-chegados - asquenazes na maioria - de Nova Iorque, Moscou, Londres,
Buenos-Aires, Kiev, São Paulo, Praga e... Tomsk. Pois é. Tenho primos muito
afastados, com o mesmo nome, que deixaram a gélida Sibéria para a temperada
Tel-Aviv. Um deles, Boris, pediu para ser meu amigo no Facebook, mas fui logo
avisando que repudiava a política do corrupto e sanguinário Netanyahu. Nunca
tive resposta.
Não sei se o
filme merece tecnicamente ganhar o Oscar. Admito que o drama não me deixou
analisar pausadamente as qualidades cinematográficas da obra. Mas a mensagem
que carrega é impossível de ser ignorada. A voz desta criança, que a atriz
Clara Khoury chama carinhosamente de Hanoo,
perseguirá o espetador por longas horas.
Será que
pertencer a algum grupo religioso lhe dá direito automático a um pedaço de
terra a milhares de quilómetros do lugar onde você nasceu e cresceu e à casa
por outros construída e habitada?
Sai da sala
de projeção emocionalmente destruído. Não pude controlar o choro de piedade e revolta.
A única frase que conseguia articular era “Não entendo, não entendo...”
Não entendo
como um povo que sofreu por séculos por terríveis persecuções em tantos países
até o cúmulo do horror do nazismo austro /germânico resultando no extermínio de
seis milhões de judeus, como este mesmo povo pode hoje se equiparar aos seus
mais sanguinários algozes?
Não entendo,
não entendo.
Dimitri Ganzelevitch
A Tarde, sábado 14 de fevereiro 2026

Nenhum comentário:
Postar um comentário