sábado, 21 de fevereiro de 2026

NÃO ENTENDO, NÃO ENTENDO...




Devo meu sobrenome a meu avô Yakof Ganzelevitch, próspero judeu de Tomsk, na Sibéria. Casou com Annette Moore, pianista inglesa presbiteriana. Ela exigiu que os cinco filhos e a única filha fossem batizados na religião materna.

Ateu desde os 16 anos, nunca me senti nem judeu nem cristão. Se ás diferentes religiões devemos obras-primas da arquitetura, escultura, pintura, mosaicos e música, também herdamos Inquisição, Jihadismo e Sionismo com direito a caças ás bruxas, torturas e massacre de inocentes. Tudo em nome de um ente invisível que nunca ninguém viu, mas que leva os jogadores a levar o indez para o céu cada vez que fazem um gol.

Um dos resultados deste obscurantismo pode ser visto no filme palestino “A voz de Hind Rajab” quando assistimos a longa agonia de uma menina de 5 anos, assassinada pelos tanques israelenses dentro de um carro enquanto ela chora por socorro "Por favor, venham até mim, por favor, venham. Estou com medo” no meio dos cadáveres de sua família.

Há muito tempo que, inconformado, contesto o holocausto de um povo que só pretendia permanecer em paz na terra onde seus ancestrais viveram, modestamente, dos produtos desta mesma terra, em total harmonia com vizinhos judeus e cristãos. 

Da Palestina, os palestinos são varridos com desmedida crueldade para dar espaço a recém-chegados - asquenazes na maioria - de Nova Iorque, Moscou, Londres, Buenos-Aires, Kiev, São Paulo, Praga e... Tomsk. Pois é. Tenho primos muito afastados, com o mesmo nome, que deixaram a gélida Sibéria para a temperada Tel-Aviv. Um deles, Boris, pediu para ser meu amigo no Facebook, mas fui logo avisando que repudiava a política do corrupto e sanguinário Netanyahu. Nunca tive resposta.

Não sei se o filme merece tecnicamente ganhar o Oscar. Admito que o drama não me deixou analisar pausadamente as qualidades cinematográficas da obra. Mas a mensagem que carrega é impossível de ser ignorada. A voz desta criança, que a atriz Clara Khoury chama carinhosamente de Hanoo, perseguirá o espetador por longas horas.

Será que pertencer a algum grupo religioso lhe dá direito automático a um pedaço de terra a milhares de quilómetros do lugar onde você nasceu e cresceu e à casa por outros construída e habitada?

Sai da sala de projeção emocionalmente destruído. Não pude controlar o choro de piedade e revolta. A única frase que conseguia articular era “Não entendo, não entendo...”

Não entendo como um povo que sofreu por séculos por terríveis persecuções em tantos países até o cúmulo do horror do nazismo austro /germânico resultando no extermínio de seis milhões de judeus, como este mesmo povo pode hoje se equiparar aos seus mais sanguinários algozes?

Não entendo, não entendo.

Dimitri Ganzelevitch

A Tarde, sábado 14 de fevereiro 2026


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